Pela Verdade - A ação do Espírito sobre a Matéria



PELA VERDADE
A ação do Espírito sobre a Matéria

Luiz de Mattos
9ª edição, 1983

Índice

Prefácio. 2
Introdução. 4
Aos acadêmicos. 5
1. A vida moderna e a debilidade nervosa. 6
2. A cura dos nervosos - I 8
3. A cura dos nervosos - II 9
4. A ignorância dos materialistas é a mais perigosa. 11
5. Não pode haver efeito sem causa. 13
6. Contradições da medicina. 14
7. O mar tempestuoso da vida terrena transborda, quem não se preparar para enfrentar o temporal será arrastado na voragem.. 16
8. Saber onde canta o galo. E cantar de galo. 18
9. O medo da loucura e o subconsciente do nervoso. 19
10. O Racionalismo Cristão quer o cumprimento da verdade. 21
11. Distúrbios da alma. 23
12. Dores de consciência já sentidas. 24
13. Não sabem o que dizem.. 25
14. Educação psicomoral 27
15. Medicina moderna precisa ser completada. 28
16. Os porquês das mentiras científico-médicas, que tantos males têm causado à humanidade. 29
17. Parecer e não ser mestre copista. 31
18. Um parto científico após catorze anos de gestação. 33
19. Por si se destroem.. 34
20. Pedantismo científico. 36
21. O diabo tornado ermitão. 37
22. Não mais imperam os loiolas científicos. 39
23. Camarão não passa nesta malha, porque é esta a rede da verdade. 41
24. A moral verdadeira tem por princípio soberano o dever. 43
25. O nervosismo é um mal psíquico. 44
26. A fadiga cerebral 46
27. A ciência materialista em apuros. 48
28. Cada um dá o que tem. 49
29. Entre uns e outros. 51
30. O sentir real do médico e o remorso em ação. 52
31. Doutrinas falsas. 55
32. Os cavouqueiros da verdade são invencíveis. 57
33. O cérebro não é a sede da vida nem produz pensamentos. 59
34. Inteligência a peso. 60
35. Penedos científicos. 63
36. Novo rumo. 65
37. A composição do Universo. 67
38. Para se compreender a Verdade. 69
39. Força e Matéria. 71
40. Os diversos estados da Força e da Matéria. 72
41. Inteligência Universal 73
42. A educação da vontade. 75
43. O Espiritismo é uma verdadeira ciência. 78
44. A origem da medicina. 79
45. O Espiritismo é a ciência das ciências, afirmam os médicos eruditos e honrados. 80
46. A medicina, sua origem e situação na atualidade. 81
47. Como os médicos honrados lecionam. 83
48. O Espiritismo, seu estudo e instrumentos. 85
49. O fenômeno vital, denominado atavismo. 87
50.  O papel do Espiritismo na Antropologia e na Nosologia. 89
51. O estado psíquico e sua influência sobre as doenças. 91
52. O atavismo explicado pelo Espiritismo Racional e Científico. 93
53. Corpos e fenômenos, eis o que se nos depara no mundo. 94
54. A alma humana. 96
55. A vontade, a consciência e o livre-arbítrio. 98
56. Gênese da alma. 100
57. A força psíquica. 102
58. A formação da inteligência. 103
59. A percepção, a memória, a compreensão, a concepção e a imaginação. 105
60. A evolução da alma, a lei do trabalho e a lei da reencarnação. 106
61. Que é o mundo?
. 109

Prefácio

PELA VERDADE vem a público como obra de luta, mas de luta construtiva, como foi toda a vida de seu imortal autor.
Há aqui a demonstração eloqüente da capacidade e brilho com que Luiz de Mattos tecia as suas campanhas, afirmando sempre a sua personalidade invulgar de construtor sadio, que lança os lampejos da sua inteligência sobre a multivariedade dos assuntos que mais diretamente a solicitam, para desbravá-los, com a sua indiscutível boa vontade de esclarecer seu semelhante.
Abrangendo, na sua pesquisa, campos de outros mais conhecidos, ainda assim o seu talento polimorfo se afirmou como um colaborador sensato e honesto, rasgando caminhos novos em setores científicos ainda ignorados.
No terreno do psiquismo, abandonado pelo materialismo ortodoxo aos planos secundários e desprezíveis do misticismo e da superstição, Luiz de Mattos traçou, com pulso firme de Mestre, um vasto programa de estudos, que culminaram numa melhor compreensão do homem, da vida e do Universo.
Sem estudos médicos que !he outorgaram uma bagagem desses conhecimentos, pôde, ainda assim, à maneira de Pasteur, tornar-se o descobridor de causas novas de doenças, desbravando um terreno inculto pela desídia dos homens de ciência, e proclamando, com dados objetivos, que a atividade mental do individuo influi, poderosamente, tanto na sua saúde, quanto na doença.
É bem verdade que há muitos séculos se fala, discute e afirma em obras médicas, que o psiquismo individual pode, por si só, ocasionar distúrbios da mais variada natureza.
Verificamos, porém, que as vozes que se têm erguido nesse sentido, pela unilateralidade dos seus conceitos, foram postas à margem, por não terem encontrado a acústica precisa para assertivas de tão alto teor.
Vencer sempre aquele outro ponto-de-vista, também unilateral, de encarar o lado psíquico do homem, como subalterno da matéria, e assim mais acentuadamente se vinculou o espírito ao corpo, ou a alma à matéria.


Com Luiz de Mattos, começamos a ter uma visão de conjunto, uma idéia mais harmônica e precisa das correlações existentes entre a alma e o corpo. Tudo isso, bem interpretado, nos leva àquela unidade do ser que os nossos tempos, de mais liberdade de raciocínio, deixam antever.
Assim, começamos a dar, por uma medida de reconhecida justiça, o devido valor aos estudos admiráveis que nos levaram ao conhecimento completo da matéria, e senhores de outros dados, avançamos, resolutos e decididos, no estudo sistematizado e científico daquela parte invisível do homem.
No terreno da saúde, já sabemos quais as causas físicas, microbianas, químicas e tantas outras das inúmeras doenças que a Medicina estuda. Mas, a estas, podemos acrescentar, dada a sua importância capital, a força psíquica, ainda hoje discutível, mas absolutamente impossível de ser negada. Foi exatamente visando essa demonstração, que Luiz de Mattos escreveu estas páginas, convidando os homens da ciência ao estudo criterioso da psique humana.
Criaturas pouco afeitas à ponderação e ao justo raciocínio, não compreenderam bem a obra do grande lidador, estigmatizando-a, logo, como malsã, por verem na crítica altamente construtiva que ele fazia à medicina materialista, na parte em que esta se sobrepunha à transcendência dos assuntos atinentes à Força, o ataque ao médico.
Os princípios do Racionalismo Cristão, fundado por Luiz de Mattos, têm, como origem, o estudo científico do homem, como base, a cultura e, como fim, a espiritualidade dos seres.
Podemos ainda, em breves palavras, definir essa obra grandiosa como tendo o estudo individual por princípio, o enobrecimento da família como base e a espiritualização dos povos como fim.
Os seus princípios basilares demonstram o desejo de que as criaturas esclarecidas e fortes abram caminho na vida, construindo existências úteis, sadias e valorosas, sobreexcedendo-se a si mesmas, dando, cada vez mais, o melhor de si próprias, alargando o raciocínio, cultivando a inteligência e enobrecendo a existência humana.
Luiz de Mattos não regateia aplausos e elogios á obra de muitos médicos e à ação salutar e meritória da Medicina, que a Humanidade beneficiada reconhece. Seu objetivo é dizer que a obra da Ciência é infindável e como processo contínuo não pode estacionar nem anatematizar aquilo que ignora, pelo simples fato de não querer pesquisá-lo.

Os redutos acadêmicos, em matéria de estudos psíquicos, têm agido, em regra, de maneira anticientífica, prelecionando sobre fatos que não estudam, achando mais cômodo condená-los, do que entendê-los.
Esses mentores do saber organizado e inatacável são prejudiciais à humanidade, porque sem a sua indolência, não haveria tanta superstição e tanta religiosidade malsã a arruinar almas e corpos.
Cabe à Ciência tudo estudar. Não lhe é permitido, em nosso século, dogmatizar, porque as Academias não são Concílios onde os guardiões dos dogmas revelados se reúnem para decretar, como puros e certos, os sofismas esdrúxulos da fé.
Ciência significa estudo, pesquisa e Verdade. Sendo assim, não admite atitudes defensivas, porque ela se alteia aos interesses de classes.
Luiz de Mattos, em toda a sua vida, nada mais pediu aos homens de Ciência que não fosse o estudo daquilo que ele lhes apresentava.
Lutou, valentemente, mas não logrou ser compreendido. Não teve, como Pasteur, a glória de ver os redutos acadêmicos aplaudi-lo e homenageá-lo, mas aqueles que lhe secundam a obra, esperam vê-la um dia no seio das próprias Academias, compreendida e acatada como merece.

Introdução

As novas gerações ouvem ou lêem que Luiz de Mattos foi jornalista destemido em sua época, que suas campanhas e polêmicas despertavam grande interesse a tinham larga repercussão no seio do povo. Entretanto, a não ser que procurem nas bibliotecas os jornais daquele tempo, num trabalho interessante, mas exaustivo, ou nas coleções do seu jornal A RAZÃO, atualmente mui pouco encontrariam sobre tais assuntos.
É que livros de sua autoria que reuniam seus escritos sobre as campanhas que realizou, como Cartas ao Chefe do Protestantismo no Brasil, Cartas ao Cardeal Arcoverde, Cientistas Sem Ciência e outros, estão com suas edições esgotadas e não mais serão reeditados.
A época é outra, tudo evoluiu, e até a singular linguagem usada por Luiz de Mattos hoje seria diferente, segundo alegam os seus editores.
Mas a sua campanha sobre o aparecimento da obra A Cura dos Nervosos, de autoria do Prof. Austregésilo, também nome de grande evidência naquela ocasião, recebe, agora, nova edição, por ser o motivo da polêmica, embora antigo, sempre novo, e continuará ainda a sê-lo por muito tempo, até que a Ciência, reconhecendo a existência da Força e sua predominância sobre a Matéria, aceite a tese defendida pelo grande doutrinador, há mais de cinqüenta anos, de que existem enfermidades nervosas provocadas por um agente que atua sobre o espírito do enfermo, cujo afastamento será bastante para promover a sua normalização.
Na verdade, a ciência e o espiritualismo não chegaram ainda a um acordo sobre as controvertidas questões da imortalidade da alma e da lei das reencarnações e, por isso, pensam os editores que esta reedição ainda vem "sanar uma lacuna", como é de hábito escrever-se, nessas circunstâncias.
Outro ponto que também contribuiu para o lançamento agora de PELA VERDADE foi o de tornar conhecida a linguagem característica do Autor que, embora escrevendo diariamente – sua seção diária intitulava-se NOTA e saía sempre no mesmo lugar do jornal – atraia a atenção dos leitores doutrora, como há de despertar os de hoje, movidos pela curiosidade de conhecer os velhos adágios, os antigos provérbios, as expressões da época, que entremeiam a contestação dum livro árido de medicina, como que amenizando assunto tão sério para ser tratado num diário.
¾ Viria daí a simpatia, a popularidade, a razão do sucesso do escritor?
A Verdade é que ele como que polarizou o jornalismo da época com suas tão discutidas e controvertidas alegações, e sua fundação – o Racionalismo Cristão – persiste, até hoje, na defesa e explanação dos princípios por ele disseminados há sessenta e cinco anos, cada vez mais atuante, numa ascensão vitoriosa de seus propósitos.

Rio, 1977.

Aos acadêmicos

Pelo título desta obra, claro fica que ela é portadora de proveitosas lições destinadas a todos e, sobretudo, à mocidade estudiosa, a quem a verdadeira ciência confia a sua continuidade. É preciso, para tanto, cultivar a inteligência, não esquecendo aquele princípio sábio: saber esperar, mas lutando sempre.
E saber esperar é raciocinar com acerto, reprimir os ímpetos animalizados e preparar a alma para agir com inteligência esclarecida, em todos os momentos.
Saber esperar é ser vigilante para bem preparar a retirada, quando necessária, como por vezes acontece na luta pela vida.
Saber esperar é encarar as dificuldades com a calma de quem tem a certeza de que a maturidade não dá saltos e de que o ser humano, causa de todos os males, não se remodela, nem mesmo em séculos de existências.
Saber esperar é olhar todos os fenômenos como eles são, não os deturpando para ajustá-los a falsas interpretações.
Saber esperar é o indivíduo contar consigo próprio, com a sua vontade fortemente educada para o bem, e estar preparado para enfrentar todas as lutas a que é obrigado na Terra, onde tem de viver rodeado de seres remodeláveis somente em muitas reencarnações.
Saber esperar é encarar os maiores perigos, as mais tremendas lutas dirigidas por indivíduos ou grupos políticos, com a calma dos convictos, e caminhar, de cabeça levantada, com a disposição de quem nada teme.
Saber esperar é ter a alma voltada para as causas justas, para o bem do todo, seja a Pátria ou a Humanidade. É não querer mal a pessoa alguma e estar certo de que o ser malvado, egoísta e animalizado, terá de reparar, mais hoje, mais amanhã, o mal que faz, porque quem mal faz, para si o faz.
Saber esperar, enfim, é ter a certeza do triunfo em todas as naturais campanhas da vida, a que o ser humano está obrigado neste mundo; e triunfa sempre quem sabe agir com inteligência e valor.
O ser conforme pensar assim será, porque é pelo pensamento, ao serviço da vontade, que todos praticam o que na Terra se denomina lei psíquica de atração.
Se o grande patriota Floriano Peixoto não soubesse esperar, não fosse conhecedor da força mental dos homens, não teria vencido a revolta contra o seu governo, que não possuía

Exército nem armada a seu favor. Todos os elementos humanos lhe eram contrários, para, mais à vontade, poderem satisfazer os seus desejos de riqueza e de domínio.
Mas Floriano, que conhecia o valor dos homens da sua época, não se atemorizou com o isolamento em que o colocaram no Itamarati, e calma e resolutamente, com confiança absoluta em si próprio e na mocidade das escolas civis e militares, deu tempo ao tempo, e foi preparando, pouco a pouco, o Exército e a Armada, para com eles consolidar o seu governo e a República proclamada em 15 de novembro, com o eficaz auxílio do Marechal de Ferro.
Pelo mesmo motivo, e porque souberam esperar e lutar com calma e valor, venceram os abolicionistas e triunfaram também os propagandistas da República, que mui poucos eram no Brasil.
Procure, pois, a mocidade estudiosa e patriota saber esperar, e tudo chegará no seu devido tempo, para glória da ciência e da humanidade.
LUIZ DE MATTOS
Janeiro de 1918.

1. A vida moderna e a debilidade nervosa

Tratando da cura dos nervosos, houve, por bem, o Dr. Austregésilo escrever um livro de 204 páginas, e teve a gentileza de remeter-nos um exemplar, com a seguinte dedicatória:
"À ilustrada redação de A RAZÃO, homenagem do Austregésilo. - Rio, 5 de Janeiro de 1918'".
Sabemos que o Dr. Austregésilo não é um simples homem formado em Medicina, mas um cientista consagrado pela ciência oficial do país e pelo que de mais intelectualizado aqui existe.
A oferta que S. Sa. se dignou fazer ao A RAZÃO, e a dedicatória exarada na referida obra, são o reconhecimento tácito do valor intelectual e moral dos que redigem e dirigem esse jornal, incapazes de faltar à verdade e aos deveres de cortesia, especialmente a homens como o Dr. Austregésilo, cujas produções parecem bem intencionadas e com o fim de esclarecer a humanidade tão sofredora, tão infeliz, nesta triste época que o mundo inteiro atravessa.
Assim, vamos agradecer ao Dr. Austregésilo, dizendo-lhe a verdade sobre a sua referida obra, para certificar-se que A RAZAO foi fundada somente para o bem, e sente prazer, por isso, em auxiliar todas as classes sociais, e mui especialmente a médica, nobre e digna como a que mais o julgue ser, e de cujo trabalho, bom-senso e equilíbrio, dependem a saúde, o bem-estar e até a moral da humanidade.
É claro que este grande interesse pela humanidade não existe em certos homens formados em Medicina que costumam dar logo por mortal qualquer achaque, para que, se o enfermo morrer, se atribua a morte à violência da doença e, se escapar, sejam tidos por sábios.
Notáveis homens existem, por certo, cujos erros cobrem a Terra e que, se fazem algumas mortes, nem como aos homicidas se tira devassa, nem como aos ministros se lhes tira residência. Vá ou não vá o enfermo para a cova, à bolsa deles sempre vão as moedas, enriquecendo-os com os males alheios, e sendo o seu maior mal a "saúde dos outros", conforme afirmou, em 1720 (mais ou menos), o erudito padre Manoel Consciência, citado

pelo também erudito Sr. Solidônio Leite, no seu magnífico trabalho denominado Clássicos Esquecidos.
A esses, a tais vulgares pergaminhados, não dá A RAZAO guarida, e pronta está sempre para apresentá-los ao público, como eles são.
Assim sendo, digne-se ler-nos, com a devida atenção, o Dr. Austregésilo, como se digna ler-nos o público, que é o principal interessado no assunto, para convencer-se de que a Ciência é a descoberta da Verdade, a que desde muitos séculos, no tocante à compreensão do que seja o espírito, suas perturbações e enfermidades, ela, a ciência, está divorciada das Academias e do mental dos acadêmicos, que tudo subordinam à matéria organizada.
*   *   *
Quer isto dizer que a sua bem intencionada obra sobre a debilidade nervosa e sua cura, denominada A Cura dos Nervosos, não contém toda a verdade baseada na Força e na Matéria, e que, portanto, S. Sa. apenas demonstrou desejos de bem fazer, algo que pudesse ser proveitoso ao sofrimento horrível por que estão passando todos os estados sociais; mas como não é de bons desejos que as obras dos sábios devem tratar, e sim da verdadeira causa dos males que afligem a humanidade, e da sua cura, não foi feliz o Dr. Austregésilo publicando tal trabalho, para o fim destinado, porque nele pouco explica sobre a causa real das enfermidades psíquicas, e muito menos a respeito da maneira de curá-las.
Entretanto, o seu "eu", o cidadão Austregésilo, simples e bom, como acreditamos que o seja no fundo e nas horas de paz, contrariando a rotina comum, houve, por bem, levantar uma pontinha do véu que entre os sábios terrenos encobre a verdade, quando diz, no prefácio do seu livro, linhas 14 a 18:
“A influência do espírito sobre o corpo é grande, e quanto mais dilato a minha prática neuriática, de mais de 20 anos, tanto mais reconheço as prisões mútuas do pensamento e dos órgãos.”.
Esta afirmativa do Dr. Austregésilo, de que a influência do espírito sobre o corpo, e assim sobre o matéria, é grande, é real, é inconfessável, já é um passo dado por S. Sa. para a descoberta da Verdade, base da Ciência,
Esse princípio será aceito, como certo, pela Ciência, e rigorosamente estudado; por ser absolutamente real.
Desde que S. Sa., na sua prática "de mais de 20 anos", reconhece essa influência do espírito sobre a matéria organizada e, mais, que as ânsias doentias partem do pensamento e que só uma terapêutica psíquica poderá aliviá-las, (como também o afirma a folhas 4, linhas 5 a 7 da sua referida obra), fácil se lhe deve tornar agora explicar o que seja o espírito, o que seja o pensamento, a qual a terapêutica psíquica a aplicar para a cura ou alívio dos enfermos, portadores desse mal.
Sem essa explicação, valor algum tem tudo o mais que se possa dizer.
A verdade, pois, cifra-se nisto:
a) que é o espírito, sua origem, seus deveres, e o que ele é capaz de fazer para o mal ou o bem?;
b) que é o pensamento, e qual a sua influência na vida do ser humano?;
c) qual a terapêutica psíquica eficaz a que S. Sa. se refere, para cura e alívio dos nervosos?
No seu livro tal explicação não existe, tornando-se uma obra incompleta, e a S. Sa. compete, por isso, concluí-la, explicando o que é a Força, a ação do espírito, do pensamento, e a eficácia da terapêutica psíquica.

Para tal fim, está A RAZÃO à sua disposição, gratuitamente, já se vê, e por esse motivo não se poderá furtar ao nosso convite, que pode ser satisfeito nestes oito dias, findos os quais, não se dignando S. Sa. dar a explicação pedida, de que tanto precisa o público (e muito grato lhe ficará, se for completa e clara), então provará que falta à ciência o conhecimento inteiro da criatura, já que apenas da matéria e de certos efeitos do espírito possui elementar noção, ignorando, todavia, a parte mais importante e invisível do ser, que é a Força, também denominada Espírito, quando encarnada em corpo humano.
Assim, se dentro desse prazo o nosso apelo não for atendido, nós daremos as necessárias explicações, porque só o conhecimento da Força permitirá à Ciência normalizar os nervosos e fortificar os débeis.

2. A cura dos nervosos - I

(Que a medicina atual não pode conseguir)

Em A RAZAO de 20 de março de 1918, afirmamos que no livro A Cura dos Nervosos, da autoria do Dr. Austregésilo, não existe a explicação clara, certa e segura da causa das enfermidades nervosas que, melhor seria dizer, do espírito.
Afirmamos mais que S. Sa. falava do que não conhecia, quando tratava do espírito e da terapêutica psíquica a aplicar-se aos nervosos, as muitas fobias (loucuras), mais conhecidas como moléstias nervosas.
Pedimos-lhe se dignasse explicar o que entende por espírito e esta terapêutica psíquica a que se refere constantemente no seu livro, pois que a sua posição de especialista esse dever lhe impunha.
Demos a S. Sa., para essa explicação, o prazo de oito dias.
Esse prazo se findou no dia 29 do citado mês, na semana Santa, como dizem os colegas de S. Sa., também formados em dogmas e religiosidades.
Assim sendo, e como o prometido é devido, cá estamos para cumprir o nosso dever para com a humanidade, de explicar o que é o espírito e esclarecer a terapêutica psíquica a que S. Sa. se refere, no dito livro.
Antes, porém, de entrarmos em ação, de provar que o livro A Cura dos Nervosos é incompleto, por não explicar, racional e cientificamente, o que afirma sobre tais enfermidades, e sua cura; que tal livro é incompleto, ainda, por contar mais um engano doce e ledo do seu autor, quando a verdade, base da ciência, não permite que se cometam tais enganos; antes de demonstrarmos que a ciência materialista, no seu estágio atual, não pode curar essas enfermidades, por desconhecer a causa que as produz e a verdadeira terapêutica a ser aplicada, vamos, como preparo para esta proveitosíssima campanha e para o espírito dos nossos leitores e, mais especialmente, o do acadêmico Dr. Austregésilo, explicar o que somos, o que queremos, o nosso fim, portanto, ao iniciarmos este debate, que jamais foi tratado em qualquer imprensa com tanto desejo de bem fazer, de ser útil a todos, como agora o faz A RAZAO.
Em primeiro lugar, devemos declarar que não temos prevenções contra pessoa alguma, e muito menos contra o Dr. Austregésilo, ao qual, pessoalmente e como cidadão, tributamos muita consideração, e por quem até sentimos uma certa simpatia que a sua pessoa nos inspirou, a primeira e única vez que tivemos o prazer de vê-lo no Centro Redentor, onde foi S. Sa. passar um atestado de cura, feita ali, de um doido retirado da casa Eiras, para ser normalizado naquele Centro.
O nosso fim único é, pois, prestar serviços à humanidade, com os esclarecimentos que vamos dar, e, para prova disto, pomos à disposição do Dr. Austregésilo as colunas deA RAZÃO, para dar oportunidade a S. Sa. de ir contestando as nossas afirmativas, podendo o ilustre médico, dessa forma, com inteira liberdade, escrever, ao lado destas NOTAS, tudo quanto possa ser útil aos leitores, porque tudo será publicado, sem alteração de um só sinal ortográfico.
O nosso desejo é que ao terminarmos esta explanação dos Princípios de tudo quanto existe, cuja base é Força e Matéria, todos tenham lucrado, e que o Dr. Austregésilo reconheça que, de fato, somos os seus melhores amigos, únicos que o souberam contraditar.
É isto mais fácil de compreender-se, quando se deve saber que não almejamos coisa alguma de quem quer que seja, nem honrarias, nem popularidade, nem dinheiro, nem importância política ou social, e que, acima de todas essas coisas, colocamos o nosso dever a cumprir, dever que não conhece potentados nem governos, quando é preciso dizer a verdade, e assim, esclarecer a humanidade.
O que nos importa são os Princípios que defendemos.
Desta forma, e além do que aí fica, diremos ao Dr. Austregésilo que o nosso saudoso e grande filólogo Júlio Ribeiro, mineiro de Sabará, escreveu, numa das suas notáveis e eruditas polêmica, o seguinte:
O homem que se sabe servir da pena, que pode publicar o que escreve e que não diz a seus compatriotas o que entende ser a verdade, deixa de cumprir um dever, comete o crime de covardia, é mau cidadão.
Disse, ainda, o mesmo escritor:
O homem público, na qualidade de homem público, (e é nessa que nos dirigimos ao Dr. Austregésilo) não tem individualidade, é um órgão social.
Se a função que lhe corresponde saiu imperfeita, (é o caso do livro de S. Sa.) é que ele, como órgão, é defeituoso; e cada cidadão está no direito de apontar-lhe o defeito, o vício, e de citar-lhe o nome.
Disse mais o mesmo grande brasileiro que “repetir textos, não é mostrar ciência, é provar memória, e que é tempo de reconhecer-se que assim como há bacharéis sábios, há também sábios não bacharéis e indivíduos que, na frase de Michelet, ‘são doutores aos quinze anos, e asnos toda a sua vida’, e concluía por afirmar que ‘escrever a verdade, mas só a verdade, é ter certeza de triunfo.’ ” (Cartas Sertanejas, edição de 1885).
O que aí fica é a resposta, antecipada, não só às objeções, às desculpas, às dúvidas referentes à nossa individualidade, por parte do Dr. Austregésilo, como de todos que, mais audazes do que S. Sa., e mais queimados e revoltados, se mostrarem contra as verdades que continuarão a ser ditas nestas NOTAS.
Viver, pois, às claras, é o nosso verdadeiro lema, e por isso aí fica o que queremos, o que somos e para que trabalhamos.

3. A cura dos nervosos - II

(Não a pode ainda fazer a medicina atual)

O Dr. Austregésilo não foi feliz escolhendo, para o seu último livro, o título sedutor de A Cura dos Nervosos.
Não foi feliz, por ignorar o que seja o espírito, a sua função, o seu papel e a influência do mesmo no organismo humano.
Assim, não podem, por mais que S. Sa. e seus colegas façam e queiram, curar as enfermidades nervosas, as loucuras várias, que outras coisas não são tais enfermidades.
Não conhecem, porque esse ramo da ciência está baseado em princípios falsos, na matéria organizada ou mesmo cósmica – que é efeito e não causa – e é claro que tudo quanto é baseado em efeito, não pode ser tomado a sério.
Ora, tendo afirmado, no prefácio do seu referido livro, ter sido ele escrito para os doentes, e que o que nele se contém "são conselhos úteis aos pacientes que, às vezes, sofrem muito, sem saberem que o remédio está perto deles", (vide linhas V a VII), e a esses doentes nada tendo dito de proveitoso, deixou S. Sa. de ser um bom conselheiro, para tornar-se um vulgar reclamista da sua posição de destaque, nivelando-se aos antigos dentistas americanos que, na boléia dos seus carros dourados, anunciavam, na praça pública: “Arrancam-se dentes sem dor, e somente com dois dedos da mão direita!”
Confiou demais o conhecido facultativo nos seus títulos científicos, nos seus dotes literários, daí resultando essa grave falta para com a humanidade, para com os nervosos, de prometer-lhes remédios e conselhos, e só lhes dar pomada de cheiro, que é como quem diz pílulas de puro miolo de pão; essa sua afirmativa foi mais um logro pregado a todos os seres, pois que o seu referido livro só contém palavras, palavras e mais palavras . . .
Quando se escreve para o público, e em bem dele, obrigação é a de quem escreve ser claro, verdadeiro, honrado, especialmente quando se é, como o Dr. Austregésilo, consagrado pela ciência oficial de aquém e além Atlântico.
Assim não fazendo, S. Sa. corre o risco de que esse público sofredor o classifique de intrujão, de "fiteiro", e duvide da reputação de que tem gozado até agora.
Prometer aos enfermos a felicidade, ensinar-lhes as causas das doenças nervosas e sua cura e só lhes dar exibições de um falso saber, não é próprio de quem almeja a conservação do título de especialista de tais enfermidades, que S. Sa. reputa, em sua maioria, de imaginárias, como se houvesse algum efeito sem uma causa inteligente.
Afirmando, a folhas 4, linhas 5 e 7, que “as ânsias doentias partem do pensamento, e que só uma terapêutica psíquica poderá aliviá-las”, obrigação era a sua de explicar não só aos enfermos, mas também a toda gente:
1) O que é o pensamento e como, e por que partem dele "as ânsias doentias";
2) O que é o psiquismo e, assim, a terapêutica psíquica, única que poderá aliviar essas "ânsias doentias", a que se refere.
Não o fez S. Sa. no livro que estamos comentando, e já agora o não poderá fazer, como obra sua, como produção sua, de sua investigação, do seu raciocínio, do seu labor, não só por não lhe permitir o seu estado social, como também porque tal descrição já se acha feita no livro denominado Racionalismo Cristão.
Para o fazer, seria necessário mencionar a referida obra, e isso não está nos moldes de especialistas como S. Sa.
Se o Dr. Austregésilo conhecesse a real composição psíquica do homem, como conhece a sua fisiologia, se cada um dos cientistas se conhecesse como um composto de Força e Matéria e conseguisse adquirir, pela observação dos fatos, a certeza absoluta, incontestável, de que o ser humano é constituído de três corpos, um visível, que é o corpo carnal, e dois invisíveis, mas já fotografados por investigadores da Inglaterra, Rússia, França, Itália e América, e que assim se descrevem:
1) Corpo Mental, que é a Força, a Inteligência, ou o Espírito;
2) Corpo Astral, fluido nervoso ou duplo-etéreo;
3) Corpo Físico ou carnal.
Com este conhecimento certo e seguro, saberia então o Dr. Austregésilo o que são o espírito, o fluido nervoso e a ação deste no organismo humano, a causa das enfermidades e como se curam com a terapêutica-psíquica, única real e verdadeira.
E mais: que o sistema nervoso do corpo humano representa o esqueleto, a urdidura do corpo astral, formado com a matéria cósmica, quintessenciada, que o espírito traz consigo do mundo que lhe é próprio, quando vem encarnar, conforme demonstramos na obra A Vida Fora da Matéria.
Depois que esse corpo astral é organizado, formada está a urdidura nervosa do corpo físico, à qual fica ligado o corpo mental, que é Força, Inteligência ou Espírito, como quiserem chamá-lo.
Assim, pois, quando de tal verdade estiver certo, facilmente compreenderá o Dr. Austregésilo a causa verdadeira das enfermidades dos corpos, e como se curam, porque então conhecer-se-á a si mesmo como Força e Matéria.

4. A ignorância dos materialistas é a mais perigosa


É, de fato, a mais perigosa das ignorâncias a que domina certos homens pergaminhados que se fazem anunciar em periódicos, revistas e jornais; e é a mais perigosa, porque eles ficam cegos e surdos a tudo quanto não seja aquilo que aprenderam nos compêndios.
Para tudo o que não condiga com a sua especialidade, têm esses senhores um arzinho de mofa, de irônico desprezo, e respondem logo:
¾ Isso não pode ser porque, se fosse exato, seríamos os primeiros a sabê-lo.
Ou então:
¾ Isso é charlatanismo, não pode ser tomado a sério pela ciência, que está acima de tudo, inclusive das religiões.
Tais pessoas não servem à ciência, porque a menosprezam e restringem, apenas, ao seu saber. Cientista é aquele que tudo investiga e que, em lugar de condenar o que ignora, procura estudar, para aprender o que não sabe. Só assim se faz ciência, e só assim é possível colocá-la acima de tudo, inclusive de quaisquer preconceitos.
Nem os próprios fatos convencem tais seres porque, usufruindo direitos especiais, inclusive o de matar sem responsabilidade (e sem terem receio de ser punidos), nutrem desprezo profundo por tudo o que estiver em desacordo com a sua especialidade e a sua ciência.
Oportunamente contaremos um episódio ocorrido entre dois sábios franceses, um velho e acadêmico, e o outro, novo, repleto de curiosidade, grande investigador, mas contrário à rotina, à sabedoria oficial e ao sistema do ancião, que acreditava tudo saber.
Por agora, diremos, apenas, que não estamos iludidos com os seus colegas proclamados pela companhia do elogio-mútuo, a sociedade anônima de maior número de associados que jamais se viu no mundo!...
Nenhum desses cavalheiros é capaz de "dar o braço a torcer", de confessar em público os seus erros e a ignorância das causas motivadoras dos fenômenos da vida e do porquê das coisas.
São como os sacerdotes das várias seitas: intolerantes, chasqueadores uns dos outros e até perseguidores dos que não lêem pela sua cartilha.

Por esse motivo, não acredite o público na modificação de tais seres, no abandono do preconceito que os escraviza, para abraçarem a verdade. Tratemos de esclarecer a humanidade, para que ela possa raciocinar com acerto e assim ficar habilitada a ver claro e a caminhar com segurança, sabendo e podendo separar o joio do trigo, como é do interesse humano.
A folhas 4, linhas 2 a 7 do livro A Cura dos Nervosos, diz o autor:
"que se acha o nervosismo tão espalhado, que podemos dizer que todo mundo foi, é ou será nervoso. É metáfora que resvala pelos limites da verdade."
Isto quer dizer que o nervosismo é um mal torturante de que todos sofrem ou têm de vir a sofrer, mas não esclarece o autor por que razão todos sofrem ou têm de vir a sofrer de tal mal.
Ao mesmo tempo que tal afirmativa faz, assevera, na mesma página, de linhas 8 a 14:
"Quase todos os nervosos sofrem pela imaginação e pela fraqueza de vontade".
Quer S. Sa. dizer que tais enfermidades são imaginárias, sem existência, ou base real vista, apalpada ou cheirada pelos especialistas, e, como ignora a causa, afirma serem filhas da imaginação e da fraqueza de vontade.
Mas, se a imaginação e a fraqueza da vontade podem produzir tal estado mórbido e tão grande mal, a enfermidade nervosa resulta de uma causa, que não é destituída de valor, como S. Sa. pretende, e obrigação era a sua de explicar o que são a imaginação e a vontade, e qual a terapêutica a aplicar, em tal caso.
S. Sa., porém, não pôde prestar esse benefício; nada explicou sobre a fonte dessas duas causas, (que de fato são reais, afirmamos nós); e não deu essa explicação porque o mal não reside na matéria organizada, nas células por ele estudadas, que são efeito e não causa.
A seguir, desde as linhas 3 a 7, diz que “muitos dos sintomas atormentadores são produtos de erros de interpretações a propósito da função do órgão”.
As palpitações e o cansaço fazem pensar em doenças do coração, e ainda: que a sensação de vazio no cérebro, conduz o paciente ao medo da loucura”.
O despropósito e a contradição de S. Sa., em tão poucas palavras, saltam aos olhos, porque:
a) não há sintomas atormentadores, como afirma, e sim causas atormentadoras;
b) esses sintomas não são produtos de interpretações das funções dos órgãos, por ser efeito e não causa dos males e interpretação errada de qualquer coisa;
c) afirmando também que as palpitações e o cansaço fazem pensar nessas doenças do coração, prova nada saber das funções da Força ou do Espírito, e embaralha tudo, porque não são as palpitações e o cansaço que fazem pensar em doenças.
Não! Isso é querer fazer andar o carro adiante dos bois!
As palpitações e o cansaço são conseqüências do mau funcionamento do coração e de todo o sistema nervoso. Não são elas que fazem pensar; são, antes, o resultado da ação do pensamento irradiado durante muitos dias, por vezes meses e anos, até chegar a ser produzido o chamado nervosismo, com essas fobias várias, essas palpitações e cansaços.
Vê, pois, o leitor como se faz uma salada russa tão mal temperada, que somos incapazes de a digerir.
Embrulham, de tal forma, os leitores dos seus livros, que qualquer pessoa acaba por dizer:
“O Dr. Fulano ou Sicrano é um talento, é realmente um sábio, escreve primorosamente, mas eu não entendi nada do seu livro, tão elevada, tão notável é a sua linguagem, a sua terminologia”.
É especialidade de muitos confundir efeitos com causas, falar nestas, afirmar a sua existência, sem as haverem estudado.

5. Não pode haver efeito sem causa


Era corrente em todos os povos, como o foi em todas as civilizações, desde a egípcia à indiana, à chinesa, até à grega, da primeira das quais, a egípcia, muitos séculos antes de Jesus, surgiu a Divina Arte de Curar proclamada como ciência, então praticada pelos sacerdotes, nos templos para esse fim construídos, era então corrente, dizíamos, que não há efeito sem causa, e que a todo efeito inteligente, corresponde uma causa inteligente.
É o mesmo que dizer que tudo se ressente da origem, e que, portanto, os seres, as coisas e as enfermidades têm uma origem certa e segura, da qual, como afirma a própria medicina, resultam as taras e os tarados.
Em virtude desse princípio certo, produto das leis comuns e naturais, que o homem, por mais sábio que seja ou pareça, não pode alterar, não pode destruir, é que nós afirmamos estar errada toda interpretação que tente negá-lo ou mesmo deturpá-lo ou transformá-lo, tomando os efeitos pelas causas e teimando em impingi-los, como tais, à humanidade.
Assim é que, no seu referido livro, diz o Dr. Austregésilo, a folhas 4, linhas 13 e 14:
"A sensação de vazio no cérebro conduz o paciente ao medo da loucura".
Quer isto dizer que é o próprio enfermo quem engendra o vazio no cérebro e o medo da loucura, sendo, portanto, imaginária a enfermidade dos nervosos, sem causa real, séria, apreciável.
Mas tal afirmativa está errada:
1°) porque a sensação de vazio no cérebro e o medo da loucura já são efeitos que têm uma causa real, verdadeira, que é o estado nervoso em que se acha o indivíduo, e o nervosismo, por sua vez, já é um meio caminho para a loucura, tudo isso resultante da indisciplina e incompreensão do espírito;
2°) porque os órgãos materiais de qualquer parte do corpo, inclusive o cérebro, não podem engendrar enfermidades ou ser delas a fonte;
3°) porque existindo um elemento fora da matéria – Força – que de fora a incita e movimenta, como afirma o pai da fisiologia moderna, Claude Bernard, do Instituto de França, e confirma o querido discípulo de Pasteur, o sábio Paul Gibier, a esse elemento, que é Força, que é vida, deve atribuir-se a causa de todos os males psíquicos de que sofre a humanidade. O Dr. Austregésilo, além de estar em contradição consigo mesmo, o está também com os reais mestres da Divina Arte de Curar.
É por essas e outras que os leitores de certos livros ficam, às vezes, desorientados, por só lerem palavras e mais palavras, deparando, aqui e ali, com contradições e mais contradições dos autores, cada um dos quais procurando suplantar o outro, pouco se importando com os meios para chegarem aos fins que têm em vista.
O sábio Claude Bernard, e o não menos sábio médico-bacteriologista Paul Gibier, afirmam que a matéria é inerte, mesmo viva, e que é a Força, que está fora dela e de fora lhe vem, que a organiza, incita e movimenta. Que pena a medicina oficial desprezar esses
reais princípios, atirando às urtigas o resultado de pacientes investigações desses eminentes sábios!
Isso é realmente de lamentar-se!

No entanto, a base da medicina autêntica é definida nesta frase, tida como símbolo: Sublata causa tolitor effectus, dominada a causa cessam os efeitos.
É esse um princípio dos mais sábios, mas esquecido no que diz respeito às doenças do espírito.
Vazio no cérebro e medo da loucura têm todos os que fazem parte da “grande sociedade anônima, fundada para a exploração do elogio-mútuo”, onde todas as criaturas vão buscar títulos de saber e nomeadas de especialistas.
Mas não fica nesse pandemônio de contradições, de trocas e baldrocas, de efeitos por causas, de não saber dar o nome aos bois, com que lavra o Dr. Austregésilo; ele foi muito além: senhor de faca e cutelo, príncipe da ciência e da literatura, invadiu, por sua conta e risco, o terreno de outrem, penetrando na seara alheia, sem pedir licença ao dono; fértil na produção de tubérculos, e senhor do seu principesco nariz, o ilustre esculápio é capaz de mandar-nos plantar os pés, como, com muita graça, o fez o grande Camilo aos acadêmicos monopolizadores da crítica literária, por estarmos aqui a embargar as suas ligeirezas.
Nesse muito além que ele foi, e continuará a ir, tem esta tirada, a folhas 5, linhas 1 a 4:
“Este livro, denominado A Cura dos Nervosos, é dedicado aos padecentes de sofreres cuja base é a comoção ou a sugestão a que abrangem quase que exclusivamente os múltiplos sintomas das psiconeuroses”.
Compreendeu o leitor amigo o que o doutor acadêmico quer dizer?
Não, não lhe é fácil, porque ele afirma ser a comoção a causa, quando apenas é o efeito de um estado mórbido que atormenta o enfermo.
A sugestão não pode ser a causa, por que também é ela o efeito da mesma causa que produz todas as loucuras, todas as fobias.
Sendo, pois, a comoção e a sugestão efeitos e não causas, novamente cincou o Dr. Austregésilo, que não quer ter o trabalho de estudar o elemento que tudo organiza, incita, movimenta e vive fora da matéria, que se chama Força ou Espírito.
Além disso, como se não bastasse a S. Sa. ignorar a causa das comoções, também demonstrou desconhecer o que é a sugestão, qual a sua fonte de origem, e como se opera e consegue vencer.
Não nos explicou nem explicará nada disso, porque tais coisas não pertencem à matéria organizada, não estão nela, embora ela as manifeste, e sim no elemento que vive fora, já fartamente referido.

6. Contradições da medicina


O Dr. Austregésilo afirma, no prefácio da obra denominada A Cura dos Nervosos:
a) que o que se acha nesse livro são conselhos úteis destinados aos pacientes que às vezes sofrem muito, sem saber que o remédio está perto deles, (neles próprios, dizemos nós, por ser essa a verdade);
b) que a literatura médica francesa é abundante em publicações idênticas à sua, e bastam que sejam citados – diz ainda S.Sa. – os trabalhos de Dubois, Gauckler, Dejerine, Zbinden, Fleury, Levy, Payot, Emyeu, Bernheim, Thomas, (os quais, como ele, ignoram as
causas dessas enfermidades, asseguramos nós) cujo fim está na psicoterapia educadora dos que sofrem física ou moralmente, o que é exato;


c) que pode garantir a existência da alma (do espírito) e que a sua influência sobre o corpo é grande;
d) que quanto mais dilatada é a sua prática neuriática, de mais de vinte anos, tanto mais reconhece as prisões mútuas do pensamento e dos órgãos. (O pensamento é um fator de grande importância para a normalização dos órgãos e, portanto, dos seres, afirmamos nós).
Adianta, ainda, a folhas 4, que “se acha o nervosismo tão espalhado, que podemos dizer que todo o mundo foi, é ou será nervoso” e que, portanto, é uma enfermidade real, torturante e perigosa, e a folhas 5, ressalta que “a causa desse sofrer é a comoção ou a sugestão.
Diz, também, a folhas 4, linhas 8, que "quase todos os nervosos sofrem pela imaginação e pela fraqueza de vontade", o que, bem interpretado, significa que a causa está no Espírito, e do seu equilíbrio resultará a cura. Acrescenta, a folhas 14, linhas 3 e 4, que tem tido consulentes que se zangam quando lhes diz que de nada sofrem.
Para confirmar este amontoado de contradições e este ultimo despropósito de que a enfermidade é imaginária, pois que o enfermo de nada sofre, o Dr. Austregésilo lança mão do seu colega de Berna, o Dr. Dubois.
A folhas 42, linhas 11 a 16, diz mais: “Conheço alguns amigos e vários consulentes que se curaram, graças a duas ou três visitas feitas a Dubois, de Berna, e repetem-me, como um bastão de vitória, frases do bom sábio, as quais lhes serviram de arrimo para toda a existência”, e que são:
Pas de remédes! Ayez confiance en vous!" que em português quer dizer: Nada de remédios, ou então: Não tomeis remédio algum, tende confiança em vós, e nada mais precisais.
 Estes simples estribilhos, ditos pela boca sapiente do apóstolo da psicoterapia, (S. Sa. se refere ao Dr. Dubois), têm servido de "poderosas alavancas para curas definitivas ou grandes melhoras de indivíduos que arrastavam a existência cheia de doenças, tristezas e desesperações".
Mas que embrulhada diabólica fazem esses sábios daquém e dalém Atlântico?!
Ao mesmo tempo em que dizem uma coisa, abeirando-se do bom-senso e da Verdade, como a da influência real do espírito sobre a matéria, e do pensamento e da vontade, asseveram que as enfermidades dos nervos são imaginárias, dando, assim, ao espírito, à vontade e aos pensamentos valor também imaginário, depois de admitirem a sua existência.
Afirmam, nas suas obras, que só se pode curar e tratar o que existe, e ao mesmo tempo dogmatizam que essa enfermidade não existe no ser humano, e que se cura sem remédio algum.
No mesmo momento em que dizem, aos nervosos, “Nada de remédios”, e que perto do próprio enfermo está o remédio, o qual consiste na confiança que este deve ter em si próprio, garantem que a terapêutica a aplicar-se para a cura de tais enfermidades imaginárias é a psicoterápica, que desconhecem na sua inteireza, enquanto não estudarem o que somos, como Força e Matéria. Desta maneira torna-se impossível a qualquer enfermo saber o que diz e o que quer a medicina representada pelo Dr. Austregésilo.
Com relação às enfermidades nervosas, para ele são e não são reais, têm e não têm causa, precisam e não precisam de remédios, e neste amontoado de contradições e despropósitos, vê-se bem que a terapêutica do Dr. Austregésilo não se firma nem esteia em princípios sólidos, e por isso, quando neles toca, pouco se demora, e deles foge, como os morcegos da luz.

Embora a Força seja invisível aos olhos e aos sentimentos materializados dos pesquisadores vulgares, é ela reconhecida por suas ações, e quando a ciência a estudar, com isenção de ânimo e sem paixões, verá, como afirma o médico independente Dr. Alberto Seabra, já liberto dos preconceitos da ciência oficial, na obra de sua autoria denominada O Problema do Além e do Destino:
“O invisível nos cerca por todos os lados; o corpo físico é a manifestação da nômade invisível (a alma), que o engendra por intermédio de seu corpo astral, de natureza ódica." "E o od é o verdadeiro mediador plástico entre o homem físico e o homem transcendente.”
“O invisível é o que temos de melhor e mais nobre: a consciência, a vontade, a inteligência, a sensibilidade, a memória.”
“Invisível é o vapor da água, de tão notória influência em climatologia...”
“Invisível são o calor, a eletricidade, o som, os raios químicos, e de todo esse invisível gozamos ou sentimos os seus efeitos.”
Como estas verdades, de vital interesse para a ciência, não são aceitas pelas escolas oficiais, embora apontadas por cientistas já libertos da tutela de seus pares, o nosso trabalho terá de prosseguir, uma vez que ele visa somente o esclarecimento e, portanto, o bem geral da humanidade.
Assim sendo, que importância, que crédito se deve dar a esse alto oficialismo do aquém e além Atlântico, que troca as causas pelos efeitos, que acredita e proclama que há efeitos sem causa e que existem enfermidades imaginárias, quando homens como eles, igualmente cientistas, que aprenderam nos mesmos compêndios, mas ricos de vontade e, por isso, independentes, como o médico Alberto Seabra e tantos outros, que iremos mencionando, já afirmam e provam o contrário? . . .

7. O mar tempestuoso da vida terrena transborda, quem não se preparar para enfrentar o temporal será arrastado na voragem


O temporal desfeito está caindo, há anos, sobre todos os povos, e agora, com redobrada fúria, se tem tornado tempestuoso, grandemente empolado, furiosamente cavado; o mar lamacento e pútrido da vida terrena ameaça, com o transbordamento, levar de arrastão os seres que não se prepararem para enfrentar esse temporal produzido pela má educação de todos os povos, da qual resultaram o egoísmo, a avareza, a prepotência, a vaidade e demais vícios que agora estão sendo castigados pela guerra.
Esse preparo para a tremenda luta que está travada entre o homem e o mar tempestuoso da vida terrena, têm de fazer todos os povos por si, pelo seu raciocínio, pelo seu esforço próprio, sem contarem com auxílio de qualquer das seitas que existem, porque umas e outras estão completamente animalizadas, sem o menor interesse pela verdade, pois tudo quanto afirmam é falso e só concorre, como tem concorrido até agora, para mais empolar o mar da vida terrena, para mais desmantelar essa vida e torná-la insuportável, como se está observando por toda parte.
É terrível a situação em que se encontra a humanidade, devido à ignorância do que ela própria seja como Matéria e como Força, em que a têm conservado, principalmente, as religiões, que, responsáveis pela educação material e moral de todos os seres, só maus exemplos lhes têm dado, só coisas erradas lhes têm ensinado, só males lhes têm produzido.
Justamente no momento mais aflitivo da vida dos povos, e neste nosso Brasil querido, nesta grande pátria que já teve padres da estatura épica de Diogo Feijó e de Mont'Alverne; engenheiros, como o grande Rebouças; generais, como Caxias e Osório; poetas, como Gonçalves Dias, Fagundes Varela, Castro Alves e Casemiro de Abreu; comerciantes, como Visconde de Mauá e o Visconde de Figueiredo; médicos e operadores, como os Pertences, Sabóia, Torres Homem, João e José Silva, Benício de Abreu, Monat e Alberto Seabra, para só citarmos esses, em cada profissão, surge o Dr. A. Austregésilo, para dizer-nos, no livro A Cura dos Nervosos:
Que dos inúmeros sintomas que angustiam as pessoas nervosas, os principais são:
1) Os medos doentios ou fobias;
2) A insônia;
3) O cansaço e a fraqueza;
4) A grande emotividade;
5) As alterações gastrintestinais;
6) Palpitações, falta de ar, fraqueza genital, cacoetes ou tiques, dores várias e erráticas e os acidentes histéricos e neurastênicos, propriamente ditos.
Depois desse amontoado de sintomas naturalíssimos num organismo humano atacado na sua matéria quintessenciada primacial, e, portanto, com influência real sobre todos os órgãos, afirma ainda a folhas 41, linhas 11, que quase todos os sintomas nervosos são de origem psíquica ou ideativa, o que quer dizer que os padecimentos são criados ou mesmo muito aumentados pela imaginação do paciente.
Aceitando a afirmativa de que esses sintomas de sofrimentos sejam oriundos da imaginação dos pacientes, como afirma o Dr. Austregésilo, e tomando, portanto, essa imaginação como causa, perguntamos:
a) sendo a imaginação uma causa de sofrimentos tão graves que levam à loucura, não é porque de fato, realmente, tal imaginação existe e se torna elemento terrível na vida das criaturas e, assim, da humanidade?
b) existindo, realmente, esse elemento, essa causa de grandes males que afligem a humanidade, qual é a sua fonte de origem, onde se acha alojada e como opera essa imaginação sobre os seres humanos, ao ponto de torná-los loucos, inconscientes, quase irracionais?
O nada não existe, o sobrenatural também não, porque um e outro são produtos da ignorância humana; e se a imaginação existe e é tão poderosa a sua influência, que chega a produzir os maiores males de que sofre a humanidade, deve ter uma origem, como tudo que se vê, se sente e se observa, sendo obrigação dos sábios que tal causa apontem como única a produzir esses grandes males, essas loucuras, de diferentes categorias, explicar a origem dessa imaginação, o ponto em que ela se apóia, como se a domina e de que maneira se curam as enfermidades dos nervos que ela produz, cujos sintomas acima ficam descritos.
Vamos, pois, Dr. Austregésilo, explicar tudo isso, porque a humanidade está farta de ser intrujada pelo materialismo e pelas seitas religiosas; ela precisa preparar-se para vencer o temporal que está ameaçando a todos, para não ser tragada pelas ondas desse mar de lama, cuja causa é a ignorância da verdade.
Não é só inventar termos arrevesados, é preciso dizer, com acerto, e provar o que se diz, vista que os tempos são chegados e não mais pode continuar a imperar a mentira dos privilégios de que desfruta essa “sociedade anônima do elogio-mútuo”, porque outro poder mais alto se levanta, que é o poder emanado da Força, o que vale dizer, da Verdade.
É isto o que quer o Racionalismo Cristão que explanamos, o qual há de chegar, em mais ou menos tempo, a todos os recantos do mundo.

8. Saber onde canta o galo. E cantar de galo


Ditados populares há que estão a calhar para o nosso caso. O primeiro, é o que diz: “F. ouviu cantar o galo mas não sabe onde. Este se aplica aos casos em que qualquer indivíduo, mais ou menos sábio, mais ou menos pernóstico, com mais ou menos prosápia, fala de coisas verdadeiras ou delas se abeira, por ouvir dizer ou haver lido, mas sem lhe conhecer a real origem, a fonte verdadeira, e, portanto, o que tal coisa significa.
Está neste caso de ouvir cantar o galo sem saber onde, o Dr. Austregésilo, quando afirma, a folhas 44, linhas 19 a 22:
“É a fraqueza da vontade e a do pensamento, que dão origem às sofrenças dos nervosos”, (ele quer dizer às doenças dos nervos).
“As relações existentes entre o espírito e o corpo são tão grandes que basta o indivíduo concentrar o pensamento no órgão para que medre novo sintoma aflitivo.”
“O pensamento humano é quantidade neutra que tanto pode ser conduzido para o bem, como para o mal.”
“Para sentir sofrimentos, basta começar a neles pensar.”
Está muito bem. O Racionalismo Cristão aceita esses princípios, porque são tão velhos quanto o mundo, e foram por nós já experimentados e provados com inúmeros fatos.
Essa afirmativa, porém, não é sua, não é da sua criação. Foi copiada de Dubois e Dejerine, com os quais, ao citá-los, diz estar de pleno acordo.
Entretanto, devemos dizer ao Dr. Austregésilo, que esse princípio, tão velho quanto o mundo, tornou-se um axioma dos espiritualistas de todas as épocas, especialmente dos egípcios e dos Asclepíades, praticantes da medicina nos templos já por nós referidos, os quais afirmam que o ser conforme pensa assim é, o que equivale a dizer que o ser conforme pensa atrai de fora o elemento que vive fora da matéria – axioma esse que foi desprezado pelos sábios do Oriente, especialmente os modernos, de mais bazófia científica, que agora são obrigados a se referirem a ele e a aceitá-lo, sem convicção, sem certeza do que afirmam: chama-se, pois, a isso, ouvir cantar o galo sem saber onde, e assim fazer de fonógrafo, quando se afirmam coisas cuja causa, cuja fonte se ignora, quando, ao tratar-se de ciência e de coisas sérias da vida, se fazem afirmativas, como as de folhas 45, linhas 1 e 18, em que se diz:
“Para sentir sofrimentos, basta começar a neles pensar”, (demonstrando ignorar, com isso, o que seja o pensamento e o seu real valor na vida dos seres).
Cantar de galo, ainda, e assim fazer o que fez o Dr. Austregésilo, depois de falar com acerto sobre os “porquês” das coisas, aconteceu, em certo dia, com D. Pedro II, que visitando o hospício, ouvia, atentamente, um hospitalizado falar com tanto equilíbrio mental, que se surpreendia o monarca de estar ele ainda ali, e já se dispunha o imperador a recomendar ao diretor que lhe fosse dada alta, quando, de repente, o enfermo se virou para o visitante, dizendo-lhe:
“Além do que lhe narrei, sei também cantar de galo”; e batendo com as mãos abertas nas pernas, como o galo faz com as asas, estendeu o pescoço, e cantou de galo, embora um tanto rouco.
Eis o que fez o Dr. Austregésilo, quando escreveu o que ficou descrito, sem saber o que dizia, por ignorar o significado de Força e Matéria, base de tudo quanto existe.
Escreveu S. Sa., a folhas 51, linhas 4 a 8:

“Todas as perturbações cerebrais que sentem os nervosos, são produto da atenção deles sobre as faculdades do espírito, por causa da emotividade que os fadiga e a sugestibilidade que os convence.”
Essa trapalhice, esse amontoado de palavras com que S. Sa. enche o seu livro, é o que o torna um “cantador de galo”.
O Dr. Austregésilo diz nesse último “cantar de galo”, nesse último despropósito, que as perturbações cerebrais são produtos da atenção sobre as faculdades do espírito.
É, pois, uma nova causa: a atenção atuando, operando sobre as faculdades do espírito, Por isso, nova pergunta se deve fazer:
Qual é a fonte dessa atenção, dessa causa que chega a dominar ou, pelo menos, a influenciar as faculdades do espírito?
Que novo, que poderoso elemento causador de estados nervosos, de fobias várias, é esse, que chega a “dominar o espírito”, que é tudo, como Força, como elemento primacial, conhecido dos sábios antigos e modernos, como Claude Bernard, Paul Gibier, Visconde de Sabóia, Pinheiro Guedes, Alberto Seabra e outros honrados médicos estrangeiros e brasileiros?
Se esta atenção domina as faculdades do espírito, qual a sua origem e como combatê-la, para não continuar a dominá-las?
Preciso se torna que S. Sa. explique claramente ao povo, que quer ser esclarecido, qual a fonte de origem dessa “atenção, cujos produtos, dominando o espírito, já o afastaram do seu livro, como causa primacial da loucura.
Não se preocupe, Dr. Austregésilo, com as nossas interrogações, que têm uma finalidade amiga e de cooperação, qual seja a de contribuir para dar clareza à sua obra, estimular o seu raciocínio, obrigá-lo mesmo a aprofundar-se mais em todas as coisas da sua profissão e da especialidade a que se dedica, para por fim ao papel ridículo que está representando de querer dar lições do psiquismo que desconhece, e de estabelecer sobre ele confusão e balbúrdia que só males produzem no espírito dos nervosos que pretende curar.
Quem estas coisas diz, e lhe pede tais explicações, não é qualquer indivíduo, mas A RAZÃO que, como jornal, interpreta o pensamento do povo.

9. O medo da loucura e o subconsciente do nervoso


Nesse amontoado informe de afirmações e contradições denominado, pelo Dr. Austregésilo, A CURA DOS NERVOSOS, nesse maxixar em que S. Sa. revelou invejáveis qualidades de mestre emérito, nesse mexer e remexer, curvar e recurvar, torcer e retorcer sintomas de enfermidades dos nervos, nesse desdobrar de sim e não, de que é formada a massa e o recheio do palavreado sem base, sem suco, sem cheiro do autor, não perde o Dr. Austregésilo a oportunidade de enterrar-se, cada vez mais fundo, no areal da ignorância dos porquês das coisas, e até mesmo do verdadeiro, do real, do autêntico significado dos termos que emprega.
A fls. 48, linha 10, escreve o ilustre autor:
“A fobia ficou cristalizada no fundo do subconsciente do nervoso.”
Por essa afirmação se verifica que o Dr. Austregésilo possui, dentro de si, qualquer coisa de espiritismo, porque subconsciente quer dizer outro indivíduo dentro daquele que se vê e apalpa.

Por tudo isto, é necessário que S. Sa. seja mais franco, mais sincero, mais Pai espiritual da nova geração que o tem por Mestre, e lhe diga, francamente:
¾ Eu conheço o espiritismo vulgar, esse que se pratica por toda parte, que em Pernambuco se denomina “Candomblé", no Sul "Canjerê", "Magia Negra" e "Serviços".
¾ Conheço, meus amigos, esse tráfico ignóbil com os espíritos, esse evocar de feras e bêbedos astrais, que enchem os hospícios de seres humanos, que os chamam “protetores do espaço” – miséria que também é praticada no Hospício Nacional, a título de “experiências psíquicas”, pelo meu respeitável colega Juliano Moreira, chefe daquele cemitério de vivos; mas não tenho coragem, eu, Austregésilo, de fazer essa afirmação em público e raso, e muito menos de ir estudar o que se denomina Racionalismo Cristão, que normaliza realmente, loucos, e cuja base já me foi explicada, e eu classifiquei de Ciência, por ser, de fato, Racional e Científica.
“Por isso, ide vós estudar esse ramo, essa ciência, até que o convencionalismo me permita ir eu próprio a esses praticantes, cuja explicação, em lugar adequado, me fez abrir a boca, e exclamar:
¾ Mas isso é ciência, e bela! Até lá, apenas irei empregando um ou outro termo do baixo psiquismo, que é o único que eu e os meus colegas conhecemos e temos praticado, para ver se com ele chegamos a descobrir a cura dos loucos.
¾  Por isso, amigos meus, toda a terminologia usada em meu livro, como espírito dominando a matéria, pensamento e vontade agindo para a cura dos nervosos, e agora "o subconsciente do nervoso", etc., etc., é puro espiritismo, é a prova da existência da vida fora da matéria, da Força parcelada intuindo e agindo em nosso mundo, como senhora absoluta; mas, o que seja tudo isso, o que significam realmente todos esses termos, eu não posso dizer-vos, porque apenas os copiei do baixo espiritismo, que o Dr. Oscar de Souza, meu nobre colega, explica, de vez em quando, aos meus alunos.
¾ E se ainda tal terminologia uso, é porque outros sábios também a usam, entre os quais o Dr. Dubois, de Berna. Mas o que significa verdadeiramente, realmente, o subconsciente, eu, Austregésilo, confesso lealmente que não sei; apenas observo que esse outro corpo, que está dentro do nosso corpo físico, também é denominado, por investigadores europeus, Corpo Astral, Duplo-Etéreo, ou Fantasma dos Magnetizadores.
¾ Sei que existe, de fato, e que vários sábios experimentadores já o têm visto e fotografado, nas suas experiências, e por este motivo é que eu o emprego em minha obra, para rivalizar com esses investigadores da Inglaterra, França, Itália, Rússia e América do Norte. O Racionalismo, amigos, afirma, por sua vez, a existência desse duplo-homem, e não só o afirma, explica também como ele está em nós e como de nós se retira, quando dormimos ou quando em trabalhos de desdobramento.
Esclarece, ainda, que esse subconsciente é o segundo corpo que em nós existe, chamado Corpo Astral, que incita a matéria organizada.
“Diz mais o Racionalismo que, de fato, está dentro de nós esse corpo, (cuja urdidura é representada por todo o nosso sistema nervoso condutor, por todo o nosso organismo, essa vida também denominada anímica, sem a qual impossível se torna a força incitar e movimentar o nosso corpo físico”.
Se assim o Dr. Austregésilo falasse à esperançosa mocidade das escolas, aos futuros doutores, a quem caberá o encaminhamento da ciência e a regeneração da humanidade, teria prestado um grande serviço a esta querida mocidade, imensamente desejosa de conhecer a verdade sobre tudo quanto existe; mas S. Sa. prefere mais conservar vaidosamente a sua posição, do que tornar-se, dessa mocidade, um verdadeiro pai espiritual, encaminhando-a para a verdade, que é a Ciência autêntica.
O Dr. Austregésilo, pois, desconhece, no fundo, o que é o subconsciente, e qual a sua origem. A verdade é que o subconsciente é efeito de uma causa inteligente e não a própria causa; e não sabe porque a folhas 49, tratando do medo da loucura, diz:
“Uma afirmativa desde já posso fazer: quem tem medo de ficar louco, não enlouquece.”
Provou ele estar em erro com tal afirmação, quando é certo que o indivíduo que tem medo da loucura já está a caminho dela, dentro dos próprios princípios esposados por S. Sa. de que “tudo está no pensamento e de que o ser, conforme pensa, assim é”.
Mais uma prova da sua subserviência aos sábios europeus, especialmente ao “Santo Varão Dubois”, quando, a folhas 53 e 54, linhas 21 e a 3, pontifica:
“Começa a desenvolver-se uma seriação de pensamentos vários, de associações de idéias, porque o pensamento não é função absoluta da nossa vontade, como demonstrou Dubois.”
Ora, o que ocorre é justamente o contrário do que o Dr. Austregésilo afirma, apoiado no sábio Dubois, de Berna.
Ai tem o leitor amigo nova “embrulhada”, nova Mixórdia das mãos de Mestres, (como dizia o grande cirurgião Figueiredo de Magalhães, de saudosa memória) mais uma prova do ser e não ser, de uma nova causa, o sub-consciente, de mistura com o pensamento, cuja origem S. Sa. ignora, e é ainda, por isso, que a folhas 55, linhas 1 e 2, afirma:
“Repito, pois, que quem tem medo de ficar louco, não ficará, e se algum doente soube que um simples nervoso enlouqueceu, é porque o diagnóstico do médico estava errado.”
Que ciência é essa, Dr. Austregésilo, que mete os pés pelas mãos, que afirma e desmente, ao mesmo tempo, que aceita e repudia a verdade, que, pretendendo ridicularizar, se torna ridícula?

10. O Racionalismo Cristão quer o cumprimento da verdade


Diversas pessoas eruditas e humanitárias nos têm enviado telegramas, cartas e cartões de felicitações pelas nossas NOTAS dirigidas ao Prof. Austregésilo sobre o livro A Cura dos Nervosos, e referentes ao triste papel da Ciência ortodoxa, quando se mantém alheia ao estudo do verdadeiro psiquismo, que deve começar pelo espírito, como Força imortal.
Verbalmente, uma dessas criaturas, formada em medicina, já ciente e consciente do seu dever, nos disse:
“As suas NOTAS racionalistas vieram mostrar que há muita coisa errada na Terra, e destruir as teorias materialistas, provando que a Ciência emana da Força – o Espírito criação de tudo.”
¾ Nós não estamos destruindo a lei, mas cumprindo o nosso dever denunciando os que deturpam a ciência, os que a menosprezam, os que a não querem elevar, já que não há governo disposto a fazê-lo, por medo de ferir, fundo, os interesses do primeiro estado
social, no qual se acham metidas, como piolho em costura, as classes ditas religiosas e científicas deturpadoras das leis comuns e naturais.


Nós apenas representamos princípios; pelos quais nos batemos, por obedecerem eles à razão e à Ciência, e não a homens nem associações pomposamente denominadas de altos estudos, nem a seitas, nem a vontadinhas de quem quer que seja.
Esses princípios que representamos, e pelos quais nos bateremos até morrer por eles, se for preciso, têm por base a Verdade, e por fim único o bem geral dos povos.
A doutrina que tais princípios defende, é por nós denominada Racionalismo Cristão, a única verdadeira porque obedece, de fato, à razão esclarecida, e tem por base a Força e a Matéria.
Tendo tornado bem claras as nossas intenções na maneira de nos expressarmos, só os seres mal intencionados poderão ver menosprezo a A ou B ou outra qualquer preocupação subalterna.
Para nós, por mais altamente colocado que esteja, o indivíduo é sempre um instrumento do bem ou do mal, conforme a sua espiritualidade e educação.
Se, como instrumento, ele funciona mal e produz males para a humanidade, o nosso dever é denunciá-lo ao público, para que todos se precavenham contra o mau funcionamento de tal máquina humana, evitando os danos que ela possa causar.
Em nossa NOTA 2, ficou bem claro o nosso fim, o papel da imprensa livre, que sabe o que quer.
Nessa NOTA, citamos a opinião do valente Júlio Ribeiro, (verdadeiro e independente como ninguém o foi mais) sobre o homem público, e assim sobre qualquer instrumento humano, ocupando cargos públicos: “O homem público, na qualidade de homem público, não tem individualidade, é um órgão social! Se a função que lhe corresponde saiu imperfeita, é que ele, como órgão, é defeituoso, e cada cidadão está no direito de apontar-lhe o defeito e vícios, e de citar-lhe o nome.”
Nessa mesma NOTA, exaramos, do mesmo autor, o seguinte aviso:
“Repetir textos não é mostrar ciência, é provar memória; e é tempo de reconhecer-se que assim como há bacharéis sábios, há também sábios não bacharéis e indivíduos que, na frase de Michelet, são doutores aos quinze anos, e asnos toda a sua vida.
Um dos mais notáveis médicos, trabalhando honrada, altiva e nobremente, o Dr. Figueiredo de Magalhães, não respeitava pergaminhos nem posições oficiais, por maior que fosse o seu destaque, quando era preciso dizer a verdade e rebater toleimas, prosápias, falsas sabedorias de pergaminhados como ele.
Não rebuscava termos, dizia as coisas como elas eram, para serem compreendidas por todos, pouco se importando que o contendor, na sua vaidade, se julgasse ofendido com a sua terminologia, visto que toda ela era própria, era verdadeira, e as tais melosidades intrujonas, não são admitidas por homens conscientes dos seus deveres.
Ele dizia:
“Quem não quer que o chame de lobo, e que como tal se o descreva, que de tal animal não vista a pele, que é como quem diz: quem não quer sofrer conseqüências, não pratique faltas.”
Não tem, pois razão de queixa o Dr. Austregésilo, por esta nossa explanação, mas a verdade é que S. Sa. e seus colegas especialistas da mais terrível das enfermidades, a loucura, não a curam.
Pouco ou nada eles têm feito de bom, até agora, nesse sentido. Os hospícios e manicômios estão repletos de infelizes enfermos que poderiam ser curados, em sua maioria, por um sistema racional e científico.

Deturpam as leis comuns e naturais que bem claramente demonstram que no Universo só existem Força e Matéria, e sendo a Força Inteligência é a causa de tudo quanto ocorre, embora inteiramente desprezada pela ciência oficial, que só trata da matéria organizada.
Quem deturpar as leis e, propositalmente, se afastar das causas, e assim da verdade e do cumprimento do dever, não pode ser considerado sábio, porque, além de não curar os males, deixa morrer, nos hospícios e nas casas de saúde, chefes de família, esposas adoráveis, filhos e filhas queridos, só porque a descoberta da cura dessas enfermidades não foi feita por eles.

11. Distúrbios da alma


É fartamente sabido que quando um lente de medicina, repleto de prosápia, de bazófia científica, se quer salientar perante a mocidade que o ouve e que é obrigada, mesmo a contragosto, a engolir as suas explicações absurdas, tentando provar que a matéria é tudo e a Força é nada; esse ser pernóstico, quando no lugar próprio, rodeado de cadáveres, ali trazidos para o estudo do corpo humano, de matéria organizada, vira-se para os futuros médicos e operadores, e lhes diz:
¾ Aí têm os senhoras todos esses cadáveres para estudá-los, e só quando neles encontrarem a alma, bem nítida, bem clara, é que eu acreditarei nela.
Quer assim fazer acreditar que a alma não existe por não ser encontrada na matéria organizada, muito embora a inércia desta só se opere após a coagulação do sangue e, assim, da desagregação da Força que incitou e movimentou o corpo.
Todos esses pernósticos em evolução negam a existência da alma, que é a Força, porque eles não a viram, não a cheiraram nem a apalparam.
Negam, assim, a existência da Inteligência Universal e, portanto, a sua própria existência inteligente, preferindo iludir-se, a buscar a sua origem elevada e nobre acima das coisas físicas, quando se recusam a aceitar os princípios racionalistas de notáveis mestres, que afirmam que a matéria, mesmo organizada, só se incita e movimenta com um elemento que lhe vem de fora e vive fora dela, que é a Força.
É por esse motivo que a mocidade das escolas fica, por vezes, triste e descrente de tudo e de todos, sentindo-se afrontada por tais Mestres, que dizem barbaridades como esta: se nesse cadáver acharem a alma, então eu acreditarei nela.
No entanto, o Dr. Austregésilo procurou, na sua obra A Cura dos Nervosos destoar desses materialões, para imitar os seres que têm alma e raciocínio certos, e foi introduzindo nela o espírito dominando a matéria e influenciando nas enfermidades, e o pensamento, a vontade e o subconsciente concorrendo para o mesmo fim, e por último, a folhas 69 e 70, linhas 21, 22 e 1 a 7 do referido livro, diz: “Por princípio, deve saber o paciente que não é com drogas ou eletricidade que se curarão os distúrbios da alma. Poderemos nós, médicos, fazer melhorar o estado geral, a fraqueza orgânica dos nossos consulentes”.
Não pode, falta à verdade, quando a causa é psíquica nas enfermidades nervosas, porque somente depois de removida a causa é que se pode conseguir fortificar o organismo que, só então, pode assimilar os fortificantes.
Prossegue o Dr. Austregésilo: “porém, para os estados morais doentios, só a palavra educadora, a persuasão do clínico e o bom e justo raciocínio, conseguirão afastar definitivamente as angústias, fobias, os medos e escrúpulos manifestados pelos nervosos”.
Não é verdade também que com palavras educadoras, como S. Sa. assegura, se possam curar tais enfermos, porque, enquanto a causa imperar, eles nada vêem nem ouvem, de nada querem saber que não seja aquilo que lhes é intuído e que vem e vive fora deles; e essa causa terrível não se afasta com palavras nem com raciocínios falsos.
No entanto, S. Sa. confessa a existência da alma, cujos distúrbios, como afirma, não se curam com drogas nem com eletricidade, com o que estamos de pleno acordo, visto que não sendo material a causa, não se lhe pode aplicar terapêutica material, mas a psíquica, que S. Sa. e os seus colegas ignoram.
Mas, se drogas e eletricidade não curam os distúrbios da alma, e se as palavras, mesmo conscientes, (quanto mais as inconscientes, como as dos que ignoram as causas) não podem curar, como afirmamos e provaremos oportunamente, mesmo porque entra aqui o velho ditado que afirma que para palavras loucas, ouvidos moucos, e quando não são loucas, mas dirigidas a loucos, essas palavras leva-as o vento, por não poderem penetrar na mente do indivíduo enfermo; se, pois, essas palavras e essa terapêutica não podem curar, o que é, então, que cura esses distúrbios da alma, a que se refere o Dr. Austregésilo?
Se, por um lado, S. Sa. se afasta dos seus colegas materialões, desrespeitadores dos princípios do pai da fisiologia moderna, Claude Bernard, e outros; se, confirmando a existência da alma e dos distúrbios desta, S. Sa. já traz um pouco de prudência, de moderação e de luz para o mental dos alunos de tais lentes e estabelece dúvidas entre os futuros médicos, o que já é uma grande coisa; por outro lado S. Sa. continua a “cantar de galo”, por falar do que não conhece e afirmar inverdades, como a da cura das perturbações da alma, com simples palavras, baseadas em princípios falsos.
A palavra esclarecida pode reeducar criaturas e erguer almas; no entanto, é indispensável que estejam despertas as pessoas a quem é ela dirigida. Tal não acontece com aquelas cujo estado de perturbação confina com a obsessão, as quais só dentro de correntes fluídicas, racionalmente organizadas, poderão atingir esse despertar.
Depois disso, a disciplina no viver, o controle da vontade e do pensamento, concluem a normalização dos portadores de distúrbios da alma.
Tudo isso exige, como imperativo inadiável, o conhecimento do que somos como Alma e como Corpo, e à ciência, sobretudo, cabe estudar integralmente a criatura humana.

12. Dores de consciência já sentidas


Por mais farofeiro, por mais pernóstico que seja qualquer indivíduo, pergaminhado ou não; por mais mestre em intrujices que tenha sido e queira continuar a ser, lá vem um dia, um momento, uma hora, em que raciocina com um pouco de acerto e atende aos ditames da sua consciência.
Quer isto dizer que não há ser humano, por mais vaidoso ou ignorante que seja, que não tenha a sua hora boa para reconhecer as suas faltas, e que nessas horas, nesses únicos momentos humanos da sua vida, não tenha vontade de regenerar-se, de desdizer-se, de tornar-se um homem honrado e, assim, de pedir desculpas pelos seus maus atos, praticados em prejuízo de todos, até da sua profissão, dos seus colegas e amigos, e de si próprio.
Está o Dr. Austregésilo nessa crise de bem pensar.
Está ele reconhecendo, agora, que fez muito mal em ter publicado o livro que estamos comentando, e maior mal ainda à sua vaidade em ter oferecido essa obra à ilustrada redação de A RAZÃO, como homenagem de S. Sa. à referida redação.
Se não houvesse feito tal oferta a A RAZÃO, não nos teria, agora, a dizer-lhe que nem tudo quanto luz é oiro, e que muitas vezes, como agora, no seu caso, não passa de latão amarelo, matéria-prima das esporas do Timpanas, que na Severa, de Júlio Dantas, representa o papel de rufião-ajudante, intrujão-mor do alquilador Romão, que, à fina força, procurava intrujar, passar as palhetas no Marialva, comprando-lhe o cavalo alazão cego, como se fosse possível alguém enganar um Marialva em questão de compra, venda e estado de cavalos de qualquer raça.
O Dr. Austregésilo, oferecendo-nos o seu livro e, assim, rendendo homenagem a A RAZÃO, como ele afirma, colocou-se no papel do alquilador Romão, da Severa procurando impingir-nos o seu alazão cego, que é, no caso, o seu livro.
Mas nós, já velhos conhecedores de todos os Romõezinhos, de todos os Timpanas, de todos os Marialvas, não nos deixamos levar pelo tamanho, cor e andar lépido de qualquer alazão dessa estatura marialvina, indo-lhe logo ao toutiço e percorrendo-lhe, com a mão direita, todo o corpo, descobrimos a cegueira e, com ela, o fraco do alazãozinho do Dr. Austregésilo, pois na corrida a que o obrigamos, mil tropeções tem dado sem que o seu dono, imitador dos finos, valentes e donairosos Marialvas, lhe tenha podido valer, nem mesmo o chamando à fala, para que venha, por estas colunas, justificar as mazelas que no dito alazão, (o seu livro) se encontram, já bem desenvolvidas.
Sempre ouvimos dizer que quando a consciência dói, o homem perde a força, a coragem, e torna-se um ser apavorado de si próprio e da sua obra.
Foi o caso do Dr. Austregésilo: num momento de pleno domínio da consciência, viu que de fato a medicina é ainda incompleta, pois apenas trata da matéria.
*   *   *
Tendo atingido pontos culminantes, no sentido experimental, para o estudo do homem-matéria, a medicina ainda nada fez para devassar o homem-espírito.
Eis a razão pela qual a medicina, como ciência, é incompleta, enquanto não dominar, por inteiro, essas duas partes do ser: a alma e o corpo.
Muitos médicos já estudam, em todo o mundo, à revelia das restrições acadêmicas, a fenomenologia psíquica, embora tenham de enfrentar o comodismo rotineiro e improdutivo dos mestres, que tudo supõem saber.

13. Não sabem o que dizem


Saber dar o nome aos bois, e assim saber com que bois lavra a terra, é o primeiro cuidado do lavrador que honra os seus deveres e a sua nobilíssima profissão, e é por isso que o homem consciente em qualquer assunto, diz logo: não aceito patranhas, porque sei dar o nome aos bois com que lavro a terra.
É o que felizmente nós também podemos afirmar neste caso das trocas e baldrocas, porque sabemos dar o nome aos bois com que estamos arando este árido terreno da explanação da verdade, deixado a baldio, em completo abandono, pelos que se dizem cientistas e literatos.
É claro que, se assim não fosse, não estaríamos aqui tão afoitamente a tratar de seara que até hoje era alheia para toda gente que não fosse pergaminhada nessa especialidade, e sentimo-nos tão à vontade, como se estivéssemos no melhor dos mundos, dentro da nossa própria casa, sem temer a menor contestação séria de quem quer que seja.

A maioria dos especialistas, infelizmente, não pode dizer a mesma coisa, porque não sabendo dar o nome aos bois nem pegar na rabiça do arado, tem andado em ziguezague, em bolandas, no campo torgoso e árido da medicina e da sua especialidade – as doenças nervosas.
Fazem lembrar, neste caso, a figura grotesca do cavaleiro Manchego, o legendário D. Quixote que, montado no seu esquelético rocinante, de lança em riste, arremetia contra todos os moinhos de vento que encontrava no caminho, e contra todos os rebanhos de mansos e pacientes carneiros que, apascentados por pacatos pastores, se abeiravam da sua via, tão truanescamente trilhada.
Tantas e tão despropositadas são as arremetidas contra o bom-senso, contra os princípios racionalistas baseados nas leis comuns e naturais, e até contra os mestres de medicina do passado, que nos fazem lembrar o D. Quixote.
Afirma o Dr. Austregésilo, no seu referido livro, a folhas 27, linhas 3:
“Um dos elementos mais necessários à cura dos nervos, está no exercício da energia da vontade.”
A folhas 71, linhas 2 a 4, também diz:
“Todos os acidentes neurastênicos e histéricos são curáveis, tudo depende de tempo boa-vontade do doente e do médico.”
¾ Mas diga-nos, Dr. Austregésilo, como é que S. Sa. quer uma vontade forte, boa, num enfermo do espírito, um fraco, como são todos os nervosos?
Tirar força da fraqueza orgânica e mental de um ser, só ao diabo lembraria!...
A folhas 182, linhas 18, diz ainda o sábio referido:
“A boa educação da vontade é meio caminho andado para a saúde dos nervosos.”
Está muito bem, aceitamos como certa esta terapêutica, mas perguntamos-lhe:
¾ O que é a vontade, qual a sua fonte de origem, como se deve educá-la, principalmente quando fraca, combalida pela enfermidade, sem afastar a causa desse estado mórbido do enfermo?
¾ Será possível reconstituir, mesmo materialmente, uma parte lesada, sem adotar os meios, os elementos necessários a essa reconstituição?
Pois a mesma lei é aplicada à alma, à parte psíquica a que S. Sa. se refere.
Depois destas afirmativas, depois de dar “a vontade como elemento curador das enfermidades nervosas”, depois de aconselhar o que não conhece, volta-se para outro elemento que também diz curador, que é o pensamento, e assegura: "Basta o indivíduo concentrar o pensamento no órgão atacado, para que medre novo sintoma aflitivo."
A folhas 40, linhas 14 e 15, diz: “O hábito de pensar erradamente é tão funesto, como o de tomar morfina ou álcool.”
¾ Mas, Sr. doutor, como é que a humanidade pode deixar de pensar erradamente, se os cientistas como V. Sa. não a esclarecem, para pensar com acerto?
¾ Como pode o povo nervoso, como V. Sa. diz, pensar acertadamente, e mui especialmente sobre as enfermidades que o torturam?
Mas afirma, ainda, o Dr. Austregésilo, a folhas 54, linhas 1 a 3, da sua citada obra: ... “porque o pensamento não é função absoluta da nossa vontade, como bem demonstra Dubois, etc.”
Se o pensamento não é função absoluta da nossa vontade, o que é ele, então? E o que obriga os seres a pensar errada e tão funestamente, como S. Sa. afirma, se o pensamento é um elemento livre dessa vontade?
¾ A que lei está, nesse caso, sujeito o pensamento que, como a vontade, tão real influência exerce sobre a saúde ou a enfermidade dos seres, como afirma o ilustre autor, e qual o ponto de apoio ou a origem desse pensamento, para poder ele existir e agir como age?
Afirma e nega S. Sa. com a mesma facilidade com que os garotos pulam os muros para irem as goiabas maduras, sem se lembrar que um mestre nada deve dizer, nada deve afirmar que não possa provar teórica e praticamente, de acordo com as leis naturais que tudo regem.
Dessa facilidade de S. Sa. dizer e não dizer com os sábios europeus, nasceram as verdades com que A RAZÃ0 está pondo na berlinda o Dr. Austregésilo, porque a ciência oficial ignora o que seja a Força, a Inteligência Universal, e como ela opera no mundo físico.
Afirmando o Dr. Austregésilo e seus colegas cientistas que o pensamento é um elemento que age (independentemente) da vontade da criatura, estão completamente errados.
Não é admissível a ação do pensamento sem o concurso da vontade, porque só esta pode orientar aquele para o bem ou para o mal, conforme a educação moral da criatura.

14. Educação psicomoral


Entre o amontoado de termos contraditórios e sem significado de tomar os efeitos pelas causas, de seu livro A Cura dos Nervosos, o Dr. Austregésilo, a folhas 30, linhas 1 a 3, tem esta tirada:
“Com a medicação apropriada, com a tonificação do sistema nervoso geral, com a educação psicomoral, os suores e as sensações estranhas podem desaparecer ou diminuir muito.”
Entretanto, a folhas 42, linhas 16, diz que para a cura dos nervos, o principal remédio é não tomar remédio, o que quer dizer – e ele o afirma por toda parte – que não é preciso tomar remédio para a cura de tão torturante enfermidade.
São constantes as contradições:
A folhas 30, assegura, desenvoltamente, que com medicação apropriada, tonificação do sistema nervoso geral e com a educação psicomoral se podem curar nervosos; para logo adiante, a folhas 42, dizer, como Dubois, de Berna, "Paz de remédes!" "Ayez confiance en vous!"
Isso está certo, mas um nervoso não pode raciocinar sobre esse conselho nem ter confiança em si, se não o esclarecermos, devidamente, fazendo-o compreender que ele próprio é quem engendra e mantém todas as perturbações funcionais que acusa, exclusivamente pelo seu viver errado a pelos pensamentos mórbidos que irradia.
Psiquismo significa funções ou coisas do espírito, fonte da moral. A medicina inventou esse termo; porque sente que há um elemento, além do material, que é imponderável, que não é visto mas que tem influência real sobre a vida dos seres, e, para não confundir causas invisíveis, partidas da Força, com causas materiais, criou as palavras psiquismo, psicologia e psiquiatria.
Ora, se o psiquismo diz respeito ao espírito e nele está a fonte da moral, a que vem o Dr. Austregésilo com a sua psicomoral, quando era bastante referir-se à educação psíquica,

que é de fato a moral, por ser a educação da vontade manejada pela Força que em nós existe?
A educação psicomoral, a que o Dr. Austregésilo se refere e aconselha na sua obra, é mais uma das muitas provas que S. Sa. dá ao leitor de que desconhece a composição do Universo como Força e Matéria, mas, agora, já não continua em campo de cegos.
Acabou-se o tempo dos reis e senhores inventores de termos para encobrirem a Verdade.
Agora, fia mais fino: pão é pão; queijo é queijo, e quem não tem suco real, verdadeiro, de mastruço, de erva-moura e outros, para curar o cancro roedor do bom-senso e do critério, não pode estar em público como homem de valor, nem ser útil a si e à humanidade porque, ao menor sinal da razão esclarecida, recolhe-se à sua insignificância, ou vai chorar na cama, que é lugar quente.

15. Medicina moderna precisa ser completada


As criaturas afirmam, por aí além, que a natureza não dá saltos. E se é verdade que tudo tem a sua época e todas as coisas, especialmente as grandes revelações, vêm a seu tempo ou em tempo próprio, guardamos, para ocasião oportuna, explicar:
1° A causa real de certas enfermidades nervosas;
29 Como se geram essas enfermidades, até chegarem ao alto grau de deformar o espírito e, paralelamente, também o corpo, degenerando-se em loucura, paralisia, etc.;
3° Como se afasta essa causa, se tonifica o organismo e se produz a normalização.
Antes de chegarmos a essa explanação da verdade, em medicina, precisamos preparar o espírito do leitor para que veja como a humanidade tem sido iludida e explorada.
Por ora, o nosso trabalho cifra-se em bombardear a vaidade, a prosápia, e o fazemos servindo-nos das palavras dos próprios médicos.
Sob a epígrafe A Ciência e os Fatos, escreve o reputado médico paulista Dr. Alberto Seabra[1], no seu livro A Alma e o Subconsciente, que “a psicologia clássica não atende à totalidade dos fatos psíquicos; finge ignorá-los, simplesmente. Faz como o avestruz, esconde a cabeça debaixo das asas, para não ver o perigo. Além disso, os fatos que ela incorporou ao conjunto do seu saber, excedem a medida das explicações materialistas.”
“Não é petulância afirmar que o materialismo é um saber incompleto, um sistema decrépito que seleciona, de propósito, tão-somente os fatos que julga poder explicar por meio de combinações atômicas e moleculares, pela ação exclusiva de forças mecânicas, pelas leis da físico-química.”
“Semelhante atitude mental contrapõe-se à dignidade do espírito humano e desvaloriza o prestígio da ciência.”
“Em ciência, atitude puramente negativa é ridícula. As negações científicas exigem demonstração.”
O Dr. Alberto Seabra estudou nos mesmos compêndios do sábio Austregésilo, como é
inteiramente independente da pecúnia dos homens, é tomado por nós como uma das
melhores bombardas para destruirmos as muralhas dos castelos científicos argamassados com a confiança de uns e a indolência intelectual de quase todos.

Mas nessa parte real, verdadeira, incontestável, não está sozinho o médico Alberto Seabra, que tem por companheiros os próprios mestres citados pelo Dr. Austregésilo, sem este saber como, e sem se aperceber da contradição que, para a sua profissão, trazem tais citações.
Ora, dizendo o sábio de Berna, o Dr. Dubois, citado e acatado pelo Dr. Austregésilo, a folhas 42, linhas 16:
“Pas de remédes! Ayez confiance en vous;”, quer dizer também, como o Dr. Seabra, que na própria pessoa está o remédio para a cura dos seus nervos.
Se a medicina é a arte de curar os enfermos com a prescrição de remédios pelos médicos receitados, se é para esse fim único que ela nasceu em Cós e em Delfos, e os homens a estudam, e se, depois de mais de quatro mil anos, vêm os sábios, consagrados como tais, dizer, como Dubois e outros, que o ser humano não deve tomar remédios, mas procurar em si próprio o remédio para os seus males, para os seus sofrimentos psíquicos, e do corpo, quando derivados daqueles, é porque essa arte de curar foi deturpada, foi falseada nos seus princípios básicos, e se tornou, em parte, nesse desvirtuamento, um mal para a humanidade, a tal ponto que o notável e honrado sábio Dubois aconselha aos nervosos a fugirem dos remédios.
Além dessas provas reais, temos mais a do convite feito em 1917 pela Associação Médico-Cirúrgica, desta capital, ao padre João Gualberto, para este padre, sabedor de coisas puramente materiais, dizer, em conferência, a esses eruditos médicos o que é a medicina e como aplicá-la com acerto, convite que comentamos, desenvolvidamente, em nosso jornal A RAZÃO, de 17, 18, 19 e 20 de setembro de 1917.
¾ Procurar um clérigo para explicar medicina a uma associação de médicos, equivale a dizer que esses médicos pouco sabem do seu ofício!
Que fossem os médicos procurar o padre João Gualberto para lhe confessarem os seus pecados, as suas fraquezas e vaidades e a ignorância da verdadeira medicina, vá, porque, seria, quando menos, um desafogo de consciência e provaria um pouco de desejo de não continuarem a prejudicar a humanidade, mas que se vá chamar um padre para ensinar medicina aos médicos, só ao diabo lembraria tal idéia.

16. Os porquês das mentiras científico-médicas, que tantos males têm causado à humanidade


Dissemos que a medicina é incompleta, e provamos essa afirmativa com o médico Alberto Seabra, com o próprio Dr. Dubois, citado pelo Dr. Austregésilo, e com o convite que a Associação Médico-Cirúrgica desta capital fez ao padre João Gualberto, certamente por não saberem a quantas andam, e por julgarem que esse clérigo, estando mais em contato com o "Deus-Católico", segundo eles, lhes pudesse demonstrar os porquês da vida e da morte, e assim a causa de uma e de outra, o que vale dizer: da saúde e das enfermidades.
Além desses, muitos outros eruditos médicos temos para citar, como prova de que, de fato, a medicina só poderá ser completa, se governos fortes impuserem a remodelação do ensino e acabarem, de vez, com a ciência-negócio, o maior mal dos homens de valor moral e intelectual que querem ir além dos que já foram, mas encontram essa barreira de vaidosos e indolentes, que impede o progresso da verdadeira ciência.
As mentiras científico-médicas têm por causa a ignorância dos porquês das coisas por parte dos mestres que por aí existem, como cogumelos entre os musgos dos castanheiros bravos das serras.
Ignorância, sim, porque afirmando que no Universo existem Força e Matéria, apenas tratam desta, quando eles mesmos asseveram que, por si só, ela não se pode organizar, incitar e movimentar, como disse o fisiologista Claude Bernard.
Ora, desde que esse princípio certo e seguro foi falseado, foi desprezado, para só tomarem por base e por causa de todos os males a matéria organizada, claro está que por terra tudo teria de cair.
Desprezado que foi o estudo da Força, da Inteligência Universal, torna-se de evidência solar que abandonada a verdade, ficamos todos - povos, clero e ciência – sob o império da mentira.
¾ Mas, perguntará o leitor, admirado destas verdades, terão assim agido por ignorarem essa composição do Universo, esses princípios básicos de tudo quanto existe, ou será cegueira proposital?
Nada disso, porque tais verdades foram reveladas pelos Mestres do passado, e da própria história da medicina fazem parte esses princípios, mas, depois da decadência da Grécia, a decantada civilização ocidental comodista, gozadora e má, vendo que o estado da Força e a prática da verdade importavam em sacrifício de comodidades, gozos, vícios e satisfação de desejos intemperados, de tudo o que têm sido as principais capitais do mundo moderno, especialmente Paris, as fontes, os fartos campos dessas misérias, as fartas mesas desses banquetes animalizados e bestiais, com desprezo profundo pelo homem propriamente dito; vendo essa moderna civilização que a vida, baseada na Força Inteligente e na prática da Verdade, dela originada, só sacrifícios do corpo e da alma lhe impunha, abandonou essa Força, essa base de tudo, e ficou na infecta matéria, elemento sem responsabilidade alguma na existência dos seres.
Nada mais, nada menos do que isso, e tanto assim é que quando a maioria dos sábios materialistas é atacada, como agora, de frente, para que venha explicar o seu saber, justificar os princípios em que se baseia, grunhe e rosna umas palavras sem nexo, sem fundamento sério, e cascalha com os queixos, à maneira dos onagros, dizendo:
Se isto fosse verdade, já nós teríamos sabido, ou então “não descemos a discutir com leigos, charlatões e doidos, que outra coisa não são, para eles, os investigadores honrados que vieram a este mundo para se baterem por causas justas e pelo bem geral.
São assim, dizem assim, riem assim, essas figuras grotescas, animalizadas, dos sábios da época, que se julgavam invioláveis na sua prosápia científica.
Se quisessem ser honestos e verdadeiramente cientistas, fácil lhes seria essa fortuna, recorrendo ao berço da medicina, à fonte da verdadeira ciência, e de lá trariam a convicção dos porquês das coisas, como a têm trazido sábios de valor intelectual e moral, reais e verdadeiros, entre os quais se destaca o Dr. Paul Gibier, naturalista do Museu de História Natural, oficial da Academia, cavaleiro da legião de Honra, investigador a quem a Faculdade de Medicina de Paris, por esses e outros trabalhos notáveis, concedeu a mais elevada recompensa.
Na sua obra Análise das Coisas, escreveu ele, a folhas 30, linhas 16 a 28, o seguinte:
“Para compreender-se a essência da vida, não é inútil fazer-se o exame comparado do Universo e do homem, do Macrocosmo e do Microcosmo.”


“E depois só podemos ter concepções claras das coisas, elevando nossa alma acima das operações ordinárias do pensamento, de onde nascem, quase sempre, os preconceitos, as idéias errôneas, as ilusões a respeito do que nos cerca.”
“É mister libertarmos, embora momentaneamente, o nosso espírito do quadro estreito da vida cotidiana, a cujas exíguas dimensões ele tende a amoldar-se.”
A folhas 31, linhas 10 a 26, diz ainda esse notável médico:
“Outra condição que importa também não desprezar, é a de curar-se o homem deste orgulho que acompanha inevitavelmente uma má educação cientifica e uma instrução especializada incompleta, como são tão freqüentes em nossos dias.”
“Pessoas muito esclarecidas em um pontinho especial dos conhecimentos humanos, julgam poder decidir arbitrariamente sobre todas as coisas, e repelem, sistematicamente, toda novidade que lhes choque as idéias, quase sempre por este único motivo, que em geral não confessam: que se aquilo fosse verdade, elas não podiam ignorar!”
“Por minha parte – diz ainda o Dr. Paul Gibier – encontrei freqüentemente este gênero de bazófia entre homens cuja instrução e estudos deveriam preservá-los dessa deplorável enfermidade moral, se não tivessem sido especialistas escravos de sua especialidade.”
“É um sinal de inferioridade relativa, uma pessoa julgar-se superior!”
Esse final do notável bacteriologista, querido discípulo de Pasteur, é o retrato fiel dos sábios pretensiosos da época.
É, pois, a falta desse estudo do Macrocosmo e do Microcosmo, do Universo e do homem, pois este é, em sua composição, o Universo em miniatura, a causa das mentiras científicas.
Quer isto dizer que tais cientistas não se conhecem a si mesmos, na sua composição psíquica e fisiológica.
Esses não são sábios, e deixam de ser úteis à humanidade, por se converterem em fonte de vaidades e de vícios.

17. Parecer e não ser mestre copista


Parecer e não ser, é o estado enganador de muitos, especialmente da gente política e religiosa que acredita que todos os meios são bons ou servem para chegar aos fins reprovados que têm em mira, como o de iludir a humanidade com hábitos, maneiras e palavras melosas; é a requintada hipocrisia em ação.
Mas, que parecer e não ser fosse o estado atual de um considerável número de cientistas e da maioria dos professores e que a mentira se erigisse no estado normal de tal gente, é que ninguém, até hoje, tinha pensado, por lhe parecer impossível.
Embora sendo uma tristeza, uma tremenda desilusão para o público o que aí fica é a pura verdade, como o leitor tem observado e continuará a observar daqui em diante, afirmado por homens de valor real, já libertos das garras da tal ciência oficial; e, assim, de todos os preconceitos sociais e de classe.
Não é, pois, o que parece, o livro que o Dr. Austregésilo escreveu, porque:
1º) tendo usado em A Cura dos Nervosos linguagem simples, como afirma no prefácio do livro, desde a primeira linha, nada adiantou, nada disse de novo sobre a cura dos nervos;
2°) escrevendo tal livro, iludiu o povo e os seus discípulos, pois não tem ele originalidade nem coisa alguma que demonstre ser um criador, um investigador consciente, um homem dedicado à causa da ciência e da humanidade;
3º) o Dr. Austregésilo, em tal obra, provou ser um simples copista das observações e trabalhos alheios, como os de Dejerine, Guackler, Zbinden, Fleury, Levy, Payot, Eymieu, Bernheim, Thomas, e, sobretudo, os do professor de neuropatologia da Universidade de Berna, o Dr. Dubois.
O referido livro é o que se pode chamar uma manta de retalhos, uma manta pregada aos enfermos dos nervos, ao público e aos seus discípulos.
É todo ele calcado na obra do Dr. Dubois, editada em 1904, sob a denominação de Les Psichonevroses et leur Traitement Moral – Leçons faites à l'Université de Berne par le Dr. Dubois; que, em português, quer dizer: “As enfermidades psiconervosas e o seu tratamento moral – Lições produzidas na Universidade de Berna, pelo Dr. Dubois”;
4º) essa cópia verifica-se desde o prefácio em que ele fala da psicoterapia educadora dos que sofrem física ou moralmente, da influência do espírito sobre o corpo, até a última página, em que trata da preponderância da vontade e do pensamento na cura dos nervos, da educação psicomoral, da alma do nervoso e da psicoterapia, até ao hábito de pensar erradamente, etc.
Que essa cópia da obra do Mestre francês foi leviana e atabalhoadamente feita, prova-o o fato de o Dr. Austregésilo haver empregado a terminologia de Dubois, baseando-se nos seus princípios, sem os chegar a compreender, do que resultou misturar a sua zurrapa de tal forma, que estabeleceu o ser e não ser, o é e não é, o precisa e não precisa de remédio, a cura e a não cura sem fortificantes, demonstrando que, mesmo como copista, não soube respeitar o Mestre nem os seus próprios discípulos, aos quais devia confirmar o que afirma o Dr. Dubois na sua primeira lição, a folhas 4, linhas 31 a 33, e folhas 5, linhas 1 e 2, em que trata das inovações sucessivas da medicina e dos erros de orientação dos estudos médicos, quando escreve:
On oubliait les troubles fonctionnels, les névroses; on négligeait le côte psychique de l'être humaine, et je me suis permis de dire il y a bien longtemps: Il n'y a entre la medicine et l’art veterinaire qu'une difference de clientélle! C’est encore vrai aujourd'hui", cuja tradução é a seguinte:
“A medicina tem esquecido as perturbações funcionais, as neuroses, tem descurado, por completo, a parte, o lado psíquico do ser humano, a ponto de me permitir dizer, há já bastante tempo: que entre a medicina e a arte veterinária, a única diferença que existe é a da clientela! O que é, ainda hoje, verdade.”
A folhas 21, linhas 11, diz esse mestre de Berna:
“A imensa maioria dos médicos, compenetrados somente do seu papel de médicos do corpo, é nos órgãos do abdome que os praticantes vão procurar a causa de todas essas perturbações psíquicas e nervosas."
A folhas 20, linhas 11 e 12, assegura também o Dr. Dubois:
“O nervosismo é um mal psíquico, antes de tudo, e ao mal psíquico é preciso aplicar-se tratamento psíquico.”
A folhas 496, linhas 11 e 12, esclarece ainda o mesmo cientista:
“A neurastenia é mal psíquico, que pode ser tratado em qualquer lugar!”
A folhas 497, linhas 13 a 15, referindo-se a um comunicado de um seu cliente, médico especialista em Ginecologia, salienta:
“A amenorréia, a dismenorréia, as flores brancas, podem ter uma origem psíquica.”
Mas o Dr. Austregésilo não quis dar as mesmas lições, no seu livro, aos seus discípulos, porque:

1º) a primeira afirmativa do professor Dubois, nivelando o médico ao alveitar, ao ferrador antigo, e a medicina a essa arte de curar burros e cavalos, vinha provar o que dissemos;
2º) afirmando o mesmo Mestre Dr. Dubois que os médicos em geral vão procurar a causa das enfermidades nervosas na barriga dos enfermos, quando ela é psíquica, dá-lhes, assim, o diploma de seres inúteis;
3º) afirmando, ainda, o mesmo Dr. Dubois, que a causa dos nervosos e das neurastenias é psíquica, atira por terra toda a teoria materialista e a própria medicina, que toma efeitos por causas, por só tratar da barriga dos enfermos e da sua própria, como qualquer brutinho irracional.
Essas admiráveis lições do professor Dubois estão de acordo com as do Racionalismo Cristão, explanado por nós desde 1910.

18. Um parto científico após catorze anos de gestação


Ha um axioma racionalista que diz: Tudo progride e nada retrograda ou estaciona por muito tempo. Este axioma é baseado nas leis comuns e naturais, que absolutamente não falham, por serem inerentes à Inteligência Universal.
Até agora não se conhecia nem sombra de exceção para tal regra, porque os homens, apesar da sua imperfeição moral, faziam o que podiam e eram, quando menos, intuídos ou empurrados por outros elementos astrais, também sujeitos a essa lei.
Há também ditados que afirmam que quanto mais se vive, mais se aprende, ou que morrer e aprender ou, ainda, aprender até a morte, o que se pode agora aplicar com a exceção por nós notada a essa regra, determinada pelas leis do progresso, e esta exceção consiste no estacionamento, na prolongadíssima gestação de um filho da exma. ciência oficial.
Mas, vejamos o caso que nos interessa:
Em 1904, publicou o Dr. Dubois um livro, contendo as suas lições dadas na Universidade de Berna, a que nos referimos. Nessas lições, trata o Dr. Dubois:
1º) da influência do espírito sobre a vida fisiológica (do corpo dos seres humanos);
2º) do pensamento e da vontade na cura dos nervosos;
3°) dos males da alma, aos quais se deve aplicar uma terapêutica psíquica;
4°) deixa bem claro o insigne Mestre que as enfermidades nervosas têm causa psíquica, assim como outras enfermidades do corpo.
Pois bem, catorze anos depois, em 1918, o Dr. Austregésilo dá à luz um produto desse robusto filho do professor de Berna, um livro copiado do editado em 1904, como advertência à medicina oficial, comparando o médico ao alveitar, com a única diferença que esse pimpolho científico-literário não se parece, em beleza de alma, com o seu respeitável pai da Suíça, o Dr. Dubois, e sim com o mental de sua mãe, que, neste caso, é o Dr. Austregésilo.
A semente do professor Dubois é sã, é joeirada, exala o perfume da honradez do seu semeador, ao passo que o seu produto saiu, depois de catorze anos de gestação, disforme, amostrengado, sem pés nem cabeça regulares, perfeitamente zarolho, mazorro e cambaio.
A parte boa, a parte honrada da semente, não pôde germinar no mental de sua mãe, nem gravar-se no subconsciente da mesma, porque, de acordo com a lei de atração, os similares se atraem e os contrários se repelem, e assim não podia o Dr. Austregésilo atrair e gravar a boa semente de Dubois no seu árido terreno mental, porque este, (filho do mal, e só no mal, que é a vaidade) pensando, repelia o bem, que é o bom-senso, a lealdade, a honradez do professor Dubois, quando define a medicina e o médico tal qual são uma e outro, e opta pelo tratamento psíquico, educador da alma, esforço da vontade e pureza do pensamento, elementos, que ele, Dubois, sente em si, por havê-los observado na fenomenologia das várias enfermidades, mas cuja causa ignora, por desconhecer, como todos, o que seja a força em si e a matéria em si, e assim as diversas categorias destes dois princípios de que se compõe o Universo e o próprio homem, e como a eles se aplica a lei física da atração dos corpos.

19. Por si se destroem

Os pseudo-sábios e a ciência de fancaria

Há, lá para as bandas lindíssimas e fertilíssimas do oeste paulista, um ditado, entre o bom povo, o puramente nacional, que afirma: “quando o urubu está caipora, não há galho que não quebre ao procurar pouso para descansar”. Então diz o campônio, com a graça e bravura que lhe são peculiares, ao valentão fanfarrão, quando apanha uma desanca:
¾ Quá, nhô Quim! (e quem diz Quim, diz nhô Doutô) vancê 'stá mesmo um urubu caipora!
Este ditado nós o podemos, com verdade, aplicar ao caso presente.
Não trataremos o Dr. Austregésilo de urubu, esse pobre alado que por toda parte abunda a fazer de empresário da limpeza pública, mas podemos, com acerto, denominá-lo de gralha caipora, por haver-se enfeitado com as penas do pavão real chamado Dubois, que nos artísticos parques, nos relvados lindíssimos que os orlam, enfeitando cristalinos lagos de propriedades solarengas medievais, de estilo gótico-bizantino, da velha Europa, ou nos lindos e originais chalés suíços, passeia, vive e medita sobre as coisas sérias da vida, sobre a nulidade da ciência defeituosa e da sua perigosíssima prática por criaturas repletas de vaidades e vícios.
Pelo que até aqui temos dito por nossa conta, e transcrevendo eruditos de real valor, fácil se torna verificar a certeza desta afirmativa, mas como a abundância de provas só pode beneficiar os inocentes e mais condenar os delinqüentes, lá vai mais uma das que muito aproveitam ao leitor e à humanidade.
A folhas 189, linhas 3 a 5, do livro A Cura dos Nervosos, diz o Dr. Austregésilo:
“De todas as escolas, a melhor é a de Dubois, de Berna, em que a persuasão afetiva constitui a base do tratamento moral ou psíquico.”
Quer isto dizer que se de todas as escolas, a melhor é a do Dr. Dubois, está por terra a medicina Austregesiliana, baseada na matéria, que mesmo viva, não pensa, e por terra estão, assim, todas as teorias materialistas, porque Dubois, além do que já transcrevemos da sua obra de 1904, copiada na parte vulgaríssima pelo Dr. Austregésilo, continua a afirmar, em todo o seu livro:
a) que a medicina atual está nivelada à arte de curar irracionais;
b) que a causa das nevroses e de algumas enfermidades do corpo, é psíquica, e não está nas células de parte alguma do corpo humano, e para mais salientar a sua opinião, torná-la bem clara, bem patente, salienta o Dr. Dubois, a folhas 32, linhas 20 a 26 da sua obra citada:
“Não resta dúvida que existe, entre os feitos de consciência e o estado físico do cérebro, um abismo, para mim intransponível.”
“Eu não posso, de forma alguma, conceber como é que o trabalho fisiológico das células cerebrais pode engendrar uma sensação, fazer nascer uma idéia.
“Posso afirmar que ignorava e continuo a ignorar”, conclui ele.
Esta afirmativa já foi feita, antes de Dubois, por muitos outros notáveis professores e médicos, entre os quais se acha o nosso saudoso e grande Mestre Visconde de Sabóia, quando ainda diretor, lente jubilado da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e membro de diversas sociedades científicas brasileiras e estrangeiras, de cuja abalizada opinião lançaremos mão, em ocasião azada, para, com ela, reduzirmos os materialistas de cá e de lá, de aquém e além Atlântico, às suas verdadeiras proporções, não de gralhas caiporas, mas de cágados e batráquios neurológico-científicos, porque outra coisa não merece quem tão ousadamente vem afrontando o saber; o bom-senso dos outros e a confiança da mocidade das escolas e de toda a gente.
Sendo, pois, a Escola do Dr. Dubois a melhor de todas, como reconhece o Dr. Austregésilo, e afirmando esse sábio que o cérebro não pode engendrar sensações ou qualquer idéia, qualquer pensamento, (apesar de Dubois ignorar ainda a fonte, a causa das sensações, das idéias e dos pensamentos) fica clara a nulidade da mestrança do Dr. Austregésilo, e destruída a sua teoria materialista de que o cérebro segrega o pensamento como o rim a urina, e a sua própria nomeada de mestre de coisas, cuja ignorância acaba de confessar, com Dubois.
¾ Em que posição fica, pois, colocado o Dr. Austregésilo, se ele próprio, concordando com Dubois, se destrói?
Todos sabem que o ser ou não ser, do grande dramaturgo inglês, não se pode aplicar a princípios sérios, como os científicos, e desde que o Dr. Austregésilo apresenta, como a melhor das escolas, a do professor Dubois, de Berna, é obrigação sua dizer aos seus discípulos que cessa tudo quanto a Musa Médica Oficial canta, porque outro poder mais alto se levanta, destruindo, neste momento, as teorias materialistas, e que, por isso, ele, Austregésilo, faz uma parada nessa corrida de professor, até que possa, em lugar próprio, estudar, compreender e praticar a terapêutica psicomoral autêntica, o verdadeiro psiquismo, a que se refere o mestre Dubois, para depois voltar à escola médica do Rio de Janeiro, como mestre e cientista da verdade.
É isto que S. Sa. deve fazer.
Por si próprio, destruindo a sua teoria materialista, confessando, com Dubois, que ela é falsa, em medicina, a ponto de nivelar o médico a um ferrador antigo, é agora tratar de descer desse pedestal de barro em que se colocou, e vir dizer, em público e raso:
¾ “Eu, Dr. Austregésilo, da Academia Brasileira do Rio de Janeiro, Professor Catedrático de Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina da dita cidade, médico do Hospital da Misericórdia e Membro da Sociedade de Neurologia de Paris, declaro que vou estudar a verdadeira ciência, que é baseada em Força e Matéria, para depois vir ensiná-la aos meus discípulos.”
Faça assim, Dr. Austregésilo, por ser esse o seu dever de homem verdadeiramente honrado.

20. Pedantismo científico

Discípulo ingrato - brasileiro que não o sabe ser

Afirmam os latinos “que dos audazes a fortuna é certa”; mas, antes e depois dos latinos, entre os egípcios, hindus e gregos, também se afirmava, e continua a afirmar, que “os males com que atormentamos o próximo nos perseguem como a sombra ao nosso corpo”, e que em virtude desse princípio, “quem mal faz para si o faz”, e “mais tarde ou mais cedo, cada um tem o que merece” e paga, com usura, o mal que faz a outrem e, mui especialmente, a audácia de haver faltado à verdade.
É o caso dos cientistas materialistas.
Acreditando-se em terra de cegos, julgam os outros por si, atirando para cá, para o mundo ledor, as suas obras, algumas verdadeiras mantas de retalhos. O livro A Cura dos Nervosos foi calcado no trabalho de Dubois, e como coisa nova e original apresentado, faltando à verdade.
A obra de Dubois gira em torno do valor do espírito, do pensamento e da vontade sobre o corpo físico, sobre a matéria organizada, numa palavra, sobre a real influência dessa trindade.
É essa trindade que constitui a escola de Dubois, considerada, entre todas, pelo Dr. Austregésilo, a melhor (vide sua obra a folhas 189), tida e havida como coisa nova, como descoberta moderna, para explicar os vários fenômenos, e muitos sintomas que os clínicos notam nos enfermos que os procuram, e, por esse meio, condenar a teoria materialista, de grande prejuízo para a humanidade.
O que são, porém, o espírito, o pensamento e a vontade, sua fonte de origem, as suas diversas categorias e como devem elas ser usadas na vida física, neste planeta inferior, é o que nem Dubois nem seus copistas sabem.
Mas isto de os eruditos falarem do que não conhecem, fica para depois; o caso, agora, é outro: provar que, ainda desta vez, se verifica que não há nada de novo sobre a Terra, e que, por isso, novo não é o que afirmam o Dr. Dubois e o seu discípulo Austregésilo.
Não há nada de novo sobre a Terra, e nova não é a teoria, a escola de Dubois e do Dr. Austregésilo, porque:
1º) do espírito, do pensamento e da vontade, trataram, com real proveito, os egípcios, os hindus, os chineses e os gregos, na Antigüidade;
2º) a própria medicina, como arte de curar, é filha legítima desses três elementos, e praticava-se nos templos erguidos em honra de Esculápio;
3º) essa prática se verificou (entre outros lugares), na ilha de Cós, pátria de Hipócrates, e também de Epidauro, Siracusa, Pérgamo, Esmirna e Atenas, onde funcionavam os Asclepíades, bem como em Delfos, cujo templo era o mais célebre, onde o ofício divino consistia na cura das moléstias, e aí foi Hipócrates buscar as primeiras noções da “divina arte de curar”;
4º) além disso que aí fica, mesmo depois de Cristo, até aos nossos dias, muitos têm tratado dessa trindade, embora pela rama, desconhecendo a sua fonte de origem, mas, pelos efeitos observados por eruditos propagandistas dessa teoria, que tem por base o espírito ou alma, o pensamento e a educação da vontade, de todos se destaca o grande mestre brasileiro Visconde de Sabóia, diretor da Faculdade de Medicina desta Capital, como se pode verificar na sua magnífica obra, de 622 páginas, denominada A Vida Psíquica do Homem, publicada antes da de Dubois e outros citados pelo Dr. Austregésilo, e por este desprezado, unicamente por não provir da Europa e ser genuinamente brasileira, e assim honradíssima e a mais desenvolvida e de melhor clareza de quantas existem, até hoje, como o leitor terá ocasião de verificar;
5°) de tal assunto trata, também, da melhor maneira que lhe foi possível, Prentice Mulford, que escreveu quatro volumes, de perto de 400 páginas cada um, sob a epígrafe As Nossas Forças Mentais, traduzidos do inglês por D. Palmira de Abreu Castelo Branco, e editados em São Paulo; H. Durville, em diversos trabalhos e experiências científicas realizadas em Paris, Dr. J . Ochorowiz, Charles Richet, (que condena a influência da rotina e do hábito da ciência oficial), do Dr. W. Gebhardi, que diz na sua obra denominada Como se Adquire Energia:
a) Mal se acredita quanto pode o homem, pela força de sua vontade firme;
b) Se o espírito quer, o corpo cede;
c) Só um tratamento médico orientado pela relação viva entre a alma e o corpo, pode operar uma transformação.
Nessa obra, o seu autor indica, ainda, a maneira prática de fortalecer a vontade, para adquirir energia.
Além desses eruditos de valor, temos também grandes moralistas, como Spencer, Marden, Samuel Smiles e outros, cuja base dos seus trabalhos é essa trindade sublime: alma, pensamento e vontade.
¾ Por que, então, só agora o Dr. Austregésilo se lembrou de fazer propaganda desses princípios puramente psíquicos, contrários a toda ciência materialista, copiando o Dr, Dubois, quando, no seu grande país, rico de talentos e de honradez, existia trabalho completo?
¾ Por que só agora se achou com coragem para isso, visto que, escravo das mentiras convencionais, sentia-se fraco para afrontar e suportar o desdém dos seus colegas, e isso mesmo só o fez copiando Dubois e apresentando-o ao seu público e colegas como o escudo protetor de que precisava?
Provou, assim procedendo, ser um discípulo ingrato, porque não soube respeitar o seu mestre, Dr. Sabóia, que, antes de todos, tratou do assunto, com mais clareza e proveito.

21. O diabo tornado ermitão


Isto do diabo tornar-se ermitão, é também um ditado popular que se aplica aos indivíduos ultravelhacos e malfeitores, que vêm a público com ares seráficos, maneiras e gestos estudados, pregar moral, fingir que pugnam pelo bem e se interessam por alguém ou pelo progresso da humanidade.
Quando um ser é de condição, de origem espiritual reconhecidamente hipócrita, traidor incorrigível, mas que precisa e quer, em dado momento, chegar a brasa à sua sardinha e tirar a dos outros com a mão de gato, que é como quem diz: quando precisa aumentar o “seu”, à custa do alheio bem-estar, e sabe que é fartamente conhecido, veste-se, mentalmente, com o hábito de monge honrado, de ermitão boníssimo, torce e dobra o rabo para as costas, amarra-o à nuca, calça`sandálias, para que se não vejam as patitas rachadas, à maneira dos bodes, arranja uns ares de bondade e, mãos cruzadas sobre o peito, lá vai ele por esse mundo fora, a dizer o que não sente, o que não sentiu e jamais

sentirá, por ser de inferior espiritualidade; e assim vestido de monge, de ermitão, procura engazopar os que o ouvem, os que lhe dão atenção.
Chama-se a isto “o diabo tornado ou transformado em ermitão”; e é esta a figura que representa a ciência materialista, agarrando-se ao Flos-Sanctorum, livro que trata da vida por moedas de oiro, metal sonante, cá fora, no mundo profano, para, com esse auxílio, fazer acreditar que está convertido, que já acredita em Deus e em todos os santos da Corte Celestial, como dizem os padres romanos.
Ao tratar da educação da vontade (que o Dr. Austregésilo não explica como se faz), e da influência que o médico pode exercer sobre o enfermo, desde que procure merecer deste os elementos de “seguranza” para conquistar-lhe o apoio moral, (folhas 199) diz ele, a folhas 200, linhas 1 a 5, da sua citada obra:
“A bondade, com a paciência para com o enfermo, é dever terapêutico e humano, cumpre mostrar-se não dura e áspera, e sim doce e suave, como aconselha Santo Inácio, em seus exercícios.”
Ora, aí está o diabo da ciência oficial a meter-se no burel e na alma do ermitão, o célebre Santo Inácio de Loiola, para iludir os Católicos Apostólicos Romanos e encobrir a ignorância sobre as coisas sérias da vida, que são só as da alma, e torna-se aceitável, quando tem certeza de que o povo já a não toma a sério
Vê bem o leitor que agora até a sotaina, o hábito e o monge, servem de capa para encobrir as mazelas dos preconceitos sociais.
Mas como tudo se ressente da origem, lá foi essa ciência, por intermédio do seu mais cotado instrumento, atraído pelo passado deste Santo Inácio de Loiola, de fundo hipócrita e mau como o seu próprio, e assim se desmascarou, em vez de ocultar-se debaixo da roupeta desse chefe feroz do jesuitismo de todos os tempos.
Cabriolando para o campo religioso, procurou o mais hipócrita, que é o Católico Apostólico Romano, e deste o mais requintadamente velhaco, que é o jesuítico, e nele foi buscar a força para a sua fraqueza científica, quando nessa lista de santos de Roma existem alguns de moral superior é desse “santo” infeliz, desse mau discípulo de Jesus.
É a tal coisa da lei comum e natural: os similares se atraem e os contrários se repelem porque, se assim não fosse e o Dr. Austregésilo quisesse exibir conhecimentos dessa natureza, ficava-lhe melhor, e dava mais substância à sua causa, ler e citar os padres Manoel de Nóbrega, José de Anchieta, Antonio Vieira, pais da literatura brasileira e modelos de virtudes, (embora delas se tenha o autor divorciado, em obras e pensamentos) frei Jaboatão, o cronista do Norte; frei Gaspar da Madre de Deus, o cronista do Sul, da Capitania de São Vicente, frei Francisco de Mont'Alverne, o grande orador sacro do Império, e outros grandes brasileiros no fundo e na forma, (embora nascidos os três primeiros fora do Brasil). Citando-os, o Dr. Austregésilo poderia ter ao menos deleitado o espírito de seus leitores e discípulos.
Em desespero de causa, porém, atirou-se ao que mais se harmonizava com o seu fundo espiritual e o fundo de todos os perdidos materialistas, e lá vem o nosso amigo fazer-se de ermitão, agarrando-se à alma grandemente criminosa de Inácio de Loiola, para mais fácil se lhe tornar o papel de “Judas” da sua ciência materialista, e mais facilmente fugir ao julgamento que a trindade vencedora de todos os tempos - espírito, pensamento e vontade, por intermédio de “A RAZÃO” lhe está submetendo.
Mas enganou-se o Dr. Austregésilo, porque tão cedo não ficará liberto das garras da verdade que, por nosso intermédio, o está zurzindo, e a toda essa "companhia do elogio

mútuo", que durante séculos tem vivido intrujando a humanidade e abusando da sua confiança.
Além de ir-se amparar nos chefes dos Jesuítas, e, assim, na fonte do maior mal social que jamais existiu, além de ir confirmar o outro ditado que diz lé com lé, e cré com cré, que quer dizer, mau com mau, além dessa prova de falta de patriotismo, ainda erra, mais uma vez, quando diz que o curador de nervosos deve ser somente doce e suave, como aconselha Loiola, quando é justamente o contrário: o que trata de loucos e de outros enfermos cuja causa é um vício qualquer, filho da má educação da vontade e da própria fraqueza destes, (que é o vício mais terrível que pode ter um ser) tem obrigação de ser boníssimo, mas forte, enérgico, parecer, por vezes, áspero, não desculpar a menor falta, contrariar todas as vontades viciosas ou fracas do enfermo, impor-lhe a sua vontade forte de acordo com os ensinamentos constantes do livro Racionalismo Cristão, para assim o auxiliar a reagir contra o mal que o avassala.
Continua, pois, o Dr. Austregésilo a provar, com estes autores e conselhos, que nem mesmo o “milagreiro santo”  Inácio de Loiola o salvou desta vez.

22. Não mais imperam os loiolas científicos


De rebater mentiras, clarear dúvidas, desvendar misérias científicas, políticas e sociais, desnudar patifes dourados e entregá-los ao julgamento do povo, mostrando-os tais quais são, tem sido a nossa vida, desde os 18 anos de idade até agora, e mais eficazmente, desde 1910 em que, encontrando a verdade, com ela caminhamos, de braço dado, para toda parte onde haja um ser honrado e defender, um oprimido a libertar, um individuo ou uma associação de indivíduos a esclarecer ou a corrigir.
Se a verdade tivesse sido procurada com afinco, com a possibilidade, como agora, de ser explanada, não teríamos de notar e até ver imperar algures, as ridículas doutrinas espalhadas pelo mundo, para embrutecer os povos.
1º) Não haveria a doutrina epicurista[2], sem dúvida uma grosseira deturpação do pensamento elevado e espiritualista do autor, da qual fizeram os deturpadores a primeira teoria sistematizada em oposição à espiritualidade, quando encara a vida apenas como oportunidade para a satisfação de gozos materiais;
2º) A doutrina positivista, criada por Augusto Comte, que se propõe a tratar dos conhecimentos humanos, sujeitos à observação externa e à experiência, estabelecendo e sustentando, em nome da ciência, (ou da razão e contra a razão, afirma Sabóia), que somente se deve admitir como real e verdadeiro o que pode ser observado e diretamente experimentado, medido e pesado, desprezando-se a causa e quedando-se na matéria organizada, como qualquer preguiçoso intelectual;
3°) a doutrina monista, cuja paternidade pertence a Haeckel, que nunca viu monera alguma, e por isso a descrição que ele faz desse ser não passa de uma fantasia quase burlesca, imprópria de um homem de ciência, como afirma e prova o Visconde de Sabóia, de folhas 45 em diante da sua já por nós citada obra;
4°) a doutrina evolucionista, cujo genitor foi Spencer, que tirou do Positivismo e do Darwinismo os princípios fundamentais para a sua concepção do Universo, afirmando, como Comte, que não podíamos conhecer senão os fenômenos visíveis e palpáveis, tanto físicos como biológicos e sociais, e a solução de todos os problemas cosmogênicos e antropológicos, sem exceção da origem dos seres;
5°) a doutrina materialista, que pretende explicar a existência do mundo e de tudo que nele se revela ou manifesta, pela matéria e pela força, mas sem saber o que elas são.
Esta doutrina, que teve e tem apologistas e detratores, foi abraçada, em seus princípios fundamentais, pelos discípulos deturpadores do pensamento de Epicuro, tanto na Grécia como em Roma.
Quer isto dizer que tais doutrinas, por nós fartamente conhecidas, nunca passaram do campo puramente material, do mundo puramente físico, e por isso nenhuma delas se entendia, todas se digladiavam, todas se contestavam, vivendo dentro do mesmo círculo vicioso da matéria organizada, e nada mais.
Nenhuma delas chegou à descoberta da Verdade, que é a compreensão da Força, porque todas desprezaram este elemento que organiza, incita e movimenta a matéria, para só tratarem desta, e para ela viverem.
Por aí se infere que sabemos o que sabem os cientistas materialistas, porque até aos cinqüenta anos foi esse o nosso estudo, o nosso trabalho: a procura da Força, a procura da Verdade, já que resultara improfícuo o esforço que fizemos para descobrir a sede da loucura no corpo humano, por estar ela inteiramente fora da matéria.
Assim afeitos à luta e a caminhar, de viseira erguida, sorriso nos lábios, passo firme, por todos os campos onde mais se precise de força mental, da luz da Verdade para beneficiar os que sofrem, e, sobretudo, para auxiliar o progresso da humanidade, sentimo-nos sempre bem quando, como agora, precisamos divergir de afirmações não provadas.
Temos dito muitas vezes que estamos prontos para discutir com quem quer que seja, e que quanto mais alta for a posição de destaque ou o valor dos haveres do nosso contendor, mais alegres, mais à vontade nos sentiremos.
Mas a ciência materialista e seus representantes não querem entender assim, e levam para aí a bazofiar, às escondidas, umas coisas que não podem passar sem rebate, por indignas de nós e da Doutrina Racionalista, a que servimos; por isso, preciso se nos torna clarear a situação, para que a mocidade estudiosa, os médicos e demais pessoas bem intencionadas não nos confundam com esses cientistas de Loiola.
Para ver se se salvam do ridículo a que já chegaram no conceito da gente séria, das pessoas que sabem ler e raciocinar, espalham, que nós, afirmando verdades e rebatendo mentiras, negamos o valor e o progresso das diversas disciplinas inerentes ao estudo da ciência da matéria, e queremos destruir obras-primas e descobertas importantes, nesse sentido.
Assim tentaram eles, mas em vão, fazer-nos passar pelo que não somos e jamais seremos. Uma intriguinha barata, como se vê.
Só pode negar o progresso estupendo da física, da química, da cirurgia, da fisiologia e anatomia, da bacteriologia e de outros ramos da ciência, quem for totalmente ignorante, insiste no erro e chasqueia da verdade que se lhe apresenta; só pode negar esse valioso trabalho dos investigadores honrados, essas magníficas, essas estupendas conclusões a que eles têm chegado, com suas notáveis descobertas do micróbio da tuberculose, da sífilis, do crupe, das vacinas e dos soros contra tantas enfermidades, inclusive a peste bubônica e outros terríveis males, todos esses proveitosíssimos estudos e descobertas, e de outros micróbios produtores de grandes males e epidemias, de grandes danos ao corpo humano, à vida dos seres em geral, quem pretender passar por imbecil.
Afirmamos, porém, que sem o conhecimento da Força Inteligente, dessa causa que o microscópio da maior potencialidade não pode desvendar, tudo está incompleto, por mais aperfeiçoado que seja ou pareça, salvo na cirurgia, que não cogita de causas e, sim, e somente, de cortar e consertar corpos puramente materiais.
E porque tudo está falso ou incompleto em seus fundamentos, é que muitas têm sido as doutrinas e filosofias organizadas pelos homens, mas todas de acordo com o intelecto de cada um.
Admiradores da obra imortal de Pasteur, que não era médico, mas que, como criador da bacteriologia, se constituiu no esteio da medicina moderna; admiradores, ainda, dos estudos esplêndidos de médicos como Erlich, Koch, Behring e muitos outros tornados, pelas suas descobertas, benfeitores da humanidade, não podemos passar por inimigos da ciência verdadeira.
Nós damos o seu a seu dono. Mas os falsos sábios da época, vestindo a pele dos opositores desses benfeitores da humanidade, agora se rebelam contra aquilo que não conhecem, quando lhes mostram que as doenças exclusivamente psíquicas têm uma causa essencialmente psíquica também.
Esses falsos sábios estão de novo representando aquele ridículo papel. Revoltaram-se contra Pasteur e Erlich, quando estes, de microscópio em punho e com demonstrações palpáveis, afirmavam a causa específica e microbiana das epidemias e doenças infecciosas.
Agora, repetem o mesmo triste papel, tornando-se surdos e cegos propositais, quando lhes mostramos a causa real das doenças psíquicas que, em suas mãos, têm servido para descrições abundantes e com luxo de detalhes, mas sem nenhum proveito para os pobres enfermos.
Revoltam-se, ainda, quando lhes mostramos o valor espiritual da Força, que o microscópio não revela – mas cujos efeitos se fazem presentes, e são fartamente conhecidos

23. Camarão não passa nesta malha, porque é esta a rede da verdade


Pelo que até agora temos demonstrado com relação à Ciência materialista e ao seu ilustre representante, o Dr. Austregésilo, não pode restar ao leitor a menor dúvida sobre o remédio psíquico, que ele chama moral, quando afirma, em todo o seu livro, que “só a educação psicomoral”, (folhas 30) “e ascendência moral sobre o indivíduo enfermo” (folhas 198), etc., podem curar os nervosos.
Efetivamente, a folhas 203 do livro que vimos comentando, assegura: “O nervosismo é um mal psíquico, e somos nervosos porque pensamos mal”, e que “os meios físicos e medicamentos se constituem em elementos auxiliares, porque as doenças morais. não se curam com drogas, e sim por meio de idéias e afetos sãos”.
Está muito bem, Sr. Doutor, é isso mesmo; os seus mestres têm razão, observaram que era assim, e o disseram, há muito tempo, sem rebuços; e se V. Sa., afirma, como eles, que a causa de muitas enfermidades nervosas e outras é a imoralidade, como salienta a folhas 204, e que é só com o desenvolvimento moral e a sua aplicação como terapêutica que se cura, o que é razoável, segundo mesmo o axioma conhecido de que “veneno com veneno se neutraliza”, é porque deve conhecer essa moral.
Assim, pois, perguntamos ao Dr. Austregésilo:
¾ Que é a moral?
¾ Qual a sua fonte de origem, e como se a conhece, se a desenvolve e se a aplica para a cura das enfermidades dos nervos e da alma?
Se a causa de muitas enfermidades dos nervos é, como afirma S. Sa., a falta de moral, e se, como ainda assevera, a maioria da humanidade sofre desse mal e é nervosa, é porque então ela, essa humanidade, ignora realmente o que seja a moral verdadeira, e, portanto, a causa primacial dos seus males.
Se a medicina materialista só agora está acordando do seu proposital sono de cerca de dois mil anos, e diz ser a moral a única terapêutica eficaz a aplicar aos enfermos, é porque essa mesma medicina não sabia, nem sabe o verdadeiro significado da moral.
Assim sendo, de duas, uma: ou a maioria da humanidade não tem moral, não sabe o que é esse grande bem, esse grande remédio que, de fato, não só cura, como muitos males evita, ou então a noção da moral está errada entre todos, porque até agora os casos nervosos e de loucura e outras enfermidades têm aumentado extraordinariamente.
Não sabem o que é a moral, nem como se curam os nervosos, porque a moral verdadeira não é filha da matéria, e todos eles só pensam materialmente, por ignorarem o que são a Força em si e a composição psíquica do ser humano.
Sendo assim ignorantes da base de tudo quanto existe, o são também com relação à moral verdadeira e curadora, e como ela se desenvolve e aplica, porque cada um só pode dar o que tem em si, e se no seu “eu” não existe a nítida, a clara noção da moral, não a pode oferecer, não a pode ensinar, não a pode aplicar a outrem, mui especialmente para curar enfermos.
O que aí fica é lógico, é racional, e demonstra que o maior mal da humanidade é, realmente, a ignorância da verdade, como disse Platão, e que por isso se diz também que cada cabeça cada sentença; porque qualquer dessas cabeças anda à matroca, repleta de teorias falsas, produtos de criaturas ocas, como se diz em gíria materialista.
É claro, pois, que cada chefe de seita ou doutrina tem a noção da moral à sua maneira, conforme os seus gostos, os seus interesses, o seu intelecto, e é por isso que citamos:
1º)  a moral Epicurista.
2º)  a moral Positivista.
3º) a moral Transformista.
4º) a moral Monista.
5º) a moral Evolucionista.
6º) a moral Materialista.
7º) a moral de Schopenhauer e a de Max Nordau, que se popularizou por ridicularizar os mais nobres sentimentos dos seres humanos.
Cada uma dessas doutrinas, pois, tem a sua moral, cuja base é a matéria, são os instintos e desejos materiais, a idéia da fortuna pecuniária, do gozo em tudo, cada uma com a forma que lhe apraz, para não se confundir com as outras, mas todas girando em volta do mesmo círculo vicioso: utilidade terrena, satisfação de gozos e desejos materiais, e nada mais.
Mas isso nunca foi moral! A moral propriamente dita, a que cura, a que evita enfermidades e desastres, mesmo às coletividades, é baseada na Verdade.
A moral verdadeira está sujeita a leis, que, por sua vez, obrigam o homem à compostura e à prática de atos verdadeiramente elevados, nada animalizados.
Sob a inspiração dessas leis comuns e naturais, quando bem conhecidas pelo ser humano, ele trata de zelar por sua honra e é capaz de praticar, com maior espontaneidade, os mais admiráveis rasgos de heroísmo, sacrificando mesmo até a própria vida por amor de outrem, emocionando até às lágrimas e provocando os mais estridentes aplausos e o maior entusiasmo nos que assistem a tais atos de abnegação, como bem diz o nosso querido Mestre Visconde de Sabóia, a folhas 522, linhas 7 a 14, da sua bela e já citada obra.
¾ Será esta a moral a que se referem o Dr. Austregésilo e a ciência materialista?
Não! Não é, porque esta é a ciência do dever a que Kant deu o nome de Deveres de Virtude, pelos quais o homem voluntariamente glorifica as suas obrigações ao ponto de dominar as paixões, renunciar a certos prazeres e à própria felicidade terrena, como meio de aperfeiçoamento de si mesmo e expressão ideal de moralidade.
Não é, nem pode ser verdadeira a moral, a dos materialistas, porque não pode ela quedar-se onde imperam a vaidade, o vicio, a moral utilitária e a moral do gozo, única que apraz a tal gente praticar e nela basear tudo quanto pensa, diz e faz.

24. A moral verdadeira tem por princípio soberano o dever


A moral é baseada na lei do dever, e este tem o apoio na vontade que, quando mal educada, destrói o agente moral, mas quando bem educada, o eleva, dando lugar às mais nobres ações. Para que a moral seja praticada pelo ser humano, como deve, é preciso que este tenha a noção clara do dever a cumprir, e a vontade fortemente educada para o bem.
Para isso, porém, é preciso saber que a lei do dever se desdobra, e nesse desdobrar impõe ao ser humano, como primeira condição, conhecer-se a si próprio como Força e Matéria, isto por resultar daí o conhecimento certo e seguro do porquê das coisas e, assim, da sede da vontade, do que ela é, e de como se deve educá-la para o bem e utilizar como sustentáculo do dever a cumprir.
Só depois deste conhecimento é que o ser humano poderá ter a noção exata da verdadeira moral, do que ela é, realmente, e de como se pratica, porque então conhecerá a composição do Universo, do qual ele não passa de uma simples miniatura.
Fora disso, a moral apregoada, ensinada e proclamada, é a moral utilitária, é a moral do gozo, filha do egoísmo, apoiada nos instintos, nos vícios que por toda parte campeiam envoltos nas mentiras convencionais, no postiço de uma educação falsa e de conveniências e, assim, nas vaidades fúteis e misérias terrenas, o que em vez de animar, de fortalecer e de confortar o enfermo, mais o deprime, mais o vicia, mais o degrada, mais o enfraquece.
Sendo, pois, a vontade a base de todas as manifestações da moral, é claro que uma vontade fraca ou mal educada não pode ser apoio de sentimentos nobres, e é por isso que a humanidade sofre muito.
Se, pois, a humanidade em tal estado se encontra, como todos afirmam, inclusive o Dr. Austregésilo, em melhor estado não se encontra a ciência materialista, que fala do que não conhece, porque nada mais tem feito do que conservar a humanidade na ignorância da vida real, do que ela é como Força e Matéria, e assim do que seja a lei do dever, fonte da moral, sem a qual não se podem evitar males nem curar enfermidades, como o próprio Dr. Austregésilo afirma.
Desta maneira, como quer ele curar enfermos nervosos, se na sua ciência não existe esse eficaz remédio, essa moral autêntica, base de todo o progresso da Força, da Vida e da Alma?
Onde encontrar esse progresso na moral dos materialistas?
Com a moral dos materialistas, nada se pode conseguir para alívio dos que sofrem de enfermidades psíquicas.
Se o Dr. Austregésilo fosse realmente esclarecido sobre os porquês da Vida, da Força, e da morte (ou transformação da matéria) não teria praticado o ato impatriótico de desprezar os sábios do Brasil, mais adiantados em princípios sérios e, por conseguinte, racionais, do que os europeus, por ele citados e copiados.
Teria, sim, procurado conhecer o que de bom existe no seu país, e estudar esses mestres, para depois citá-los nos seus livros, a fim de provar que o Brasil tem espíritos criadores, originais, que estão muito acima dos que, de vez em quando, vêm “fazer o Brasil”, como se fôssemos um país de silvícolas.
Se não houvesse os que pensam como o Dr. Austregésilo, certos pseudocientistas não viriam ao Brasil fantasiados de sábios para receber dos seus colegas homenagens e reverências, desmoralizando as nossas tradições, os nossos verdadeiros mestres, como o Visconde de Sabóia, o qual escreve, na sua obra A Vila Psíquica do Homem, a folhas 506, linhas 1 a 6, tratando da moral:
“Pensar, sentir e querer, formam a personalidade humana: mas quem a faz sobressair, quem a torna completa e a transforma em individualidade consciente, é a moral ou o princípio pelo qual o agente pensante, sensível e volitivo, põe em ação todos os elementos constitutivos de sua natureza, dirige e encaminha a sua vida psíquica e social, tendo por bússola o dever”.
A folhas 517, linhas 12 a 16, tratando da moral e da lei do dever, diz ainda esse insigne mestre brasileiro:
“É em lugar mais elevado do que a realidade humana, perturbada por tantos erros e crimes, que se deve procurar a origem superior dessa lei e a razão desse respeito misterioso que ela obtém de nós e que recusamos à necessidade mecânica dos fatos”.
A folhas 511, linhas 6 a 115, continua o conde de Sabóia:
“A lei moral ou do dever está impressa na natureza humana, e tem o seu fundamento na consciência que proclama e nos afirma, sem o menor constrangimento na liberdade, a obrigação a que estamos sujeitos, não só para conosco, como para com os nossos semelhantes, a fim de que seja respeitada a nossa personalidade, assim como sentimos que devemos respeitar espontaneamente a dos outros, surgindo de tudo isso, ou do próprio dever, a intuição do direito e da Justiça”.
“É o imperativo categórico, segundo Kant, que cria o dever, e este, uma vez criado, cria, por seu turno, o direito.”
Se, pois, o Dr. Austregésilo possuísse a noção do dever, base da moral, forçosamente teria seguido e ensinado o que se acha na obra do grande brasileiro Sabóia, evitando tanta inverdade.

25. O nervosismo é um mal psíquico


A epígrafe desta NOTA é a afirmativa feita pelo Dr. Austregésilo, a folhas 206, linhas 5 e 6, da obra que vimos comentando: A Cura dos Nervosos.
Ora, se o nervosismo é um mal psíquico e, portanto, da alma, destruída fica a teoria materialista que tudo atribui à matéria, negando, ao mesmo tempo, a existência da alma, que é a Força; se somos nervosos porque pensamos mal, como afirma o Dr. Austregésilo, é porque a humanidade não possui moral, visto que mal pensar é sair fora das leis do dever, que têm apoio na vontade de tornar-se imoral e, em tal estado, ser mentiroso, imponderado, injusto e desprezível, como afirmam os moralistas, e a nossa razão observa.
Assim sendo, aconselha que, para a cura dessa enfermidade, que tem por causa a imoralidade, se aplique a terapêutica por ele denominada educação psicomoral. (Vide folhas 30 de A Cura dos Nervosos).
Mas já demonstramos que é a imoralidade que campeia e domina por toda parte, visto estar a maioria da humanidade atacada dessa enfermidade nervosa, como também o reconhece o autor da mesma obra.
Provamos, ainda, que a humanidade sofre desse mal por ignorar o significado da moral verdadeira, (a que cura e evita enfermidades) e por não a praticar, pois ela quase nada sabe sobre a vida do ser humano, e muito menos o que ele é como Força e Matéria.
¾ E por que tal estado de ignorância?
¾ Porque só se tem tratado, até hoje, da matéria, desprezando-se a Força, que é a vida real, e daí haverem criado a doutrina da moral epicurista, baseada no falso princípio de que todas as tendências do homem estão voltadas para o gozo e o prazer, devendo este, para evitar a dor e as amarguras da vida, ver no bem e no mal somente o resultado de uma sensação agradável ou desagradável, e tudo fazer para que esta última seja sempre evitada, mediante certa repressão no uso e aquisição dos prazeres, que devem ser fruídos com constância e grande intensidade e duração - como salienta o notável mestre Visconde de Sabóia, a fis. 534 e 535 da sua importante obra citada, na qual também acrescenta:
“Epicuro não deixou de incluir, entre os prazeres, a cultura intelectual, mas quando esta servia para descobrir meios mais aperfeiçoados de gozo material e requinte aos apetites alimentícios e às volúpias dos sentidos ou dos instintos genésicos”.[3]
O homem, pelo que encerrava essa doutrina, não devia deixar pairar no espírito, na alma, os fantasmas da vida e do julgamento futuro, e lembrar-se de que só tinha liberdade para escolher os prazeres e suicidar-se, nos casos em que a vida se tornasse intolerável.
A moral epicurista, tão do agrado dos seres animalizados, porque é essa que lhes dá prazer, nunca foi nem pode ser a moral curadora, a moral benéfica, a moral fortificadora, de que precisa a humanidade para libertar-se dos males que a atingem.
Entretanto, com relação ao prazer, escreve, ainda, esse grande mestre Visconde de Sabóia, a folhas 535:
“O prazer deve entrar por uma grande parte da vida humana, mas nunca poderá formar a sua essência ou o seu único objetivo, e muito menos representar os grandes princípios da moral, quando ele não serve senão para aguçar ou incitar grosseiros instintos e impedir o nosso aperfeiçoamento por meio da concentração egoística do nosso espírito avassalado pela idéia de gozo e só do prazer, como um animal abjeto.”
“Se mesmo o mal pode ser convertido em prazer, não haverá ação indigna e revoltante que não se justifique, sendo o gozo daí resultante igual ou da mesma natureza que o do animal feroz, quando devora a sua presa”.
Nesta moral utilitária, como diz Sabóia, o homem pratica o bem, não como um imperativo do senso moral, mas como um sacrifício que faz para obter de outro uma soma maior de prazer, e é com este intuito que a virtude se manifesta, não passando a abnegação e o heroísmo de uma grande tolice ou loucura.
O mal pode ser praticado impunemente, desde que não provoque ou não acarrete prazer algum para o próprio indivíduo, e não comprometa o interesse geral.
Não se impõe, na moral utilitária, o respeito ao interesse individual nem ao direito natural.
Tudo está subordinado ao prazer individual: o homem não pratica o bem como um dever magnânimo, visto que nenhum ato de abnegação e de heroísmo passa da esfera do mais feroz egoísmo, sendo a pena infligida ao crime somente na proporção do interesse que a sociedade deixou de alcançar.
O que é a moral do prazer, firmada no utilitarismo e não no dever, descreve-a o nosso querido mestre Visconde de Sabóia:
“É o cântico da lascívia ou o grito da desesperança e do pessimismo que solta Lucrécio, declarando que a vida humana não é se não uma morte, e que sente o seu coração devorado pelo abutre de Prometeu! Schopenhauer, que gozou uma vida feliz e cultivou a moral do prazer viu tudo tão mau no mundo, que não achou para termo cobiçado da existência, senão o nirvana búdico.”
“A moral do prazer deixa de lado o dever, a consciência e sanção presente e futura, pois que a recompensa ou o castigo, depois da morte, tem uma base exclusivamente conjetural e precária, como igualmente se nota na moral de estoicismo.”
É essa moral dos animalizados a causa de todos os males da humanidade, porque é a moral do gozo, e assim do vício, que produz loucos e produziu essa tremenda guerra (1914), que aí está, baseada no egoísmo e, assim, no instinto animalizado.

26. A fadiga cerebral

Medo da loucura

A ciência materialista nos garante, por intermédio do Dr. Austregésilo, que a alma, espírito, vontade e pensamento são as causas de todo bem e de todo mal, conforme a sua aplicação na vida física, e ao mesmo tempo afirma que as enfermidades dos nervos têm por causa a falta de moral, e só esta as pode curar, (reconhecendo, assim, a causa psíquica e que a moral pertence à alma e não à matéria). A folhas 98 e 99 da sua obra, afirma que existe “a fadiga cerebral”, e que “os que têm medo da loucura não enlouquecem”. Também a folhas 99, linhas 4 a 6, reforça esse seu modo de ver:
“Posso vos afirmar isso com segurança, porque o medo de endoidecer é, apenas, uma fobia, que nunca se realiza”.
É essa mais uma prova de que o Dr. Austregésilo desconhece a causa da obsessão; professor, não sabe o que isso é, e cabriola sempre sobre o bom-senso e os reais princípios da verdade.
O que esse mestre chama fadiga, fraqueza cerebral, nada mais é do que o esgotamento geral por trabalho excessivo ou vida desregrada, permitindo o avassalamento do espírito humano por elementos psíquicos, (espíritos do astral inferior).


É, nada mais nada menos, do que o avassalamento geral do homem físico, (espírito encarnado) pelo homem psíquico (desencarnado), tendo por causa a imoralidade de ambos, como se reconhece nas manifestações nervosas do enfermo.
É assim, e não como afirma o Dr. Austregésilo, mesmo porque o seu mais notável mestre em fisiologia assegura que “a matéria mesmo viva é inerte e não pensa, não passando, por isso, de um instrumento da Força, e nada mais”.
Essa afirmativa demonstra ser psíquica a causa do nervosismo, portanto, a Força impura, sem moral, e que o cérebro não segrega o pensamento.
E tanto isso é verdade que, uma vez afastada a causa psíquica que produz o nervosismo e as muitas fobias, normal fica o espírito, sem precisar de drogas.
Ora, se a fraqueza fosse, de fato, do cérebro, seria material, e só com remédios materiais, com drogas somente se normalizaria.
Quanto ao medo da loucura, que o Dr. Austregésilo garante (ao assegurar que “jamais enlouquecerão os que da loucura têm medo”) ser, apenas uma fobia, parece incrível que esse mestre neurologista não saiba que o ter medo já é um estado anormal do ser, e muito especialmente o ter medo da loucura, que prenuncia, sem sombra de dúvida, um estado de obsessão, de categoria branda; e tanto é assim que ele próprio afirma ser “esse medo de endoidecer apenas uma fobia”. Ora, sendo fobia, danação, loucura, louco já está o que de ficar louco e furioso tem medo.
Mas, se ignorante das coisas sérias da vida não tivesse provado ser o Dr. Austregésilo, não teria o desplante de dizer, a folhas 99, da obra que estamos comentando: “Posso vos afirmar isto, com segurança, de que jamais os que têm medo da loucura enlouquecem”.
Em todo esse saltar pocinhas do Dr. Austregésilo, vê-se bem o velho professor da escola materialista a meter as mãos em seara alheia, como é o psiquismo.
Quis fazer bonito, quis acompanhar os Dubois, da Europa, e não trepidou em copiá-los sobre coisas novas, sobre coisas da alma, sem saber o que esta seja, porque propositalmente nega a sua existência, sem se lembrar da figura triste que faz e da desmoralização que acarreta para a sua doutrina, para a sua escola materialista A sua única preocupação foi multiplicar palavras sobre coisas que não conhecia nem conhece, porque tal conhecimento se opõe à sua ciência e à dos seus colegas, inclusive quanto ao Grande Foco ou Inteligência Universal, como salienta o nosso querido mestre Visconde de Sabóia, a folhas 29, linhas 24, no prefácio da sua bela obra já citada:
“Por mais extensos, admiráveis e estupendos que sejam os progressos que a física, a química e a fisiologia tenham alcançado, eles até hoje não conseguiram demonstrar que não há alma imortal, vontade e liberdade humanas, e que o pensamento e a consciência sejam fenômenos materiais, sujeitos às leis físico-químicas e à energética.”
Continuando, o grande médico e professor brasileiro diz de folhas 30, linhas 3, em diante:
“É, pois, uma ciência toda conjetural, em que predominam tanto a fantasia como as mais atrevidas hipóteses, que pretende substituir a antiga psicologia pela nova, como se Kant, conforme diz um escritor, tivesse tido necessidade de estudar as circunvoluções cerebrais, as doutrinas cinética e energética, para dar uma análise genial da sensibilidade das categorias do entendimento ou das idéias da razão, natureza do homem, leis do raciocínio, lógica e moral.”
“Nada se estende além do domínio das hipóteses absurdas, apresentadas, dogmaticamente, como a expressão da verdade experimental, sendo todas mascaradas com o nome de científicas, para que em nome dessa ciência, mais fantástica do que real, se possam facilmente destruir todas as idéias fundadas na razão e crenças que elevam o espírito do homem, e substituí-las por conceitos que deixem livres os maus instintos e as paixões humanas, negando as leis morais e a necessidade de tudo que possa pôr o homem em relação com Deus” (com a Força, com a sua fonte de origem, esclarecemos nós).
É assim que o maior dos mestres, e o mais categorizado dos professores da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro se manifesta, depois de mais de trinta anos de estudo, de ensino e de prática da medicina, e vem confirmar tudo quanto temos dito dessa ciência materialista, desses sábios professores da atualidade, a quem Dubois, mestre preferido pelo Dr. Austregésilo, chama de alveitares.

27. A ciência materialista em apuros


Andam por esse mundo milhares de criaturas, milhares de loucos no fundo e sectários crentes na forma, a afirmar, por todos os cantos, ruas e lares, que os tempos são chegados, querendo, com essa afirmativa, levar aos outros a convicção das coisas sérias da vida que eles próprios ignoram.
Mas esses indivíduos, esses “espíritas em provação”, como eles próprios se denominam, esses seres ridículos que na Terra existem, cogitaram, algum dia, de saber para que é que os tempos são chegados?
Não, absolutamente não, por lhes faltarem as qualidades indispensáveis para provar o que afirmam, e para raciocinarem sobre qualquer coisa séria; são, em sua maioria, uns infelizes fanatizados e, em geral, cretinizados, imitadores praticantes da Magia Negra, da torpe feitiçaria que eles denominam Espiritismo, e outros há que comerciam com as forças ocultas inferiores, praticando, assim, o baixo psiquismo, e concorrendo, ambos, para a ininterrupta fabricação de loucos, de torpezas e de misérias materiais e morais.
Entretanto, os tempos são, de fato, chegados para tudo ser colocado nos seus verdadeiros lugares, para que tudo se esclareça, para que a verdade se explane e impere por toda parte, como único elemento de progresso libertador dos povos escravizados à ignorância em que os têm deixado as religiões e a ciência materialistas.
É a lei natural da evolução dos seres e das coisas, que neste mundo e no Universo existem, às quais todos estão sujeitos.
Quer isto dizer que o desmoronamento é geral para tudo quanto não tenha por base a verdade, e só ela, e que nada escapará à lei do progresso e à derrocada por tal lei decretada.
Em virtude desse princípio, a própria ciência tem de modificar determinadas idéias e a sua base, porque estão esteadas na matéria organizada, faltando‑lhe o conhecimento da causa – que é a Força que a incita e movimenta.
Para a destruição da falsa ciência e desses falsos princípios, os que mais concorrem são os verdadeiros cientistas.
Só os superficiais, os nulos, os ridículos, os ambiciosos vulgares, os atoleimados, é que teimam em manter‑se nesse pedestal de barro.
Tanto assim é que o próprio Dr. Austregésilo, copiando os sábios europeus e fazendo suas as teorias destes, destrói o materialismo, sem o querer, já se vê, sem mesmo o pensar, é certo, mas derroca‑o de seu pedestal.
Desde que o Dr. Austregésilo confessa que o espírito, o pensamento e a vontade têm real influência na vida fisiológica dos seres, e que só uma educação da vontade, e, assim,

moral, é que pode curar enfermos da alma, destruída fica a teoria materialista com essas explicações.
Entretanto, essa teoria, contrária à materialista que ele apresenta como nova, é velha, e dela têm tratado os homens de mais valor que na Terra têm vivido, como professores, médicos e outros.
Entre esses mestres, está o saudoso professor Visconde de Sabóia, que vimos citando, o qual, no prefácio da obra de sua autoria A Vida Psíquica do Homem, a folhas 12, linhas 19, tratando da teoria materialista, diz:
“Para esses fisiologistas, psicólogos e naturalistas, quem pensa, quem raciocina, quem idealiza, não é o espírito, não é a alma, é a massa cerebral e, com certeza, o neurônio, (ou célula terminal dos nervos) que, além disso, se emociona, tem paixões, vontade, sentimentos, segundo as impressões que recebe e as excitações provocadas, porque na esfera psíquica tudo se reduz à sensação e representação consecutiva.”
“Eles não podem compreender, senão por um milagre, a ação sobre o corpo de uma coisa imaterial, como a alma, mas evitam explicar como é que apenas do contato dos germes masculino e feminino pôde expandir a vida anímica; e se, com efeito, o cérebro pode estar submetido à lei de conservação da energia, não se segue que não exista, nos centros cerebrais uma força imaterial, não havendo fisiologista que dê, a respeito, uma prova irrefutável.”
“Dizer que o mundo vivo, como o mundo inanimado, não oferece outra coisa mais do que mutações de energia, e que os fenômenos da vida não são mais do que metamorfoses energéticas, como são também os outros fenômenos da natureza, é formular hipóteses que não adiantam à solução da questão e nem a esclarecem.”
“A moral, para essa escola, ou não existe e se reduz a uma questão de costume individual ou social, ou não passa de um produto evolutivo de dois instintos antagônicos – o egoísmo e a simpatia interessada – ou tem, como queria Littré, uma origem orgânica, por depender da luta entre o instinto nutritivo, que é egoístico, e o instinto sexual, que é altruísta, ou resultando, como sustentam Darwin e Huxley, de transformação pura e simples dos instintos sociais.”
Nessas teorias não se encontram, ainda que em uma só vez, nem a idéia nem uma palavra sobre a liberdade, nem idéia nem palavra de obrigação.
“Não existe lei moral, nem esta é mais o imperativo que se impõe à vontade, uma ordem superior, à qual o homem se sente obrigado a obedecer.”
É assim o materialismo, como continuaremos a provar ao lado de homens de real valor, como Sabóia e outros mestres brasileiros.

28. Cada um dá o que tem.


Afirma o ditado popular que cada um dá o que tem, e que há momentos do homem propriamente dito, racional e calmo, e momentos do animal, da besta humana, como disse o erudito francês, e, como todos os ditos populares, é este certíssimo.
Em virtude da confusão reinante e da indecisão científico-social, o Dr. Austregésilo copiou coisas certas de eruditos honrados, tratou da alma, da vontade, do pensamento, e acabou por confessar que a “imoralidade era a causa dos males humanos.
Até aqui, mesmo a contragosto, andou certo, disse a verdade e foi intuído para a verdade.

Via-se, no entanto, em A Cura dos Nervosos, o constrangimento em que estava o seu Eu, em ter de afirmar teorias referentes somente à alma, dá-las como boas, como únicas benéficas às enfermidades dos nervos, e que só por vaidade, só para salientar-se dos seus colegas é que ele foi copiar e dar como bons, e até como seus, aqueles princípios destruidores do materialismo explanados por eruditos europeus, dos quais Dubois é o chefe preferido pelo Dr. Austregésilo.
Não era uma obra de todo má, pois tinha a envolvê-la uma película da Verdade, embora somente na forma, contrária à teoria materialista que tantos danos tem causado à humanidade, denominada espírito, pensamento, e vontade, sem dúvida elementos curadores.
Mas, no dia 27, foi a A TRIBUNA, jornal da tarde que se publica nesta cidade, e deu inteira expansão ao seu estado animalizado, tratando da sexualidade como causa, agora, das várias enfermidades nervosas.
É por esse motivo que afirmamos que cada um dá o que tem.
A linhas 28 de sua publicação, expõe ele:
“Do instinto sexual originam-se o bem e o mal humano, e os liames e os tecidos psicológicos que daí emanam, constituem a trama mais séria da afetividade e das comoções. Os veios dulcíssimos e os caudais verticosos do amor têm suas raízes na sexualidade.”
Como vê o leitor, já não são mais o espírito, o pensamento, a vontade e a moral que produzem o bem ou o mal, como ele afirmou no seu livro; agora são o instinto sexual que impera e a sexualidade que produzem os veios dulcíssimos e os caudais verticosos do amor, segundo informa, a base deste.
É ainda desse estado normal no bode e no macaco, é das funções genésicas ultra-animalizadas, às quais a alma não preside, que esse mestre faz derivar os liames e os tecidos psicológicos e, assim, as funções do espírito, materializado, este ao ponto de lhe fornecer tecidos para se ligar ao cerebelo, base do sexualismo e da animalidade.
Um homem desses, fazendo a apologia do instinto animal mais perigoso que existe, sede do libidinismo, como base do amor, poderá merecer entrada em casa de família séria, para examinar senhoras e filhas queridas?
Aí tem o leitor a confissão tácita daquilo que nós temos afirmado: que tal mestre não tem noção do espírito, do pensamento, da vontade e da moral, apesar de haver recheado o seu livro com palavras a eles ligadas.
Se faz do cerebelo sede do sexualismo e do libidinismo, a base do amor, dos sentimentos nobres, que só pertencem à alma, à Força, à Inteligência, como é que quer curar as enfermidades cuja causa é, como ele diz, a falta de moral, com instintos animalizados caprino-bodéficos?
Como o homem se torna animalizado, quando não se conhece a si próprio e não possui a noção real da moral nem a compostura precisa para afirmar coisas com as maneiras próprias dos homens educados!
Como desce o homem quando deixa que o domine a matéria, o instinto, e se acobarde a alma e, com ela, os sentimentos bons, dignificadores, que o tornam, de fato, civilizado!
Chama-se a isso confundir o Amor – sentimento do espírito esclarecido e nobre – com o instinto sexual, comum aos animais, e indispensável à conservação da espécie.

29. Entre uns e outros

Doutrinas que elevam – Doutrinas que deprimem

A maioria dos seres humanos tem por hábito inveterado julgar tudo e todos pelo seu intelecto, que é o estado, a categoria de sua mentalidade, o grau de Força que o indivíduo possui. E é por esse motivo que se diz “cada cabeça, cada sentença”, ou “cada um dá o que tem e julga o seu vizinho, seu semelhante, por si”, conforme o grau de espiritualidade, de sentimentos e de educação moral, que possui.
É raro ver‑se um ladrão que não afirme que todos o são; um pretensioso, pergaminhado ou não, que não julgue todos pela sua craveira; um debochado, que não afirme que todos são também debochados, uma adúltera, para quem toda mulher, mesmo a mais honrada, não seja uma adúltera, uma meretriz disfarçada como ela; um juiz prevaricador que não afirme que todos os seus colegas prevaricam; um médico materialão, um sensualista, mais bode ou macaco do que os próprios bodes e macacos, que não afirme que seus colegas são nulos, e que só ele é especialista e até sábio.
É por esse motivo que nós estamos aqui para separar o joio do trigo e dar a cada um o que a cada um pertence, mostrando a diferença que existe entre eruditos honrados e os que como tais se inculcam, se proclamam; entre os que tinham .tradições gloriosas de família, de ciência e de patriotismo a defender e tudo fizeram para respeitá-las, conservando e elevando o saber, a dignidade, o critério, e os que hoje tudo fazem para deprimir essas belezas da alma sábia brasileira de outrora, para engulharem as pessoas honradas com a corrupção de usos, costumes e a deturpação dos sãos princípios da moral, do valor e da honradez, em todos os tempos provados pelos Mestres, pelos discípulos e pelo povo que os procura imitar.
Os que partiram eram eruditos de valor intelectual e moral; tinham a noção exata das coisas sérias da vida e possuíam também a franqueza de confessar que tudo em ciência “estava incompleto”, e que era preciso acertar.
Os que andam por aí a blasonar de professores, de neurologistas‑psiquiatras, ocultando a verdade, procurando tudo deturpar, desenvolvendo, apenas, os seus baixos instintos, desonram a classe.
Os verdadeiros sacerdotes da Medicina, tinham nítida a noção da honra e do dever; por isso diziam, como o grande médico‑operador Visconde de Sabóia:
“Achando-me, como cirurgião, e principalmente como lente de clínica cirúrgica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em condições de observar, por mais de trinta anos, os fenômenos referentes aos grandes e curiosos processos de reparação dos tecidos orgânicos, ou de tisiologia-patológica, sentia-me arrastado, diante da admirável coordenação e relação desses fenômenos com a origem da vida nos seres orgânicos e, principalmente, no homem, a perguntar a mim mesmo qual era a natureza e essência das causas ou leis que determinavam as transformações ovulares e embriogênicas, e faziam com que um corpúsculo celular, no estado fisiológico, passasse por diversas transformações e encerrasse em si uma espécie de virtualidade, para no músculo formar uma fibra muscular – ora lisa, ora estriada – gozando ou desenvolvendo todas as propriedades do respectivo aparelho orgânico; nos nervos – uma célula nervosa – nos ossos ‑ uma célula óssea ‑recebendo, para desenvolver-se, o mesmo impulso da vida que o óvulo ou semente experimenta ao contato do germe fecundante, de que resulta a impregnação da vida na matéria, ao passo que essas mesmas células, chamadas a refazerem esses cosmos tecidos, quando acidentalmente sofriam uma divisão ou solução de continuidade, estabeleciam a união e reparavam assim a solução de continuidade, mas às vezes sem apresentarem a constituição e assumirem os caracteres e as propriedades das células musculares nervosas e ósseas.”
“Em contraposição, apresentavam‑se em lugares e regiões onde não havia necessidade de qualquer reparação ou composição orgânica, massas de tecidos de natureza muscular, óssea ou nervosa, constituindo produtos chamados heterogêneos ou heterólogos.”
"Em resumo: por que é que o sangue, como diz Raul Pictet em seu Estudo Crítico do Materialismo e do Espiritualismo, pág. 302, deposita aqui o músculo, ali o osso, mais adiante o humor vítreo, a unha, a cartilagem, os cabelos, a sinóvia, o conjunto dos tecidos de que o corpo de todos os animais é constituído?”
“Por que, ouso inquirir, a plasticidade ou a célula elementar, chegando ao periósseo ou ao tecido ósseo, a fim de reparar as perdas fisiológicas ou acidentais que este sofrer, se converte em célula óssea, e não em um tecido de espécie diversa, restabelecendo ali, por um trabalho verdadeiramente ontológico, a forma específica, e seguindo assim uma direção apropriada e um plano determinado, como um prolongamento da ontogênese?”
"São questões estas bem cativantes e interessantes que, em todo caso, as teorias físico-químicas ou das energias químico-térmicas, não podem, por si mesmas resolver."
É assim que esse honrado e querido Mestre se manifesta, de folhas 1 em diante do prefácio da sua obra, já por nós citada, sobre a composição do homem, demonstrando que o significado de Força e Matéria, e assim o elemento que preside a composição fisiológica do homem e a sua incitação e movimentação, que procurou explicar o melhor que lhe foi possível na obra citada, a ciência ainda não sabia, e achava ele, o insigne Mestre, logo a folhas 9, linhas 17, “que descortinar esses mistérios tão curiosos das forças orgânicas, era penetrar na essência da vida”, que até então ele e a ciência oficial ignoravam, como ainda o ignora a maioria dos cientistas.
Depois desta confissão tão lúcida e honrada do Visconde de Sabóia, o Dr. Austregésilo vem afirmar, à última hora, que a escola de Freud e o que os pseudoclássicos Kraft-Ebing, Fere Ferel, Garnier, Mantegazza proclamam e ele, Dr. Austregésilo, aceita como última palavra, é o instinto sexual a fonte do amor, portanto, de todos os sentimentos nobres.
Para tais animalizados sábios, o amor da Pátria, esse grandioso e belo sentimento do conjunto, e o amor de Mãe, de Pai e todo o bem querer pela humanidade, o chorar sobre as desgraças alheias, que é uma das mais belas manifestações da Força humana, da alma, da vida dos seres, todas essas belezas do espírito têm origem no desenvolvimento do libidinismo, no sensualismo, funções genésicas, na parte mais inferior, mais animalizada do ser humano.
É essa a teoria materialista defendida pelos sábios orientadores da mocidade estudiosa das escolas e do povo! ...
Que tremenda barbaridade!
Compare o leitor a leal franqueza do mestre Visconde de Sabóia, com a audácia, com a subserviência copista de alguns sábios desta época, e diga-nos, depois, se não temos razão em contradizê‑los, com a veemência com que o fazemos?

30. O sentir real do médico e o remorso em ação


Da composição psíquica e fisiológica do ser humano, resulta que cada indivíduo contém em si os mesmos elementos de que se compõe o Universo, que são, como sabemos, Força e Matéria. Esses elementos estão sujeitos às leis imutáveis emanadas da Inteligência Universal ou Força.
A única diferença existente entre os seres humanos é a que resulta da sua educação, pior ou melhor, da sua vontade mais forte ou mais fraca, mais ou menos desenvolvida, do bom ou mau emprego de seu livre-arbítrio, que, conjugados, orientam a conduta de cada um na sociedade.
Assim, as qualidades morais, baseadas na noção exata do dever a cumprir para consigo próprio, para com a humanidade e a Inteligência Universal, que tanto elevam e dignificam o ser humano, são inatas no espírito e se manifestam; uma ou outra vez, mesmo quando a educação da vontade é imperfeita e má.
Em virtude da composição do Universo e de tudo obedecer a leis comuns e naturais, todos estão sujeitos às correntes espirituais boas ou más. Portanto, o indivíduo de qualquer classe social tem horas boas, de paz, que mui poucas são, em que pode raciocinar com relativo acerto e ver, através desse raciocínio, todo o seu passado, quer como estudante, doutorando, quer como clínico, professor, advogado, engenheiro ou portador de outra qualquer profissão intelectual ou não.
Assim sendo, o médico, por exemplo, depois de alguns anos de clínica, resolve-se a dar balanço mental em sua vida de clínico, de operador e parteiro, etc., justamente na ocasião em que um ente querido seu se acha atacado de rebelde enfermidade que a coisa alguma cede, que a terapêutica alguma obedece.
Neste estado de meditação, de concentração mental, em seu gabinete, rodeado de compêndios diversos, de revistas médicas incontáveis, eis o que lhe vem à mente, o que lhe é intuído, o que sente bem claramente, o que vê diante dos seus olhos psíquicos, que são os que verdadeiramente tudo enxergam:
Sentado na sua poltrona, junto à mesa de trabalho, com a cabeça apoiada na mão esquerda, e a mão e o braço direitos apoiados na mesa, em plena concentração e em posição de ser intuído fortemente pelo elemento que vem de fora e vive fora dos seres, como afirma Claude Bernard, eis o diálogo mental que ele estabelece entre o homem visível e o homem invisível.
“Fui um estudante repleto de boa vontade e convicto de que seria um médico de real valor e me salientaria, por isso, entre todos os outros, tornando-me estimado dos meus clientes e respeitado pelos meus colegas.”
“Formei-me, assim, repleto de esperanças, convicto do valor de minha profissão, de sua utilidade na vida dos seres e, especialmente, na minha vida de sonhador de grandezas e de posições de destaque na sociedade. Entrei na vida prática cheio de ilusões, satisfeito porque ia realizar os meus ideais, ia ter a realidade desse sonhar acordado que se transforma, quase sempre, em desenganos constantes na vida real.”
“Tempos após a minha formatura, casei-me com uma mulher adorável, companheira digna do meu saber e da minha posição.”
“Desse enlace, resultaram filhos queridos, que constituíram a alegria do nosso lar, do ninho de amor sonhado em nossa juventude, em que tudo é cor-de-rosa, em que todas as flores, mesmo a camélia, têm aromas inebriantes, em que todos os homens são honrados, e as mulheres, criaturas adoráveis.”
“Em virtude desse estado, dessa organização do lar, dessa constituição da família, base do progresso material e moral das nações, mais se desenvolveu em mim o desejo de

salientar-me científica e monetariamente, e por isso com mais denodo me atirei à prática da medicina, ao exercício da minha, até então, nobilíssima profissão.”
“Sempre alerta, sempre pronto para atender a qualquer chamado, fosse qual fosse a
hora e o estado do tempo, a ninguém me negava, a todos atendia, porque, além da parte pecuniária, eu tinha a ambição da popularidade, baseada no trabalho e nas curas que fizesse.”
“Assim tenho vivido, até hoje, numa luta titânica, num trabalhar ininterrupto, num mourejar sem tréguas, para alcançar a glória e a fortuna pecuniária, sendo que esta já está feita.”
“Chega, porém, o momento mais crítico da minha vida. Minha querida esposa, e companheira dedicada, mãe dos meus filhos, está atacada de rebelde enfermidade, que a nada tem cedido, até agora, e por isso estou aqui a examinar mentalmente todos os meus mestres velhos e modernos, para ver se neles encontro algo com que possa salvar esse ente querido, vida da minha vida, e nesse estado horrível de dúvida, eu remonto ao meu tempo de estudante, de doutorando e de início da clínica, e o que observo, até agora, até este momento mais terrível da minha vida?”
“Observo quadros de dor que poderiam ser minorados ou mesmo evitados, se o oficialismo médico que me foi imposto, bem como aos meus colegas, fosse mais completo e estudasse a vida invisível dos seres, como estuda o lado visível.”
“Em todos esses quadros que se apresentam aos olhos do meu eu psíquico, vejo:
a) ali, uma mãe extremosíssima, de joelhos, diante da filha querida, quase a desfalecer, de mãos postas, olhos fixos em mim, a suplicar‑me que lhe salve a filhinha, alegria do seu lar e de toda a família, ainda que depois tenha de ser minha escrava, para pagar-me o que fizer por ela;
b) mais adiante, uma esposa e mãe, com as filhas, já mocinhas, sentadas em volta da cama, onde se acha o esposo querido; o pai idolatrado, em perigo de vida, olhando-me todos e me rogando que o salve, para não ficarem sem o seu amparo moral e material;
c) à minha direita, cinco menores, cuidadosamente tratados, chorando, em volta da cama de sua mãe querida, do supremo bem do seu lar, e a menina mais velhinha envolvendo-me com o olhar carinhoso, em suas lágrimas, e dizendo:
¾ Doutor, salve a nossa mãezinha, que é tão boa para nós e tanto nos quer! Veja como ela sofre, como geme e como nos o!ha com os seus olhos tão lindos, repletos de lágrimas, pérolas da sua alma branca, luminosa e pura, que fazem dela a nossa protetora, a quem adoramos, acima de tudo. Salve-a, porque ela precisa viver para nós e para o nosso querido papai que está em viagem, e que louco ficará, ao voltar à nossa casa, se ela tiver morrido. Por tudo o que lhe é caro, pela sua querida esposa e pelo amor de seus filhinhos, salve a nossa mãezinha.
“Horrível tudo isto! Nesses quadros, vejo a precariedade da ciência com os dogmas pseudocientíficos que me obrigaram a aceitar!”
“Apesar das suas inegáveis conquistas, há ainda muita coisa a desvendar e aprender!”
“Quero a todos salvar, mas nem sempre tenho condições para isso, diante da impotência da minha vontade e do meu saber! Horrível situação a minha, obrigado a enfrentar todos esses quadros, mui especialmente este último, que se está produzindo na minha casa, com a enfermidade de minha esposa, que não sei como combater! A verdade é que nada pode a ciência humana ante os direitos da morte!”
“E foi para isso, afinal, que eu estudei?”

“Que tremenda miséria! Que horroroso conjunto de súplicas de mães, de filhos e de amigos, sem nada eu poder fazer para salva-los da morte, pela insuficiência de conhecimentos médicos impostos por falsos e despreparados sábios que tudo subordinam à matéria e vaidosamente pretendem tudo saber, sacrificando vidas que poderiam ser salvas.”
Vendo esses quadros de amor intenso entre enfermos prestes a morrerem, o médico sente que a vaidade dos homens restringiu a medicina ao estudo da matéria, desprezando o espírito, para só tratar do corpo.
Mas, diante de um novo quadro de dor mais intensa, ele reflete mais profundamente, e sente que outro poder mais alto existe nos seres, consubstanciado nas forças latentes do espírito, embora a ciência enfatuada se recuse a aceitá-lo.
Os remédios falham, muitas vezes, e noutras não correspondem à expectativa, mas a energia nova que brota da alma consciente, inunda o enfermo e o médico de uma força vigorosa e sã.
A ação do invisível torna-se, então, patente. A reação psíquica é manifesta, e o médico, reabilitado perante si mesmo, resolve estudar cientificamente as forças criadoras inerentes ao espírito.
Convicto da importância desse estudo, a que ele pensa entregar-se, certo de que a força psíquica é uma verdade que o futuro de encarregará de demonstrar, para a relativa felicidade dos seres.
Estava assim meditando, quando foi despertado pesos gritos de seus filhos, em volta da mãe que acabava de expirar, sem que ele a pudesse salvar!

31. Doutrinas falsas

Origens de grandes males

De falsas doutrinas tem vivido embalada, até hoje, a humanidade em geral, e, em especial, os povos do Ocidente.
Desde as várias doutrinas conhecidas, até á materialista atual, todas são baseadas em princípios falsos, porque os seus fundadores e explanadores se limitaram às coisas e observações do mundo físico, desprezando as outras que denominamos causas psíquicas, e cujo conhecimento é indispensável para chegar-se à descoberta da verdade.
Em terrível engano têm vivido os adeptos dessas doutrinas e os das diversas seitas espalhadas pelo mundo, principalmente por haverem aceitado, sem reflexão, a concepção de um ser supremo, inteiramente materializado.
Todas as doutrinas, seitas e sectários se contradizem, procurando suplantar uns aos outros, quando a sua base, a sua maneira de ver as coisas é, no fundo, a mesma, apenas se diferenciando na forma, no palavreado e na maneira de se apresentarem.
É difícil avaliar os males que tais doutrinas e seitas, com os expedientes de que têm lançado mão, através dos tempos, têm causado ao mundo.
Na verdade, têm sido uma sementeira de ódio, de desarmonia, de intrigas, de malquerença, de orgulho, de vaidade, de egoísmo e, acima de tudo, de superstições e obscurantismo.
Ninguém pôde, até agora, harmonizá-las, e muito menos induzi-las ao estudo das suas próprias concepções, para chegarem à conclusão de que nada de bom, nada de útil, nada de aproveitável possuem para oferecer aos seus adeptos, principalmente enquanto não se

decidirem a libertar-se das idéias falsas que têm sustentado e dos dogmas mitológicos que as escravizam.
A libertação é difícil, reconhecemos, de quem se apega a todo um sistema falso e rotineiro pseudocientífico, e às doutrinas obscurantistas em que ele se apóia, em que a base da vida – a Inteligência Universal – é obstinadamente negada.
Por isso, as religiões e a ciência materialista têm feito deste mundo um grande manicômio, onde cada um exibe as suas loucuras, os seus tristes estados mentais. Essa situação é tão dolorosa, que ninguém cometeria qualquer exagero se afirmasse que dentre os habitantes deste planeta, não se tiram cinco por cento de seres humanos normais.
E por que este infeliz estado da ciência, das seitas e da humanidade? A razão é fácil de explicar: cada chefe dessas doutrinas, dessas seitas é, com raríssimas exceções, um composto de vícios e de misérias resultantes da vaidade que os domina, e dentre esses vícios e essas misérias, é o egoísmo – causa de muitas falências morais e materiais – que mais se salienta.
Assim escravizados, apenas conhecem as coisas do mundo físico que lhe possam dar proveito, que satisfaçam os desejos e ambições materiais e garantam as posições que conseguiram alcançar, não raro à custa de curvaturas vertebrais, senão mesmo de baixezas e degradações.
Cegos e surdos propositais a tudo quanto vá de encontro à sua maneira errada de encarar a vida e os deveres profissionais, não querem saber da Força Inteligente, da vida espiritual que os incita e movimenta, bem como a todos os seres dos diversos reinos da natureza.
Mergulhados no oceano profundo do materialismo dissolvente e desagregador, recusam-se a ouvir a voz da razão e arremetem, furiosamente, contra a idéia da existência do homem-espírito que, se aceita e estudada, acabaria por iluminar todos os caminhos da Ciência e conduzi-la aos seus reais objetivos, prevenindo e curando os males do corpo e da mente.
Eles não ignoram que a teoria materialista em que se apóiam é falsa, mesquinha, e que grandes males tem acarretado à humanidade, mas recusam-se a rever o problema, apesar dos conceituados mestres do Materialismo científico, corajosos e honrados, a virem condenando, por entenderem não se enquadrar a referida teoria nos cânones da verdadeira ciência, que coloca a pesquisa e a investigação acima de tudo.
Entre esses notáveis eruditos e consagrados mestres, está colocado, em primeiro plano, o eminente professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Visconde de Sabóia, que diz, a fls. 30 e 31 da sua magnífica obra A Vida Psíquica do Homem:
“Ninguém desconhece nem poderá negar a importância das ciências, como a física, a química, a anatomia e a fisiologia, na solução de algumas questões antropológicas, e mesmo psicológicas; mas fazer da fisiologia o fundamento e a base de toda a psicologia, ou reduzir a vida psíquica, a vida moral a um feixe ou coleção de funções cerebrais, de sensações ou de modificações de fenômenos essencialmente semelhantes, não passando, conforme Renan, o bem e a virtude se não de um ideal, não pertencendo a moral, segundo Hartmann, Schopenhauer e todos os enciclopedistas, se não ao mundo de aparências, não sendo as faculdades da alma, segundo Taine, se não palavras vãs e cômodas, por meio das quais arranjamos juntos em um comportamento distinto, todos os fatos de uma espécie distinta, é abusar da ciência, e em seu nome negar, sem base alguma, a existência da alma e de suas faculdades: a unidade, identidade, permanência e atividade do “eu”, terminando-se por dizer, com Ribot, que a concepção do “eu”, distinto dos fenômenos, é uma hipótese digna de uma psicologia ainda na infância, como se a doutrina fenomenista e sensacionalista chegasse a mostrar-nos como os fenômenos e sensações podiam existir sem a unidade viva – um centro permanente – onde viessem ter e fossem conservados.”
“A verdadeira ciência, como Kirn demonstrou, é a primeira, sem a indução metafísica, a fazer-nos ver que, nada existindo que possa ulteriormente extinguir-se, a imortalidade da alma é a dedução lógica do princípio anímico, não sendo admissível que o pensamento, o senti­mento e a vontade sejam o resultado de simples vibrações cerebrais, como o calor, a luz e a eletricidade são manifestações das vibrações do éter, porque leve‑se ao ponto que se queira imaginar o movimento vibratório das células cerebrais, nunca se poderá fazer com que dai surjam o pensamento, a memória e a consciência”.
É assim que os honrados mestres da ciência oficial no passado se manifestam contra as bases dessa falsa ciência, que os da época teimam em impor à mocidade, aos enfermos da alma que hoje existem em maior grau, sem que tal ciência possa evitar ou curar esses males que afligem a humanidade.
As experiências desses valorosos homens do passado, as suas investigações, o seu honrado critério não têm valor algum para os sábios do presente, que só apontam a matéria como fonte dos sentimentos elevados do ser humano.

32. Os cavouqueiros da verdade são invencíveis


São invencíveis os cavouqueiros da Verdade, porque há séculos que eles vêm cavoucando as mil mentiras convencionais, religiosas ou com roupagens científicas que, em todos os tempos, têm causado repulsa aos homens honrados. Os cavouqueiros não têm prisões terrenas, não têm ouro, posições de destaque nem poderio oficial a respeitar, a temer, a escravizá-los, como acontece à maioria dos sábios da época.
São invencíveis os cavouqueiros da Verdade, porque são livres e porque livres eram antes de se locomoverem neste mundo de miséria, e são livres e valentes para a luta, por procurarem em todos os sistemas filosóficos, em todas as doutrinas conhecidas e já mencionadas por nós nestas NOTAS, a origem do homem, a sua causa primária e a dualidade do mesmo como corpo e espírito, ou Força, funções do espírito e do cérebro, para, desses estudos, se conhecerem a si próprios, na sua composição psíquica e fisiológica, o que vale dizer: Força e Matéria.
Das conclusões desses estudos demorados, em noites e dias seguidos, chegaram à descoberta da Verdade, e com a luz puríssima dela irradiada, puderam esses cavouqueiros, pergaminhados ou não, concluir que a Força, também denominada espírito ou alma, é que tudo organiza, incita e movimenta, quer neste, quer nos outros planetas.
Desse investigar constante, ficaram convencidos os cavouqueiros da Verdade que o homem ignorante destes princípios agora por nós explanados é sempre dominado pela paixão e vê somente as coisas pelo prisma do seu interesse exclusivo, ou pelo desejo levado ao auge do paroxismo, como diz Sabóia: tudo deturpa, tudo amolda ao seu intelecto, aos seus desejos desordenados. tornando-se intolerável aos olhos da própria família, dos próprios colegas, que têm o hábito de raciocinar.
Entre esses cavouqueiros da Verdade, contam-se médicos honrados e independentes, corno o Dr. Alberto Seabra, que escreveu:
“O corpo dissolve-se, e numerosas vezes, durante a vida, se reforma.”

“Entretanto, apesar dessa transformação constante – através das modificações do corpo material –, ficamos sempre a mesma pessoa, o espírito é sempre idêntico a si mesmo e com ele subsistem a memória, a recordação de um passado, de que não participou o corpo atual.”
“Há, pois, em nós um princípio distinto da matéria, uma força indivisível que persiste e se mantém no meio dessas perpétuas substituições.”
“Sabemos que por si mesma não pode a matéria organizar-se e produzir a vida.”
“Desprovida de unidade, ela se desagrega e se divide ao infinito.”
“Em nós, ao contrário, todas as faculdades, todas as potências intelectuais e morais agrupam-se a uma unidade central que as abraça, liga e esclarece, e esta unidade é a consciência, a personalidade, o Eu.”
Esse “Eu”, a que se refere o erudito médico paulista Alberto Seabra, é a Força que, independente da matéria, dela se serve para fazer o que lhe apraz; é o espírito, sobre cujas funções esclarece o professor Visconde de Sabóia:
“Todas essas funções – pensamento refletido, levado a idéias gerais e abstratas, memórias, imaginação, ânsia de saber – se exercem, sem dúvida alguma, por meio do cérebro, que é o órgão e instrumento do espírito e corresponde, pela perfeição, à sua essência, mas é de todo o ponto inadmissível que ele as produza, que tenha em si condições
que o façam experimentar o desejo de obter o conhecimento das coisas, ou ter o gozo e a delícia que desperta o descobrimento da Verdade.”
“Um cérebro privado da alma não teria procurado, diz Dolfus, nem experimentado o prazer de um Arquimedes ao descobrir a circulação do sangue, ou o de um Copérnico, ao entrever em espírito a circulação dos planetas, não sendo o cérebro, por mais que se dividida em partes onde se acomode cada operação psíquica, se não uma condição fisiológica para o recebimento das impressões que aí vão ter ou que recebe do mundo externo, e de que o espírito toma conhecimento, lavra o julgamento, segundo as leis do entendimento, e guarda a lembrança que será despertada voluntariamente ou involuntariamente por impressões ou percepções congêneres, de que em outras ocasiões o aparelho cerebral pôde ser afetado ou que a alma provocou por uma ação própria sobre o cérebro, revelando-se na consciência do eu a realização do ato lembrado ou despertado pela vontade ou motivos que esse tem para agir".
       Aí tem o leitor dois médicos e eruditos de valor, cavouqueiros da verdade, a afirmarem a existência da Força, da alma, do espírito, da vida fora da matéria, e independente dela a servir-se do cérebro como aparelho, como instrumento seu, por ela, para tal fim, organizado.
E a essa bela conclusão têm chegado todos os investigadores honrados da existência da Força independente da matéria e da sua ação suprema sobre esta, confirmando-se, assim, a afirmativa de Claude Bernard e outros eruditos notáveis, de que a matéria mesmo viva é incapaz de pensar, por pertencer essa função ao elemento que lhe vem de fora e vive fora dela – que é o espírito.
Tal verdade repugna, porém, à falsa ciência imposta pelos mestres, porque vem desmontá-los dos pedestais de barro em que a toleima de uns e a preguiça intelectual de outros os têm colocado.
E porque assim é, terão todos de ouvir a voz da verdade e sentir fundo os seus efeitos na consciência, até que se humanizem e libertem de preconceitos escravizadores.

33. O cérebro não é a sede da vida nem produz pensamentos.


Que o cérebro não é a sede da vida nem a matéria organizada é sede ou fonte de inteligência, é já fartamente sabido pelos que mais honrada e desprendidamente procuram a descoberta da Verdade, e tratam de estudar o homem em sua composição psíquica e fisiológica, e assim a composição do Universo, do qual é o ser humano uma miniatura.
Que é um fato a existência da. Vida, da inteligência, da Força fora da Matéria, independente desta, o têm afirmado os mais eruditos professores do mundo.
Que os pensamentos são forças suturadas de poder, que nós atraímos ou repelimos conforme a nossa vontade, é afirmativa de cientistas que, após anos de escravização à ciência oficial, dela se libertaram, por já engulhados de tanto preconceito por essa ciência teimosamente sustentada em prejuízo da humanidade e da verdadeira ciência, que é aquela que se baseia na Verdade.
Tais verdades só são ignoradas pejos indolentes e pelos cegos propositais, que são todos os homens escravos de preconceitos científicos, religiosos ou sociais – por todos, enfim, que, pelo seu estado de escravidão, não querem acreditar nas investigações, ou a vaidade não os deixa ver as pesquisas honradas de homens da ciência, convictos de que a vida esteve sempre e continua a existir fora da matéria.
Os homens podem mentir e mentem sempre que a vaidade os domina e a sua condição de escravos a isso os obriga, mas a fotografia não pode mentir, porque reproduz o que existe. Nesse caso está a fotografia do pensamento e dos corpos astrais ou duplo-etéreos.
São, pois, grandes impostores os que teimam em sustentar as teorias falsas em que se apegam, como as que têm por princípio, por base, a matéria e o cérebro como sede da vida e segregador do pensamento.
Tais homens, por mais sábios ou professores que pareçam, não podem merecer a menor consideração e respeito, por serem arautos da mentira, escravos do vício, e assim só males, e grandes, produzirem à humanidade.
Tudo quanto temos afirmado e continuaremos a afirmar, até o fim, não é novo, é velhíssimo, tem a idade do primeiro homem, dos primeiros habitantes deste planeta, pois que pouco existe de novo na Terra; e é por esse motivo que temos momentos em que somos obrigados a ferir fundo a vaidade, os vícios, as misérias desses cientistas oficiais, por serem eles os maiores teimosos que se conhecem, para os quais, nem o acicate da dor, nem as desgraças alheias, e às vezes até as próprias, os demovem do firme propósito em que se acham de tudo negar, de tudo deturpar, de contra tudo o que não se harmonize com as suas incompletas teorias, se revoltarem.
Têm eles certeza absoluta de que estão errados, de que mentem e de que são os coveiros, os desmoralizadores da ciência propriamente dita, que tem por base a descoberta da Verdade e, por fim, o bem geral da humanidade, mas lhes é mais fácil aceitar as mentiras dos compêndios, quedarem-se nelas e até desenvolvê-las, do que ter o trabalho de procurar a Verdade, ter a coragem de vencer os vícios que os dominam a partir os grilhões das mentiras que os prendem a essa ciência incompleta e dogmática.
Obra de escravos voluntários é essa teoria, e esses seres têm de parecer-se fatalmente com os seus descobridores, com os seus sustentadores, porque filho que se não parece com o pai é produto roubado à virtude do lar, à honradez do chefe desse lar, e portanto não é possível deixar de reconhecer que tal pai, tal filho, tal ciência, tais cultores seus.

Estão tão fora do mundo moral, tão alheios à verdade e à honradez ciceriana, que para conservarem os falsos princípios que sustentam, para que eles continuem a imperar, vão à Europa buscar eruditos que com eles estejam, embora na forma, ou em parte, desprezando a prata da casa, os sábios brasileiros, os que sempre colocaram a honradez científica acima de tudo, como Pinheiro Guedes, Alberto Seabra e o Visconde de Sabóia, que diz, a folhas 289, linhas 10, da sua já citada obra:
“Dizer que o cérebro pensa, porque se pode perceber certa correlação entre o pensamento e a sua condição física é pedir à experiência externa o que essa não podia dar, porquanto o pensamento lhe escapa em seu modo e em sua natureza íntima.”
"Se o pensamento e as idéias fossem um produto da massa cerebral, como a bílis é um produto do fígado, as urinas um produto dos rins, eles seriam semelhantes em mim como nos outros homens e, no mesmo momento, as mesmas impressões, as mesmas imagens, as mesmas emoções e os mesmos desejos se manifestariam, por forma idêntica.”
Mas como não é, dizemos nós, é absurdo o princípio de que o cérebro segrega o pensamento como o rim segrega a urina, e que o cérebro seja a sede da vida, o gerador e expedidor da Força, representada pelos pensamentos.
A folhas 287, linhas 19, continua o Visconde de Sabóia:
“No cérebro, todos os traumatismos ou violências produzem fenômenos correspondentes aos que podem ser observados em órgãos mesmo essenciais à vida, sem que a inteligência sofra uma modificação proporcional e persistente.”
“Tenho visto e observado doentes vítimas da perda de uma não pequena porção da massa cerebral, sem que a inteligência deles oferecesse a menor modificação ou perturbação.”
“Mosso, em seu livro O Medo, diz ‘que se têm visto homens, nos quais se havia feito a ablação de grande parte do cérebro que, em virtude de acidente, fazia hérnia através de uma abertura craniana, não se observando a menor sensibilidade na massa cerebral’. ”
O que o materialismo médico afirma, com relação ao cérebro e à vida do homem, carece de fundamento, pois que, como dizem os eruditos acima, o cérebro nada mais é do que um instrumento da Força, da vida que existe fora dele ou que a ele fica ligado para movimentar o corpo e fazer articular palavras para exprimir pensamentos do espírito, e nada mais.
Mas, há ainda mais argumentos aniquiladores desses mestres queridos que nós iremos publicando para o bem da ciência e da humanidade, pouco nos importando com esse oficialismo sem base, sem noção de honradez própria das almas evoluídas, embora humildes.

34. Inteligência a peso

É como a entende a ciência oficial

É sabido que a escola materialista atribui a formação de todos os seres orgânicos ou de todas as coisas, às forças cegas da matéria, como diz o Dr. Sabóia, e não tem dúvida em sustentar que não há uma alma dotada de faculdades, e que aquela não é mais do que a representação do conjunto das funções do cérebro.
Convém, todavia, assinalar um fato curioso: os materialistas, negando a existência do espírito, não deviam falar em psicologia, ciência que se ocupa, não das funções cerebrais, mas das faculdades ou operações íntimas do espírito; entretanto, todos empregam esse termo, ainda mesmo quando tratam das faculdades atribuídas por eles às funções cerebrais, com o título de fenômenos psicológicos, dando à luz trabalhos que se referem à psicologia da atenção, da consciência, da memória, do caráter, do amor, etc.
Mesmo Maudsley, um dos mais notáveis sectários do materialismo, publicou dois importantes livros, um com o título de Fisiologia, e outro com o de Patologia do Espírito -– o que seria o caso de perguntar-lhe:  Se não há espírito, como poderá haver fisiologia e até patologia do espírito? .
O Visconde de Sabóia, a folhas 267, de seu já citado livro, escreve:
“A escola materialista tem, pois, o privilégio de conceber não somente uma psicologia sem espírito, como até mesmo uma psicologia experimental, que deveria ser uma psicologia em que fosse observado e examinado o espírito e estudadas as suas faculdades experimentalmente (o que até agora se não conhece, nem disso quer tratar a ciência oficial, dizemos nós).”
“Mas nada disso acontece, porque também seria de uma impossibilidade absoluta observar no cérebro a fabricação ou produção do pensamento, da consciência, da atenção, da memória, das idéias abstratas e gerais, do sentimento e da vontade.”
“De que se ocupam, então, os materialistas nos laboratórios que instituíram para o estudo experimental da psicologia?"
“É do estudo dos animais inferiores de certa ordem de fenômenos nervosos, para daí deduzirem que no homem as operações psíquicas ou mentais podem ser explicadas pelas leis da física e da química”.
Confirma, assim, o grande Prof. Sabóia o que temos afirmado: que a falsa sabedoria de alguns mestres atuais leva-os a falar do que não conhecem e a inventar termos para encobrir a ignorância que os domina sobre o homem físico e o homem psíquico, o que vale dizer: sobre os porquês da Força e da Matéria.
Depois de um sem-número de tolices afirmadas pela ciência materialista para fazer valer o falso princípio de que o cérebro é a sede da vida e o segregador do pensamento, atirou-se à forma da caixa craniana, peso e volume do cérebro do homem, como prova da inteligência mais ou menos desenvolvida.
Para isso, lançaram mão do professor Broca, que disse que abaixo de 907 até 1049 gramas de peso para o homem, e 900 gramas para a mulher, o cérebro deixava de oferecer as condições necessárias para a normalidade das funções mentais. Esqueceu-se, porém, que se esse notável antropologista atribuía grande importância ao volume do cérebro, aferido diretamente, pelo peso ou pela capacidade craniana, ele protestou, formalmente, contra a idéia, que poderiam atribuir-lhe, de ter querido estabelecer uma relação absoluta entre a inteligência e o volume ou peso do cérebro.
Mas, como cada um quer o que quer, faz questão de trabalhar o menos possível e de obter este mundo e o outro sem esforço, continuam os pescadores de águas turvas a agarrar-se ao peso do cérebro, embora as pesquisas feitas por Gambetta, segundo diz Poral, no seu livro O Crime e a Pena, viessem mostrar que “a inteligência está longe de conservar relação constante com o peso do cérebro; tanto que o daquele tribuno não pesava mais de 1294 gramas, quando a média do peso dos cérebros dos parisienses é de 1357 gramas.”
O Dr. Manouvrier declarou que “Um fisiologista, diante do cérebro de Gambetta, não teria hesitado em crer que pertencia a um selvagem”.
Por essa pequena amostra, vê bem claramente o leitor até que ponto chega, e pode chegar, a audácia de qualquer fisiologista que do psiquismo verdadeiro nada perceba, como nada percebem todos eles.
Não se lembram que “o cérebro de alguns macacos é quase igual, em forma e volume, ao do homem; entretanto, que diferença enorme entre aquele animal e este último, dispondo, às vezes, de uma inteligência capaz de tudo conhecer e de elevar-se às mais sublimes concepções”, como ensina Sabóia, a folhas 284.
É claro, pois, que se a vida estivesse no cérebro, e este segregasse o pensamento, quanto maior fosse o volume da massa cerebral, mais desenvolvida devia ser a inteligência, e então o macaco devia pensar e agir como o homem, e como ele ter os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos.
No entanto, assim não é, nem pode ser, porque se tal toleima fosse possível, a baleia, que dispõe de um cérebro que pesa 2500 a 4000 gramas, seria o mais inteligente dos seres da criação, e é ela um dos mais estúpidos, como bem diz Sabóia, combatendo todo esse amontoado de despropósitos. Com efeito, tratando das funções do espírito e do cérebro, assevera, a fls. 298:
“Até hoje ninguém descobriu ainda os elementos que são empregados no cérebro para a produção do pensamento; ninguém chegou ainda a mostrar como as moléculas do sangue penetram no corpo da célula cerebral, e se tornam parte da consciência; ninguém sabe como do conjunto da vida de uma simples célula possa nascer alguma coisa que represente a consciência e a sensibilidade.”
“As doutrinas aqui não servem para coisa alguma.”
“As doutrinas se confundem no nada de nossa ignorância.”
“A essência da matéria não é menos incompreensível que a do espírito.”
“Desde Lucrécio, que apresentou trinta provas da materialidade da alma, até os materialistas modernos, não se tem dado um passo para a frente no conhecimento da essência do pensamento.
“No fundo, os materialistas destroem um dogma, para levantarem outro.”
“Se repelimos as hipóteses dos espiritualistas, afastamos, com igual severidade, dos confins da ciência experimental, aqueles que hoje pretendem explicar por meio de doutrinas materialistas a gênese do pensamento.”
“A anatomia e a fisiologia, o conhecimento da estrutura e funções do cérebro, não se acham bastante adiantados, e ainda reina uma obscuridade profunda acerca da natureza dos fenômenos nervosos e dos movimentos físicos e químicos que se passam nas partes desconhecidas em que a consciência tem a sede.”
“Não falemos da alma, nem da matéria.”
“Confessemos, com franqueza, a nossa ignorância.”
“Tenhamos confiança no futuro da ciência, e persistamos na procura da verdade.”
É assim que os honrados mestres, como o Visconde de Sabóia e Mosso, concluem sobre o peso do cérebro e demais toleimas científico-oficiais, e indicam à mocidade das escolas que tenha persistência na procura da Verdade, para ver garantido o futuro da ciência.
A Verdade está sendo agora explanada nestas NOTAS, de uma forma simples, e ao Brasil coube a sua descoberta; a mocidade que a aproveite e a imponha, porque sendo luz irradiada sobre eles, sobre a ciência oficial, muito a poderá ajudar.
Aproveite-a a mocidade das escolas, porque é para ela e para a humanidade, que a explanamos.

35. Penedos científicos

Em destruição pela Verdade

Mudos e quedos como os penedos do imortal Camões, são e estão os pseudoprofessores, neste momento em que confundimos a vaidade humana, numa tentativa, talvez vã, de despertá-los para a Verdade. Tudo está a indicar que nem o rufar de tambores, nem o toque dos clarins da Verdade em marcha para a conquista do bem da humanidade, para o acordar das qualidades afetivas da honra, do dever e, pois, da moral verdadeira, conseguem incutir em suas consciências petrificadas o ânimo, a disposição, a coragem para dominarem a vaidade e enveredar pelos amplos caminhos da Verdade, libertos da rotina à qual vivem escravizados.
Tristíssima, realmente, é a figura que tais “penedos-sábios” estão representando no momento em que o Racionalismo Cristão e a humanidade lhes pedem contas de toda essa viagem científica de cerca de dois mil anos, ainda muito longe de terminar, sem coragem para virem a público dizer algo que demonstre, ao menos, a confiança no ensino que praticam.
Os representantes da medicina materialista não ignoram as falhas existentes naquilo que pregam. O que lhes falta é o ânimo, a franqueza e o valor para virem dizer ao público e aos seus discípulos, que não passam, todos eles, de gralhas enfeitadas com penas de pavão, que nada sabem ao certo das coisas sérias da vida, e mui especialmente da desagregação da matéria organizada e da continuação da vida e da força que incitava essa matéria.
Quando atacados por balda certa, como agora, quando desafiados a virem explicar os porquês racionais do que afirmam, furtam-se a esse dever e dizem aos seus discípulos e aos de sua família:
¾ Não respondemos, porque nos colocamos acima de tudo e de toda essa gente que nos reprova; estamos em boa companhia, como a de Haeckel, que escreveu: “a alma, ou atividade espiritual, é uma função cerebral, uma função fisiológica governada por fenômenos mecânicos”; estamos com Le Dantec, que afirma “que a vida psíquica é um epifenômeno da vida fisiológica”, e também com de Metchnikoff, que assevera ser “a noção do aniquilamento total da consciência uma noção tornada corrente, aceita pela enorme maioria das pessoas ilustradas.”
Nesse depoimento de sábios e filósofos, funda o materialismo as suas esperanças salvadoras, que nós classificamos de esperanças perdidas, porque nem todos os Haeckeis, todos os Le Dantecs, de mistura com todos os Metchnikoffs do mundo, mesmo materialmente falando, empilhados uns sobre os outros, formando muralhas mentais ou Montes Alpinos de todas as toleimas fabricadas pela sua perturbadíssima espiritualidade, poderiam impedir a explanação e a vitória da verdade, e assim do progresso de tudo quanto existe neste planeta de lutas e miséria.
O grande erudito português Alexandre Herculano, na sua obra Eu e o Clero, disse: “um absurdo é sempre um absurdo, embora inventado por um engenho grande ou pequeno”. Quer isto dizer que por maior que pareça um indivíduo tido como sábio, está ele sujeito, quando não se conhece a si próprio, a inventar absurdos que depois os dorminhocos, os preguiçosos, tomam como certos ou como coisas sérias, e sobre elas arquitetam afirmativas e toleimas, com ares de quem manda e não pede.


Além disso, com referência a essas figuras de destaque entre os parlapatões científicos da época, diz o médico Alberto Seabra, na sua obra O Problema do Além e do Destino, a folhas 55, linhas 21, em diante:
“Dentre os autores citados, os que ainda vivem, ou negam os fatos sem poderem, contudo, provar serem eles ilusórios, inautênticos, irreais, ou os aceitam e, não podendo incorporá-los ao monismo materialista, fingem, por isso, desconhecê-los.”
“Num ou outro caso, estes homens ,estão abaixo da situação da hora presente.”
“Porque, com efeito, são fatos que importam à humanidade no mais alto grau, e que contribuem largamente para a solução do grande enigma do além e do destino humano.”
E assim conclui o Dr. Seabra, a folhas 56:
“Do ‘creio’ da fé dogmática para o ‘sei’ da indução científica, vai uma distância que, uma vez transposta, seria para a humanidade como a maior e a mais proveitosa das descobertas.”
Como vê o leitor, o Dr. Alberto Seabra, está de acordo com o seu colega Visconde de Sabóia e com o Racionalismo Cristão. Havendo feito parte do materialismo, hoje se revoltam contra ele, porque nesse corpo de doutrina nada conseguiram observar de sério e de proveitoso para a ciência nem para a humanidade.
Ainda o Dr. Alberto Seabra, no capítulo IV da sua obra, ao tratar da “Hipótese materialista – Existência objetiva do od, Ação dinâmica”, diz:
“Mal nos pomos a caminho, procurando esclarecer e interpretar os fenômenos mais simples da física transcendente, e já percebemos que o leitor se revolta acusando-nos de viver em um mundo de ilusórias fantasias e hipóteses imprestáveis.”
“É que o saber corrente recebe como fatos certos, autênticos, somente os acessíveis a nossos sentidos, e como ciência genuína, as interpretações que resolvem os ditos fatos, nos termos da matéria, do movimento ou da força.”
“Esse modo de pensar é que nos parece ilusório; meia ciência essa em que se debate a quase totalidade dos sábios contemporâneos.”
“Convém não esquecer que a explicação materialista dos fenômenos é também uma pura hipótese, hipótese insuficiente e nunca demonstrada.”
“A ciência e a filosofia materialistas reduzem os fatos da experiência aos termos de uma solução que escapa á experiência, isto é, a uma pura hipótese.”
É um médico erudito e independente que assim se manifesta, e com certeza, todos esses professores materialistas não terão coragem de se considerarem superiores a esse seu colega esclarecido.
Conhecedores da existência das obras do Dr. Alberto Seabra, do Visconde de Sabóia e do Dr. A. Pinheiro Guedes, brasileiros todos, não tiveram a coragem precisa para contestar as suas afirmativas ou aceitá-las, convertendo-se à verdade, e procuram até esconder dos seus discípulos esses honrados autores nacionais, para só lhes darem europeus vaidosos como eles próprios.
Tornaram-se, assim, penedos científicos que, lentamente, estão sendo destruídos, para que a verdade possa caminhar e penetrar nas escolas, para o bem da mocidade iludida por esses mestres de alto lá com eles.



36. Novo rumo

Navegar a uma larga

Destruídos, arrasados os penedos científico-oficiais pelo broquear ininterrupto do Racionalismo Cristão e a dinamite da Verdade, reduzidos a alvenaria e a brita esses penedos que por egoísmo e pretensão atravancavam os largos mares do progresso dos seres e coisas deste mundo, dever é agora, o nosso, dar novo rumo a estas NOTAS, que podemos considerar modernas caravelas pilotadas pela Verdade neste tormentoso mar de mentiras convencionais, empolado pelo irracionalismo de tal grei científico-oficial, a navegar, à larga, para os mares calmos, bonançosos, da sabedoria real, verdadeira, até podermos chegar, com vento de feição, com essa larga constante, ao porto do destino, que é o progresso real da ciência e da humanidade.
A rumo, pois, da Força (único princípio inteligente do Universo) nos fazemos, agora, deixando pela popa todos esses parcéis de intrujices, cobertos pelas algas das conveniências do vesgo materialismo científico.
A uma larga de deitar pelo menos catorze milhas por hora, vão navegar, agora, as caravelas condutoras das almas sequiosas da luz puríssima da verdade, para se alumiarem neste terrível caminho trevoso que escolheram, para mais rapidamente se purificarem.
Quer isto dizer, leitor amigo, que depois da demonstração cabal, certa e segura, da nulidade dos preconceitos da ciência oficial e da triste figura de seus adeptos, da falta de raciocínio desses seus escravos pergaminhados, que seriam desculpáveis se não fosse a falsidade que os domina contra a Verdade, base da felicidade dos povos; que depois da destruição das bases da doutrina materialista pelos mestres brasileiros, chefiados pelo notável Visconde de Sabóia, que, depois de trinta e tantos anos de estudos constantes, acabou por condenar as teorias materialistas, vamos agora tratar mais amplamente da explanação da Verdade.
Vamos expor o verdadeiro psiquismo, complementar no estudo da matéria organizada, e assim o que seja a Força e a Matéria, base de tudo quanto existe no Universo, portanto não só neste planeta, como em todos os outros.
O nosso psiquismo denomina-se racional e científico, porque de fato obedece à razão e à ciência, que é a descoberta da Verdade, e não a indivíduos mais ou menos vaidosos, fabricantes de teorias tolas, inventores de termos mais ou menos pomposos para encobrirem a ignorância que os domina sobre tudo quanto existe, e que andam por este mundo a fazer papéis de macacos em loja de louça, de palhaços de feira barata, dando-se ares de importância e de mestres, que de fato são, mas de mixórdias baratas.
É esse o mudar de rumo a navegar em uma larga com vento de feição: deixar os falsos sábios entregues à sua provada insignificância.
Antes, porém, de levantarmos ferro e sair do porto do materialismo perigoso, dever é o nosso chamar a atenção do leitor para o que diz o mestre cearense Visconde de Sabóia, a folhas XI, linhas 9, na sua obra A Vida Psíquica do Homem.
“O homem é considerado um ser distinto de todos os outros animais, composto como estes de um corpo, mas dotado de uma alma espiritual, e que a esse espírito, uno, indivisível, simples e imortal, se prendem todos os atos mentais – a inteligência, o pensamento refletido, a vontade livre – base da verdadeira moral, procedendo a alma e vida de um poder perfeito e infinito – criador de tudo e das leis que regem o Universo na mais sublime e admirável ordem e harmonia, traçando para o espírito princípios diversos dos que regem a matéria, mas os unindo nas mais estreitas relações para a manifestação da vida psíquica, deixando o homem preso à sua contingência e imperfeições, mas dotando-o do livre-arbítrio e estabelecendo leis morais, para que compreendesse o bem e o mal, a verdade e o erro, a virtude e o vício, enfim o belo em todas as suas formas”.
Acompanhados desse mestre em navegações científicas, que no mar da cirurgia foi piloto sem rival, é que vamos dar início à nossa navegação pelos mares desconhecidos da Inteligência Universal, que tanto temor causam aos pseudocientistas, dos quais, em boa hora, se divorciou o grande Visconde de Sabóia.
Não se vai, pois, tratar de reles crendices, baseadas nas explicações das milhares de seitas que no mundo existem, dessas religiões que até agora têm dominado os povos, sob diversas denominações. Não! Nada disso, que só produz fanáticos. Vai-se tratar da verdadeira ciência, baseada em princípios certos e seguros e em leis imutáveis que, aceitos por homens de real valor, não têm sido, todavia, explanados de maneira acessível a quem quer que seja.
Vamos, portanto, completar a obra desses honrados eruditos, abrir, de par em par, as portas do templo onde impera a Verdade, que é Força, que é Inteligência, sem a qual nada poderia existir no Universo.
É isto que faremos, daqui por diante, para o bem da humanidade, sem visarmos a menor recompensa de quem quer que seja, visto que, escravos que somos do dever, só à nossa consciência devemos satisfação, e nos julgamos fartamente pagos com a certeza do dever cumprido.
Afirmam os mais eruditos que não se podem prevenir nem curar os males da humanidade, sem se lhe falar claramente.
Por ser racionalista e grandemente verdadeira esta afirmativa, é que nós, os explanadores do Racionalismo Cristão, tudo temos feito para bem claro tornar os porquês das coisas, a causa de todos os bens e males que atormentam a humanidade, para os quais nem a ciência, nem seita alguma, das que mais se conhecem, têm indicado remédio eficaz e procurado extingui-los ou mesmo minorá-los, até agora.
Explanando, a fartar, a composição do Universo e os bens e os males que pode produzir a força universal, quando parcelada no mundo físico ou astral, temos sido de uma simplicidade tão grande, de uma clareza tão completa, que com ela se têm espantado a ciência oficial materialista, os potentados e até os homens de relativa honradez, mas fracos no dizer e no agir; temos mesmo usado de uma terminologia que ao modernismo social e cientifico tem parecido bárbara e ofensiva, apesar de simples.
É que sendo preciso expressar pensamentos honrados, fortes, desinteressados, em tudo verdadeiros, só o podíamos fazer pondo em evidência certos fatos, por palavras, termos e feitios que a mentira convencional, as várias profissões exploradoras da humanidade, seitas ou religiões, haviam desprezado e substituído, para que em seu nome, como se presente fosse, imperasse essa coisa reles e caricata que aí está com o rótulo de civilização dos povos e civilização ocidental, que fez desaparecer a alma e a honradez em todos os atos humanos, para dar largas à preguiça intelectual, à vaidade, fonte de todos os vícios e de todas as misérias, e todas as manifestações da besta, do ser inferior e desprezível.
Por esse motivo não é entendida, por tais infelizes, essa terminologia simples, usada pelo Racionalismo Cristão, para exprimir a verdade verdadeira; essa linguagem utilizada em todos os tempos, por Hermés, no Egito; por Confúcio, na China; por Platão, Sócrates e outros, na Grécia; Krishna, na Índia; Virgílio, Horácio, Juvenal e Cícero, em Roma; Joana d'Arc, Descartes, Voltaire, Zola, Gambetta, Thiers, Napoleão e outros seres na França; Dante e Machiavel, na Itália; Afonso Henriques, Gualdin Pais, Egas Muniz, D. Diniz, D. João I, Nun'Álvares Pereira, João das Regras, Príncipe Perfeito, D. João II, Corte Real, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, D. João de Castro, Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, o incomparável épico Luís de Camões; o padre Antônio Vieira, Manoel da Nóbrega, Alexandra Herculano, Camilo Castelo Branco, Oliveira Martins, Pinheiro Chagas, José Estevam e muitos outros, em Portugal; Cairu, Araguaia, Libero Badaró, Evaristo da Veiga, padre Feijó, Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio, Luís de Castro, Apulcro de Castro, Ferreira de Araújo, Júlio Ribeiro, Silveira Martins, Eusébio de Queirós, Cotegipe, Visconde de Ouro Preto, Caxias, Osório, Porto Alegre, Campos Sales, Floriano Peixoto, Benjamin Constant e muitos outros deste Brasil querido.
Esse português por nós repetido com o vigor preciso, irrita cientistas materialistas e toda essa magna caterva doirada, balofa, vazia de idéias e de senso e repleta de todas as misérias que a tornam ridícula e até mesquinha em demasia; mas temos certeza de que beneficia o Todo, que é a humanidade, e que é do agrado do povo simples e autêntico, desse honrado mourejador de todos os dias, desse eterno explorado por essa casta parasitária que só vive para arrancar o dinheiro ao povo, por atos de verdadeiros salteadores de estrada, para proveito deles e de seus apaniguados.
Nessa linguagem assim clara, assim benéfica para o povo, para a humanidade, é que explicamos tudo quanto os seres precisam saber para levar a bom termo a sua existência e bem cumprir os seus deveres, sem perder tempo e agindo com segurança para libertar, afastar os maus elementos e atrair os bons, os que fortificam o corpo, elevam a alma e a tornam digna de ascender às esferas superiores e de ligar-se às verdadeiras purezas astrais.
Neste livro tem a humanidade, bem claramente desenvolvidos, os porquês das coisas e assim, a causa de muitos bens e de muitos males, de que sofre, e como estes males podem ser evitados; só quem muito animalizado, materialista, escravo de falsos princípios, enfim, muito mau for para si próprio, é que duvidará do que ficou escrito e desses Princípios Racionalistas, pelos quais se há de reger a humanidade, daqui em diante, quer queira, quer não queira, porque é para isso que são chegados os tempos.
Assim tudo explicado e bem claramente descrito, vamos demonstrar, na segunda parte deste livro, como se fica louco (nervoso, etc), como se evitam e curam tais enfermidades e como se fortificam o corpo e a alma para a luta pela vida destinada ao ser humano na Terra.
Preparem-se, pois, os materialistas, para estudar a Força, primeiro elemento componente do Universo, bem como a ação desta sobre a matéria, pois não se pode chegar a ser cientista, ignorando a força-máter de tudo que vida tem.

37. A composição do Universo

Força e Matéria

Na primeira parte deste livro, ficou provado:
a) a ignorância sobre o que seja a Força e a Matéria, e assim a base da verdadeira ciência;
b) que as diversas doutrinas conhecidas e por nós já mencionadas, são todas falsas, porque têm por base a matéria, embora com diversas denominações ou rótulos para se enganarem a si próprias e à humanidade;
c) que a medicina, como arte de curar, é incompleta, por sofrer do mesmo mal das doutrinas diversas, que é o de tudo basearem na matéria organizada, desprezando a causa verdadeiramente inteligente, que é a Força.
Toda essa prova foi feita e reforçada pelo erudito mestre Visconde de Sabóia, pelos médicos Dr. Alberto Seabra e Dr. Pinheiro Guedes, e pelo médico-bacteriologista francês, Dr. Paul Gibier, discípulo querido de Pasteur, havendo ainda muitos da mesma opinião.
Destruídas, assim, as bases falhas dessas doutrinas, preciso se torna, tratar agora da verdadeira ciência, para o que ela serve e qual a sua base real, incontestável e benéfica.
Para que o leitor possa chegar a essa conclusão, para que possa a sua razão aceitar a Verdade, base da ciência, tal qual ela é, em sua simplicidade, preciso se lhe torna:
1º) pôr de parte, por dias ou por todo o tempo preciso, os preconceitos religiosos e todo saber que não se alicerce em provas reais;
2º) deixar de lado esse saber sem base séria, até que o seu raciocínio possa compreender o que vamos explanar; essas explanações, apesar de não serem novas, e sim tão velhas quanto o mundo, lhe devem causar espanto, pela sua simplicidade;
3º) que não tenha a menor prevenção contra aquilo que for lendo, embora lhe pareça impossível, bizarro ou sobrenatural, como dizem, e que tudo vá submetendo ao cadinho da sua razão, do seu raciocínio, quando baseado nos princípios derivados da Força, e que lhe serão apresentados nestas lições.
Quer isto dizer que sem desprendimento, sem calma, com egoísmo, com vaidade, com idéias preconcebidas, sem que o leitor faça o que lhe indicamos, nada compreenderá, a conclusão alguma proveitosa chegará, e se manterá no erro em que se têm quedado esses orgulhosos materialistas, com a prosápia característica das suas figuras de destaque.
O nosso fim não é fazer adeptos, não é fazer crentes, é obrigar a raciocinar, é mesmo obrigar a pensar com acerto, porque, quando isso acontecer, salvas estarão a humanidade e a ciência.
Não queremos escravos nem preguiçosos intelectuais a nos louvarem; queremos seres livres, em pleno raciocínio, com a força e a honradez precisas para bem compreenderem e praticar a Verdade.
Queremos que todos se convençam de que o bizarro, o milagre, o sobrenatural, são produtos da ignorância humana, e que o homem que não se conhece a si próprio, na sua composição material e espiritual, não é esclarecido, é um joguete das falsas teorias, da falsa ciência e da religiosidade vã.
Queremos, ainda, que todos se convençam de que não há bem que não custe desgostos, nem saber sem o tributo do trabalho, e que a Verdade não há de vir saltar-lhes ao pescoço.
É mister procurá-la, é preciso pensar para concluir que não há religião, por mais elevada, que se compare à Verdade.
Queremos, por último, que o leitor não se preocupe com o autor destas NOTAS, e sim, e somente, com os princípios nelas explanados, visto que acima dos homens de qualquer categoria intelectual e social, estão esses princípios, e deles somente se deve tratar, e não dos indivíduos, que de fato pouco ou nada valem.
A Verdade tem que vencer em toda a linha.
É ela quem afirma ser o Universo composto de Força e Matéria, e que desses dois únicos princípios tudo deriva, desde os grandes planetas que gravitam no Espaço, ao planeta Terra, um dos menores, bem como tudo que compõe os reinos da natureza. É, pois, o homem o Universo em miniatura, porque contém em si os dois princípios e os elementos existentes e já descobertos na Matéria.
A Força é também denominada Inteligência Universal, Luz, fonte da vida de todos os seres, e que, parcelada no mundo físico, organiza, incita e movimenta todos os corpos dos reinos da natureza.
Essa Força, essa Inteligência Universal que também se denomina Grande Foco, pode ser observada nos diferentes reinos da natureza, e sentida pelo ser humano em si próprio, a todos os momentos, como adiante se verá; ela não é da Terra, aqui vem, em partículas de diversos graus, e fica sujeita às leis do progresso de todos os seres.
Em virtude dessas leis comuns, naturais e imutáveis, é que essa Força parcelada incita e movimenta os corpos visíveis e mesmo os que os olhos armados não vêem, mas que existem, em volta de nós, e são chamados pelo vulgo seres invisíveis.
É essa Força (o elemento principal que no Universo existe) que surpreende os homens, que os assusta e os tem feito recuar das investigações da Verdade, por faltar-lhes moral e desprendimento.
À ela é que referem os Drs. Claude Bernard, Paul Gibier, Sabóia e muitos outros, sustentando que vem de fora e vive fora de nós, e que de fora chega para incitar e movimentar a matéria organizada.

38. Para se compreender a Verdade


Para que nada se perca e tudo se aproveite do que temos escrito e vamos continuar a escrever; para que, com relativa facilidade, possa, quem ler estes escritos, aproveitar o seu tempo e conhecer-se a si próprio e, assim, os porquês das coisas; para que os maus hábitos, criações de vontades fracas e mal educadas, não se anteponham, não evitem o raciocínio que cada ser tem obrigação de pôr em ação sobre tudo quanto lhe for dito neste livro; para que, enfim, a besta, que é a matéria, não domine a alma, que é a partícula inteligente, (a Força que em nós existe) e possa esta reagir contra as imperfeições da primeira e agir com acerto nas resoluções que tomar para chegar à descoberta da verdade, dela se convencer e praticá-la, preciso se torna:
1º) Cada ser humano ter sempre presente que a Força, a Inteligência Universal que os diversos povos da Terra denominam Deus, Ser Supremo, Supremo Arquiteto do Universo, Supremo Arquiteto dos Mundos, base de todas as seitas que existem e o Racionalismo Cristão afirma ser o Grande Foco e não ter forma de homem ou outra qualquer, é a Grande Luz Universal de que se compõe o Universo, em que estão envolvidos os planetas que nele gravitam e todas as galáxias;
2º) que, além deste planeta, milhares de milhões de outros existem, de diferentes categorias, todos envolvidos numa atmosfera que lhes é própria, de acordo com a sua categoria;
3º) que o planeta Terra é envolvido por uma atmosfera gasosa que estabelece, ao seu redor, como que uma aura que, rarefazendo-se, gradualmente, se perde no espaço infinito;
4º) que, em virtude das leis comuns e naturais, de complicadíssima sabedoria para o homem físico que, por isso, o perturbam e assustam, leis essas que encerram todos os segredos e esclarecem todos os fenômenos, só nos mundos inferiores e atrasados, como o planeta Terra, é que as partículas da Inteligência Universal, desse Grande Foco, desde as que se acham ligadas aos diversos reinos da natureza, até ao ser humano, é que têm forma, é que têm corpo, porque assim é preciso para, em tal meio, em tal atmosfera pesada, poderem estar e agir essas partículas e cumprirem o seu dever de trabalhar, constantemente, na organização, evolução e aperfeiçoamento desses diversos reinos da natureza e, portanto, do seu próprio;
5º) que, por essa razão, as partículas humanas, as mais evoluídas, as mais adiantadas das que já passaram por todos os reinos da natureza, de que se compõe este planeta, têm uma forma diferente das outras, de todos os animais, denominada corpo físico ou carnal, e que serve de carro para a Força, que é a alma ou espírito, locomover-se dentro deste lamaçal tremendo em que é obrigada a estar;
6º) que, assim sendo, é preciso que cada ser humano procure convencer-se do que anteriormente foi dito e aqui fica explicado, sobre:
a) a composição do Universo, como Força e Matéria;
b) a certeza de que a Força é tudo, e a Matéria organizada é para a inteligência que a. anima, um mero instrumento;
c) de que, desagregado o corpo, a Força continua a viver e a manifestar-se por vários modos, até por intermédio do ser humano, para tal fim desenvolvido;
d) de que, por esse motivo, é preciso que coloque apenas os pés no mundo físico e ligue a sua partícula de Força à Inteligência Universal, para bem compreender os porquês das coisas e convencer-se de que não deve tomar a figura humana ou qualquer corpo organizado deste planeta, para modelo de coisa nenhuma, visto que a matéria, liberta dela a Força ou alma, entra logo em estado de putrefação, até ir juntar-se, já em estado fluídico, cada categoria de fluido aos que lhes são, neste próprio planeta, afins.
Se, pois, o ser humano não se convencer do que aí fica, e não se colocar em condições de bem raciocinar para concluir que limitar a vida dos seres ao que se passa, se vê e se observa neste planeta, é erro grave, do qual têm sido vítimas muitos estudiosos da Terra, pois que, além deste mundo, milhões de outros existem, habitados pelas partículas da Inteligência Universal.
A alma não é deste mundo e sim de outros mais adiantados, onde não é preciso o corpo carnal para se viver e agir, já que em tais mundos se vive em partículas de luz, ligadas, harmonicamente, umas às outras, formando um todo uno em vontades, desejos e pensamentos, e assim, em verdadeira e franca fraternidade; se de tais verdades não se quiser convencer, ou não se colocar em condições de as ouvir e sobre elas raciocinar, nada aprenderá e tudo continuará a negar, como até aqui o tem feito a falsa ciência.
Perdendo a velha mania de tudo querer subordinar à matéria e a este mundo, de tudo querer comparar ao homem físico, que nunca foi a imagem da Força, mas sim um invólucro da partícula dessa Força para aqui lutar e vencer; convencido de que o homem físico é, apenas, uma forma animal organizada pela Força espiritual, pela alma, para a sua estada provisória neste mundo, e dando à Força, a Inteligência, a forma de um imenso foco de luz que tudo organiza, incita e movimenta, e que está em toda parte, porque em toda parte onde há vida se faz presente o Grande Foco, rapidamente compreenderá o que aqui se for escrevendo, porque então estará colocado em condições de tudo ver e sentir bem claramente, uma vez que pairará acima das mentiras convencionais, das vaidades, dos vícios e misérias terrenas, das correntes animalizadas de certos meios em que vive, e sobressairá o homem psíquico, o homem moral, o homem Força, o homem luz, para tudo ver de maneira mais simples e exata, para raciocinar sobre as coisas sérias da vida, sobre a sua composição e sobre a real, certa e incontestável composição do Universo.
Tudo compreenderá e tudo fácil lhe será assimilar, para chegar à conclusão de que a humanidade tem vivido enganada pelas seitas religiosas, pelos falsos raciocínios alimentados por todos, até hoje, por acreditarem que só neste mundo se vive, que só aqui o homem pode imperar e que, após a morte do corpo, nada mais existe que dê prazer e felicidade aos seres, como em geral afirmam essas criaturas grandemente criminosas por se dizerem sábias e sacerdotes, quando não passam, em sua maioria de seres vaidosos e gozadores, para quem a carne é tudo, e a Força, a alma, não é nada.

39. Força e Matéria

Ação no planeta Terra

Não é demais tratarmos aqui da Força e da Matéria, do que uma e outra são, realmente, dos seus efeitos e das falsas bases da ciência materialista. O próprio Buchner, o mais notável dos eruditos do nosso tempo, que escreveu sobre a Força e a Matéria – título até de um livro seu – declara que o que sejam a matéria em si e a força em si, nem ele nem sábio algum ainda o sabiam.
Todos conheciam até o quarto estado da matéria neste planeta, até o estado radiante, descoberta do investigador inglês Willian Crookes, (quando, em verdade, esses estados são inúmeros), mas ignoravam, por completo, a origem da matéria organizada e os seus diversos estados neste e noutros planetas.
E assim, sem ultrapassar os limites do mundo físico, todos os sábios faziam derivar a força da matéria organizada ou mesmo da de certo grau de fluidez ou eterizada, buscando nas células do corpo humano, especialmente no cérebro, a sede da vida e dessa Força, e chegando alguns ao gravíssimo erro de afirmarem que o cérebro segregava o pensamento, como o rim segrega a urina.
Tão grosseiro erro praticado pelos adeptos de todas as doutrinas, inclusive as denominadas espiritualistas, e por todas as seitas conhecidas, tem sido a causa do atraso da ciência, da moral dos povos e da humanidade, que tem agido mais instintivamente, sob a influência do hábito e do medo da morte e dos castigos neste planeta e fora dele, após a morte, do que racional, consciente e cristãmente, como era e é do seu dever, do seu desejo íntimo, quando em horas boas, horas de paz, que todos os seres humanos têm durante esta torturante vida física.
E porque assim tem sido e continua a ser entre todos os povos, apesar dos sofrimentos pelos quais a humanidade está passando, é que insistimos para que se estude a Força, por ser ela a base racional e científica de tudo quanto existe, e da Verdade.
Asseveramos que a Força já descrita não é originada da matéria, porque isso seria andar o carro adiante dos bois, pois seria o maior dos absurdos admitir que a matéria, que não pensa e se decompõe, fosse a geradora da Força, que é inteligência, que é luz.
A Força, que no mundo físico se sente e tem origem no Grande Foco, também denominado Inteligência Universal.
Desse Grande Foco vem ela incitar e movimentar todos os corpos orgânicos e inorgânicos, animados e em lenta evolução, dos reinos mineral, vegetal e animal.
É essa Força parcelada que se observa em atividade constante neste planeta, que assusta o homem que não sabe fazer bom uso do seu livre-arbítrio e raciocínio.
A Matéria organizada está nas auras que envolvem os diversos planetas, desde a que forma a do planeta Terra até à dos grandes planetas cinzentos, opacos, brancos, diáfanos e de luz que se movimentam no Espaço infinito, grandioso e belo.
Não há no Espaço montes, nuvens ou campos de matéria, e sim mundos em organização, (as nebulosas), e outros já organizados, envoltos em auras ou atmosferas cinzentas, opacas, brancas, diáfanas e de luz, ligados ascendentemente uns aos outros, e é destas atmosferas cósmicas ou fluídicas astrais que as partículas da Força lançam mão para organizarem corpos.
Tem, pois, a matéria organizada, origem na Matéria em si, que é elemento fluídico, do qual a Força lança mão para fazer, em conformidade com as leis do Universo, o que lhe apraz, neste planeta e fora dele.
Se a dita matéria não fosse o fluido cósmico que envolve os astros, com diversas cores, trazido à Terra pela Força, para o que lhe é preciso organizar todos os seres, humanos ou não, teriam a mesma conformação fisiológica, a mesma cor e consistência.
Mas assim não é, porque ao planeta Terra tudo vem de fora e vive fora dele, fornecido pelos outros planetas que o rodeiam, em obediência às leis imutáveis do progresso, para o auxiliar, e aos seus habitantes, que não poderiam viver se lhes faltasse o oxigênio proveniente de outros planetas, e sem os ventos fortes ou fracos, e até as suaves brisas marinhas para limpar a atmosfera deste mundo.
Aí tem o leitor o que a Força faz da Matéria, que mesmo viva, no mundo físico, é incapaz de pensar e agir, como afirmam médicos de erudição e honradez comprovadas.
Raciocine com calma, e verá como a Força se manifesta, se vê, se sente e se a usa para o bem ou o mal, conforme o estado espiritual, o livre-arbítrio e a vontade dos seres.

40. Os diversos estados da Força e da Matéria

Como eles se observam no planeta Terra

A Força, a Inteligência Universal, é o elemento vital criador de tudo quanto existe.[1] Essa Força, parcelada, facilmente se observa:
a) nos corpos sólidos, como no cristal, que se refaz, quando fragmentado, obedecendo às linhas geométricas da sua espécie, o que denota a ação dum elemento inteligente e diretor;
b) nos vegetais, na sua variadíssima e delicada constituição, desde as gramíneas, as flores, às portentosas árvores, de que se compõem as grandiosas florestas brasileiras e européias, no seu desenvolvimento, florir, frutificar e murchar, enquanto não desagregadas, decepadas, podadas do seu todo e arrancadas da terra.
c) no reino animal, irracional, desde o animal doméstico mais meigo, mais dócil, aos ferozes;
d) nos alados, nos seus movimentos e cantos, desde a águia da Serra do Marão, em Portugal, ao condor dos Andes, ao cisne das margens do Mississipi, ao urubu-rei, ao mutum grande, negro, bico amarelo, das florestas mineiras, ao jaó, à perdiz e centenas de outros, inclusive o sabiá-laranjeira ou coleira, o Caruzo das nossas florestas, e ao rouxinol, chefe dos cantores alados de todo o Planeta.
e) no movimentar, agir, pensar, falar, rir e chorar do ser humano das diferentes raças, estados sociais e categorias materiais e espirituais.
Cada corpo vivo contém uma partícula da Força em evolução, em ascensão, e daí o princípio de que não existem duas coisas ou seres iguais na natureza.

No ser humano, essa Força, e as suas variadas categorias, são de fácil constatação, já pela conformação fisiológica de cada ser, já com relação às suas manifestações intelectuais e mentais, instintos, hábitos, usos e costumes.
Quem, pois, se quiser colocar em condições de bem raciocinar e observar o que se passa nos diversos reinos da natureza, em volta de si, e até em si próprio, fácil lhe será conhecer os vários estados da Força parcelada no mundo físico, as categorias dessa força e, assim, da matéria.
Não é preciso recorrer ao milagre, ao sobrenatural, ao bizarro, ou às várias doutrinas, fontes de teorias absurdas e inteiramente contrárias à verdade e às leis comuns e naturais que tudo regem, para se ter a certeza da existência real da Força, da inteligência e da matéria; é bastante cada ser dominar-se a si próprio, colocar-se em condições de bem raciocinar, para assim tudo observar, ver, sentir e convencer-se de que, de fato, tudo é como dito fica.
Os diversos estados, ou categorias da força, estão sempre em evolução, em ascensão, embora lentamente, porque tudo progride e nada retrograda nem estaciona. Mas este progresso é somente em relação à Força, à inteligência, porque a matéria já existe, tal qual deve ser e é necessária, nos seus diversos estados, envolvendo os milhares de mundos, ligando-os, uns aos outros, ascendentemente.
Sendo a matéria elemento inerte, sujeito à ação da Força, esta, à medida que vai progredindo, diafaniza o seu corpo, substituindo a matéria por outra menos densa e mais de acordo com o seu progresso. É por essa razão que se diz na Terra que a matéria do corpo humano se refaz, se substitui de 7 em 7 anos, e em virtude dessa substituição, a matéria A, que se desagrega do corpo B, passa ao estado que lhe é próprio, impulsionada pela lei da atração, e desse estado sai depois para a composição de outros corpos idênticos à sua categoria, de acordo com o adiantamento do espírito ou força.
Esta substituição da matéria dá-se com o ser humano e com todos os reinos da natureza, porque todos evoluem, ascendem e, assim vão substituindo, diafanizando os seus corpos físicos, visto que as leis do progresso são imutáveis, e todas as categorias de Força a elas estão sujeitas.
Assim, facilmente se compreende que a matéria não progride, em virtude dela já existir nos diversos estados, nas milhares de categorias de mundos e espíritos, na formação das auras desses mundos.
A matéria grosseira que envolve os planetas inferiores, à medida que se desagrega dos corpos diversos que no planeta existem, vai servir para a organização de novos corpos ou mundos.
É por esse motivo que se afirma que nada estaciona, nada morre na natureza, tudo se transforma, tudo se move na organização de novas formas e novos mundos, sempre dirigidos pelas leis naturais, emanadas da Inteligência Universal.
São esses os diversos estados da Força e Matéria, que podem ser observados neste planeta e em corpo astral, em evolução. O ser humano tudo recebe de fora, e é por isso que a ciência materialista ignora, até hoje, de onde vêm o oxigênio, a eletricidade e tudo quanto dá auxílio e vida ao planeta e seus habitantes.

41. Inteligência Universal


O espírito humano, devido à sua natural perturbação causada pela diferença da atmosfera diáfana do mundo a que pertence, (e do qual veio) com a densa, gasosa, pesada, da Terra, e pela sua ligação fluídica à matéria, ao corpo, por ele próprio organizado, para nele se depurar pelo trabalho, pelo sofrimento derivado da ingratidão dos seres, com os quais é obrigado a conviver, fez o ser humano mais sobressair pelos instintos, especialmente o da conservação física, (a parte animalizada) e o hábito originário da sua vontade, só materialmente educada.
Desse imperar de instintos e hábitos animalizados, se desenvolveu, cresceu e ficou nele predominando o egoísmo, motor de todos os seus atos, desejos e pensamentos terrenos, todos utilitários, todos materializados e bestiais.
Desse egoísmo, filho dos maus instintos, dos maus hábitos e da falta de educação da vontade, resultou o hábito pernicioso do ser humano considerar-se superior a tudo, repleto de orgulho e prepotência.
Dessa errada noção de independência, de liberdade, do poder e do dever, resultou também a sua soberbia, o repúdio do seu semelhante, da disciplina e da obediência precisas para a harmonia e o progresso seu e de todos os seres.
Desse instinto, desse hábito, dessa má compreensão dos seres e das coisas sérias da vida, e assim dos seus deveres, resultou, por último, a revolta contra o seu semelhante e a invenção de um ser supremo, superior a todos os homens, engendrado à sua maneira, à sua semelhança, conforme o seu intelecto e a sua vontade, ao qual ele se pudesse dirigir nos seus momentos de fraqueza, de medo, de sofrimentos físicos.
Desse erro, filho da crassa ignorância e da animalidade dos povos, resultou ainda a idolatria – invenção de ídolos pelos povos selvagens e dos deuses do paganismo – além do “deus” das diversas seitas atuais dos povos ditos civilizados, e com essas criações, o hábito de adorar esses ídolos representados por tais deuses, que os católicos denominam santos, à imitação do paganismo grego, da época em que cada família tinha o seu “deus”, conforme lhe aprazia, como hoje cada família Católica Apostólica Romana tem o santo de sua devoção, conforme lhe apraz, e assim ficou arraigada, em todos os povos, a idéia de um ser supremo, materializado, que, depois de muitas denominações, passou a firmar-se mais em uma só: na do “Deus todo-poderoso”, mas, ainda assim, à imagem de cada povo.
E é por este motivo que o Deus dos Normandos era Odin, o deus da carnificina, por estar de acordo com os seus inferiores desejos, com os seus instintos, inteiramente animalizados; e, ainda, que o atual imperador da Alemanha[2] exerce o poder em nome do seu Deus, que denomina “Deus velho” e, portanto, o Deus dos da origem da sua raça, a arrasar cidades, a desorganizar lares, a desonrar donzelas, a trucidar velhos e crianças e a meter nas fornalhas, para a produção de gorduras, os soldados mortos em combate.
Todavia, se o instinto animalizado, o hábito depravado criaram essa figura, esse ser supremo tão feroz, a alma humana, nas suas horas de paz, elevando-se acima das coisas e misérias terrenas, também sentia necessidade de ligar-se a alguma coisa que na Terra não existia, tal qual devia ser, e que uma saudade, uma nostalgia indefinida para a alma lhe fazia sentir e compreender ser ele uma realidade, embora o ser humano não visse, nem apalpasse.
Ora, desde que dele tinha saudades, e o sentia nesses momentos, é porque de fato ele
existia; e daí a idéia de o adorar, tomando, como tal, o que foi inventado pelo instinto, pelo hábito, pelos desejos desordenados de todos os seres ignorantes, limitando tudo à sua imagem, ao seu “Eu”, já que Deus devia ser uma figura de homem ou outra que tivesse forma física terrena, superior ao homem, surgindo, por essa errada idéia, a materialização da Força.
E tanto assim foi sempre, e continuar a ser, que o Catolicismo Romano – que se dizia o continuador da doutrina de Jesus – deturpou os princípios que este grande espírito deixou na Terra, como base do seu ensino, para mais facilmente conseguir adeptos, fazer conversões de almas encarnadas, e inventou também um Deus, à semelhança do homem, apresentando Jesus como Deus, como a imagem do ser supremo, e imitando, desta maneira, o paganismo grego que Cristo veio combater.
Assim engendrado, esse Deus todo material, todo terreno, todo à imagem do homem, dos animais e até dos astros, todo utilitário, somente evocado para a satisfação de coisas e gozos materiais, não podia a humanidade dele fazer uma idéia nítida e real, e daí as muitas mil seitas, cada uma com um Deus de acordo com a sua imaginação, à maneira de cada povo e para os fins de os salvar da fome, da peste, da guerra, dos sofrimentos físicos, de dar-lhes o bem-estar, satisfazer-lhes a matéria, sem se importarem com os desejos, fins e bem-estar da alma, da essência e da composição desse ser supremo, da sua verdadeira espiritualidade, limitando-o ao mundo físico, sem pensarem no infinito.
Entretanto, pelo que dissemos com relação à Força e à Matéria, fácil se torna agora compreender não o Deus inventado pelas religiões, porque tal não existe, mas sim a Inteligência Universal (Grande Foco), tal qual é, e garantir, sem receio de contestação, que no Universo apenas existem Força e Matéria, e que é na Força que se encontra a explicação dos porquês de todas as coisas, e a ela se liga o ser pela irradiação de seus pensamentos elevados.
Fica assim destruída a falsa idéia de um Deus à imagem do homem, dos animais diversos e até dos astros, ou inteiramente materializado, como é apresentado por todas as seitas, inclusive a Católica Romana, cuja ignorância crassa sobre a existência da Força, em si é completa, e fácil se torna isso verificar pelo aparato das suas grotescas exibições e dos Templos e figuras de santos neles existentes, como se fossem um mercado de coisas, onde cada freguês pudesse adquirir o que mais lhe agradasse à vista e ao paladar, desde a figura de Santa Quitéria, Santa Efigênia, até à de São Benedito, São Gregório, e outros.
Fica, pois, assim definido o Grande Foco, Inteligência Universal ou Força Criadora, o primeiro Princípio componente do Universo, a Alma Máter de tudo quanto existe e vida tem.
O Grande Foco, e como Ele se faz sentir e ver, tanto quanto é possível, neste mundo físico, nós o dizemos nas obras Racionalismo Cristão, capítulo III, e Vibrações da Inteligência Universal.

42. A educação da vontade


Pelo que escrevemos até agora, facilmente deve ter compreendido o leitor que é a vontade mal orientada a causa de certos males; e como esta tem origem no próprio espírito, em ação, conclui-se que é a má educação do espírito, e, assim, da sua vontade, a causa dos males, pois que sem a ação deste, sem que a sua vontade queira, sem que o seu livre-arbítrio determine, nada de maior lhe acontecerá, nem maus elementos atrairá.
Por isso, diremos que para educar-se a vontade é preciso primeiro esclarecer-se o ser humano, para que ele compreenda, e se convença, de que conforme pensa assim é, assim atrairá para si aquilo em que pensa.
Esclarecido, portanto, sobre o que seja a Força e a Matéria, fácil lhe será conhecer o valor da vontade e a ação do pensamento, assim como o que lhe pode resultar do mau uso do livre-arbítrio, se não procurar raciocinar com acerto.
Para um espírito adiantado, fácil se torna a educação da vontade, porque nesse adiantamento já está o germe do progresso, da educação dessa mesma vontade.
Para os espíritos atrasados e indolentes, que são a maioria dos que se acham encarnados neste planeta, não é fácil essa educação, mas isto não quer dizer que seja impossível; desde que o homem educa um irracional, até ao ponto de levá-lo a fazer coisas admiráveis, se o cavalo e o cão se prestam a uma educação que causa admiração a todos os que os observam, por que motivo o homem, ainda que de inferior espiritualidade, não há de superiorizar-se a esses animais, na educação?
Pode, pois, o ser humano, por mais baixa que seja a sua condição espiritual, tornar-se atraente pelas suas ações, filhas do seu livre-arbítrio, e este, por sua vez dependente da sua vontade, quando fortemente educada para o bem.
E como conseguirá o homem de espírito superior ou inferior, a educação da vontade, para a boa aplicação de seu livre-arbítrio e benéfica irradiação de pensamento?
¾ Conhecendo-se a si próprio, como Força e Matéria, e mais:
a) procurando os bons para ser como eles, e com eles adquirir bons hábitos, porque, afastando-se dos maus, tanto quanto lhe seja possível, adquirirá hábitos fortes e, ainda que maquinalmente, o seu espírito agirá como os desse meio bom, e adquirirá, por fim, o hábito de raciocinar; quando este hábito lhe for familiar, estará resolvido o problema da educação da sua vontade, de bem pensar para bem agir, bem atrair e constituir, portanto, uma assistência Astral Superior para bem o intuir, e assim, evitar más aplicações do seu livre-arbítrio;
b) procurando ter o espírito sempre voltado para as coisas úteis e seres bem assistidos, de moral relativa, e ouvir as pessoas honradas, que são as valorosas, ponderadas, moderadas e justiceiras, para com elas aprender que só esses predicados podem dar ao livre-arbítrio o impulso preciso para a prática do bem, para os bons pensamentos e as boas obras;
c) assim fazendo, aprenderá a distinguir o falso do verdadeiro e a caminhar, com segurança, nessa vida.
À medida que se instrui, que se educa, que se esclarece, progridem a vontade, os pensamentos e o livre-arbítrio,
O livre-arbítrio representa os sentimentos e a vontade de cada ser humano, e com a sua prática torna-se este inteiramente responsável pelas suas ações, visto que o possui para a prática do bem, e quando, em vez do bem, pratica o mal, o faz contra si próprio, e terá de responder, por isso, em reencarnações consecutivas ou em corpo astral, neste ou noutros planetas, com o intransferível dever de esclarecer, assistir e reparar o dano causado em suas vítimas; terá de fazer, em mais ou menos tempo, tudo aquilo de que depende a sua evolução.
Infelizmente, estes princípios comezinhos, relacionados com a origem e a interpretação do livre arbítrio, não são conhecidos da maioria dos que se dizem espiritualistas, e aqueles que os conhecem furtam-se à sua boa prática, por depender ela de sacrifício e de disciplina rigorosa. Daí, o avassalamento das criaturas pelo astral inferior, ao qual, pelo mau uso dessa faculdade, se acham constantemente ligadas, e com tal ligação, além de fazerem a sua desgraça material e moral, danificam todas as pessoas que delas se aproximarem.
*   *   *
Pelos princípios expostos e claramente definidos pelo Racionalismo Cristão, conclui-se que o ser, não empregando para o bem o seu livre-arbítrio, além de aumentar as suas faltas com injustiças, com o mau uso dessa importante faculdade, sujeito, como está, às leis dos homens decretadas para reprimir abusos e maldades, será por essas leis punido, e por vezes caríssimo lhe custa o abuso. Isto, quanto ao homem físico, pois que quanto ao espírito, esse, depois que desencarnar, fica sujeito às leis espirituais, que são, em tudo, imutáveis.
Se, pois, as leis que na Terra existem, tanto quanto possível benéficas, são reflexos das do Espaço Superior, e essas leis coarctam a liberdade dos seres, quando praticam faltas que prejudicam a terceiros, ninguém deve estranhar que se coarcte o livre-arbítrio a delinqüentes astrais, a espíritos desencarnados que se quedam e vivem na atmosfera da Terra, perturbados uns, perversos outros e materializados todos, fazendo mau uso dessa faculdade.
Quer isto dizer que os Espíritos Superiores, quando o julgarem preciso ao progresso da humanidade e dos próprios espíritos desencarnados, podem fazer cessar o uso do livre-arbítrio pelos espíritos materializados, impedindo-os da continuação dos seus malefícios.
É tão racional o que fica dito, como racional é a existência das leis entre os povos civilizados e mesmo certas usanças e disciplinas entre os selvagens, para a repressão de abusos e de crimes.
Claro está, portanto, que se entre os espíritos encarnados, já nos países civilizados, já entre os povos selvagens, são indispensáveis as leis de repressão, pelos benefícios que produzem aos indivíduos e às coletividades, e sendo, como de fato é, a atmosfera da Terra, o reflexo da própria Terra; e assim habitada por espíritos que quando encarnados foram ignorantes da sua essência, e por isso se tornaram viciados, turbulentos, egoístas, maus, criminosos, que outra coisa não são os espíritos nesse estado de imperfeição e que nele permanecem, com mais certeza, com mais facilidade, essas leis de repressão podem ser e de fato são aplicadas nessa atmosfera, quando as circunstâncias o exigirem.
Se assim não fosse, as leis do progresso não se fariam sentir, e os seres de baixa espiritualidade, os grandemente materializados, embora de profundos conhecimentos terrenos, todos inteiramente perturbados pelos fluidos grosseiros que os envolvem, pelas irradiações dos pensamentos dos encarnados e pela ação das correntes fluídicas a que estão sujeitos nessa atmosfera, onde se acham à vontade, por ignorarem a existência do Espaço Superior, dos mundos adiantados, nunca sairiam desse estado, dessa atmosfera, continuando, indefinidamente, a dar livre expansão aos seus sentimentos maus, ou mesmo viciados, impuros.
É, ainda, em virtude destes princípios, que o Astral Superior, firmado nas suas correntes, atrai e arrebata para o lugar que lhes é próprio muitos dos espíritos que se recusam ao cumprimento das leis do progresso, para se libertarem os encarnados da sua má influência.
Errados, pois, estão todos os que insistem em que “a natureza não dá saltos” com o progresso indispensável que precisa fazer o espírito humano, o qual contém em si as grandes potencialidades, vontade e pensamento, que são capazes de fazer do fraco um forte e do ignorante um esclarecido.
Para certos espíritas que vivem fabricando obsessões (loucuras) para si e para os outros e só têm, por isso, desmoralizado e ridicularizado o Espiritismo, para esses, cuja anormalidade é patente, pela falta de bom senso, de raciocínio, da razão esclarecida que demonstram, completamente ignorantes da verdade propriamente dita, esta maneira de agir e de cassar o livre-arbítrio dos espíritos, é injusta, porque, dizem eles comicamente: “Deus não pratica violências, nem autoriza que alguém as pratique”, mesmo porque – alardeiam ainda – “a. natureza não dá saltos”, sem todavia saberem o que são a Inteligência Universal e a natureza que “não dá saltos”; e assim, ignorantes e vaidosos, confundem as violências dos homens egoístas e repletos de ciúme, inveja e desejos de vingança, com as ações que as próprias leis da natureza impõem, por serem justas e necessárias, praticadas pelos Espíritos Superiores para a repressão de crimes, visando, unicamente, o bem-estar da humanidade e o progresso dos espíritos desencarnados, libertando-os das influências maléficas do meio, da matéria, dos pensamentos a que estão sujeitos todos os seres.

43. O Espiritismo é uma verdadeira ciência.


Temos afirmado, constantemente:
a) que quase nada de novo, espiritualmente, existe na Terra, e que, portanto, novo não é o Espiritismo, que foi praticado séculos antes da vinda de Jesus, no Egito;
b) que, depois do Egito e de Jesus, só ao Brasil coube a ventura de conhecer o Espiritismo autêntico, tal qual o prometeu Jesus, e que devia ser sempre a base de tudo e, pois, a Ciência, por excelência;
c) que esse conhecimento, essa ventura, foi dada ao Brasil, em 1910, com a fundação em Santos, Estado de São Paulo, do Centro Espírita Amor e Caridade, hoje Centro Redentor, Filial;
d) que foram eruditos brasileiros, médicos honrados, os que mais, melhor, mais claro e com mais acerto, disseram e escreveram, até àquela época, (1910), sobre o Espiritismo, as manifestações dos espíritos e os fenômenos espíritas;
e) que dentre esses médicos brasileiros eruditos e honrados, se destacam entre muitos, outros, os doutores: A. Pinheiro Guedes, que escreveu um livro denominado Ciência Espírita, e Alberto Seabra, de São Paulo, que escreveu O Problema do Além e do Destino, A Alma e o Subconsciente e Fenômenos Psíquicos.
Acrescentamos a estes o nome do Visconde de Sabóia que, como Mestre de Medicina, escreveu um trabalho filosófico A Vida Psíquica do Homem, onde é afirmada a existência do espírito.
Quer isto dizer que foi o Brasil o país escolhido pelas Forças Superiores para nele se desenvolver e consolidar o Racionalismo Cristão, puro, benéfico, explanando a verdade como base da própria ciência; e que foi no Brasil que primeiro se escreveu, com seriedade, com honradez sobre o invisível, sobre os porquês das coisas e das enfermidades várias, oriundas das perturbações da alma.
Estando, pois, no Brasil a verdade sobre tudo quanto existe explanada por médicos notáveis, foi ela desprezada por pergaminhados, que preferiram aceitar o latão dos cientistas europeus, já citados por nós, ao ouro de lei de cientistas brasileiros, honrados e queridos, seus compatriotas, seus irmãos ou companheiros de estudo. Esses vaidosos, esses especialistas do que não conhecem, desprezaram a prata de casa, para aceitar as figuras científicas da velha Europa.
Vamos, agora, provar o que temos dito, e, para isso, principiaremos pelo que afirma o notável médico Dr. A. Pinheiro Guedes, na sua referida obra, que iremos transcrevendo nas partes mais importantes, para bem da humanidade, em que ele demonstra:
1º) que a Medicina, como arte de curar, é filha legítima do Espiritismo;

2º) que o Espiritismo é a Ciência das Ciências, por ele unificadas em uma síntese admirável ;
3°) que só no Espiritismo, como Ciência, se pode explicar a origem, a natureza e a evolução da alma humana.

44. A origem da medicina


Sendo o fim do Racionalismo Cristão tratar dos porquês das coisas, do seu desenvolvimento e ampla explanação, de maneira que o erudito e o analfabeto bem se certifiquem de tudo quanto existe no Universo, a tal ponto que cada um, cada ser humano se conheça a si próprio e possa saber o que é, donde veio e para onde vai, não podemos deixar de tratar dos conhecimentos que mais interessam à humanidade, como a medicina, que teve, na sua origem, a denominação de “Divina Arte de Curar”, e cujos praticantes foram, como já dissemos, os sacerdotes.
Vejamos, pois, como o notável médico Dr. Pinheiro Guedes, na sua obra Ciência Espírita, a fls. 1, explica a origem da Medicina:
“A medicina, como arte de curar, é filha legítima do espiritismo.”
“Estranha, ousada, paradoxal, parecerá essa proposição àqueles que não conhecem a doutrina espírita e ignoram as origens da ciência hipocrática.”
“A História, entretanto, dá testemunho e provas de sua veracidade, não obstante o véu de longevidade, (brumas dos tempos idos) as origens de todas as artes, senão de todas as coisas.”
“A crítica, porém, armada de fino escalpelo, rasga esses véus; e se ela o não pode fazer, a Razão, analisando as faltas, procurando analogias, superando-lhes o valor, cria focos de luz que iluminam as trevas e espancam as brumas.”
“Percorrendo os domínios da História, penetramos no terreno da mitologia, onde a imaginação – artista incomparável – cria lendas supersticiosas, envolvendo a verdade em roupagens fantásticas, que a velam e escondem aos olhos inexpertos; aí, nessa região onde a fantasia domina, como rainha absoluta, vamos encontrar o berço da medicina, nos templos erguidos em honra de Esculápio, o criador da arte de curar, o deus da medicina.”
“Os serventuários desses templos, seus sacerdotes, eram chamados Asclepíades, do nome de Esculápio – Asklepos em grego; e assim também eram denominados os templos, onde os doentes iam pedir remédios para os seus males; e também, quando curados, vinham depor, em testemunho de gratidão, as descrições dos seus sofrimentos e a indicação dos remédios com que se curaram.”
Vê bem o leitor que é mais antiga do que se pensa, a “Divina Arte de Curar”, e que a, sua origem é a mais pura, a mais honesta que se possa imaginar, não se podendo comparar com essa coisa que para aí é praticada por muitas criaturas comparadas a alveitares, como afirma o honrado médico e professor Dubois, de Berna, no livro a que nos temos referido.
Assim começou a Medicina. Não queremos, por certo, e isso seria rematada estultice, substituir o médico pelo médium, e as Universidades pelas Casas Racionalistas. Mas, desejando ser compreendidos, tentamos demonstrar que a arte de curar foi assim, no seu início, porque não se esquecia o sacerdote que o paciente era uma unidade, composta de corpo e de alma. É bem verdade que a prática inicial da Medicina era um ato religioso efetuado nos Templos de Cós, Epidauro e Ismirna, não possuindo nenhum foro de Ciência.

Seria absurdo querer substituir as largas aquisições do laboratório da medicina experimental e especulativa, já obtidas pelo intenso labor dos homens de ciência, pelos atos litúrgicos da pitonisa do Templo de Apolo.
Não visamos o retrocesso, como poderão pensar os apressados, mas o estudo científico desses fatos e dessas curas, pois que trazidos uns, e esmiuçadas outras nos campos da ciência moderna, teríamos acabado com a superstição, e o Espiritismo seria estudado como verdadeira ciência e não como nova “arte divina de curar”, tão do sabor das legiões da crendice, mas como grande reserva de conhecimentos que por si demonstram a existência da alma, a continuidade da vida após a chamada morte, e o papel preponderante que o fator psíquico exerce na conduta e na saúde humana.
Saberiam assim os homens de ciência que nas Escolas de Medicina deveria estudar-se a verdadeira Psicologia – que é a ciência da Alma – e nela se incluiria, por certo, o Espiritismo Filosófico e Experimental.
Ao explanar o Racionalismo Cristão, só visamos despertar o interesse dos homens da ciência pela verdade inteira, que se de todo não estava com os sacerdotes dos Templos, ali emergiu como manancial de fatos que Hipócrates observou, tornando-se o criador da moderna Medicina, arrancando-a da superstição dos seus primeiros dias, para o terreno fecundo da especulação racionalizada.

45. O Espiritismo é a ciência das ciências, afirmam os médicos eruditos e honrados.


Não há nada como um dia depois do outro, ou como rir por último, para rir melhor, como afirma o povo, e de que é acertado esse dizer, se deve convencer o leitor que nos vem acompanhando nesta jornada.
Há mais de meio século se vem chasqueando das forças ocultas, dos fenômenos e da ciência espírita, sem que alguém se dispusesse a pôr-lhes embargos. Em sua magnífica obra Ciência Espírita, o Dr. Pinheiro Guedes, diz:
“A opinião pública, mal orientada até por cultores do Espiritismo, parece convencida de que ele é mais uma seita religiosa, acrescida às que já existiam, vegetando, como parasitas, à sombra da frondosa árvore do Cristianismo.”
“Tem sido induzida em erro, ciente ou inconsciente, pela imprensa, pelos padres e outros sectários de todas as seitas religiosas; pelos médicos e até por espíritas que, seduzidos pelas conseqüências ou efeitos morais resultantes do conhecimento da doutrina, consideram-na uma Religião.”
“A imprensa assoalha que o Espiritismo é a mais perniciosa de todas as filosofias.”
“Os padres, católicos e acatólicos, proclamam, do púlpito e pela sua imprensa, que ele é obra do “demônio”, e o maior inimigo da Igreja; os médicos, na sua maioria, propalam que ele povoa os Hospícios de Alienados e os cemitérios.”
“São as mil bocas da ignorância pretensiosa, do obscurantismo científico, da intolerância religiosa e do fanatismo estúpido que vociferam contra aquilo que não conhecem.”
“Essa grita infrene, toda essa celeuma, fez surgir em meu espírito a idéia de oferecer aos espíritas, aos médicos, aos padres, à imprensa e ao povo, estas páginas, em que lhes mostro:
ao povo, que o Espiritismo é como um farol que guia o navegante ao porto;
à imprensa, que ele é a mais racional, a mais consoladora de todas as filosofias, senão a verdadeira filosofia, porque nos eleva e conforta a alma;
aos padres e aos sectários de todas as seitas religiosas, que ele é o guia seguro nas jornadas infinitas para os mundos de Luz, e não um inimigo da Religião; não a condena, antes a justifica;
aos médicos, que ele não só não é um túmulo, antes um berço, onde primeiro se embalou a divina arte de curar; não é a morte, antes dá a vida; que em vez de povoar os Hospícios, abre-lhes as portas, para fazer sair desses ergástulos, casas de torturas, antros de horror, alguns infelizes que para lá foram empurrados pela mão da medicina materialista;
aos espíritas – místicos ou fanáticos –.que ele não apresenta nenhum dos requisitos das seitas religiosas, mas possui o caráter e preenche os requisitos das ciências; emprega métodos, processos e instrumentos que lhe são peculiares para o estudo, observação e análise dos fatos que constituem o seu objetivo.”
“Este trabalho é talvez como a faísca elétrica que, atravessando as nuvens carregadas de eletricidade, despede raios e trovões e as desmancha em tempestades; ele vai atravessar as hordas adversas, agitá-las, sacudi-las, com as verdades contidas em suas páginas.”
“Prevendo contestações e até invectivas, conto, de antemão, com a crítica: não a temo; antes a desejo; que venha, severa, mas séria e justa.”
“Não tenho a pretensão de haver feito trabalho sem senão.”
“Não há obra humana perfeita.”
“Não espero aplausos.”
“Não viso à glória, mas a verdade.”
“Niterói: 13 de agosto de 1900.”
Dr. Pinheiro Guedes.


Pelo que aí fica, pode o leitor avaliar o quanto é prejudicial à humanidade o preconceito dos homens, quando ditado pelos interesses da cátedra, da escola ou da Igreja.
Devido aos preconceitos, o Espiritismo, como Ciência, tem sido negado e denegrido, e assim continuou ao sabor dos charlatões e supersticiosos, quando ele interessa a todos e, sobretudo, ao homem da ciência.
Sendo o propósito do Racionalismo Cristão fazer luz e Verdade, não se cansa de exigir estudo, método e esforço de raciocínio e de investigação, para que o Espiritismo se afirme sempre como verdade demonstrável e ao alcance dos que a quiserem estudar, para se espiritualizarem.
Assim, ele é útil e necessário à Ciência Integral e à Humanidade, porque esclarece, liberta e engrandece a vida.

46. A medicina, sua origem e situação na atualidade


Conhecendo a capacidade intelectual da maioria dos homens escravos dos preconceitos de uma ciência materialista, como é a medicina atual, é claro que não é para tais seres que escrevemos, porque só a mentira convencional tem valor para eles.
Não podemos, porém, deixá-los à vontade, porque isso jamais o farão os homens honrados, os cristãos verdadeiros, que são obrigados a dizer a verdade, fira a quem ferir.
Por esse motivo, e em continuação, transcrevemos o que escreveu o valoroso médico Dr. A. Pinheiro Guedes, a folhas 33 da sua citada obra:

“Entre os lugares onde se praticava a ‘divina arte de curar’ e os enfermos iam buscar alívio, a ilha de Cós, pátria de Hipócrates, possuía um desses templos; foi aí, muito naturalmente, que o Pai da Medicina encontrou os materiais com o que o seu grande espírito construiu os alicerces da ciência médica.”
“Não só em Cós, mas em Epidauro, Siracusa, Pérgamo, Ismirna e Atenas, onde funcionavam os Asclepíades, mas também em Delfos, certamente, onde havia o mais célebre dos templos, cujo ofício divino (divinum est opus sedare dolorem), era a cura das moléstias, foi Hipócrates buscar as primeiras noções da divina arte de curar.”
“Mas, se em Cós e nas outras cidades, onde havia Asclepions, templos de Esculápio, eram sacerdotes que oficiavam, discípulos ou descendentes de Esculápio, assim não era em Delfos; e isto é importante, do nosso ponto de vista, é argumento chave de abóbada: em Delfos, cujo templo era dedicado a Apolo, o oficiante era uma Pitonisa.”
“A Pitonisa, sacerdotisa de Apolo, era uma mulher do povo, de condição humilde, obscura, sem instrução nem educação, virgem ou velha. Recolhida no templo, onde permanecia isolada, só proferia os oráculos em certos dias, sentada na trípode, sob a qual havia uma abertura ou fenda no chão, de onde subiam vapores aromáticos; e assim, mergulhada numa atmosfera de perfume, era tomada de fortíssima agitação, e então começava a falar, emitindo oráculos ou respostas às interrogações que lhe eram dirigidas, ou sentenças, que eram religiosamente registradas e guardadas pelos sacerdotes ou serventuários do templo.”
“A Pitonisa era, portanto, um médium.”
“Essa era a convicção dos sacerdotes e do povo, que acreditavam ser um Espírito divino que lhes falava, por intermédio daquela mulher.”
“Assim, pois, a medicina, como arte de curar, tem a sua origem nas revelações dos Espíritos.”
“Afirmei e demonstrei que a medicina, como arte de curar, se deve à comunicação dos espíritos; e o fiz, baseando-me na História.”
“Essa argumentação, entretanto, a meu ver, não é a melhor, constituindo, apenas, um elemento de convicção; na ratione, parece-me, a demonstração é mais compreensível, mais convincente, cala mais fundo, torna-se incontestável; os seus argumentos, os elementos de convicção encontram-se em toda parte, somente é preciso saber vê-los.”
“Assim, a dor, o sofrimento, a moléstia – ninguém o contestará, ninguém intentará, sequer, pô-lo em dúvida –, são contingências da vida, inerentes à criatura; são conseqüências inevitáveis, quase necessárias, da luta do vivente com a Natureza; do organismo com o ambiente ou meio em que surge e se desenvolve.”
“A dor material ou moral, um sofrimento qualquer é, desgraçadamente, uma necessidade da vida; sem isso, não haveria progresso, pois que este, produto da atividade pela liberdade, tem sua origem na necessidade, que significa falta; falta, que representa um sofrimento; sofrimento, que traduz a dor.”
“A existência da primeira família humana foi, de certo, a mais precária que se possa
imaginar.”
“Seres fracos, ignorantes, desprovidos de tudo, sujeitos às intempéries e às mil vicissitudes da vida; a dor, o sofrimento, a moléstia, foram, sem dúvida, seus companheiros, desde os primeiros anos.”
“Em tais condições, como prover as suas necessidades? Como conjurar seus males, obviar o sofrimento, aliviar a dor?”

“A observação do que ainda se dá em nossos dias, dos fatos que ocorrem por toda parte, cotidianamente, responde a essas interrogações.”
“Quando sentimos uma dor, levamos instintivamente a mão ao sítio dolorido, automaticamente, para afastar a causa, ou para obtermos alívio.”
“É por essa razão, indubitavelmente, que a Mitologia dá ao pai ou mestre de Esculápio, o nome de Quirão – nome derivado do vocabulário grego, que significa mão.”
“O silvícola recorre ao Pajé, que é o seu sacerdote, o intermediário entre ele e a divindade, aquele que fala com Tupã, de quem recebe ordens e bálsamos.”
“Ainda mais: quem se sente ferido, aquele a quem a dor punge, esse grita por socorro, mesmo achando-se só e num deserto, pede, implora auxílio; auxílio que só pode vir da sabedoria e do poder infinito, por intermédio dos executores de sua vontade, que são os Espíritos.”
“A Inteligência Universal, inteligência suprema, alma do Universo, só age indiretamente, posto que esteja presente em toda parte.”
“Assim como o Espírito humano está no corpo todo, que é feitura sua, e só age por intermédio dos nervos; assim também se pode afirmar, por analogia, que a Inteligência Universal, alma do Universo, que é feitura sua, só age indiretamente.”
“Eis a razão por que ou apelando para o auxílio da Inteligência Universal, diretamente, instintivamente, o que quer dizer por intuição ou sugestão, porque o instinto é faculdade intelectiva do espírito; ou recorrendo a um intermediário, o homem primitivo só achou recursos para debelar os seus males na intervenção direta dos Espíritos.”
“É, portanto, a Medicina, como arte de curar, filha legítima do Espiritismo.”

*   *   *


Assim foi, na sua origem, a Medicina popular, e assim continuou, através das idades. O homem que sofre foi ao templo, como selvagem, procurou o pajé, exatamente como em nossos dias se procura o espiritismo receitista, buscando, pela credulidade, adquirir aquilo que só a ciência inteira e a vida sã poderão dar.
O Racionalismo Cristão jamais se confundirá com isso. Interessa-lhe que o homem saiba viver com método e preceitos salutares, no que respeita à vida física e mental.
Interessa-lhe também que os médicos estudem e investiguem a composição astral, mental e física das criaturas. Só assim, estarão aptos a compreender a nobreza da arte de curar. Só assim – conhecendo o espírito como já conhecem o corpo – serão para a Humanidade os seus verdadeiros condutores, preservando-a de enfermidades do corpo e do espírito.
O ponto fraco da Medicina Moderna é a sua unilaterização de conhecimentos; só cuida do corpo, da matéria, e a alma ou espírito, continua ao sabor dos interesses dos místicos, dos exploradores e dos charlatões.

47. Como os médicos honrados lecionam.

O sono e o sonho; suas causas

O Dr. Pinheiro Guedes, no capítulo em que trata da Espiritologia, diz:
“O Espiritismo é a ciência das ciências; ele as unifica em uma síntese admirável. O Espiritismo é ciência profunda; vasta, eclética, cujo estudo fornece conhecimentos não só sobre o homem espiritual, mas também sobre o homem corpóreo; e ensinamentos de ordem moral e intelectual.”
“Ele nos faz compreender melhor o mecanismo das funções, não só das psíquicas ou mentais, mas também das orgânicas ou vitais; e as relações da alma com o corpo, cujas perturbações são causas predisponentes, e até determinantes, de estados mórbidos.”
“O sono, quer natural, quer provocado pela hipnose ou pelos anestésicos, assim como os sonhos e as alucinações, não podem ser explicados de modo compreensível, racional e cientificamente, pelos processos fisiológicos comuns e ordinários da escola organicista ou materialista.”
“O sono é a supressão das funções de relação; é a suspensão da atividade psíquica junto ao corpo, a quase cessação da vida animal.”
“Durante o sono, o corpo repousa; e a alma, se a vida durante o dia foi calma; ascende ao mundo astral que lhe é próprio, donde envia ao seu corpo físico, ao qual está ligada pelos cordões fluídicos, a vida anímica que o refaz para novas lutas; se houve, porém, durante o dia, grandes atribulações motivadas por sentimentos inferiores, como a inveja, o egoísmo, o ciúme, a maledicência etc., a alma fica na atmosfera da Terra, ligada aos meios perturbadores.”
“Enquanto repousa, o corpo repara as suas perdas, refaz-se, e a alma retempera-se, aprestando-se para novas lutas.”
“O sono, como a vigília, é um modo de ser do vivente; ambos afirmam a existência, em antítese: pois que a vida é dupla – vegetativa ou orgânica, animal ou de relação.”
“As escolas materialistas procuram explicar o sono, quer o natural, quer o artificial –provocado ou mórbido –, por uma espécie de paralisia do cérebro, devida à sua compressão, ora pela falta, ora pela superabundância de sangue.”
“Incontestavelmente, tanto a anemia como a congestão acompanham-no ou se apresentam no sono; dado o sono natural, provocado ou mórbido, o aparelho cefálico se encontra num desses dois estados; mas indicar o estado ou a condição de um órgão ou aparelho, na realização de um fenômeno ou de uma função; explicar o seu mecanismo ou a maneira de efetuar-se, não é determinar a sua causa; são fatos diferentes, não devem ser confundidos.”
“A observação registra que a perda de sangue, em quantidade excessiva, e às vezes, até a de uma pequena porção, traz, como conseqüência, o sono, o delíquio, a síncope, ou a vertigem e mesmo a morte, que é um sono do qual se não desperta.”
“Ainda outras manobras provocam o sono: a inalação de anestésico, os passes magnéticos, a sugestão, o repouso e até o movimento, quando cadenciado, um canto monótono e a só ausência de luz; tudo isso, todas essas manobras, são apenas condições para o sono; são, quando muito, causas predisponentes.”
“A causa do sono, a única real, verdadeira, aquela que o determina e impõe, é a necessidade da suspensão da atividade psíquica, a supressão das funções de relação: a paralisação temporária da vida animal.”
“O sono é para a vida animal o que a fome e a sede são para a vida orgânica: pela fome e a sede, o corpo reclama alimentos; pelo sono, a alma pede alento.”
“O sono é uma necessidade psíquica.”
“Os sonhos e as alucinações são fenômenos puramente psíquicos, que não podem ser explicados fisiologicamente; por isso, as teorias, que a ciência materialista criou, para os explicar, são falsas e até irrisórias.”
“Por elas, os sonhos são produzidos por perturbações do aparelho digestivo!”
“São o produto de uma atividade inconsciente!”
“São o fruto da superexcitação de certos grupos de células cerebrais, quando outros centros estão em repouso, daí a sua incoerência!”
“Não se lembram os criadores de tais teorias esdrúxulas de que há registrados sonhos autênticos, que foram verdadeiras profecias.”
“Passa-se nos sonhos o mesmo fato que se dá no sonambulismo lúcido: a alma do magnetizado vê e ouve aquilo que se dá a centenas de léguas: lê no passado e no futuro. Fatos que o corroborem, não faltam: encontram-se nos livros religiosos e nos profanos, nos romances e nas páginas da História.”
“As alucinações estão no mesmo caso, não podem ser explicadas fisiologicamente, porque nem são fenômenos psíquicos, mas fatos espirituais.”
“A pretensão da ciência materialista, a explicá-las, é simplesmente ridícula.”
“Não se pode aceitar, seriamente, como perversão dos sentidos, a alucinação, a audição de palavras, frases e dissertações em língua que o ouvinte não conhece, e que ele repete, com dificuldade; ou, ainda, a audição de uma peça de música.”
“Assim, também a descrição exata da figura de um indivíduo que o vidente nunca viu antes, falecido ou ausente; descrição minuciosa de seu porte, feições, atitudes e gestos habituais, o que revela a realidade e prova a identidade da pessoa, embora só a ele visível.”
“São numerosos os fatos desta natureza, registrados na literatura médica, na dramática e em outras.”
“Portanto, as teorias, inventadas pelos materialistas para explicar o como e o porquê dos sonhos e alucinações, são falsas; não passam de meras hipóteses, sem fundamento, sem as condições das científicas.
“Fenômenos puramente psíquicos e fatos espiríticos, como certas alucinações, verdadeiros casos de mediunidade, não obedecem a leis orgânicas.”
“As nevroses e, entre elas, principalmente o sonambulismo, a catalepsia e a loucura não têm explicação satisfatória e racional fora das teorias, princípios e leis provenientes do estudo dos fenômenos espiríticos.”
“Os fenômenos hoje estudados e vulgarizados sob o nome de Hipnotismo, e de há muito conhecidos por Mesmer, Puissegur, Dupotet e muitos outros, antes e depois deles; a chamada transposição dos sentidos, a penetração ou leitura do pensamento e sua transmissão, assim como a exteriorização da sensibilidade e outros, não podem ter explicação plausível, racional, científica, senão na existência do corpo astral, corpo anímico ou perispírito, que é constituído pelo fluido etéreo, ou fluido universal, cuja existência já foi demonstrada, experimentalmente.”
“O Espiritismo, portanto, é uma ciência profunda, vasta, eclética, cujo estudo é de suma utilidade.”

48. O Espiritismo, seu estudo e instrumentos


Continua o Dr. Pinheiro Guedes:
“Tendo afirmado que o Espiritismo é ciência vasta, profunda, eclética, cumpre-me demonstrá-lo; porque hoje não basta afirmar, é preciso provar, tornar coisa evidente, palpável: o tempo do magister dixit, foi-se. Obediente ao método, provarei, primeiro, que é

ciência, demonstrando, depois, que é vasta, profunda, eclética; porque abrange o ciclo das evoluções que o Espírito realiza desde o seu início, desde a sua origem.”
“Vejamos, para isso, em que consiste o que se denomina ciência:”
“A ciência é o conhecimento das coisas, dos fatos e dos fenômenos em si mesmos, em sua natureza e nas suas relações entre si e com tudo o que os cerca, o meio, o ambiente.”
“Esse conhecimento só se obtém pelo estudo metódico, observação atenta e análise minuciosa.”
“É, portanto, a ciência fruto de nossa inteligência, resultado do nosso trabalho; ela visa a um fim: satisfaz uma necessidade do nosso Espírito.”
“O Espírito sente incessantemente necessidade de investigar; é ávido de conhecimentos; quer luz, mais luz, sempre luz.”
“O Universo é infinito; a avidez de luz é insaciável; a matéria de estudo inesgotável.”
“A ciência é um corpo de doutrina, sintetizando todas as leis e princípios deduzidos do estudo do Universo; ela é, pois, um conjunto de ciências.”
“As ciências, portanto, são múltiplas e várias; tantas, quantas são os objetos de estudo; todas visam ao mesmo fim; mas cada uma tem o seu objeto – a matéria de que se ocupa; umas são concretas, outras abstratas.”
“Assim, pois, não podem todas aplicar os mesmos métodos; cada qual reclama métodos, processos e aparelhos adequados à observação e análise da coisa, fato ou fenômeno, que é objeto do seu estudo, quer na parte puramente física, quer na parte astral.”
“É o que se vê, o que se nota em todas as ciências até hoje constituídas.”
“A Matemática, a Astronomia, a Física, a Química e as ciências biológicas – Botânica, Zoologia, Antropologia e a moderna Sociologia – todas têm a sua matéria de estudo, e servem-se de métodos, processos e aparelhos apropriados, de acordo com a natureza do seu objeto, e segundo as necessidades do estudo.”
¾ Preencherá o Espiritismo esses requisitos, satisfará essas condições, para merecer os foros de ciência?”
“O Espiritismo tem por fim: esclarecer-nos sobre o outro mundo, sobre a vida de além-túmulo; provar a existência da alma, sua preexistência e sobrevivência ao corpo, satisfazendo assim uma necessidade iniludível da nossa alma, aspiração incessante do nosso eu.”
“Ele estuda os fatos extraordinários, mas numerosos, numerosíssimos, que constituem uma ordem de fenômenos, até há pouco reputado sobrenaturais, e por isso relegados como inobserváveis, indignos de estudo, os quais, entretanto, convenientemente observados, provam a existência do Espírito, esclarecem-nos sobre a vida de além-túmulo, pondo sob os nossos olhos maravilhados, estupefatos, outros mundos.”
“Os fatos que constituem o objeto do Espiritismo, não são sobrenaturais, nem mesmo extraordinários, senão porque escapam à observação dos que não sabem vê-los; eles são naturais, como tudo quanto existe no Universo; são comuns, ordinários e até freqüentes: o sobrenatural é produto da ignorância humana.”
“Mas para os ver, os observar, aprender a notá-los e os reconhecer, quando e onde quer que se apresentem, era preciso descobrir o instrumento capaz de os registrar, tornando-os evidentes e palpáveis.”
“Esse instrumento é o médium, quando honrado e disciplinado.”
“Achado o instrumento, estudado em suas aptidões, começaram os fatos a ser observados, a princípio os espontâneos, mais tarde os provocados, no intuito de reconhecer a natureza da causa produtora de tais fenômenos.”
“Como resultado dos estudos espiríticos, a imortalidade da alma é estatuída em princípio perfeitamente determinado por provas irrefutáveis.”
“A sucessão das existências ou multiplicidade de vidas corpóreas de uma individualidade consciente – o espírito humano –, denominada reencarnação, constitui uma lei, a que estão sujeitos todos os Espíritos, e é condição essencial ao seu progresso.”
“Assim, pois, o Espiritismo visa a um fim, estuda uma ordem de fatos, emprega métodos, processos e instrumentos exclusivamente seus; cria teorias, estatui princípios, estabelece leis; .satisfaz, assim, e preenche todos os requisitos exigidos pelos foros científicos: o espiritismo é, portanto, sem a mínima dúvida, uma ciência.”
“Ciência vasta, profunda, eclética, ele constrói a síntese da vida humana, abrange o ciclo das evoluções do Espírito, ab initio ad eternum, do início ao Infinito.”
“Seus princípios, suas leis, têm aplicação universal; são um fanal no meio das trevas que nos cercam; são um farol no mar tempestuoso da vida.”
“São uni farol no mar tempestuoso da vida porque fazem ver um porto de abrigo na calma, na resignação, na paciência; refúgios seguros contra as tempestades morais, conseqüências de nossos vícios e erros; frutos do nosso atraso, do nosso orgulho.”
“São um fanal no seio das trevas que nos cercam porque, desvendando o mistério de como se opera o nosso progresso intelectual e moral, pelo processo da reencarnação ou sucessão de vidas corpóreas; demonstrando a preexistência e sobrevivência da alma humana, rarefaz, adelgaça o véu que oculta à nossa vista uma série de vidas, cada qual menos luminosa, menos limpa de erros, faltas, vícios e crimes, o que faz compreender o porquê do mundo ser uma escola, onde devemos aprender a amar ao próximo como a nós mesmos; e como a reencarnação é uma necessidade, pois que a vida corpórea é um meio de reparação, aproximando um do outro – o ofendido e o ofensor – ou reunindo em uma mesma família, sob o véu da matéria, e graças ao esquecimento do passado, a vítima e o seu algoz!”

49. O fenômeno vital, denominado atavismo


Prossigamos na lição do Dr. Pinheiro Guedes:
“Demonstramos, com argumentos tirados da História, e também por uma apreciação dos fatos inerentes à natureza humana, que a Medicina, como arte de curar, é filha legítima do Espiritismo.”
“Provamos, depois –, e o fizemos por demonstração analítica –, que o Espiritismo é ciência, e ciência de observação, na qual também se recorre ao método experimental.”
“Vamos agora mostrar, por uma exposição de fatos, o ecletismo, a profundeza e vastidão da doutrina espírita.”
“O fenômeno vital denominado atavismo, cuja explicação pela escola materialista é inaceitável, repugna à razão, por absurda, explica-se, entretanto, espiriticamente, de modo racional e satisfatório, pela teoria da reencarnação; e o fato torna-se evidente, palpável, indiscutível, porque fala à razão.”
“E não só se compreende e aceita o atavismo psíquico – moral e intelectual – como também o mórbido e o orgânico; estes absolutamente inadmissíveis com a explicação materialista ou organicista; e aqueles, ainda mais, porque não se compreende o seu mecanismo – o processo da transmissão, e não se atina com o transmissor da herança.”

“Provada a existência da alma, ninguém, de certo, porá em dúvida que é ela quem dirige o corpo, quem o anima e domina: ela vai ser o transmissor, o veículo dos vezos e cacoetes e também das moléstias.”
“Um espírito brutal deve ter um corpo grosseiro, adequado às suas necessidades, para estar de acordo com a sua natureza.”
“Um espírito angélico tem, não pode deixar de ter, um corpo delicado, apropriado à agudeza de seu engenho, afinado pela sutileza de seus sentimentos.”
“O corpo é para a alma o que a roupa é para o corpo; um agasalho, um abrigo contra as intempéries, um véu sobre a nudez.”
“Nem só o rosto, que se diz ser o espelho da alma, com a sua feição particular – a fisionomia –, mas o corpo todo, no seu conjunto, pela proporcionalidade das suas formas e por sua atitude nos impressiona; não há quem o não tenha experimentado; e essa impressão é agradável, simpática ou antipática; mas só a temos em presença de um vidente, criatura humana ou animal; a emoção que sentimos ante o morto é mui diversa; é antes um abalo, um choque, um sentimento de repulsa instintiva.”
“Assim pois, a alma domina o corpo, envolve-o todo e até se revela nas mais simples formas físicas.”
“As mãos patenteiam de tal sorte a natureza e tendências do espírito, que, estudando-as, criou-se a Quiromancia, cultivada, na Antigüidade, por sábios e filósofos: Artemídoro, de Êfeso, Agripa, Henrique Cornélio, médico, filósofo e historiógrafo; Robert Fludd, médico e filósofo; o sábio jesuíta Del Rio e outros.”
“É, porém, sem dúvida, a cabeça que mais e melhor mostra a influência da alma sobre o seu corpo, com suas bossas e protuberâncias; a face, sede dos músculos da expressão de nossas emoções, tão bem estudadas por Darwin e Duchenne de Boulogne; a boca, larga ou estreita, de lábios grossos ou finos, de comissuras levantadas ou abatidas, cuja forma, finalmente, traduz, exprime, uma variedade, quase infinita, de sentimentos e idéias; a boca forma e emite a palavra; a boca estereotipa esses frementes estados de alma – o pranto e o riso.”
“E os olhos que são, por seu brilho e transparência, como uns globos cristalinos, onde se refletem, em cambiantes infinitas, as emoções da alma! E até o nariz e as orelhas, finalmente, todas as partes componentes do rosto são delatoras das disposições e tendências do nosso espírito.”
“Lavater, com os seus belíssimos e mui interessantes estudos das fisionomias, em que colaborou o grande Moreau de la Sarthe; e, antes deles, Adamantius, médico do século IV; Porta (Giambattista), célebre físico, inventor da câmara escura, publicou um tratado – De Humana Fisionomia – em Sorrento, no ano de 1586; Lachambre, médico de Luís XIV; o célebre pintor Lebrun, e ainda outros; Gall e Spurzheim, médicos, criando a Frenologia, cultivada, depois, por Broussais, F. Combe, Vimont e outros; todos eles são intérpretes da ação, da influência e domínio da alma sobre o corpo; todos eles são os precursores no estudo das relações do espírito com o corpo.”
“Esse estudo só o Espiritismo pode tornar completo, fazendo conhecer o modo por que se estabelecem essas relações e como se formam ou se criam as ligações entre o espírito e seu corpo.”
“O médium vê e descreve os laços fluídicos que ligam o espírito ao seu corpo; e assim, mas só assim, e por esse processo, o estudo da encarnação pode ser feito.
“Sabe-se, hoje, que o espírito assiste, preside a formação do seu corpo, por intermédio do perispírito, corpo anímico – ligando-se a este molécula a molécula, órgão por órgão, durante a gestação, até completar a evolução fetal; e dele toma posse inteira, absoluta, à natalidade, assenhoreando-se então totalmente do barco que aparelhou para navegar no mar tempestuoso da vida material.”
“Sabe-se, hoje, e isto é racional, cala na consciência, sente-se que deve ser assim; é o próprio espírito quem escolhe, após demorado estudo na vida espiritual – durante a desencarnação – e busca, segundo suas necessidades – de ordem moral e intelectual, o país, a sociedade, a família, os seus genitores, tudo, enfim, quanto deva e possa concorrer para o seu progresso.”
“Assim ele é o principal, senão o único responsável pelas contingências, pelas vicissitudes e dificuldades que o assoberbam durante a vida corpórea.”
“Por esse modo, admite-se que o espírito possa transmitir; aceita-se, porque é compreensível, que ele imprime em seu corpo, igualmente como o tipo e a forma, sua feição característica, suas tendências morais e intelectuais, dando mais desenvolvimento, ora aos centros afetivos, ora àqueles que servem à inteligência, de onde resulta a diferença de caráter, de gênio e de temperamento que se observa nos indivíduos, desde a infância.”
“Assim se explicam e compreendem as vocações; a maior ou menor habilidade para as belas-artes, ou para as artes mecânicas; e porque se diz, e é exato, que a criatura nasce  músico, poeta, ator, lavrador, industrial, comerciante, militar ou médico.”
“Resulta, desse fato, provém daí a importância do papel da família na sociedade e a responsabilidade social dos genitores, a quem incumbe educar a prole, constituindo o fim principal da educação reprimir ou, ao menos, modificar as tendências perniciosas dos filhos, que cedo se revelam, e acoroçoar e desenvolver as benéficas.”
“O Espiritismo é um poderoso foco de luz, cujos raios atingem as fronteiras da esfera intelectual e iluminam todo o ciclo da vida.”
“Ele esclarece e justifica as chamadas Ciências Ocultas, explicando, racionalmente, suas deduções, augúrios, predições e horóscopos.”
“A História Universal, a vida dos povos, sua natureza, seu caráter, recebem dele a mais viva luz.”
“E a que se esparge sobre as ciências médicas ilumina todo o seu vasto território, devassando os mais profundos recônditos dos seus domínios.”

50.  O papel do Espiritismo na Antropologia e na Nosologia


Ainda a magnífica lição do Dr, Pinheiro Guedes:
“Da Antropologia, designação que abrange a Anatomia, ciência da estrutura e conformação dos órgãos; a Embriologia, ciência da formação e desenvolvimento do feto; a Teratologia, ciência das anomalias dos indivíduos (os monstros), e dos órgãos (disformidades); o Espiritismo revela, desvenda e põe patente sob os nossos olhos o porquê desses fenômenos, sempre desagradáveis, ora estupendos, muitas vezes repulsivos.”
“Ele nos faz ver e compreender o como e o porquê de uma emoção perturbar as funções do aparelho digestivo, que até certo ponto, isto é, no seu mecanismo íntimo, nos seus processos físico-químicos, são independentes da vontade; e as do aparelho circulatório, que também se efetuam fora desta alçada; e cujo centro – o coração – tem, entretanto, o seu ritmo perturbado e pode imobilizar-se, determinando a extinção da vida, ao embate de uma emoção violenta e brusca.”

“Estas funções, como todas as que têm por fim nutrir, reparar, conservar os órgãos, e são, por isso, denominadas de vida vegetativa, se exercem e operam sob o influxo direto e imediato de uma inervação que lhe é peculiar – o sistema ganglionar, também chamado o grande simpático, constituído por uma série de gânglios nervosos, (reunião, grupo de células nervosas) ligados, entre si, por cordões igualmente nervosos, verdadeiro rosário composto de 19 a 25 gânglios para cada lado (os padre-nossos do rosário), que se encontram nas cavidades esplâncnicas (região cervical, caixa torácica e ventre), junto à coluna vertebral, desde o atlas até o cóccix, circulando-a como um colar ou cadeia sem fim.”
“Posto que autônomo na sua função peculiar, o nervo trisplâncnico, ou grande simpático não só não se acha separado do sistema cérebro-espinhal, mas vive sob a sua influência, – é seu subalterno, está ligado a ele pelos nervos aferentes, cordões nervosos que, partindo dos nervos cranianos e dos raquidianos ou espinhais, penetram – um por um – todos os gânglios do grande simpático onde se originam os numerosíssimos filetes nervosos, que, acompanhando os canais circulatórios – sanguíneos e linfáticos – envolvendo-os como a hera envolve o muro, e penetrando suas paredes, dirigem-se, como eles, a todos os órgãos e tecidos do corpo humano.”
“Nestas condições, só indiretamente os órgãos e aparelhos da vida de nutrição recebem influxo do sistema nervoso cérebro-espinhal, adstrito à vida de relação; pelo que, para explicar a perturbação das funções digestivas e circulatórias por traumatismo moral, sente-se, reconhece-se a necessidade de um outro agente, além dos nervos, capaz de fazer compreender os efeitos de uma ação indireta, remota e, posto que impalpável, tão enérgica, tão terrível, que pode fulminar como o raio.”
“Esse outro agente é o perispírito – corpo anímico, constituído de uma matéria etérea, parte do fluido universal animalizado, por cujo intermédio o espírito se incorpora, consubstancia-se órgão por órgão, molécula a molécula, com o seu corpo, e cuja organização, e cuja constituição e feitura ele assiste e preside, semelhante ao pedreiro que amassa o barro, prepara a argamassa, escolhe e afeiçoa o material com que faz o muro e constrói o edifício.”
“Ao embate de uma paixão violenta, o espírito se conturba, comove-se e se confrange, o perispírito contrai-se, necessariamente, mais ou menos, conforme o choque mais ou menos violento, inesperado e cruel; o perispírito contraindo-se, diminui o seu influxo sobre a molécula material, sobre a célula orgânica, sobre o órgão que, por isso, perde o calor, a energia, a atividade e até a vida.”
“Assim, desse modo, compreende-se como uma emoção brusca e violenta pode não só perturbar funções que se não exercem sob o influxo dos nervos da vida de relação, mas até aniquilar o vivente.”
“Eis aí como, com um pequeno raio de luz, o Espiritismo ilumina, esclarece pontos obscuros da Anatomia, da Fisiologia, da Patogênese e da Embriogenia, até hoje imperscrutados e, sem essa luz, imperscrutáveis.”
“Acaba de ver o leitor como a luz que ser irradia dos estudos espiríticos, penetra nos mais fundos recessos das ciências positivas, como são as antropológicas, fazendo achar a solução racional para os intricados problemas de fisiologia patológica e embriogenia.”
¾ Supõe, talvez, que aí pára a força iluminativa do fanal, que é o Espiritismo?”
“Se assim pensa, engana-se, como vai ver e, para convencer-se do seu engano, basta uma digressão pelo campo da Nosologia, onde se, encontram, principalmente no terreno da Etiologia – um dos mais escabrosos – os mais difíceis problemas das ciências médicas.”
“Aqui o auxílio da ciência espírita é inestimável pelos recursos com que arma o médico para vencer as maiores dificuldades do diagnóstico; pelos esclarecimentos que lhe fornece para explicar a origem de certas moléstias, e também a resistência admirável do organismo às causas morbigênicas!”
“Em geral, o indivíduo que é metódico, paciente e calmo, que segue uma norma de vida regular e não é atropelado pelo revolutear da sociedade, cuja atividade não é solicitada simultaneamente por uma multiplicidade de coisas, as mais disparatadas, esse tal é sadio, tem a vida longa.”
“As estatísticas da mortalidade pelas profissões são disso a melhor prova.”
“Para ele, singra em mar sereno o batel da vida.”
“Aqueles, porém, cuja atividade é despertada e instigada, quase incessantemente, por mil objetos diferentes; que vivem contrariados sob a pressão de sentimentos deprimentes; esses são doentios, sua vida raramente é longa; são eles que concorrem, com a maior cifra, para o obituário.”
“Esses são os pilotos cujos barcos, acossados pelas tormentas da vida, muita vez soçobram em meio da viagem, porque as ondas enfurecidas, que são as paixões, gastaram, exauriram as forças, e com elas a coragem, o ânimo ao timoneiro, que tomba vencido.”

51. O estado psíquico e sua influência sobre as doenças


A influência do estado psíquico sobre várias enfermidades foi por nós explicada, bem claramente, com base na razão e na ciência. Quando tratamos das enfermidades nervosas, da obsessão e da normalização do enfermo, detivemo-nos bastante nessa parte primacial, para esclarecimento da humanidade; e se ainda, nesta altura, insistimos nos comentários sobre esse assunto é para provar que os médicos honrados estão de inteiro acordo conosco, concordando com o Espiritismo Racional e Científico.
Assim é que tratando o Dr. A. Pinheiro Guedes das causas predisponentes das enfermidades, assegura:
“A maioria das enfermidades tem suas causas predisponentes no enfraquecimento do espírito, que, por seu abatimento, por seu desânimo não comunica, não transmite ao corpo a vitalidade que nasce da energia e deixa-se avassalar pela atração constante que faz do astral inferior.
“A alegria é expansiva, ela avigora a circulação, aquece, dá calor ao corpo, anima e robustece o organismo, mantém a saúde, prolonga a vida, porque, em tal estado de alma, atrai elementos bons, salutares e curadores.”
“A tristeza, ao contrário, é reconcentrada; ela retarda a circulação, arrefece, tira calor ao corpo, desanima e enfraquece o organismo, arruína a saúde, encurta a vida, porque só atrai elementos danificadores, idênticos a esse estado d’alma.”
“Mas, como os extremos se tocam e todo o excesso é mau; se a deprimente tristeza é funesta à existência, a alegria, quando excessiva, não o é menos podendo, até, fulminar.”
“São os proletários, para quem a vida é mais penosa, mais cheia de contrariedades, os que povoam os hospitais: eles, de cujo seio saem esses bravos, esses destemidos, esses heróicos pilotos, mártires do progresso, cujos nomes, entretanto, a história rara vez registra; eles que navegam em busca da verdade, afrontando as sirtes e cachopos do mar bravio, que é a vida humana.”

“Tendo mostrado, e assim feito ver, que as conturbações da alma, seu abatimento e desânimo, pelas inúmeras e perenes dificuldades que a assoberbam, cotidianamente, são causas predisponentes às moléstias somáticas, pelo estado de languidez e falta de energia do organismo para reagir sobre o circunfuso; e nesta designação estão incluídos todos os agentes capazes de modificar o organismo ou alterar a saúde e aniquilar o vivente; quer os de ordem material, quer os de ordem moral – os físicos e os sociais, ou sociológicos; passo a mostrar, tornar visível, palpável aquilo que, entretanto, já de si é evidente, menos, porém, para os organicistas ou materialistas; isto é, que as nevroses são moléstias da alma, devidas a sofrimentos do espírito, ou pura e simplesmente provocadas por espíritos.
“Dá-se o nome de nevroses, em medicina, a estados mórbidos que consistem em perturbações funcionais, sem lesões materiais nem causas apreciáveis, que se observam principalmente na vida de relação, mas também na vegetativa.”
“As nevroses, com sede no aparelho digestivo, no circulatório e no respiratório, raramente são impulsivas, isto é, são capazes de dominar a vontade; a Dispepsia, a Asma e a Angorpectoris; aquelas, porém, afetam a vida de relação, e são constituídas por alterações da motilidade, da sensibilidade ou da inteligência, perturbam, suspendem, alienam a vontade e subjugam a consciência; quase reduzem a criatura humana às condições de bruto, da fera.”
“As primeiras, têm por causa uma alteração de função, dependente, ordinariamente, de um vício diatésico: o herpetismo, a sífilis, a escrofulose, etc.”
“As segundas, as que afetam a vida animal, não se filiam a causa alguma orgânica apreciável.”
“Destas, umas, como a Nostalgia e a Hipocondria, são mera exteriorização de estados da alma; outras, traduzem uma desordem nas relações da alma com o seu corpo, como a Catalepsia; outras, como a Histeria, representam estados complexos, misto de desordens psíquicas e intervenção de uma vontade ou atividade estranha, invisível – um espírito; outras, finalmente, como a Loucura, na maioria dos casos são fenômenos espiríticos, são fatos da vida espírita. O doente, neste caso, é simplesmente um médium, um possesso, um obsedado.”
“O fenômeno de possessão (ou incorporação, na linguagem espírita), que significa o domínio do espírito encarnado pelo desencarnado, o qual se apossa do organismo, bruscamente e com violência, como na Epilepsia; ou, como na Loucura, lenta e sub-repticiamente; e de um ou de outro modo na Histeria, é o que constitui o chamado desdobramento da personalidade, que é antes uma duplicação do indivíduo; porque, não podendo a alma separar-se completamente de seu corpo, pois seria a morte, o que de fato se dá é a subjugação do encarnado pelo desencarnado, o predomínio deste sobre aquele, que, não obstante, continua ligado ao seu corpo, na posse dele, posto que contrariado, subjugado.”
“Isto é admissível, compreende-se: ao passo que o desdobramento da personalidade, como diz o organicista, materialista disfarçado, é inaceitável, por absurdo, a unidade é indivisível; o homem é uno, a criatura é indivisa.”
“A loucura é, na maioria dos casos, uma obsessão; às vezes, simples alucinação dos sentidos; outras vezes, desordens da inteligência ou perversões do senso moral; outras, depressão, quase aniquilamento das faculdades psíquicas, verdadeiro embrutecimento.”
“São estados da alma devidos à ação mais ou menos direta dos espíritos desencarnados, ou mesmo de encarnados, influindo sobre as criaturas de diversos modos:

desde a simples sugestão – insistente, perene, tenaz –, até a ação direta, enérgica, violenta, provocando os chamados ataques.”
“O espírito age movido pelo amor ou pelo ódio; sob influxo de um desses sentimentos, mas dominando sua paixão, ele procura captar a confiança de sua vítima, sua ação é intencionalmente demorada, mas branda; incessante mas delicada; se, porém, a paixão o domina, a agressão é violenta e brutal.”
“Assim se compreende e explica o porquê das formas tão variadas, quase infinitas da histeria, desde a simples tristeza ou alegria, sem causa que as justifique, até a abstração, enlevo ou embevecimento, e o êxtase até à loucura; desde o estado em que a vítima canta ou dança, grita e chora sem saber porque, até aquele em que, furiosa, rasga as vestes, debate-se e cai por terra, convulsa, em contorções medonhas, horrorosas ou lúbricas; as quais, para serem explicadas racional e satisfatoriamente, só podem ser atribuídas à natureza do sentimento que anima, agita e impulsiona o espírito agressor ou obsessor.”
“E assim também se explicam as formas diversas da Loucura, que não podem ser atribuídas a enfermidades do órgão da mentalidade, porque a necropsia, praticada em indivíduos falecidos de moléstias intercorrentes, logo em começo da loucura, nunca revelou a mínima lesão material do cérebro, sendo certo, entretanto, que se encontram profundas alterações nos cérebros daqueles que sucumbem, após longo tempo de sofrimento pela loucura; o que torna bem patente que tais lesões são efeito e não causa das perturbações psíquicas.”
“Esses fatos podem ser observados e analisados por quem quer que seja.”
“E aqueles que o fizerem sem idéias preconcebidas, sem sujeição a Escolas ou Seitas, livres de quaisquer. peias, hão de reconhecer sua veracidade.”

52. O atavismo explicado pelo Espiritismo Racional e Científico


O atavismo, só agora explicado pelo Racionalismo, é confirmado pelo Dr. A. Pinheiro Guedes, como o leitor vai ver nas linhas que se seguem:
“Não obstante já ter assim demonstrado, pois julgo havê-lo feito ou, se o quiserem, ter ao menos patenteado a influência, a efetividade da ação da alma sobre seu corpo e a dos espíritos sobre os homens (dos mortos sobre os vivos); quero chamar, quero despertar a atenção do leitor para um fenômeno que manifesta, mais clara a positivamente, o predomínio da alma sobre o seu corpo. Esse fenômeno é o atavismo.”
“O atavismo é a prova evidente de que o espírito cria o seu organismo, preparando, afeiçoando, mais ou menos habilmente, os materiais, segundo as suas necessidades, de acordo com o modo ou gênero de vida e condição social a satisfazer, durante a existência corpórea; e influi sobre o aspecto, sobre a forma ou certa aparência que, no estado de completo desenvolvimento, no estado adulto há de apresentar o seu corpo, ao qual imprime, assim, por um processo que é o verdadeiro atavismo, um cunho, certas disposições que aparentam ou trazem a idéia do sexo diferente: – um homem de formas e gostos feminis; uma mulher de aspecto e aptidões varonis; ou ainda, o que não é raro, o tipo de um animal, e com ele os seus instintos mais ou menos sopitados.”
“Esse fato, tão significativo, tão importante deste ponto de vista, evidencia, torna palpável a filogênese, isto é, a filiação, o encadeamento das espécies que formam o reino animal; ele patenteia, por indício claro, manifesto, incontestável, o caminho, o viaduto, a

via dolorosa que o espírito percorre, na sua marcha evolutiva genésica: formação, individualização, aperfeiçoamento.”
“Esse fenômeno, o da conservação ou reprodução não só de disposições e tendências afetivas – o caráter, gostos, inclinações e aptidões; mas até de certa feição, atitudes e forma, é o que constitui o verdadeiro atavismo; é ele, certamente, o efeito, o resultado, o produto, não das causas fúteis que se lhes assinalam, mas de uma causa eficaz, lenta, mas incessante, a qual não pode ser outra senão a modalidade que o perispírito, corpo anímico, corpo astral dos ocultistas - conserva, guarda, retém da forma e do caráter adquiridos em vida anterior, próxima ou remota.”
“No processo de formação, individualização e aperfeiçoamento do espírito, está a razão de ser dos reinos da Natureza; eles são os laboratórios, as oficinas onde se realiza o trabalho ingente e maravilhoso da criação da alma humana.”
“Cada um dos reinos consta de regiões diferentes, ocupadas por Estados (as espécies) mais ou menos independentes (distintas), e ligadas, hierarquicamente, dos mais simples aos mais complexos.”
“A hierarquia depende do número de oficinas, a mais ínfima contém uma única oficina, a mais elevada encerra todas, ocupando-se, cada qual, com um trabalho peculiar; cada uma executando o seu; as mais ínfimas, separadas e sucessivamente, (cada qual, por sua vez, uma após outra, a começar por ela, a mais ínfima), até que, criadas todas e constituído o laboratório, passam a funcionar simultânea e sinergicamente, concorrendo todas, e cada uma, com o seu trabalho, convergindo os seus esforços para um mesmo fim – a criação.”
“Constituído o laboratório, (o vivente) com as oficinas necessárias, (as partes componentes do corpo) e estas com os seus maquinismos (os órgãos), ele entra em atividade e funciona incessantemente, enquanto as máquinas se moverem, regularmente, até que não possam mais ser reparadas; a menos que um acidente venha interromper o trabalho de transmissão do movimento; porque então o laboratório emudece, temporária ou definitivamente.”
“A reprodução, arremedo ou simulacro da estática, (formas, atitude, feição) é uma espécie de memória física, retentividade de formas, a qual se pode, ou antes, se deve considerar como transformação, ou melhor, vitalização da força de coesão, que é aquela que conserva e torna permanente a configuração dos corpos; é o atavismo orgânico, corpóreo.”
“O mesmo fenômeno de ordem dinâmica, reprodução do caráter, aptidões e tendências afetivas e intelectuais, é o atavismo psíquico, ao qual se deve reputar como uma espécie de memória, não material, mas mecânica, e, portanto, ainda retentividade, que chamarei memória perispiritual, pois que é o corpo anímico que conserva as modalidades de existências passadas.”

53. Corpos e fenômenos, eis o que se nos depara no mundo.


Depois de demonstrar que o Espiritismo é a ciência das ciências e provar a influência do estado psíquico da criatura sobre a sua saúde; depois da explicação do atavismo, continua o Dr. Pinheiro Guedes a tratar da Síntese Genésica, começando por dizer:
“A seriação é lei universal”; e prossegue sobre os corpos e fenômenos:
“Corpos e fenômenos, eis o que se nos depara no mundo.”
“Os corpos são formados de matéria.”
“Os fenômenos representam movimento; o movimento é produzido por uma força.”
“A matéria afeta os nossos sentidos.”
“A força se manifesta pelos seus efeitos.”
“Os corpos têm formas, ocupam lugar no Espaço, persistem.”
“Os fenômenos não têm formas, não ocupam lugar, não permanecem.”
“Ali, a forma, a duração; aqui, a modalidade, a sucessão.”
“Os corpos são numerosos, mas limitados: gasosos, líquidos, sólidos.”
“Os fenômenos são inumeráveis, variam ao infinito.”
“O Infinito constitui o Universo.”
“O Universo é o conjunto de todos os sistemas planetários.”
“O sistema planetário é um grupo de mundos.”
“Os mundos compõem-se de seres.”
“Os seres são: uns, puramente materiais, inertes, denominados inorgânicos; outros, chamados orgânicos, não são puramente materiais, são constituídos de outro modo, são ativos, têm vida.”
“Os seres inorgânicos não têm atividade própria; sofrem, sem reagir, a ação das forças que produzem os fenômenos materiais.”
“Os seres orgânicos reagem contra as forças externas; têm atividade própria, produzem fenômenos que se denominam funções.”
“As funções são materiais e espirituais.”
“As funções materiais são apanágio de todos os seres organizados; as espirituais só se encontram nos animais.”
“Os animais são seres organizados que produzem, com o organismo, todos os fenômenos materiais e exercem todas as funções orgânicas e ainda outras, denominadas de relação.”
“As funções de relação são o apanágio da animalidade; são funções sociais, puramente espirituais; umas, as de ordem moral, que são sempre conscientes; outras, as de ordem sensual, carnal, fisiológica, que são puramente animais, as quais são instintivas, inconscientes.”
“As primeiras, as de ordem moral, puramente espirituais, são o apanágio da criatura humana.”
“O homem é, portanto, um microcosmo: matéria e força, corpo e funções.”
“A matéria, de que se forma o corpo do vivente, não tem a mesma aparência, o mesmo aspecto, nem a mesma composição da que constitui os corpos brutos; sendo, não obstante, formada dos mesmos elementos; é uma matéria nova, matéria orgânica, matéria vitalizada, criada para formar órgãos.”
“As forças, que operam no corpo organizado, já não são as cósmicas, mas forças biogênicas; aquelas não geram funções, só produzem fenômenos de ordem material; estas criam funções e produzem, além dos fenômenos materiais, outros, de natureza diversa, denominados vitais, elementos das funções orgânicas.”
“O corpo é sempre um e o mesmo; tem a sua origem na matéria orgânica, metamorfose da matéria cósmica.”
“As funções são múltiplas e várias; originam-se nos fenômenos vitais, transmutações dos fenômenos materiais; estes produzidos pelas forças cósmicas; aqueles, pelas forças biogênicas.”
“As forças biogênicas são transmutações das forças cósmicas.”
“Estas criam a matéria inorgânica e formam os corpos brutos, inertes, sem atividade própria, sem iniciativa. Aquelas criam a matéria orgânica, de onde surgem os seres dotados de energia, atividade, iniciativa, o que constitui a vida.”
“A vida é, portanto, a manifestação suprema da força biogênica, que para esse fim cria o organismo, um corpo composto de órgãos.”
“O organismo é, assim, o instrumento da vida; é um aparelho que varia ao infinito, desde uma simples peça – a célula vegetal – até a árvore; desde a célula animal – citode, amibo, monera, até o maravilhoso conjunto de peças, combinadas com admirável precisão, dispostas com justeza e na maior harmonia, para satisfazer a necessidades diversas, tendentes à realização de determinado fim: a formação de instrumentos da vida – os corpos dos animais.”
“O animal é, pois, o produto final das forças biogênicas; a manifestação mais completa da força vital que se encontra no mundo orgânico; a satisfação absoluta dessa necessidade suprema – necessitas suprema est lex, – a necessidade de expandir-se, de produzir, de criar; que é a essência da força e poder criador.”
“O animal é o microcosmo; em seu organismo, preso ao mundo inorgânico pelos elementos componentes da matéria orgânica, operam as forças cósmicas, produzindo fenômenos materiais – mecânicos, físicos e químicos; operam as forças biogênicas, produzindo fenômenos vitais, cujo objetivo é a conservação do indivíduo e da espécie, tanto animal como vegetal; e por isso tais fenômenos são denominados funções da vida orgânica ou vegetativa, funções de nutrição e de reprodução.”
“E assim, não só pela matéria, mas também pelas funções orgânicas, o animal se prende, igualmente, ao vegetal.”
“Além dessas, porém, o animal exerce e manifesta outras funções que lhe são peculiares, exclusivamente suas, que, por isso, o caracterizam: as funções de relação.”
“As funções de relação são puras manifestações da vida animal; elas têm por órgãos o sistema nervoso, cuja composição, cuja contextura e estrutura realizam o supremo esforço das forças vitais; são o produto mais elevado da biogênese.”

54. A alma humana


Em seguimento, continua o médico Pinheiro Guedes:
“Temos visto que cada nova ordem de fenômenos é produto de uma nova força: as funções de relação são a manifestação de fenômenos intelectuais, de ordem social, denominados fenômenos psíquicos; eles não podem ser produzidos pelas forças biogênicas, pela força vital.”
“A força que os produz revela uma qualidade especial: a cognição; um caráter novo: a intelectualidade; uma esfera de ação mais ampla: a sociedade, o mundo; tais são os atributos da força psíquica.”
“A força psíquica, nova entidade criadora, não deve ser considerada como uma entidade erguida do nada, ex nihilo nihil; mas, por analogia, como uma transmutação da força vital, a sincretização das forças biogênicas e cósmicas.”
“As funções de relação que caracterizam a vida animal são o apanágio de todos os animais, tanto racionais como irracionais.”


“E assim, por esse laço funcional, como pela identidade de organização, acha-se ligado ao bruto irracional, o homem, o último elo, neste mundo, da cadeia que o poder criador vem formando.”
“Mas o homem, a criatura humana, se distingue do bruto irracional por seus atos refletidos, pela consciência, pela razão e pelo livre arbítrio; pelo seu engenho criador e pela religiosidade, que são manifestações de natureza mui outra, que não aquelas que patenteiam os mais inteligentes, dentre os irracionais.”
“Esses fenômenos não podem ser produzidos pelas mesmas forças que produzem aqueles que se observam nos outros seres. Eles devem ter outra causa, outra geratriz;. porque cada ordem de fenômenos é o produto de uma nova força; essa causa, essa geratriz, essa nova força é o que se chama Alma humana.”
“A alma humana é, portanto, a síncrise de todas as forças que operam no mundo; agem e criam; ela é a suma potencial – a síntese das criações originadas do amor eterno, infinito, absoluto – Deus (Grande Foco).”
“Eis aí a trajetória da Força, ab initio ad eternum.
“O ciclo evolutivo está completo até onde pode chegar a inteligência humana, armada com o seu maravilhoso instrumento – a razão – que se deve chamar o criptoscópio.”
“A nossa razão é, de fato e incontestavelmente, um criptoscópio, instrumento ou aparelho por meio do qual se pode ver o invisível, o oculto, o que não está patente; porque, de fato, é pela razão que nós nos analisamos, que o nosso ser, o nosso espírito se observa, se estuda, se vê.”

*   *   *

Pelo que até aqui temos transcrito da obra Ciência Espírita, do notável médico Dr. A. Pinheiro Guedes, deve ter verificado o leitor de boa vontade e de boa intenção que certíssimas estão todas as afirmativas do Espiritismo Racional e Científico, que é o Racionalismo Cristão; e que é lastimável que os médicos de boa-vontade e libertos da ciência oficial, não tenham conhecido a referida obra, para, com real proveito para as suas almas e sua profissão, poderem praticar “a divina arte de curar”.
Os psiquiatras e os especialistas das enfermidades nervosas conheciam essas obras, assim como conhecem tudo o mais que temos explicado, através do livro Racionalismo Cristão.
Tudo conhecendo e achando certo, não procuram contestar ponto algum dos por nós explanados, ou dos desenvolvidos pelo Dr. Pinheiro Guedes, na linguagem própria, técnica da Medicina; é por esse motivo que lhes temos dito duras verdades, porque os julgamos cientes e conscientes do mal que estão fazendo, em prejuízo da sua profissão e da humanidade.
É preciso que lá fora, especialmente na velha Europa, se fique sabendo que se no Brasil há criaturas que desonram as letras e o saber, há outras que nada ficam devendo aos mais notáveis médicos de outros países, o que prova a sua alta espiritualidade.
E porque assim é, preciso se torna que continuemos a esclarecer a humanidade e a honrar o Brasil, pondo em evidência os seus filhos eruditos e honrados.



55. A vontade, a consciência e o livre-arbítrio


A vontade é o dínamo e a bobina psíquica. É assim que começa o honrado e erudito médico Dr. A. Pinheiro Guedes, de folhas 165 da sua citada obra, até folhas 168:
“A vontade é a energia, a potência, a atividade da força inteligenciada em ação, agindo, operando; a capacidade de reagir e opor-se, não só ao mundo externo, repelindo, anulando sua influência, seus efeitos, pela produção de outros em contraposição àqueles; mas também, e principalmente, às solicitações íntimas, quer as que nascem dos instintos e apetites, .quer as que provêm das necessidades corporais.”
“A vontade é a potência biomagnética inteligenciada; ela é, na essência, a polarização, pois que é, no fundo, um impulso em última análise, um movimento.”
“Ela já se manifesta nos animais, os mais inferiores; porquanto certos fenômenos da nutrição – a procura e apreensão dos alimentos – se não efetuariam sem a sua intervenção.”
“A vontade evolui na série animal; a princípio, é um simples movimento reflexo, semelhante à distensão de uma mola; depois, um impulso instintivo, verdadeira descarga elétrica; afinal, um ato refletido, consciente, livre; ao qual precedem: a apreciação das circunstâncias, a análise das condições, deliberação e decisão.”
“Confunde-se, ordinariamente, a vontade com o desejo e o apetite; e essa confusão, que se nota, com freqüência, no trato vulgar, observa-se, também, não só na conversação de pessoas instruídas, mas igualmente – o que é menos tolerável – até em produções de literatos e homens de ciência, que dizem e escrevem: ‘Tenho vontade de dormir, de chorar, de comer, etc., etc., quisera vê-la; quero falar-te; tenho vontade de sonhar com ela; tenho vontade, mas não posso satisfazer tal necessidade corporal”.
“O emprego do vocábulo vontade é errôneo em todas as frases; e nem só incorreto, mas antagônico.”
“A vontade se manifesta, ao contrário, no ato de oposição ou resistência à satisfação de um desejo, na insubmissão às solicitações; tanto orgânicas, como psíquicas.”
“Isso, sim, é ter vontade.”
“Ter vontade, é ser forte, saber resistir a todas as tentações, quer mundanas - materiais e sociais, quer anímicas.”
“A vontade é o alicerce do caráter; é a pedra angular em que ele se firma.”
“Pela vontade, a alma torna fecundos os atos da inteligência.”
“Aqui a oficina intelectual trabalha com todos os seus instrumentos, iluminada, esclarecida pela razão; depois o tribunal supremo, a consciência moral, delibera, julga em última instância e lavra a sentença – absolutória ou condenatória; o livre-arbítrio decide pró ou contra; a vontade executa.”
“O poder executivo é, na organização social, o símile da vontade no ser humano.”
“A consciência está para as criaturas, como o tribunal para a sociedade.”
¾ Como explicar a constituição da consciência?”
“Quanto mais penetramos nos domínios psíquicos, tanto mais difícil se torna a marcha; achamo-nos na situação do viajante que atravessa uma região nunca antes percorrida, para a qual não há vaqueanos; ele tem de caminhar sem um guia, confiado, apenas, na sua orientação, entregue à sua perspicácia, Encontra-se, após algumas jornadas, ante uma floresta virgem, cujas árvores são numerosíssimas; e, posto que de diversas espécies, se assemelham, um tanto, pelo que não podem ser facilmente distinguidas; suas copas

frondosas ensombram o chão e limitam, encurtam o campo da visão, tornando difícil, senão impossível, a marcha.”
“Tal é a minha situação ante o problema da constituição da consciência.”
“Para achar e explicar a constituição da consciência, faz-se preciso a maior concentração da alma sobre si mesma, na mais profunda introspecção criptoscópica, em que a atenção, fazendo agir a percepção nessa câmara – o santo sanctorum espiritual – rebusca os fatos, agitando a luz da razão em todos os refolhos psíquicos.”
“Ocorre-me a fórmula do Universo – a variedade na unidade; é incontestavelmente a base sólida da lei do transformismo, que explica e justifica a doutrina da evolução.”
“Ora, eu venho demonstrando, (e tenho como certo havê-lo feito rigorosamente) a evolução da força, desde o calórico, que cria a polarização, a qual produz a coesão e a afinidade, que, congregadas e transfundidas, constituem a força vital ou Biogênica que se desdobra em assimilatividade, motricidade e sensitividade, cuja sincretização se denomina força fitogênica, quando cria o reino vegetal, e zoogênica, na criação do reino animal.”
“A força vital – bio-fito-zoogênica, se converte, por síncrise, em força psíquica, alma humana – pelo predomínio da sensitividade que, em sua evolução, produz o tato, a gustação, o olfato, a audição, a visão e os sentidos; neles se manifestando a ação da inteligência.”
“A vontade tem sua origem na síncrise da sensitividade com a motricidade, predominando esta como fonte de energia.”
“Da união da inteligência com a vontade nasce a consciência animal, que se converte em consciência espiritual.”
“A consciência espiritual ou moral é, pois, um aparelho, mas aparelho anímico, dinâmico, não-material, psíquico, constituído pela memória, atenção, percepção e compreensão; iluminado pela razão, nele se refletem todos os atos da força psíquica.”
“Para que possa condenar, como condena, não só os atos, mas os sentimentos e os pensamentos que não traduzem o amor ao próximo, é preciso que a consciência seja influenciada por princípios (seres) de ordem superior.”
“Ela é, assim, um aparelho sensitivo espiritual, pelo qual a Força se comunica.”
“A consciência é na criatura, o que o poder judiciário é no Estado.”
“O livre-arbítrio é o fundamento da moral.”
“O livre-arbítrio é a vontade esclarecida pela razão, perante a consciência.”
“Alguns filósofos – os deterministas, os fatalistas, os materialistas – negam o livre-arbítrio; os primeiros, fazem da criatura humana um autômato, um animalejo sob a ação das forças externas; os segundos, a reduzem às condições dos corpos brutos, inorgânicos, sobre os quais operam, sem contraste, as forças da Natureza; os últimos, considerando a alma uma simples função cerebral, nem ao menos lhe atribuem a individualidade.”
“Esquecem-se, aqueles, de que a alma humana é um ser inteligente, dotado de atividade; os materialistas, fingem ignorar aquilo que se passa em si mesmos.”
“Todos eles não se lembram de que negando o livre-arbítrio, eliminam a responsabilidade moral; reduzem a criatura humana às condições do bruto.”
“O livre-arbítrio é a origem do mérito; ele é, portanto, o fundamento da moral.”
“Termina aí o ciclo evolutivo da força psíquica, Pela sensibilidade, ela recebe as impressões do mundo externo; pela inteligência, as compreende; pela vontade, age e reage, opera, produz, cria; pela razão perscruta o infinito; pela consciência, se esclarece, pelo livre-arbítrio, determina o seu destino.”
¾ Eis a alma humana!
“A sua origem está no infinito; a sua natureza é dinâmica; sua evolução, neste mundo, se faz através do reino animal – do amibo ao homem, – para continuar – infalivelmente – em outros mundos”
“Há de continuar necessariamente sua evolução, porque, como força que é, não se destrói, não se aniquila: existe, subsiste e persiste; vem do infinito, em marcha para o eterno.”
“Tudo se cria; nada se perde.”
“Portanto, como tudo no Universo, ela vem da Força, caminha incessantemente para o Infinito Eterno, onde não há princípio nem fim.”

56. Gênese da alma


Sobre esse importante tema, diz o Dr. Antônio Pinheiro Guedes:
“A unidade supõe a continuidade.”
“A correlação das forças implica, impõe a sua unidade.”
“A metamorfose da matéria é conseqüência da lei de continuidade.”
“A sincretização das forças é conseqüência da lei de correlação.”
“A natureza do problema, cuja solução busquei e venho apresentando, é de tal transcendência que, até hoje, ninguém ousou, que eu saiba, ainda ninguém intentou, sequer, formulá-lo e considerá-lo de ânimo resoluto.”
¾ O que é a alma humana? ¾ Qual a sua origem? ¾ Como se formou? ¾  Gera-se com o corpo? ¾  Já existia? ¾  De onde vem?”
“São interrogações que se levantam diante dos homens cultos, hirtas, horripilantes, quais íngremes montanhas de gelo, que ninguém pensa escalar, porque parece impossível realizá-lo.”
“O impossível está sempre diante da fraqueza humana.”
“Mas, quantos impossíveis o gênio do homem tem vencido?”
“O que é a vida, senão uma luta, sem tréguas, com o impossível?!”
“A vida é impossível sem o fogo; a criatura humana descobre o meio de produzir o fogo.”
“Era impossível transpor os mares: o homem venceu os mares.”
“Quantos impossíveis se erguem ante o homem, são todos outras tantas batalhas a vencer.”
“O progresso representa uma série de vitórias incruentas; a civilização, os despojos opimos.”
“A ciência, as artes, a indústria são conquistas, representam assinalados triunfos do espírito humano.”
“Mas aquele que primeiro tenta vencer um impossível, desvendar um mistério; esse é tido por visionário, utopista, senão apontado como insensato.”
“Parece-me, pois, que com a publicação deste trabalho, em que, respondendo aquelas interrogações, abordo o mais temeroso problema humano, estou a conquistar, na opinião dos meus contemporâneos, um posto naquelas fileiras, fazendo jus aos qualificativos com que se costuma brindar aqueles que nelas militam.”
“Oxalá.. . porque: sic itur ad astra.”

“Seja como for, aconteça o que acontecer, importa galgar os degraus da escada que nos transporta às alturas.”
“As soluções, até hoje dadas, são antes respostas evasivas, começando pela dos teólogos, que respondem com a Bíblia: Deus fez o homem à sua imagem e semelhança; mas fê-lo de barro, e, bafejando-o, deu-lhe alma e vida; depois adormeceu-o, e arrancando-lhe uma costela, fez a mulher.”
“Como essa afirmação é pueril, inverídica, falha de senso e contrária às leis naturais para aquele que observa, analisa, aprecia a natureza, estuda-a em todas as suas manifestações, e tem sempre assestado, entre o seu Eu e o mundo externo, esse instrumento maravilhoso que eu denominei criptoscópio, ante o qual passam todas as coisas, todos os fatos, todos os fenômenos.”
“A criação do homem e da mulher, segundo o gênesis, é profundamente ridícula. Observe-se o absurdo: O Grande Foco (Força Criadora) fazendo operar, como qualquer cirurgião, a tal ablação de uma costela de Adão, operação por demais hospitalar e pueril para ser aceita.”
“O erro, a tolice, começa pela primeira frase bíblica que diz que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança.”
“Ora, toda imagem é limitada, por ser a representação, a cópia, a reprodução de uma coisa, de um objeto, de uma figura, enfim.”
“Essas duas expressões, portanto – imagem e semelhança –, não podem ser tomadas a sério, com relação a Deus (Grande Foco).”
“Ele é infinito. O que é infinito não é limitado. O que não é limitado não tem figura, não tem forma e não pode formar imagem.”
“Semelhante ao infinito, só o infinito!”
“Deus – o Grande Foco, como o queiram chamar, não tem forma, mas os espiritualistas o vêem e sentem em toda parte, nas mínimas coisas que se apresentam à sua visão e percepção.”
“O homem, espírito e corpo, é o microcosmo e representa o Universo em miniatura, porque é constituído dos mesmos elementos.”
“Deus é, na essência, puro espírito a animar o Universo. O espírito humano, partícula sua, anima o seu corpo.”
“Deus é eterno. O espírito humano é imortal.”
“Deus é onisciente. A criatura humana é inteligente.”
“Deus é onipotente. O espírito humano possui vontade.”
“Deus é absolutamente livre. O espírito humano tem livre-arbítrio.”
“Deus é Criador onisciente, onipotente, eterno, infinito. O espírito humano é criador inteligente, volitivo e também infinito[3] . Atribuir, porém, a Deus a figura material do homem. não é só um absurdo, é profundamente ridículo.”
“As doutrinas e teorias metafísicas, (inclusive a bíblica) dos teólogos e filósofos, acerca da origem e natureza da alma, são, de tal sorte anagógicas e infundadas, que não merecem discussão.”
“E assim também as teorias materialistas, que nem admitem a existência da alma, confundindo fenômenos anímicos com funções cerebrais.”
“Fiz essas considerações, que julguei indispensáveis ou ao menos convenientes, como um ligeiro retrospecto, para servir de elo entre o passado e o futuro; também para exteriorizar, como um refletor, as emoções de meu espírito previdente, assistindo, como observador antecipado, às peripécias que o embate destas teorias e doutrinas há de provocar, em todos os arraiais, desde os materialistas até os espiritistas.”

57. A força psíquica

Tudo se cria, nada se aniquila.
O espírito, eterno viajante.

“A força psíquica – transmutação da zoogênica em que se converte a biogênica para criar o reino animal, depois de ter sido força vital, quando criou a matéria orgânica, como demonstrei – desdobra‑se, desenvolve‑se, multiplica‑se e vai adquirindo vigor, à medida que avança na construção dos instrumentos, com que há de erguer o edifício, o monumento, que é o corpo humano.
Pela assimilatividade, uma das alavancas com que trabalha a força zoogênica, o organismo monocelular aumenta de volume, cresce e multiplica‑se, como ficou demonstrado; e assim, pelos processos que expus, se criam os organismos policelulares.
Aí, a sensitividade cria o tato; o primeiro e o mais geral de todos os sentidos, o único que se encontra nos animais inferiores, os protozoários.
A motricidade cria a locomoção: a princípio, simples deslocamento por ondulação ou propulsão, por saltos, como nos animálculos infusórios, bactérias e outros: depois, a verdadeira locomoção, como nos animais superiores, passando, sucessivamente, por todas as graduações, até atingir a perfeição, como no homem
A força psíquica é, na essência, a sensitividade inteligenciada.
As duas outras alavancas zoogênicas – assimilatividade e motricidade – são apenas
auxiliares prestimosos; esta vai buscar os elementos que aquela afeiçoa e congrega.
Assim, pois, a sensitividade, que é a polarização vitalizada, criado o tato, primeiro e o mais geral de todos os sentidos, base inicial dos outros todos, vai dotando o organismo dos aparelhos necessários à sua conservação e aperfeiçoamento: a visão, a audição, a olfação e a gustação, que são simples modificações do tato; são tatos especiais criados pela necessidade orgânica ou vital de receber a impressão das diversas ordens de movimentos produzidos pela variedade infinita das vibrações do éter, de que o organismo se apercebe gradualmente; não sentindo, a princípio, senão as mais intensas ou as mais grosseiras, de que o tato dá conhecimento.
Não sei, ao certo, qual dessas modificações do tato precede as outras; pela observação direta, não se pode saber, pois que os rudimentos dos aparelhos da visão e da audição se encontram nas medusas e até em alguns infusórios, postos que não reunidos no mesmo indivíduo.
Os aparelhos da olfação e da gustação também estão no mesmo caso; são mesmo menos distintos nos animálculos, sendo, entretanto, os vigias na nutrição.
Mas, refletindo sabre as condições das funções a preencher, e sobre a urgência das necessidades a satisfazer, julgo, pelo que o criptoscópio me faz ver, que a urgência da visão, sendo maior, mais instante, porquanto ela fornece maior soma de elementos instrutivos, além de que as vibrações luminosas são mais constantes e mais excitantes do que as sonoras, a visão deve preceder a audição.
Cumpre ainda notar, em virtude das ponderações quanto à urgência das necessidades a satisfazer e quanto às condições da função, que o criptoscópio – a nossa razão –, nos induz a proclamar que a gustação e a olfação precedem a visão e a audição: porquanto estas funções se prendem à vida orgânica, são as sentinelas da nutrição e obedecem à inervação ganglionar, a que não estão imediatamente sujeitas a audição e a visão.
Criados os aparelhos destinados à conservação do individuo e da espécie; providas a nutrição e a reprodução, a força psíquica, manejando as suas alavancas, preparou os instrumentos com que se apercebe dos fenômenos que se operam fora do organismo, mas atuam sobre ele; e os criou à medida que a necessidade se fazia sentir pela repetição insistente das mesmas impressões.
É assim que a necessidade cria a função, e esta o órgão que a exercita.
E tanto é assim, tanto é certo que a necessidade cria a função, e esta o seu órgão, que os protistas exercem as suas funções sem órgãos; eles não têm nervos.
Provido o organismo dos meios de manter‑se e reproduzir‑se, e também das condições para aperceber‑se do que se passa fora, no ambiente, no mundo externo, foi criado o que rege as funções da vida orgânica, de cujos pares de gânglios superiores se forma, depois, o cérebro com o cerebelo e todo o sistema nervoso que serve para a vida animal. A força psíquica se exalta, incitada, ainda agora, pelos fenômenos do mundo externo, que a despertam e ativam. agindo, incessantemente, sobre o organismo, de cujo fato resulta, provém, nasce a necessidade para ela de apreciá‑los e avaliar a sua influência, a fim de utilizar‑se deles ou repeli‑los, quando nocivos, ou modificá‑los, tornando‑os prestáveis.
É isso o que constitui a função primordial da vida psíquica – a atenção que, analisada com o concurso do criptoscópio, não é senão a sensitividade agindo em esfera mais ampla, mais complexa, mais elevada – a vida de relação.
A sensitividade deixa de ser o que era – apenas alavanca da força vital bio‑zoogênica, para converter‑se em sensibilidade, que é um instrumento mais aperfeiçoado, preparado para receber impressões de fenômenos de outra ordem, menos grosseiros e mais complexos, produzidos por agentes menos materiais, mais numerosos e de diversas naturezas: as criaturas, as sociedades, as idéias, o pensamento nas suas diversas manifestações e múltiplas expressões – a mímica, a fala, a escrita, a música, a pintura, a escultura, etc., e a atenção que, recolhendo e apreciando as impressões do tato, da vista, do ouvido, do olfato e do paladar, as transforma em sensações, graças à sensitividade.
É difícil, é mesmo quase impossível, acompanhar a evolução da força, nestas alturas: falta‑nos o apoio, somos tomados de vertigem.
Enquanto a pesquisa versa sobre fenômenos materiais, como são os fisiológicos, encontra‑se apoio, o terreno é firme: desde que, porém, a investigação recai sobre fenômenos psíquicos, de ordem puramente espiritual, o apoio falta, o terreno não é sólido, a região não é alumiada, apresenta muitas cavernas, cada qual mais escura, ligadas por numerosos caminhos, comunicando‑se entre si: um verdadeiro labirinto”.

58. A formação da inteligência


“A inteligência – prossegue o Dr. Pinheiro Guedes – é para o espírito o que os sentidos são para o homem. Inteligência, entendimento, intelecto e inteléquia são os vocábulos, com que se nomeia a faculdade, o poder, a capacidade que possuímos de conhecer, distinguir, separar, diferenciar de nós mesmos tudo aquilo que nos cerca; tudo quanto vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e apalpamos; tudo o que nos impressiona ou afeta, de um modo qualquer.”
“É por essa faculdade que nós apreciamos e diferenciamos as impressões que nos vêm do mundo externo, daquelas que se originam e surgem ou despertam no nosso foro íntimo, sem nenhuma provocação estranha; e as designamos: aquelas, com o nome de sensações, estas, com o de emoções.”
“As primeiras nos chegam por intermédio dos órgãos dos sentidos, as segundas, são filhas genuínas de nossa alma, fruto de partenogênese.”
“Assim, pois, a inteligência – que é Força, Espírito ou Luz – admiravelmente constituída, a irradiar por todos os órgãos dos sentidos, recebe, por intermédio desses mesmos órgãos, as impressões que, transformadas pela inteligência em sensações, criam as idéias, pensamentos e sentimentos; e assim também as emoções, tudo discernindo.”
“A sensação é um fenômeno complexo, misto de fenômenos diversos: físicos – a impressão, o abalo; fisiológicos – a comoção nervosa e a sua transmissão ao cérebro; psíquicos – a apreciação e a discriminação de sua origem e caráter; o efeito – simpático ou antipático, a reação orgânica de atração ou repulsão; e, finalmente, a retenção, conservação ou arquivamento da emoção. Temos assim o conhecimento pleno, íntimo da emoção e do agente emocionante, como coisas distintas do paciente – o emocionado.”
“É isso que os cientistas e alguns filósofos denominam consciência, o Homo compos sui.”
“É essa consciência que estabelece distinção entre o "eu" e o não "eu", e separa o mundo externo do interno; é ela que os materialistas confundem com a consciência moral, balança onde são pesados todos os nossos atos, tribunal espiritual onde são julgadas todas as nossas ações.”
“Essa consciência, que eu denomino consciência orgânica ou animal, conscienciosidade, o homem a compartilha com os irracionais; é o que neles se chama instinto.
“O instinto é um movimento da alma, espontâneo ou provocado por uma impressão brusca, irritativa, do mundo externo, que determina uma reação a que o vivente obedece automaticamente; ele é a síntese da sensitividade com a motricidade criada para defesa da vida; ele é luz, aviso, guia do animal, principalmente do irracional.”
“Há dois instintos principais: o da conservação e o da reprodução, servidos por órgãos especiais; para o primeiro, os do aparelho digestivo; para o segundo, os do aparelho sexual; em ambos, predominam a inervação da vida vegetativa, o sistema ganglionar ou nervo grande simpático.”
“O instinto de conservação tem por sentinelas a fome e a sede, que se localizam, se fazem sentir como necessidades urgentes nos órgãos do aparelho digestivo; ele gera o egoísmo, com o seu cortejo de sentimentos individualistas, o egotismo.”
“O instinto da reprodução, cujo objetivo é perpetuar a espécie, é como que uma evolução do outro; ele tem por escudeiro o amor, mas amor sensual, que eu denomino afinidade fisiológica, a qual é o germe, a origem da simpatia entre os racionais, – atraídos pela lei natural da reprodução da espécie – o casamento – a união de corpos, da qual pode nascer e desenvolver-se o mais belo e sublime dos sentimentos – a amizade verdadeira, que é aquela que nasce do amor espiritual, com a sua coorte de sentimentos filantrópicos – o altruísmo.”


“A idéia, de dar por sede do amor o coração, é erro, e grave; denota falta de conhecimentos ou de prudência ao raciocinar, pois não se pode atribuir ao efeito aquilo que somente pertence à causa.”
“A sede do amor está na alma – Força, ou Espírito, é ela a causa ou origem de todos os órgãos que compõem o corpo, é ela quem os irradia e vivifica através de cordões fluídicos, mas é preciso que não se atribua a órgãos receptores e distribuidores aquilo que só pode residir e pertencer à alma: a amizade ou o amor.”
“Pelo fato de o coração ser o elo que prende a vida orgânica à psíquica – laço entre a vida material e a espiritual – não pode ser ele o depositário do amor; ele nada mais é que o centro circulatório, o propulsor da vida orgânica e repositório e distribuidor dos elementos vitais.”
“O sangue, propelido pelo coração, se distribui por todo o corpo, fornecendo a todos os órgãos os elementos de vida e dando-lhes vigor para o exercício de suas funções individuais e coletivas, particulares e gerais; e assim o cérebro e toda a inervação da vida animal se acham sob a dependência do coração; porém a sede, o órgão do amor espiritual está na Alma – partícula da Força – que é a suma, a síncrise de todos os sentimentos, o sentimento que converte o homem e o transmuta em pureza, aproximando-o da Verdade.”
“Por esta resenha se vê que a conscienciosidade, síncrise da sensitividade com a motricidade, é a base, o fundamento para o cultivo da inteligência: a lapidação do espírito.”

59. A percepção, a memória, a compreensão, a concepção e a imaginação


Em continuação, ensina o Dr. Pinheiro Guedes: “Cada aparelho sensitivo recebe e transmite ao cérebro, que é o órgão receptor da inteligência, a impressão de uma certa ordem de fenômenos; estas impressões convertem‑se aí em sensações, cuja origem, caráter e efeitos são discernidos, estabelecendo distinção entre o agente emocionante, a emoção e o emocionado; e isso constitui o que se chama consciência, o Homo compos sui.”
“Há em tudo isso, ou além disso, um esforço, atividade, certa energia; é a atenção.”
“A sensibilidade, a atenção, a consciência e o senso íntimo, auxiliando‑se reciprocamente, são centelhas da inteligência, em cuja função se notam a percepção, a compreensão e a concatenação ou memória, que são processos intelectuais.”
“A percepção é como um instrumento agudo, penetrante, ou uma sonda de que nos servimos para explorar; é como o tentáculo dos insetos; é o órgão do tato do nosso Espírito.”
“Excitado pela atenção, ele apalpa a consciência animal, orgânica – o sensório; esse é o modo de agir da força psíquica sobre as suas sensações e emoções.”
“A percepção é para o Espírito, o que os sentidos corporais são para o homem; ela é a sua recapitulação.”
“A memória é o registro e o arquivo das sensações, emoções convertidas em idéias, pensamentos e sentimentos.”
“Ela exerce, no mundo psíquico, a mesma função que a coesão e a afinidade, no corpóreo.”
“O agrupamento, a concatenação, o registro e o arquivamento de tudo quanto impressiona ou afeta o nosso Espírito, se opera, se efetua, faz‑se e realiza‑se por continuidade e contigüidade, por simpatia ou antipatia, por analogia ou antagonismo, por similitude e antítese, não só das idéias e sentimentos, mas também das imagens.”
“A compreensão é um instrumento mais complexo do que a percepção, e constituído diversamente: só funciona em operações cujos elementos são idéias.”
“Na sua estrutura, além da atenção e conscienciosidade, elementos que concorrem para a percepção, entra a memória, que é o repositório dos elementos necessários à operação preliminar – a comparação, que constitui a base da compreensão e é o processo mediante o qual ela se efetua.”
“A compreensão é como um instrumento detentor, uma concha polida, um espelho côncavo, para cujo centro convergem as imagens refletidas da periferia.”
“Ela colhe, abrange, analisa e compara as sensações e emoções, os pensamentos e sentimentos.”
“São esses os instrumentos e aparelhos da inteligência, mediante os quais adquirimos conhecimentos, nos instruímos e aperfeiçoamos.”
“O raciocínio, a abstração, a generalização, a comparação e o juízo, como elementos do intelecto, são funções, são operações do entendimento, cuja matéria‑prima é a idéia, o pensamento.”
“Eis aí como age a inteligência, e como atua em todas as espécies animais, desde os infusórios até os antropóides, cada qual com o seu contingente; eles (os animais) são as oficinas, os laboratórios onde se forjam e afeiçoam os instrumentos e aparelhos, cujo aperfeiçoamento se há de completar no laboratório, que é a recapitulação de todos os outros – o homem.”
“A inteligência no homem é uma oficina completa e perfeita; ela possui todos os instrumentos necessários à inspeção do Universo, à análise e à síntese de todos os fatos da natureza e à descoberta das leis que os regem.”
“A inteligência humana dispõe de recursos como a de nenhum outro animal no mundo; ela maneja instrumentos que todos os animais só reunidos apresentam; e ainda outros mais perfeitos, constituídos pela junção de alguns daqueles, formando aparelhos mais sensíveis e de maior alcance: a concepção, a imaginação e a razão.”
“A concepção cria idéias; é um aparelho constituído pela memória, atenção, compreensão e percepção.”
“A imaginação cria imagens, figuras, formas; é constituída pelos mesmos instrumentos que a concepção, mas concatenados segundo a função que têm de preencher, e mais a inventiva, que é constituída pela apreciação, comparação e apropriação de formas por analogia (adequabi1idade); faculdades, cuja origem, o criptoscópio descobre na Polarização.”
“A concepção compara, combina sensações, cuja essência é a modalidade; a imaginação compara e combina impressões cujo caráter é a forma.”
“A razão é o mais complicado, o mais perfeito, o de mais alcance e de mais utilidade dos aparelhos da inteligência; é a reunião, a síncrise de todos os outros; e por isso funciona como superintendente; todas as operações, todos os trabalhos feitos na oficina intelectual lhe são submetidos; e, mais do que tudo isso, ela é a luz da oficina.”
“A inteligência é para o homem o que é para o Estado o poder legislativo".

60. A evolução da alma, a lei do trabalho e a lei da reencarnação


“A evolução é uma lei a que tudo está sujeito no Universo. A evolução da alma humana, à luz da razão, é intérmina. Uma vez adquiridos os recursos, conquistados os meios, alcançados os postos que a necessidade ia criando, sucessivamente, sob a imposição dos fenômenos impressionantes do mundo externo, na sua variedade quase infinita, no Universo considerado estática e dinamicamente – a força psíquica humanizada – a alma humana aperfeiçoa‑se e progride, perlustrando a escala dos seres humanos que se diferenciam, formando classes distintas, pelo caráter, pelo saber e pela moral.”
“E a evolução não pára aí, mesmo neste mundo.”
“Necessidades de outra ordem, mais complexas, oriundas do agrupamento dos indivíduos em famílias, em sociedades, em povos, modificam a alma, compelindo‑a a amoldar‑se às contingências do meio (lei de adaptação aplicada à alma); e, desse modo, as arestas, as agruras, as asperezas, as sombras deixadas pela hereditariedade, que só o é na parte material (outra lei proclamada pelo sábio Darwin) são cortadas, aplainadas, brunidas, esbatidas; e assim a alma se despe, se limpa das impurezas que trazia da longa jornada percorrida do berço à virilidade , da criação à individualização; e neste último estágio, que é o do aperfeiçoamento, percorre os agrupamentos – a família, a sociedade, a nação.”
“Assim, pois, as diversas condições em que se realiza, em que se efetua a vida corpórea, as circunstâncias que a rodeiam, as peripécias que se dão, são outros tantos meios, são outros tantos incentivos à evolução, ao aperfeiçoamento, ao progresso do Espírito.”
“Portanto, as dificuldades e misérias da vida, as lutas contra as intempéries, as necessidades de toda espécie – materiais, intelectuais e morais – são os aguilhões, os instigadores, os promotores do progresso humano.”

A LEI DO TRABALHO
O trabalho é a alavanca do progresso.

"A lei do trabalho, imposta à criatura pela necessidade de obviar as intempéries, vencer as dificuldades, suprir as necessidades, minorar o sofrimento e sobrepujar‑se nas lutas, dominando os elementos adversos e tirando partido das circunstâncias; o trabalho é o corretivo de todos os males que assediam a humanidade; o bálsamo sagrado que cura todas as chagas, o lenitivo de todas as dores.”
“O trabalho, portanto, não é, nem pode ser, um castigo (como alguém o disse e impensadamente se vai repetindo), imposto à criatura por Deus.”
¾ Pura mitologia! O Universo tem as suas leis imutáveis, e dentro delas tudo é regido.”
¾ Ninguém, até hoje, se deu conta da blasfêmia que tal idéia encerra?”
¾ Ninguém protestou ainda contra o pensamento nefando de atribuir à Inteligência Universal, tamanha perversidade?!”
“Considerá‑lo castigo, é tirar‑lhe o mérito, negando‑lhe a espontaneidade.”
“Se o trabalho é castigo, a submissão é filha da obediência, e prova humildade; mas a punição provoca a revolta, filha da insubmissão, que nasce do orgulho.”
“As sábias leis do progresso, quando bem interpretadas, jamais provocariam a revolta!”
¾ O trabalho é imposto aos irracionais. Qual o crime dessas criaturas?”
¾ Não! O trabalho não é punição; nem todo o sofrimento é castigo, como demonstra o dos irracionais.”
“Se o trabalho é punição, é prêmio o sofrimento!”
“O trabalho, não; os trabalhos, sim, são castigo, são a justa punição das faltas, dos erros e dos crimes.”
“Todo o sofrimento é um aguilhão do Progresso; e o trabalho o meio, o modo de realizá‑lo.”
“É por ele que todas as criaturas efetuam a sua evolução, e o homem, só arrimado a esse bordão, caminha pela estrada do progresso para a perfectibilidade.”
“Se, pois, como procurei demonstrar, as diferenças intelectuais e morais de indivíduo a indivíduo, representam graus de progresso; e essa gradação existe nos agrupamentos que constituem a família, a tribo, a sociedade policiada, o povo, os habitantes, enfim, de uma região, de um território; é indubitável, é certo que a alma humana, submissa à lei de perfectibilidadc, perlustra todas essas estações de progresso.”
“Portanto, terminado o período de sua criação, que se efetua, como ficou provado, através da série animal, cuja razão de ser é essa, nem pode ser outra; inicia‑se o da sua individualização na primeira existência corpórea humana, seguindo‑se a do aperfeiçoamento.”
“E, pois, certamente, todas as condições, todos os estados em que se apresenta a criatura humana neste mundo, desde o selvagem e bárbaro até o de maior civilização, cultura e policiamento, são outros tantos estágios por ela percorridos; são outras tantas estações na longa estrada de perfectibilidade.”

A LEI DA REENCARNAÇÃO

“Destas considerações resulta, clara e evidentemente, que a reencarnação é uma necessidade indefectível, é uma lei psíquica a que o espírito humano está sujeito.”
“É nela, e só por ela, que a alma humana pode, perlustrando a via da perfectibilidade, realizar o seu progresso, aperfeiçoar‑se, depurar‑se e elevar‑se na escala dos seres à categoria angélica de espírito puro.”
“O espírito puro não tem mais necessidade, não carece de tomar um corpo carnal (só o fazendo quando se torna preciso ao progresso da humanidade e do planeta) para evoluir e trabalhar neste mundo, porque completou o seu tirocínio, tendo atingido o grau de adiantamento intelectual e moral que ele pode proporcionar.”
“A reencarnação, além de ser uma necessidade, pois que sem ela o Espírito não pode aperfeiçoar‑se, é também o meio de que ele pode socorrer‑se para reparar as suas faltas, provando assim um arrependimento sincero.”
“Uma vida, uma existência corpórea, por mais longa que seja, é insuficiente, incontestavelmente, para a criatura, por mais inteligente que seja, adquirir a totalidade dos conhecimentos, que são o cabedal, os tesouros da humanidade.”
“Demais, a inteligência desenvolve‑se, evolui, como tudo no Universo; não surge completa, perfeita, como Minerva da cabeça de Júpiter:”
“Se um aluno perde o ano, por desídia, por não haver estudado ou porque sua inteligência não é bastante lúcida, ele não fica inibido de repetir o curso, seu pai não o priva, antes anima‑o, compele‑o mesmo a fazê‑lo.”
¾ Por que, pois, há de a Inteligência Universal impedir suas partículas, as criaturas, de repetirem o curso desta escola, privando‑as assim do único recurso de que podem dispor para aprender as lições racionais e científicas já explanadas por Jesus e que também nos ensinou a amar ao próximo com a nós mesmos?”
¾ Onde está esse que tenha dado provas positivas de saber a lição, em uma única existência?”
¾ Como, pois, atribuir à Bondade Infinita, ao Grande Foco, a crueldade sem nome de tolher a criatura, tirando‑lhe a possibilidade única de ser discípulo aproveitado da Verdade, como todos devem e hão de ser?”
¾ Não! Tal coisa não é possível; a Inteligência Universal não comete iniqüidades.”
“A criatura não é feitura direta do Grande Foco. Se o fosse, seria pura, perfeita; não estaria cheia de iniqüidades: se estiver cheia de iniqüidades, está impura, é imperfeita; mas, como essência, é partícula do Grande Foco ou da Inteligência Universal.”
“Para que se realize a Verdade; para que a criatura venha, quando alma, a confundir-se com o Grande Foco e seja também luz puríssima, tem de aperfeiçoar‑se dia a dia, para purificar‑se.”
“Mas o Grande Foco é infinito; a perfeição é infinita; logo, a criatura é perfectível: contudo não pode atingir o alvo, não pode aproximar‑se do modelo, sem perlustrar o caminho da perfeição, que é, não pode deixar de ser, infinito.”
“Portanto, são necessárias jornadas sucessivas e infinitas, para percorrê‑lo.”
“Essas jornadas da alma são as existências sucessivas – as reencarnações do Espírito.
“A reencarnação é, pois, uma lei; a lei do progresso espiritual, que não pode ser frustrada, à qual todos os espíritos têm de submeter‑se, absoluta e necessariamente; todos, sem exceção de um só, e ab initio in aeternum.

61. Que é o mundo?

A oficina, a escola, o hospital, a penitenciária e o teatro

Ainda o Dr. Pinheiro Guedes:
Essas epígrafes dizem sinteticamente o que é o mundo; são as teses que me cumpre desenvolver, para completar o monumento da origem, natureza e evolução da alma humana. A demonstração dessas teses vem coroar a obra; como uma bela cúpula sobre um edifício majestoso, completa‑o, aformoseia‑o e o realça.

A oficina


O mundo é para a alma humana ou Espírito apenas individualizado, ainda no início de sua evolução, uma oficina de trabalho e uma escola de educação.
Ao Espírito – verdadeiro aprendiz que apenas acaba de fazer sua entrada na oficina – o mundo apresenta, oferece e fornece matéria‑prima, para ser manipulada e mestres para guiá‑lo.
Os mestres são os Espíritos cujo tirocínio está concluído, auxiliados por outros, cujos conhecimentos, cujo desenvolvimento, conquanto não seja completo, é, não obstante, suficiente para permitir‑lhes a direção em certos trabalhos.
São considerados e chamados, ordinariamente e erroneamente, “anjos da guarda”, “protetores”, “guias” – os mestres; os Espíritos auxiliares são os que têm afinidade espiritual com o encarnado.
Esta é a norma nas nossas oficinas e escolas, onde os mestres e chefes entregam à direção de um aprendiz mais adiantado um ou mais condiscípulos.
E sente‑se e se reconhece que assim é, de fato, realmente, e nem podia ser de outro modo; não se aprende sem mestre.
A matéria-prima que o mundo apresenta e fornece ao espírito não é toda da mesma natureza; ela tem origens diversas: é o fluido etéreo, simplesmente polarizado; a molécula vegetal e a substância animal; são os fenômenos cósmicos e os pensamentos e fatos sociais, sentimentos das criaturas.
É evidente o trabalho do Espírito, quando encarnado, mas o do desencarnado, conquanto seja menos apreciável, não é menos real, é mesmo mais intenso e de mais difícil execução; pois que se exerce sobre a matéria‑prima de todas as origens.
Os Espíritos, instrumentos da Inteligência Universal, são os executores das leis universais.

O perispírito – teoria e funções

O Espírito encarnado labora a matéria de seu corpo e maneja todas as substâncias do mundo: mecânica, física e quimicamente.
As funções orgânicas não se efetuam sem consumo dos elementos componentes dos órgãos; os elementos gastos são substituídos, simultaneamente, por outros imediatamente elaborados no seio do organismo.
Nessa elaboração, notam‑se duas fases distintas, posto que simultâneas: uma, de separação e eliminação do material gasto; outra, de agregação, assimilação e consubstanciação da substância orgânica, convertida em célula de cada um e de todos os tecidos, que formam a estrutura dos órgãos.
Na incorporação de novos elementos, em substituição dos consumidos, o trabalho do Espírito é nimiamente complexo a delicado: cumpre‑lhe atender à escolha da matéria, ao afeiçoamento e distinção dos elementos segundo as funções; ele se transfunde no elemento que incorpora; ele o absorve e individualiza, imprimindo‑lhe um cunho peculiar, dando‑lhe uma feição exclusivamente sua; ele o vivifica.
Na fase de eliminação do material gasto, o trabalho reduz‑se à segregação dos resíduos – fluidos, líquidos e sólidos, os quais levam consigo as disposições, a vitalidade que adquiriram no organismo de onde se desprenderam.
Assim, pois, ao repositório geral, (vide a obra A vida fora da matéria) voltam as moléculas e átomos, levando consigo as modificações que receberam.
De simples matéria inorgânica, passaram a substâncias orgânicas; de simples substâncias orgânicas, tornaram‑se elementos vegetais e elementos animais.
Em cada um desses estados, o fluido etéreo que acompanha o átomo, a molécula, a célula, recebeu modificações que !he imprimem uma modalidade peculiar a cada corpo.
Todos os corpos desprendem emanações que, se escapam à nossa vista, são observadas pelos médiuns, que as descrevem como formando uma atmosfera, um halo, em torno de todos eles, inclusive os minerais.
É a aura dos esoteristas, ou o perispírito dos espíritas.
Do que fica exposto se infere, logicamente, que o Espírito elabora o seu perispírito, desde o início de sua formação e individualização: ele é a sua pele e o seu arcabouço. É como a corrente elétrica, de que ele é o dínamo; o azeite, de que ele é a mecha; são inseparáveis, ab aeterno in aeternum.
O perispírito tem por base o fluido etéreo do mundo a que pertence o espírito.

Há, portanto, muitas ordens de auras ou atmas ou perispíritos, desde os que envolvem os corpos brutos, até os que provêm da criatura humana; mundos de diversas categorias, de cujo fluido ou auras que os envolvem, forma o espírito humano o seu perispírito, o seu fluido nervoso, do qual se serve o espírito para colorir a sua aura, conforme a sua categoria espiritual.
As muitas ordens de auras humanas, portanto, são produzidas pelo espírito, com o fluido vital que lhe é próprio e com o que atrai das zonas, estados, ou mundos superiores; são o reflexo do seu próprio “Eu”, e assim do seu sentir, conforme afirmamos em nossas lições anteriores.
O trabalho do Espírito encarnado não se limita ao que acabo de indicar, mas abrange todo o ciclo da atividade humana, na labuta da vida, para satisfazer as suas necessidades, no afã do serva to ipsum; e vai além: suas idéias, os pensamentos que formula, as imagens que cria, os sentimentos que o agitam e impulsionam, vivem e se movem com o seu perispírito; são agentes que o encarnado maneja.
É prova disso a hoje bem conhecida transmissão do pensamento.
E, como o pensamento, também o sentimento se transmite.
A sugestão e a obsessão têm a sua base na vontade e pensamento.
O espírito desencarnado utiliza‑se desse fluido para realizar os seus trabalhos, servindo‑se do animalizado para se materializar, tornar‑se visível e palpável; e se tem de apresentar a forma de um animal ou um vegetal, ou o movimento, a deslocação de corpos, recorre ao fluido correspondente à natureza do fenômeno que quer produzir; buscando o da espécie animal e, mais particularmente, o idêntico ao tipo: mamífero, ave, inseto, réptil, etc. (vide o livro A vida fora da matéria).
Como se vê, o laboratório é vasto, e os operários que produzem a matéria‑prima (o fluido polarizado, nos corpos minerais e vegetalizado e animalizado nos viventes) devem trabalhar, e trabalham efetivamente, sem cessar, a fim de fornecer os elementos de que se servem os Espíritos desencarnados para produzir a variedade infinita dos fenômenos do Universo.
E assim o mundo é uma oficina de trabalho, tanto para o Espírito encarnado, como para o desencarnado.

A escola

Como escola prática de educação, o mundo oferece ao espírito dois grupos distintos de aulas: um, destinado à instrução propriamente dita, cultura intelectual; outro, destinado à educação e cultura moral.
Na oficina, o espírito vitaliza e animaliza a matéria, tornando‑a apta para formar o corpo astral, corpo anímico ou perispírito.
É esse o trabalho que, com o auxílio do criptoscópio, lobrigamos na oficina.
A escola, no seu grupo de aulas para cultura intelectual, é tão completa, tão pródiga mesmo, que nenhum aluno conseguiu ainda nem jamais conseguirá completar o curso, senão após numerosas matrículas, (reencarnações) para freqüência com assiduidade e aproveitamento.
No grupo das de cultura moral e formação do caráter ou educação propriamente dita, as aulas são ainda mais numerosas, constituindo diversos cursos, cada qual mais difícil; desde aquele em que se deve modificar uma simples disposição viciosa, até aqueles em que devem ser corrigidos defeitos e vícios inveterados: a vaidade, a desídia, a luxúria, a inveja, a maledicência, a mendacidade, o latrocínio, o ciúme, a ira, o ódio, o orgulho e outros tantos vícios que tornam o homem infeliz e fazem o atraso da humanidade.
Na oficina, o espírito pule a matéria; na escola, ele é polido pelo atrito das paixões com os interesses: lá, o esmeril é a necessidade; aqui, a dor.
Quer num, quer noutro caso, a reencarnação, ou volta do espírito à vida corpórea, é a matrícula na escola; ela não só é indispensável, como ainda é o único meio, é o único recurso que há para freqüentar as aulas; e, sem essa freqüência, a alma não pode mostrar‑se habilitada; sem estar habilitada, não terá acesso, permanecerá na escola, como ouvinte, sem direito ao exame, à prova; direito que só a matrícula – a encarnação – ou o trabalho em corpo astral, pode dar.
A matrícula – a reencarnação – se repetirá tantas vezes quantas forem necessárias para completa e perfeita habilitação do espírito, demonstrada por provas irrefragáveis, Então, mas só então, a partícula do Grande Foco passará a ser Espírito puro, capaz de evolar a outro mundo mais adiantado.
Muitas são as moradas (mundos) que se movimentam no Espaço, disse Jesus mas de suas palavras também se infere que este mundo, sendo uma das moradas, é igualmente a escola de que é ele o Mestre.
Ora, a Astronomia nos ensina que as estrelas que giram em torno do Sol, são outros tantos mundos; e, portanto, na frase de Jesus, outras tantas Escolas, para onde e por onde o Espírito terá de passar, impreterivelmente, na sua marcha evolutiva para a perfectibilidade.
Sendo os planetas moradas dos espíritos, dessas moradas é composto o Universo; e o Universo é infinito.
Logo, a marcha evolutiva do espírito para a perfectibilidade é intérmina; a perfeição está no infinito, que é a Inteligência Universal ou o Grande Foco.

O hospital

Fácil é a demonstração de que o mundo é um hospital para as criaturas.
A alma humana é o produto da evolução da Força, através do reino animal.
Ficou provado que o fluido etéreo é inseparável do átomo, e se revela, como aura, em todos os corpos e seres, apresentando as modificações que cada grupo lhe imprime.
Ora, a alma humana se forma, atravessando a fieira animal, do micróbio ao antropóide.
Cada indivíduo imprime certa modificação à sua aura, ao seu perispírito, segundo as necessidades de sua existência (a sua vontade).
Cada indivíduo concorre para constituir o caráter do grupo, que se compõe de diversos graus, desde a variedade, até á espécie; o perispírito retém, guarda, conserva a modalidade adquirida durante a vida corpórea do ser.
E, pois, a força psíquica, quando chega a ser Espírito humano – alma – tem necessariamente gravada no perispírito todas as qualidades distintivas, características das espécies animais; qualidades que são as condições absolutamente indispensáveis à manutenção da vida para cada um deles; para este, a audácia, para aquele, a timidez; ora, a ostentação, logo, o disfarce; e assim: a astúcia, a ganância, a velhacaria, a versatilidade, a hipocrisia, a imprudência, a vaidade, o orgulho, a teimosia, a ferocidade e muitíssimas outras que o estudo da vida dos animais tem patenteado, que são virtudes nos animais e vícios no homem.
Além dessas disposições viciosas, oriundas do processo de sua formação, outras são criadas, hauridas no meio em que se desenvolve o Espírito, proveniente de suas relações e muitas outras circunstâncias; tais são: a ambição, a mendacidade, o latrocínio, a venalidade, a maledicência, a luxúria, o fanatismo, o ceticismo, etc.; os atentados aos bens, a honra e à vida dos seus semelhantes.
Tudo isso constitui estados mórbidos da alma, mais ou menos inveterados, que importa curar; e para os quais o remédio está nas variadíssimas condições da vida: desde o estado selvagem, com sua dureza, até o da maior civilização, com suas hierarquias e numerosíssimas profissões, desde as mais humildes até as mais elevadas; com sua multiplicidade de funções, desde as mais baixas e repulsivas, até as mais honrosas e agradáveis; de um extremo a outro, para cada chaga, se encontra um bálsamo; para cada cancro, um antídoto; para cada pústula, para cada úlcera, um cautério. E, como disse Hipócrates: ea quae ferrum non sanat ignis sanat.
A cura, é sempre possível; ela há de realizar‑se, impreterivelmente; depende de tempo e da severidade na aplicação do remédio.
E assim, vê‑se que o mundo é, de fato, um Hospital.

O mundo como penitenciária

O mundo é também, indubitavelmente. ai de nós! uma Penitenciária.
Para prová‑lo basta apontar para as desgraças e misérias da vida, que pesam sobre a população das grandes cidades.
Os acidentes, os desastres, os atentados, os crimes – uns bárbaros, outros hediondos – são outras tantas penas de Talião.
¾ Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
A cegueira, a surdo-mudez e todos os aleijões de nascença, os vícios de conformação, as monstruosidades, são, de certo, penas, castigos, expiações.
A ciência materialista se expande sobre o como de tais fenômenos; sobre o porquê,  é muda, por que ela o ignora.
¾ Como conciliar a justiça indefectível com tais fatos?
¾ É, ou não, castigo, e castigo tremendo, nascer e viver cego ou surdo‑mundo, sem pés, sem mãos e até sem pernas e sem braços?
¾ É, ou não, castigo e castigo cruel, nascer idiota, cretino, epilético?
Ninguém dirá: ¾ Não! Todos pensam e sentem que o é.
Então a criatura que nasce em tais condições deve ter já vivido uma existência anterior, na qual delinqüiu.
A falta pede, exige o corretivo; o delito, a pena.
Assim, compreende‑se o fato, reconhece‑se a justiça.
Deus (Grande Foco) surge em nossa consciência, e o veneramos, e o respeitamos, cumprindo os deveres.

O mundo como teatro

Mais verdadeira do que pensam muitos dos que a empregam é a frase: o mundo é um teatro.
Sim: o mundo é um cenário, onde se desenrolam os dramas da vida; as comédias, as tragédias e também as farsas; é mesmo, muita vez, um teatro de bonecos.

Cada indivíduo é, de fato, um ator no cenário do mundo; e freqüentemente um comediante, um farsista.
Assim como o ator é entidade dupla, quando entra em cena, representando uma personagem fictícia ou verdadeira cujo caráter o autor da peça procura salientar pelos pensamentos e sentimentos que lhe atribui, os quais o ator tem de interpretar e manifestar nas atitudes, gestos, entonações da voz e nas mais insignificantes minudências de uma existência mui diversa da sua; assim também as criaturas representam duas entidades: uma íntima – a real; outra, fictícia ou fingida – a que se ostenta na sociedade e se apresenta aos olhos do mundo.
O entrecho das peças é urdido das fraquezas, vícios e torpezas da mísera humanidade.
Sobre o palco, a virtude, a honradez, a inocência triunfam, ordinariamente; mas na grande cena social, nesse teatro, onde todos são atores, o que triunfa é a esperteza, a habilidade na arte de iludir; é a dissimulação, a hipocrisia e a fereza, com que se sacrifica tudo à plutocracia.
A origem de todas as misérias que constituem a trama, a urdidura, o enredo das comédias e tragédias que se representam cotidiana e incessantemente neste pandemônio, é a descrença que lavra nos espíritos, é a sede de gozo neste mundo, porque é geral a dúvida sobre a realidade de uma vida futura; é o efeito de uma religião, toda exterioridades, prometendo prêmios e penas irrisórias; recompensas e castigos, em que ninguém acredita; é a relaxação dos costumes, fruto do consórcio do sensualismo com o ceticismo.
O desejo, a sede de gozos inerentes à natureza humana, ligados à dúvida ou à descrença sobre a realidade da existência da alma e, conseqüentemente, sobre a de uma vida futura real e positiva; esse consórcio danado produziu a tirania que avassala, domina, subjuga as sociedades civilizadas, impondo‑lhes uma organização que cria a necessidade de ilaquear, fingir, iludir, sofismar, para não perder de todo a liberdade; porque opor‑se, altivamente, lutar às claras, é buscar ser esmagado, quando se não é esclarecido.
Eis por que, como o demonstrou Max Nordau, a mentira é a rainha do mundo.
Eis o que é mundo!
Julgo haver demonstrado, senão com beleza, ao menos com verdade e clareza, de modo compreensível, logicamente, a tese relativa à origem, natureza e evolução da alma humana; indo até à altura em que a alma tendo se feito espírito puro, evola para outros mundos.
Com o auxílio do meu criptoscópio, instrumento – a razão – por meio do qual se vê aquilo que, por sua natureza, não é visível e se pode devassar as regiões metafísicas, fui até onde era possível, até onde encontrei fenômenos; fui mesmo além; fui até onde a indução e a analogia me facultaram chegar, prevendo outras séries de evoluções do Espírito.
Além está o impossível, o que não pode ser descoberto nem sequer pressentido pela inteligência, a mais perspicaz, servida por um criptoscópio perfeito, constituído como ele é até agora.
Aqueles que lerem estas páginas, sem prevenção de seitas ou escolas, desculpem‑me a ousadia, hão de reconhecer que elas encerram uma verdade, que representam uma valiosa conquista, que são o resultado do valente esforço de uma vedete que procura obedecer ao conselho de Sócrates, quando disse: Nosce te ipsum.




[1] Leia-se Racionalismo Cristão e A Vida Fora da Matéria.

[2] Referia-se a Guilherme II, guerra européia de 1914,/1918.
[3] A expressão “Deus”, usada pelo Dr. Pinheiro Guedes, não deve ser tomada ao pé da letra como significando um ser individualizado. Deus, se assim o quiserem denominar, nada mais é do que a Inteligência Universal ou Grande Foco. 







[1] Autor também do livro “O problema do além e do destino”.
[2] Epicuro, filósofo grego, discípulo de Xenócrates, (341-270 a.C.), ensinava ser o prazer o maior bem do ser humano, não devendo este poupar esforços para desfruta-lo, ao máximo; no entanto – advertia – esse prazer não devia constituir-se no gozo material, mas na cultura do espírito a na prática da virtude. Por haver sido interpretada erroneamente a sua doutrina, Epicuro, homem de rara continência e exemplar virtude, tem sido considerado como um materialista, cujos horizontes não ultrapassavam os domínios dos baixos prazeres dos sentidos.
[3] Sobre a deturpação do pensamento de Epicuro, vide o reparo que fizemos no capítulo 22, deste livro.