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Páginas Antigas - 1954 - Por diversos autores


Páginas
Antigas

1954




Índice

Prefácio
1 - Na Catedral de Braga - Testamento do Conde D. Henrique, lido por seu filho Afonso Henriques na presença de Egas Moniz - Por Antônio Castilho
2 - Retrato do tempo ou a voz da história em 1867 - J. de Melo Morais
3 - A Voz do povo é a Voz de deus - Luiz de Mattos
4 - A falta de educação - Luiz de Mattos
5 - Direitos da Mulher - Antônio do Nascimento Cottas
6 - Manifestação o espirito de Antônio José De Almeida em Sessão Pública no Centro Redentor, do Rio de Janeiro, em 1º de Novembro de 1929
7 - Luiz de Mattos - Antônio do Nascimento Cottas
8 - Luiz de Mattos - Othon Ewaldo - Transcrito da A Razão de 15 de janeiro de 1949 - II
9 - Luiz de Mattos - Joaquim Costa - III
10 - Luiz de Mattos - Luiz de Souza – IV
11 - Luiz José de Mattos - Antonio do Nascimento Cottas - Transcrito da “A Razão” de 16 de janeiro de 1940 – V
12 - Nosso Fundador - Emir Nunes de Oliveira – VI
13 - Luiz De Mattos - Transcrito da “A Razão” de 15 de janeiro de 1940 – VII
14 - Luiz de Mattos - Othon Ewaldo - Transcrito da "A Razão" de 15 de janeiro de 1953 – VIII
15 - Luiz De Mattos - Transcrito da “A Razão” de 15 de fevereiro de 1939 – IX
16 - Um homem que é um símbolo - Gervásio Viana Junior – X
17 - Luiz de Mattos - Othon Ewaldo – XI
18 - Preito de Gratidão e Saudade - Homenageada a memória do nosso fundador – Inauguradas as placas da Rua Luiz de Mattos – Os discursos proferidos - Transcrito da A Razão de 15 de janeiro de 1952 - XII
19 - Luiz Alves Thomaz - Antonio do Nascimento Cottas – I
20 - Luiz Alves Thomaz - Othon Ewaldo – II
21 - Luiz Alves Thomaz - Othon Ewaldo – III
22 - Sacadura Cabral - Após a sua morte desastrada - Manifestação do seu espírito no Centro Redentor – RJ - Presidência de Luiz de Mattos
23 - A Infalibilidade do Papa - Discurso pronunciado no celebre Concílio de 1870 pelo Bispo Straussmayer
24 - A Benção do Papa - Transcrito da “A Razão” de 26 de agosto de 1919.
25 - O Pensamento é Tudo - Luiz de Mattos
26 - Formação Do Caráter - Antônio do Nascimento Cottas


PREFÁCIO

Não há dúvida de que estamos atravessando uma fase de transição.

É como se a metade do século quisesse marcar esta época como de grande desenvolvimento, de acentuado progresso, de engrandecimento do país.

Infelizmente, progresso simplesmente material: a expansão das cidades, a industrialização em marcha progressiva, a mecanização da lavoura, a ampliação do comércio, enquanto e talvez por isso mesmo, estamos estacionários e – porque não dizê-lo? – retroagindo na moralidade e decência públicas, nos aspectos morais do povo, os mais importantes e de maior valia.

Enquanto o progresso material se expande, constata-se como que um rebaixamento nas virtudes pessoais, que sempre foram o nosso orgulho e que permitiram que caminhássemos tão depressa no conserto das nações civilizadas em busca do posto que nos compete na vanguarda e ao lado das nações líderes do mundo.

Esse rebaixamento moral generalizado – quem o culpado? A imprensa, o rádio, a frouxidão de nossas leis, a impunidade do delinquente, a complacência de pais e mestres – é ainda mais lamentável quando se projeta das altas camadas sociais, como um jorro de lama a manchar a consciencia pública, pelos perniciosos exemplos que oferece ao povo que trabalha e luta e sofre na conquista do pão de cada dia, nos atribulados tempos em que vivemos.

Porque o povo não pode compreender como pessoas tão altamente colocadas, ocupando cargos rendosos, ganhando polpudos ordenados, desfrutando influência e prestigio junto às camadas elevadas da sociedade e até aos círculos governamentais do país, passam de ser à prática de falsificações e desfalques, negociatas e subornos, interpretações maliciosas dos textos das leis e solertes re-estruturações, visando o enriquecimento fácil, a vida sem esforço e canseira, o gozo dos prazeres das grandes cidades, prevalecendo-se de suas funções de administradores de coisas públicas, dos dinheiros do povo, da preponderância dos elevados cargos que exercem, do prestígio dos seus amigos, para servir à ambição desmedida de tais indivíduos, parentes e apaniguados dos poderosos, políticos, altos funcionários públicos, capitalistas em detrimento dos legítimos interesses da coletividade, do povo, que uns, ele mesmo elegeu, outros, juraram defender seus interesses e instituições e todos traindo os ditames de honestidade e caracter que sempre foram o apanágio da nossa gente, generosa e desprendida.

Os comentaristas pela imprensa e radio classificam os tempos atuais de corruptos e venais.

Há quem escreva sobre a falta de caracter, o amolecimento da autoridade, o desrespeito à lei, a certeza da impunidade, a complacência ao aplicar-se a pena ao delinquente, e tantas outras queixas e razões apontadas como responsáveis por esse estado de coisas, que constrange e inquieta e revolta!

O Diário do Congresso enche várias de suas páginas com as constituições de “comissões de inquéritos” para apuração de fatos escandalosos e deslizes administrativos que chegaram ao conhecimento dos representantes do povo e que transbordam cá fora nos comentários das ruas, da imprensa e do rádio.

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Por tudo isso, o lançamento duma obra como Páginas Antigas é de flagrante oportunidade.

Porque Páginas Antigas encerra uma coletânea de escritos de alto valor moral, de paginas esquecidas e que muito necessitam de ser relembradas.

Há em suas paginas elevadas lições de civismo e dignidade, preciosos conceitos sobre moral e caracter, fidelidade e conduta, e mais do que isso, o exemplo dignificante de atitudes dos homens do passado, provando como por eles eram cultivadas as excelsas virtudes do altruísmo e devotamento, da renuncia e do espírito de sacrifício pelo bem doutrem.

Imprescindível se torna que tais páginas já olvidadas não se percam para sempre. É necessário reuni-las, fazê-las de pronto manuseio, torná-las facilmente accessíveis aos olhos dos leitores de hoje, para que as novas gerações possam comparar os tempos em que vivemos com os dantanho.

Assim, um livro como Páginas Antigas é um bálsamo, um refrigério, um Oasis acolhedor para os espíritos céticos, amargurados e descrentes pela sucessão de fatos escandalosos, de negociatas e trampolinagens, e pelas atitudes reveladoras de baixezas e misérias morais, que, ultimamente, tem se desenrolado nos bastidores político-administrativos do país e revelados ao povo estarrecido e indignado.
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Também Páginas Antigas abriga pequenas noticias sobre as vidas e atitudes de vultos eminentes de brasileiros e estrangeiros, desde os paternais conselhos do Conde D. Henrique a seu filho: “Hás de saber que aos príncipes cometem, sob graves penas, o sossego dos bons e a repressão dos maus. Sê justo com uns e outros; o premio anima aos bons e lhes aumenta o numero, o castigo diminui o dos maus, e os refreia”, às observações de Melo Morais, o velho, que já em 1867, escrevia: “Os homens públicos, em geral, quando sobem ao poder perdem o senso comum e quando seus desatinos são profligados pela opinião pública e pelo bom senso, não os corrigem: o muito que fazem é deixar o mal feito, sem remediar os danos”; das advertências de Mouzinho de Albuquerque na sua empolgante carta a D. Luiz Felipe: ”Enquanto vive tem o rei de conservar os olhos sempre abertos, vendo tudo, olhando por todos. Se nele reside o amparo dos desprotegidos, o descanso dos velhos, a esperança dos novos, se dele fiam os ricos a sua fazenda, os pobres o seu pão, e todos nós a honra do país em que nascemos que é a honra de todos nós”, à franqueza de Antonio José de Almeida, em seu memorável discurso perante o Congresso Brasileiro: “Não tenho dúvida em lhes dizer que estou aqui, em nome de Portugal, para agradecer aos brasileiros o favor que eles nos prestaram, a nós, proclamando-se independentes no momento em que o fizeram”; do judicioso Luiz de Mattos: “A honradez não é um estado permanente do ser humano, embora seja esse o seu mais ardente desejo, quando é um espírito de certo adiantamento; porque para ser honrado preciso se torna ser valoroso, forte para todas as lutas, ponderado e justiceiro e, assim, verdadeiramente virtuoso”, ao liberal D. Pedro II, respondendo ao Marquês de São Vicente, alarmado com o manifesto dos republicanos e com as nomeações para cargos públicos de pessoas com idéias contrárias à monarquia: “Cada país que se governe como entender, Senhor S. Vicente, e de a razão a quem tiver”; do audacioso Visconde de Sepetiba demitindo José Bonifacio da tutoria imperial e mandando prender o Patriarca da Independência à sua disposição, ao altivo Savanarola, que soube dar ávida pelo cumprimento do dever, legando à posteridade exemplos de independência moral e amor à verdade; do desprendido Oswaldo Cruz, que pensava que uma herança de quarenta mil cruzeiros era “um mundão de dinheiro” e que ao morrer recomendava: “A meus filhos peço que se não afastem do caminho da honra, do trabalho e do dever, e que elevem bem alto o nome puro, honrado e imaculado que herdei como o melhor patrimônio de Família, e que a eles lego como o maior bem que possuo”, ao patriarca da República, Quintino Bocaiúva, insigne jornalista, que deixou escrito em seu testamento: “Tive a rara fortuna de afrontar os trabalhos e revezes da sorte, mantendo sempre ilesa a minha dignidade pessoal. As privações e a pobreza nunca puderam abater-me, porque as suportei com resignação e inteireza de ânimo. Nunca nutri o desejo de vingança por ofensas, nem experimentei o ódio e a inveja, sentimentos que sempre reputei ignóbeis”, são atitudes e frases, gestos e palavras, que ressaltam fatos que marcaram vidas de escol.

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Ainda Paginas Antigas, no final, reúne escritos mais recentes, mas não menos valiosos de dois articulistas contemporâneos, estudiosos dos problemas de interesse da coletividade: o advogado Emir Nunes de Oliveira e o engenheiro Luiz de Souza.

Versam eles sobre problemas sérios, alguns discutidos há vários anos no Brasil, mas ainda não totalmente resolvidos.

Desses problemas, de solução julgada inadiável por todos, sobre sociologia, política, justiça, questões educacionais e de engenharia, Páginas Antigas reúne uma série de opiniões insuspeitas porque desinteressadas e sinceras e que poderão ser úteis aos estudiosos desses assuntos que, infelizmente, se eternizam nas discussões pela imprensa e câmaras legislativas à espera de quem os encare de maneira prática e objetiva e os solucione para o bem do povo.

Esse o motivo de suas inserções neste volume.

Possa Páginas Antigas ter, de fato, a utilidade aqui consignada, e nos daremos como bem recompensados de nossos esforços.

Rio, abril de 1954.
OS EDITORES



1 - NA CATEDRAL DE BRAGA

Testamento do Conde D. Henrique, lido por seu filho
Afonso Henriques na presença de Egas Moniz
Por Antonio Castilho

Já passou meia noite.

Pelas ruas caladas e ermas de Braga só ressoa o piso de dois cavalos possantes e velozes, montados por dois varões gigantes, que, emparelhados e taciturnos, demandam à catedral[1]. Colheram rédeas; saltaram em terra. Pelas trevas da sonora crasta se embrenharam com religioso recolhimento.

Luz de lâmpada, que ai pende de um archete sobre um tumulo, lhes chama os olhos e os passos. Não havia outro clarão e vida em todo o espaçoso recinto, porque a lua lá do alto, meio velada de nuvens densas, nem chegava a debuxar pelas lájeas a corpulência da arcada.

Como houveram acabada a sua reza, só ouvida de Deus e dos quietos ossos que ali jaziam.

- Filho, - Disse o mais idoso, enxugando lágrimas, de que se não envergonhava e olhando com gosto para as muitas que emanavam dos olhos do seu companheiro – Filho de D. Henrique, aí tens teu pai. E tu, que a meu amor o cometeras, cavaleiro modelo de cavaleiros cristãos, reconhece o teu filho; coroa a minha obra com teu valimento e inspira-lhe la dos céus virtudes por onde te exceda .

- Infante, escutai-me. Vem desabrochando em vós a adolescência; daqui a poucos dias, mercê de Deus, sereis já cavaleiro; à vossa espera está a lança pesada de vosso pai e a vitória que junto dela dorme; à vossa espera os novos destinos deste largo senhorio, de que vos profetizo fareis um reino independente e glorioso. Para Zamora caminhamos, onde para tamanhos fins ides vestir as armas. Entendi que daria bons auspícios à vossa jornada, se vos trouxesse a tomar primeiro a benção de vosso pai e a ouvir dele mesmo conselhos de que haveis mister. Sim, recolhei o animo e ponde o coração atento, que o ides ouvir.

E aqui, tirando do seio um pergaminho e beijando-o como relíquia santa de uma alma:

- Ai tendes palavras suas e por sua mão escritas para vós; é o testamento da sua experimentada sabedoria; é a escritura da vossa futura fama. Tomai-o.
Mas antes que o leiais, reparai em todas as circunstâncias que vo-lo tornam solene: diante de vós, sepulcro do descendente por varonia dos reis de França a quem deveis o ser; e dobradamente venerando, porque é finado; ao pé de vós e como testemunha, vosso aio D. Egas Moniz; eu; por cima de nós as estrelas, a Lua, o céu de deus; a hora religiosa da meia noite; e nesse templo, edificação de vosso Pai, entre as lâmpadas que alumiam a sua calada vastidão, a presença do altíssimo.

Nunca tão mergulhado estivestes no mundo espiritual, no mundo invisível, que envolve, enche, vivifica e rege, este orbe de terra e morte, onde trazemos os pés. Entendo o alvoroço do vosso rosto, a luz estranha dos vossos olhos, o desusado tremer de todo vosso sujeito. Hora é esta de inspiração; hora, daquelas mui raras horas, que só transvoam pela mocidade virtuosa e na solidão. Filho de Deus e de Henrique, Pai de Reis e da Pátria, lede.

O príncipe, tomando respeitosamente o pergaminho, estendendo-o sobre o monumento, e despegando a custo a vista do estirado vulto de pedra que sobre ele jazia figurando o conde, leu, entre todas, estas palavras, que, representando-se-lhe vir dos lados moribundos, lhe desciam ungidas a se encarnar no coração;

- “Filho, esta hora derradeira que me Deus concede e após a qual te deixarei vivo e sem mim no mundo, resume toda minha alma a afetos em ti; mas o preço dos momentos, ninguém melhor o conhece que o agonizante; e não quero desbaratar em saudades tempo que para os avisos me poderia logo falecer. Já, quando isto leres, não serei eu entre os vivos; mas estarei donde te observe, e de dentro da tua consciência me ouvirás falar-te.

Filho, hás-de saber que não fez Deus os príncipes para os príncipes, senão para os povos, e lhes cometeu, sob graves penas, que sem falta lhes serão postas, o sossego dos bons, e a repressão dos maus. Sê justo com uns e outros; o premio anima os bons e lhes aumenta o numero, o castigo diminui o dos maus, e os refreia. Não conheças grande nem pequeno no julgar; todos os homens são grandes para se lhes guardar seu direito, e todos pequenos para não haver cobardia em os punir. Nenhuma razão de amor ou ódio te desvie nunca da justiça, que se um dia te separares dela um palmo, logo o seguinte se arredará ela do teu coração uma braçada.

Nenhum homem deixa de por os olhos no que faz em suas mãos; as mãos dos príncipes são os oficiais a cuja conta anda a polícia e regimento das terras; observa-os; e nos que em teu nome vexarem o povo, dá aos outros exemplo, com que vingues o povo e desagraves o teu nome. Se outra coisa fizeres, por muito mais que por ti haverás de responder perante Deus. Não te arrisques a perder por deméritos o Divino auxílio, sem o qual não há poder nem saber que te aproveite; da mão de Deus somos isso que somos; e o que temos não teríamos, se da sua mão e bondade o não tivéssemos. Da terra que te deixo não percas uma polegada, que a ganhei eu com grande fadiga e trabalho; mas recobra o que dela se nos perdeu, e acrescentando quanto mais puderes para tua gente e para Fé. Filho toma do meu coração um pouco porque sejas esforçado e sem medo”.

Aqui o infante lançou involuntariamente os olhos para parte onde deixara seu fogoso cavalo, acudindo com a mão à cinta, onde ainda não pendia espada; e logo corando, perguntando mudamente ao semblante de seu mestre se porventura havia feito mal, e vendo-o sereno e satisfeito, prosseguiu a ler e concluiu com o mais religioso respeito uma lição, de que em toda sua vida se não havia de esquecer[2].

Ao despontar do sol, estava aquele sepulcro ainda orvalhado de algumas lágrimas, e o guerreiro simulacro de pedra coroado na cabeça e nas armas de loiros muito frescos e viçosos. Os cavaleiros eram partidos, caminho de Zamora.



2 - RETRATO DO TEMPO OU A VOZ DA
HISTÓRIA EM 1867
J. de Melo Morais

O Brasil, por sua posição geográfica, e circunstâncias continentais, é o país mais rico do mundo; porém não tem governo: tem desgoverno; e vive-se da mentira.
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Tendo homens capazes de dirigir com critério, sabedoria e patriotismo os negócios públicos, em geral, quando sobem ao poder, perdem o senso comum, e isto pela falta de discernimento com que são escolhidos.
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Quando o poder em seus desatinos é profligado pela opinião pública e pelo bom senso, não se corrige: o muito que faz é deixar o mal feito, sem remediar os danos.
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A constituição política brasileira, a melhor e a mais sábia das leis sociais que se conhecem para governar e dirigir um povo livre é entre nós um mito, que toma a forma que lhe querem dar. Devendo ser a arca da aliança, que ninguém deveria tocar sem ser fulminado de morte, os governos a acometem impunemente, sem que a nação lhes tome contas no parlamento; porque no Brasil a nação não tem representantes, e sim protegidos das parcialidades, para lhes fazer bem.
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Tendo a constituição política discriminado os poderes legítimos, marcando-lhes as atribuições, fazendo-os independentes para a harmonia social, o poder executivo, como o leão da fábula, julgando-se o mais forte e o mais poderoso, absorvendo os outros poderes, pela corrupção, faz tudo quanto quer, por ter os cofres das graças e dos dinheiros da nação em suas mãos, para os distribuir a seu gosto, e ninguém lhe toma contas.

É o despotismo disfarçado com o manto da corrupção, chamado constitucional, que com a mentira ilude a nação.
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Quase todos os negócios entre nós se concluem por absurdos; porque o pensamento de utilidade e de justiça é sufocado pela ostentação e pela vaidade. Os homens de tino, ou mesmo espertos, que conhecem o pouco senso dos que governam (falamos em geral), empregam os meios, e com facilidade conseguem as coisas. No meio de tudo isto quem fica prejudicado é o tesouro público ou a dignidade da nação.
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Como estudamos os tempos e os homens, temos conhecido que só poderá compreender entre nós o modo de governar o país, quem for iniciado na monta dos jesuítas, ou nos mistérios da magia.
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O governo constitucional no Brasil está desvirtuado ou falseado. É como o menino de chumbo do passeio público, que, embora diga ser útil ainda brincando, nada tem feito mais, do que botar água fora, sem a ir buscar na própria fonte. Tendo o Brasil imensas fontes de riqueza pública, quando o governo, por seus desperdícios, necessita de dinheiro, não o vai buscar nessas fontes: pede emprestado ao estrangeiro, ou sobrecarrega a nação com novos impostos.
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O poder legislativo, como o que existe no Brasil, é um poder inútil, por não preencher os fins da Constituição, pois as suas leis só têm efeito se ao poder executivo convém. Um governo assim não é governo: é uma fantasmagoria, para iludir aos tolos.
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O poder legislativo só seria entre nós uma realidade, se o deputado não tivesse subsidio, e nem durante o tempo legislativo pudesse receber favores, nem graças do governo; porque quem vem para o Parlamento com vistas de traficar, não se pode interessar pelo bem comum. O amor da glória e os interesses da nação deviam ser a moeda que os gratificasse. Se assim acontecesse, pugnariam pelo bem comum, e o poder executivo não abusaria da confiança pública, porque seriam responsabilizados, como determina a constituição. Não aconteceria como este ano (1867), que o governo impondo tributo a tudo e a todos, recusaram-se os deputados votar no imposto próprio.
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Não sendo os ministros tirados dentre os deputados e senadores, nem entre os presidentes das províncias, e não podendo recair nos ministros e presidentes a eleição de representantes da nação, o governo, não tendo aspirações, deixaria o povo desembaraçado na escolha de seus representantes, e assim pleiteada pelos dois partidos constitucionais a escolha dos deputados, viria para o Parlamento a legitima expressão do povo brasileiro.
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O que temos visto, é que a política no Brasil é um meio de vida, e não o desenvolvimento do patriotismo, das idéias do progresso e do bem estar da sociedade; é um meio seguro de se fazer fortuna com os dinheiros da nação, e ter-se posição social, a qual por outros meios seria difícil obter.
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A urna eleitoral é o ponto de partida para o caminho da política, e por isso vemos à roda dela aparecerem os industriosos da pátria.
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O foro judicial no Brasil é a confusão de Babel nos tempos modernos. Se se tem direito sem dinheiro, não tem justiça; porque a justiça aqui é uma Vênus dourada.
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...Se entra para a pasta da fazenda pública, atropela tudo com regulamentos e avisos, move e remove empregados, tornando o fisco um cancro para a sociedade. Como são ministros do fisco, e não de finanças, perguntai-lhes pelas rendas públicas, que as vereis esbanjadas pelo patronato.
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É mais criminoso quem rapta uma mulher velha com dinheiro, do que quem assassina: o raptor acha nas leis a condenação irremediável, enquanto que o assassino é absolvido. Isto acontece porque a saia dourada entre nós tem mais importância que a vida.
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As rendas do Estado, que deviam servir para o aumento moral e material do país, é o patrimônio dos bem aventurados da pátria, porque fazendo da política meio de vida, não só anarquizam o país com o desgoverno e com a mentira, como vivem fartos e regalados. Isto acontece, porque a Nação não tem consciência de si própria: é uma máquina, que, tocada por barrigudos e espertos, a levam para onde querem movê-la.
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Por mais insignificante que seja o trampolineiro político, aspira as posições oficiais, porque sabe que chegando ali arranja-se a si, e aos seus conchegados, dando-lhes posições e dinheiro.
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Não são palavras compradas a peso de ouro dos cofres da Nação, que podem justificar os erros, os abusos e as traficâncias que se cometem; porém, são os fatos, as ações, quem desmentem as censuras.
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Nunca o Brasil foi mais pessimamente governado e nem as suas rendas mais esbanjadas, o povo mais sobrecarregado de tributos e mais torturado; nunca a corrupção e a desmoralização social chegaram ao maior auge, e o governo foi mais desprestigiado do que no ano nefasto de 1867.
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O Brasil hoje representa Israel lutando com os Filisteus. Compare-se a história santa com o que se está dando entre nós, e se conhecerá que aqueles tempos são semelhantes a estes. O que são os homens neste país, salvas as poucas exceções que conhecemos, se não Filisteus contra Israel?
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A nossa desgraça está na má colocação das pedras no edifício social: ponha as pedras em seus apropriados lugares quem as souber colocar, que nós responderemos pelos resultados.
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A causa que faz que os especuladores, quer políticos e quer comerciais, se não corrijam, é que o povo no Brasil, possuindo todos os dotes e talentos naturais, a Providência negou-lhe a faculdade da memória.
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Tudo se esquece facilmente entre nós, em modo que somos todos do presente, e não do passado. O presente é tudo, o passado é nada. A tradição tão respeitada por todos os povos, no Brasil não representa cousa alguma. Se o político desgraçou o país, se o revolucionou, se cometeu graves crimes; se o indivíduo enriqueceu com a moeda falsa, se quebrou fraudulentamente, se cometeu toda a sorte de traficância, fazendo uma viagem, ou se concentrou em casa, quando aparece de novo tudo está esquecido, e é olhado como um homem novo. Se se apresenta com dinheiro, então ainda a figura é mais brilhante; porque todos o apelidam de honrado.
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É uma perfeita fantasmagoria a nossa sociedade brasileira, pelo que respeita também às individualidades.
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O governo que se não firma na verdade, não pode ter duração. Quando prometer, cumpra; porque é melhor desenganar logo, do que enganar com dilação; o que engana se desvirtua, e o que desengana a tempo se acredita e considera.
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Os nossos políticos ou estadistas são como os aprendizes de pintores; o mais que tem feito é procurar imitar sem critério o que se pratica na Europa. Os estadistas europeus conhecem a história e geografia do seu país, e o que convém para o brilho e glória da sua nacionalidade, e por isso procuram estar ao alcance das tricas dos outros governos, conhecer os homens e as cousas, para de todos e de tudo tirar partido em seu proveito; e os nossos políticos ou estadistas, além de não conhecerem uma e nem outra cousa, o mais que tem feito é desgraçar o país. São papagaios de língua vermelha, que repetem o que os outros disseram.
O verdadeiro estadista cria, inventa obras de utilidade pública, procura o progresso material e moral do seu país, e não arruína e destrói o que está feito, como diariamente nos acontece.

O estadista europeu sabe aproveitar-se das circunstâncias para os grandes melhoramentos do seu país; e os nossos, ainda com a necessidade à vista, não sabem aproveitar-se dela para promover o bem.
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O espírito público no Brasil, e especialmente na Corte do Rio de Janeiro, é a indiferença, e o caráter e a versatilidade, e por isso se observa que a força do governo entre nós é como a do macaco de virar navios, que se aumenta na razão da inércia do corpo que é movido.
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A indiferença do povo neste país faz que o governo prossiga em seus desatinos e absurdos, empurrando o país para as bordas do abismo em que se acha suspenso. E isto devido a que? A não estarem as pedras colocadas em seus lugares.
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O Senhor D. João VI, que governa despoliticamente, tinha em tanta conta e respeitava tanto a opinião pública, que mantinha agentes seus pelas praças para saber o que dizer o povo do seu governo. Sempre perguntas às pessoas de sua confiança: - O que diz o povo? O povo está contente?

Se o povo murmurava, procurava dar logo o remédio ao mal, ou nulificava o ato do seu governo. Hoje, porém, que as cousas mudaram e que vivemos sob o regime representativo, no qual o soberano é o povo, tudo o que se apresenta em caráter oficial é delegação do mesmo povo, e os poderes da nação são poderes delegados do povo. Se a opinião pública nos governos representativos não tem significação, a sociedade necessariamente se dissolverá.

- E quem é o causador disto?

Dicant Paduani.


3 - A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS
Luiz de Mattos

A folhas 236, das Lendas e Narrativas, 1º vol., escreve Alexandre Herculano:

“Uma das inumeráveis questões, que em nosso entender, eternamente ficarão por decidir é a que versa sobre qual dos dois ditados A voz do povo é a voz de Deus ou A voz do povo é a voz do Diabo – seja o que exprime a verdade.

É indubitável que o povo tem uma espécie de presciência inata, distintivo divinatório.

Quantas vezes, sem que se saiba como ou porque, corre voz entre o povo que tal navio saído do porto, tão rico de mercadorias com ode esperança, se perdeu em tal dia e em tal hora em praias estranhas.

Passa o tempo, e a voz popular realiza-se com exacção espantosa.

Assim de batalhas; assim de mil fatos. – Quem dá estas notícias? – Quem as trouxe? – Como se derrama? Mistério é esse que ainda ninguém soube explicar.

- Foi um anjo? – Foi um demônio? – Foi algum feiticeiro? – Mistério. – Não há nem haverá, talvez, nunca, filósofo que explique, salvo se tal fenômeno é uma das maravilhas do magnetismo animal. Esse meio ininteligível de dar solução a tudo o que se não entende é acaso a única via de resolver a dúvida?

Se é, os sábios explicarão o que nesse momento ocorria na Igreja de Santa Maria da Vitória”.

Parece impossível que o que ai fica saísse da pena do chamado primeiro filósofo da península Ibérica, o primeiro historiador de Portugal, o mais honrado dos escritores. Entretanto, é tudo dele, inteiramente seu, do seu saber, do seu raciocínio, como vulgarmente se diz.

Por assim ser é que nós o transcrevemos para aqui e vamos analisar e provar a triste ignorância do grande Herculano sobre a vida fora da matéria e assim dos porques das coisas, que ele, filósofo, sábio, erudito, primeiro historiador de Portugal, ignorou até desencarnar.

Disso resulta a incoerência das suas afirmativas, as tristes contradições em que caiu, que se notam em toda sua obra. Aceitou facilmente o bizarro, o milagre, o sobrenatural, ao mesmo tempo em que nega o que por esse meio é afirmado e explicado pelos outros escritores, que não sabiam mais do que ele, mas que eram coerentes com as suas opiniões, sobretudo setaristas e religiosos.

Essa triste contradição se observa no aparecimento de Cristo, em Ourique, a Afonso Henriques, que ele nega, para aceitar no todo o Novo Testamento e demais trabalhos católicos Apostólicos Romanos.

Espírito vaidoso e ao mesmo tempo descuidado, em virtude do seu estado psíquico, não queria aceitar, e por isso, não raciocinava, e assim, não subordinava a princípios algumas narrativas de outros sobre os fatos históricos e sobre os fenômenos oriundos da Força e da matéria, por ele e por outros ignorados.

Aceitava o mais e desaprovava e combatia o menos, oriundo do mesmo principio, filho da mesma causa. Assim procedia ele também na narrativa da Abobada, o Cego, Mestre Ouguet. Exemplo: A folhas 194 do 2º Vol. das Lendas e Narrativas, diz ele: A Bíblia? Também nós sabemos quantas vezes as suas páginas divinas têm feito dilatar em torrentes de lagrimas as negras aperturas do coração; também nós sabemos que dessa fonte inexaurível emanam a resignação e a paz: a Igreja Católica sabia-o muitos séculos antes de vós existirdes, (refere-se aos protestantes, em defesa do Catolicismo. Os grifos são nossos).

- Se assim é a Bíblia, se tantos tesouros ela encerra-se as suas páginas são divinas e se fazem chorar, se a Bíblia é uma fonte inexaurível donde emanam a paz e a resignação, etc., por que o Protestantismo, baseado nela, é uma praga para os pobres e não passa de negócio, como ele próprio afirma?

- Se assim é a Bíblia, se é o livro dos livros, feito por Deus, etc. por que não explica ela se a voz do povo é a de Deus ou a do diabo, e qual a causa das interrogações acima e de todos os fenômenos a que se refere Herculano?

Sendo um livro assim tão perfeito, deve ele explicar os porques de todas as cousas e o caminho certo para Deus, etc.

Mas, tal livro nada explica, antes tudo complica, nada esclarece, é um amontoado de despropósitos, como já provamos nas Notas, da “A Razão”, a principiar pela formação do mundo, feito de noite, sem luz, e depois o Adão homem e mulher, depois Eva, a sua organização e papel junto a Adão, homem e mulher.

Depois dessas belezas, o haver Eva dado a luz a dois únicos filhos machos, um, morto pelo outro, e depois o que ficou, o assassino, ir sozinho fundar uma cidade, etc.

Tudo isso é ultra ridículo, tudo isso é da Bíblia, que Herculano achou um tesouro divino, fonte inexaurível de resignação e paz, quando não passa de um amontoado de mentiras organizadas por criaturas sem raciocínio, sem critério, inteiramente animalizadas.

Esses e outros despropósitos contidos na Bíblia, de princípio ao fim, foram aceitos por Herculano, mereceram dele a classificação ultra superior de divina; entretanto, o mesmo Herculano nega a aparição de Cristo a Afonso Henriques, em Campo de Ourique, e acha impossível que alguém possa explicar com acerto a voz do povo e todos os demais fenômenos que por toda parte se observam, inclusive a presciência que o povo tem.

O que tal Bíblia e os tais evangelhos falsos, como quem os inventou, 200 anos depois de Cristo, tem conseguido no povo, é a conservação da crassa ignorância dele, a escravização pelos grandes, a loucura em geral, e nada mais.

E como é triste observar-se um homem como Herculano, negar a verdade, pender para o sobrenatural e nivelar-se com os ignorantes crassos, e assim, com nulos e fanáticos, sem o menor senso, que todos os absurdos aceitam, desde que venham da Bíblia, dos livros sagrados, do padre, do especulador, enfim.

Ele, que veio para combater a mentira e explanar a Verdade por toda parte, nada mais fez do que fortificar a primeira e deixar nas trevas a segunda.

Por assim ser, preciso se torna que a verdade se consolide e impere por toda parte. Vamos, pois, à explicação do inexplicável, do impossível, por Herculano, e o fazemos assim:

- É certo que a Terra é um alambique depurador de almas humanas e de todos os seres, de tudo que vida possue.

É nele que as partículas da Inteligência Universal se fazem sentir nos diversos corpos dos reinos da natureza, desde o granito ao arbusto, desde um inseto ao animal racional.

A alma humana tem necessidade de um corpo físico para se locomover na terra e suportar as lutas que precisa para obter novos conhecimentos, mais luz astral, mais força para vencer, dominar os maus hábitos e destruir as trevas criadas pela ignorância.

A alma se religa pela irradiação ascendentemente a outros mundos mais adiantados, dos quais recebe os elementos de que necessita para se manter na Terra. É na atmosfera da Terra, que é o reflexo da própria Terra, onde se acham as almas perturbadas, ignorantes do que seja a vida real.

Por essa atmosfera passam as correntes fluídicas do Astral Superior, com as quais são dominados os espíritos maus que originam perturbações e avassalamentos.

Daí a afirmativa de notáveis experimentadores de fenômenos, especialmente os magnetizadores, de que o Espaço se acha cheio de impressões boas e más.

Tudo que é reconhecido como invisível, nos cerca por todos os lados: - o corpo físico é a manifestação da alma que o engendra por intermédio do seu corpo astral, fluídico, verdadeiro mediador plástico entre o mundo visível e o mundo invisível, entre o homem físico e o homem astral. Assim se observa, que:

a)     Existe uma atmosfera que envolve a Terra;
b)     Nessa atmosfera existem forças várias, inclusive pensamentos, coisas saturadas de poder, que o ser humano atrai ou repele, conforme o seu esclarecimento, a sua vontade, o seu sentir;
c)     Essa atmosfera se acha ligada a outros mundos, dos quais recebe tudo quanto necessita para alimentar e conservar em atividade todas as partículas da Inteligência Universal;
d)     Existem muitos outros mundos a se movimentarem no Espaço, habitados por espíritos, forças superiores, portanto, partículas já mais evoluídas da Inteligência Universal, mas sempre em ascenção para outros mundos de maior espiritualização.

Vê-se, pois, que o ser humano é apenas um instrumento receptor e expedidor, uma maquina acionada por uma partícula da Inteligência Universal, a qual recebe forças, que são invisíveis para os encarnados, mas que atuam e influem, conforme os conhecimentos e a educação da vontade das criaturas. E por assim ser, é que se afirma que tudo nos vem de fora e vive fora de nós, inclusive os pensamentos, visto que o espaço se acha repleto de vida e na atmosfera da Terra se encontram as impressões boas e más , que cada ser humano atrai para si e para os outros, como instrumento que é e em conformidade com o uso que faz do seu livre arbítrio, para o bem ou para o mal.

A máquina humana sendo, pois, receptora e expedidora de sentimentos e pensamentos, que fora desse pairam, em qualquer parte em que se ache, torna-se o espírito intermediário das forças que existem na atmosfera da Terra e das que vem de outros mundos, e por assim ser, é que se afirma que todo ser humano é médium intuitivo. É por meio dessa faculdade natural que recebe as intuições das forças superiores ou das inferiores.

Assim, o ser humano é, portanto, um instrumento, que recebe com mais ou menos clareza, o que de fora lhe é intuído, conforme o seu estado psíquico e a educação da sua vontade.

Há seres humanos que além da mediunidade intuitiva, tem a da vidência e a auditiva: vêem formas astrais, como corpos humanos e outros, e ouvem o que os espíritos dizem.

Para esses médiuns não há o invisível, porque tudo vêem e tudo ouvem, e assim, tem certeza absoluta que tudo lhes vem de fora e vive fora deles, e de tal vidência e audição existem milhares de relatos nos livros católicos e outros.

Pelo que ai fica, baseado nos princípios em que o Racionalismo Cristão se esteia, nas leis naturais que tudo regem, fácil se torna concluir que “a voz do povo” pode ser a de Deus, se quiserem desmaterializar esta ultima palavra, para compreendê-la como sendo a Força Inteligente, parcelada em tudo que tem vida, quer neste, quer nos outros planetas.

É o elemento que tem vida e que vem de fora da matéria organizada, a que se referiu Claude Bernard e outros Fisiologistas.

Desde que todo ser humano é um médium, é um instrumento receptor de boas e más impressões, que lhe vem de fora e vive fora dele, é claríssimo ser ele um instrumento para o bem ou para o mal, como receptor de elementos, de forças invisíveis, de intuições, de tudo quanto se passa na atmosfera, no meio ambiente, e que lhe é intuído pelos espíritos, que vivem nela ou a ela vem para auxiliar o progresso dos seres e do próprio planeta.

É em sonhos e intuitivamente, além da vidência e audição, que os seres humanos recebem noticias boas ou más, e ao que o povo chama de a voz de Deus, a que Herculano se refere e que não soube explicar, mas que o Racionalismo Cristão explica racionalmente.

É assim que se explica com clareza absoluta a presciência que o povo tem, bem como os fenômenos levados à conta de milagres, fatos sobrenaturais, etc., e assim se atira por terra o mistério, pois na vida tudo tem a sua explicação racional e científica, não há nela mistérios. Há, sim, coisas inexplicáveis quando se passe à vida transcendental, mas dentro do mundo físico, tudo pode ser explicado à luz da razão e, portanto, da Verdade.


4 - A FALTA DE EDUCAÇÃO
Luiz de Mattos

... abafa as virtudes e faz sobressair a injustiça, a maldade, a ingratidão e a tirania
“Afeições caídas na voragem infernal do desengano”...

Assim dizia Camilo Castelo Branco, das afeições que para com ele se transformaram em indiferença, em torturante abandono. Sua pobre alma de médium, que, relativamente bom até certo tempo, depois, como acontece com quase todos os médiuns, se deixou levar pela vaidade e se tornou um obsedado, grande e constantemente enfermo, em virtude do domínio pelo astral inferior, forças ocultas vivendo na atmosfera da Terra, atraídas pelos seus sentimentos de vaidade, que com ele se divertiam, dando expansão ao seu sentir inferior, animalizado e mau, que o torturavam noite e dia, sem tréguas.

Assim se exprimia Camilo, nas horas de maior tristeza de sua pobre alma, para desabafar do sofrimento horrível que lhe causavam os terríveis desenganos, as desilusões dos seres humanos.

Era esse o estado de alma desenganador e torturante o mais terrível efeito da causa primacial de todos os males de que sofre a humanidade, ao qual os gregos denominavam “ignorância da verdade”, origem de todos os males, chegando a ser por isso “a mãe do atrevimento”. Desta causa deriva um efeito tomado em geral, como sendo a própria causa, que se denomina obsessão, e que nada mais é do que a possessão do espírito encarnado pelas forças ocultas, espíritos perturbados que se quedam na atmosfera da Terra.

Desse estado de alma, desse estado psíquico, resultam todas as incertezas, o ser e não ser, todas as incoerências, todas as anomalias, todas as erradas maneiras de pensar e de agir que se observa nos seres, desde os que por mais esclarecidos ou eruditos se tem, até os analfabetos; desde os habitantes dos palácios aos habitantes das mais humildes choupanas.

Assim mal assistido, astralmente, assim dominado o ser humano, torna-se instrumento dócil das forças ocultas, que dele fazem o que lhes apraz, intuindo ou atuando quando e como querem e de acordo com a sua perturbação, com o seu também triste estado de ignorância e perversidade em que desencarnam e se conservam, até que sejam arrebatadas para fora desta perturbadora e venenosa atmosfera.

Nesse estado psíquico e fisiológico os seres humanos envolvidos pela assistência dos espíritos obsessores que os dominam, não podem, homem ou mulher, mui especialmente esta, por ser mais perturbável do que o homem, conservar-se em estado de honradez permanente, por mais culto que seja o seu espírito, se não for esclarecido nos porquês da vida como Força e Matéria.

A honradez, pois, não é um estado permanente do ser humano, embora seja esse o seu mais ardente desejo, quando é um espírito de certo adiantamento, porque para ser honrado por completo preciso se torna que se seja valoroso, forte para todas as lutas, moderado e justiceiro, e assim verdadeiramente virtuoso. E não pode ser honrado, porque sua assistência astral não o é, nesse caso, só lhe pode intuir e produzir fraquezas.

Assim, forçosamente inconstante no uso do seu livre arbítrio e na irradiação dos seus pensamentos ao serviço de uma vontade vacilante, mal educada, em virtude da ignorância que o domina, não pode ser firme nos sentimentos afetivos, nos desejos de bem querer, no cumprimento do seu dever para consigo próprio e para com os outros.

Máquina, pois, que é o ser humano, mal assistida, mal dirigida, com hábitos maus, só em raros momentos pode estar na posse do seu Eu real, para poder desenvolver e manifestar as virtudes e assim os afetos que por vezes nutre por A ou B.

É, pois, nesses raros momentos em que o espírito fica livre da assistência astral inferior, que dele se pode aproximar o Astral Superior para o intuir para o bem, momentos que Camilo teve e que denominava horas de paz, que o espírito humano manifesta o seu sentir virtuoso, puro, afetivo, que denominam de amor por alguém, e que esse alguém, de boa fé, toma como sentir constante para a vida e para a morte, como vulgarmente se diz.

Quando tal sentir é impossível tornar-se permanente, por vezes, se transforma em ódio e mal querer terrível, conforme a vontade dos seus dominadores astrais, a cuja vontade o ser fraco e mal educado não pode resistir, passando a manifestar um sentir estranho, que não é o seu no fundo, e por isso, o horrível sofrimento porque passa ele próprio com a manifestação violenta, animalizada, contrária ao seu real querer, ao seu fundo de desenvolvida espiritualidade.

É por esse motivo que mui raras são as pessoas que se podem dizer permanentemente virtuosas e assim afetivas, porque tal conservação de virtudes, para a expansão permanente de afetos, para a irradiação desse grande bem querer, que tanto bem faz às pessoas a quem ele é dedicado, é preciso que o ser humano seja verdadeiramente esclarecido como Força e Matéria, sobre a vida real dos seres, e tenha uma vontade disciplinada e fortemente educada para o bem.

Não é o bastante ser esclarecido, conhecer os porquês das coisas é preciso sentir, vibrar e ter disciplina e método rigorosos e convencer-se de que é partícula da Inteligência Universal, mas que o corpo material ou físico, facilmente se decompõe após a desligação da Força, que é a alma, o espírito, que o organiza, incita e movimenta.

Quer isto dizer que o ser humano, mesmo esclarecido, precisa ter uma vontade fortemente educada para o bem, da qual devem resultar o desenvolvimento e prática de todas as virtudes, e, assim, o afeto, a amizade, o amor verdadeiro, desinteressado e puro. Deverá ser esse o estado normal da humanidade, quando ela tiver a espiritualidade para isso, e souber viver a vida material e a espiritual.

Sem a noção do dever e o seu cumprimento, que nasce do esclarecimento da verdade e da educação da vontade, não se deve acreditar no afeto, na estima, no amor de quem quer que o manifeste.

Pais, esposos, filhos, irmãos, sem os elementos de força e vigor que resultam para a alma da educação da vontade, não podem quedar-se normais, dominarem os maus hábitos, afastarem de si a má assistência astral.

É essa a razão porque o bem querer manifestado por um ser de bons sentimentos, de virtude, em horas boas, quando parte de uma vontade bem educada, é permanente, não se altera, por maior que seja, por vezes, o sofrimento porque o faça passar a pessoa a quem se dedica.

Toda a mudança brusca dos seres, do afeto para o ódio prova inferioridade de sentimentos, baixa espiritualidade, uma vontade mal educada e consequente domínio das forças ocultas inferiores sobre o encarnado.

Temos conhecimento de um exemplo sobre o que afirmamos, passado entre duas almas irmãs e esclarecidas. Uma delas esteve prestes a desligar-se do seu corpo gravemente enfermo, a partir para a sua morada. A outra, forte e muitíssima amiga da sua irmã enferma, num dado momento de paz, de verdadeiro afeto sentido da sua, acreditando na morte do corpo e assim na partida de sua irmã e companheira de lutas, escreveu sobre esta, como despedida, o que se segue:

“– Vai, parte alma querida! Muito sofreste pelo muito que quiseste à humanidade! Incompreendida de todos, não podias estar bem entre eles. Mas, como acima de tudo e de ti própria colocaste sempre o teu dever, tens enfim a recompensa que mereces. Foste forte e bom como só o sabem ser os que dizem a verdade, e tu a disseste, mesmo quando ela tinha que esmagar alguém, torturando-te a alma, mas dizendo-a e praticando-a sempre. Não deixas saudades entre aqueles a quem vergastaste com a tua palavra quente e cheia de convicção, mas deixas uma alma convicta dos seus deveres e que há-de cumpri-los: obra tua e, portanto, tua sempre”.

A desencarnação não se deu, o corpo continua a viver, melhorou, tornou-se forte, e assim, a alma continua forte para a luta. Mas, tempos depois, a segunda, a que tão nobre sentir manifestou pela que esteve quase a desligar-se do corpo, foi contrariada pela tua companheira numa pretensão puramente material e tornada impossível de momento; dessa contrariedade tornou-se a amiga afetuosa em rebelde, caprichosa, indiferente, má na forma.

É que, embora esclarecida e grandemente afetiva, ela, essa querida alma, tinha falta absoluta de educação da vontade, para assim poder dominar os ímpetos animalizados e filhos do meio em que nasceu e se criou e da má assistência astral que a atraía por isso, a qual de um momento para o outro, se liga ao ser, pois é atraída rapidamente em vista da fraqueza da vontade, e, assim, por falta dessa educação que produz o raciocínio, a tolerância e a estabilidade das virtudes que o ser em si contém.

É essa a explicação que o nosso querido Camilo não soube dar a si próprio em todos os tristes casos da sua vida, na qual se tornou vítima e algoz, por, além da falta de educação, ignorar os porquês das cousas e, assim, o que ele próprio fosse como Força e como Matéria, e que deve servir de governo a quem precisa sofrer resignado as alterações dos afetos, as desilusões do bem querer transformadas em ódio e em outros sentimentos inferiores, quando é certo de que o criminoso, no fundo de sua alma deseja ser sempre virtuoso, como desejava ser a pessoa a quem nos referimos e que tão bruscamente transformou o seu sentir em revolta, em dúvida, em pouco caso pela companheira e amiga, que ela sabia ser permanente o seu superior sentir para com ela a ponto de a desculpar e lhe não dar a perceber a sua tristeza por ser assim injusta, caprichosa, assim animalizada na forma, estado que muitíssimo a fez sofrer.

Todas as pessoas precisam ter alguém em quem pensar carinhosamente, com afeto perfeito, e por esse motivo, por essa razão inata na alma, sofrem horrores quando os seus caprichos, filhos da sua má educação não a deixam manter-se sempre meiga, dócil aos bons conselhos, valorosa para a luta, ponderada e justiceira, para assim cumprir o seu dever de espírito encarnado e dar alegria à alma, que muito sofre quando sabe que precisa ser dedicada e se torna voluntariosa e revoltosa, acreditando com esse proceder provar superioridade moral, quando é justamente o contrário.

Manter, pois, um estado de alma tolerante, desprendido, delicado, é provar boa educação, civilidade, cristianismo, é o dever de todos tanto mais quanto é fartamente sabido que quando a razão se turba e as más paixões despertam, a verdade se esconde, o sentimento de justiça foge, as virtudes choram e todos os sentimentos nobres adormecem.

Ser, pois, bom no fundo, e péssimo na forma, nas maneiras, hábitos, olhares e gestos, é próprio dos mal educados, que, portanto, precisam educar-se e assim amenizar os seus sofrimentos e os dos seus amigos verdadeiros.



5 - DIREITOS DA MULHER
Antonio do Nascimento Cottas

À mulher, perante a Lei, deve caber idênticos direitos e
regalias que ao homem

Lendo atentamente “Elementos de Estudo Para uma Nova organização da família e da Sociedade”, verificamos que os assuntos estão desdobrados fora dos salutares princípios em que se esteia o Racionalismo Cristão.

O trabalho enviado por alguém ao Redentor carece de meditado estudo e isenção de paixões; é obra para ser feita livre de idéias colhidas entre os sociólogos ignorantes da vida fora da matéria ou comodistas.

Além disso, analisando-se os capítulos, encontramos verdadeiras contradições, haja vista, o que se encontra exarado a folhas 41, 42 e 43 que contradiz o firmado a folhas 39 e 40.

A folhas 42, item 7, fala o autor em moral, etc., mas em que consistirá essa moral se ele admite três mulheres para um homem?!...

Pelo fato das estatísticas mundiais acusarem maior número de mulheres do que de homens, não quer dizer que o homem, dito civilizado, deva ser polígamo!

Precisamos varrer do espírito a idéia de que a mulher deve ser um mero instrumento de gozo do homem, boneca ou múmia.

À mulher, perante a Lei e a sociedade, cabem idênticos direitos e regalias que ao homem.

Não somos partidários da mulher na vida pública a ocupar cargos incompatíveis com a sua natureza. Não! Queremo-la altiva e digna no lar, como esposa e mãe virtuosa, e na escola como educadora e professora, fundindo no Eu moral de sua prole ou de seus discípulos a rigidez do caráter, os sentimentos de abnegação, valor e honra.

Mas, como poderia a mulher exercer influência espiritual e moral sobre as almas encarnadas no seu lar, se ela vivesse ligada a um homem que mantivesse três mulheres?

Moral, segundo os dicionaristas, quer dizer: “Bons costumes. Que tem bons costumes. Relativo ao domínio da alma ou da inteligência (em oposição à físico ou material). F. Farte da filosofia e que trata dos costumes do homem para com os seus semelhantes e para consigo. M. Conjunto das nossas faculdades morais. O que há de moralidade em qualquer coisa”. (Lat. Moralis). Candido de Figueiredo.

E ainda: “que respeita aos costumes e a regra de proceder; v.g., teologia, filosofia: - Que tem moralidade; v.g. máximas morais, ação – sentido – doutrinal, que encerra preceitos, ensino; v.g.o sentido – do apólogo”. “Dicionário Enciclopédico”, de D. José Maria de Almeida e Araújo Correa de Lacerda. E segundo a opinião de Jayme Séguier: - “Relativo aos bons costumes. Que tem bons costumes; homem moral. Conforme e favorável aos bons costumes: uma obra moral. Intelectual, espiritual (em oposição à físico ou material): faculdades morais. Certeza moral, a que se baseia em grandes probabilidades e não em provas absolutas. Teologia moral, a que se ocupa dos casos de consciência. Ciência, que ensina as regras, que se devem seguir para praticar o bem e evitar o mal. O conjunto das nossas faculdades morais: o físico influi no moral”.

Como se vê, este último foi mais longe: o físico influi no moral, portanto, todo o homem que viva de amores com mais de uma mulher é um imoral. E, para nós, é imoralíssimo!

A moral, segundo a nossa opinião quer dizer “Força intransponível. Virtude inexpugnável. Suprema qualidade: é moralista; é um homem de bem, que respeita a opinião alheia, mas que não esconde a sua, apresentando-a como símbolo do que é bom e digno, que vive para o seu lar, cumpre com assuas obrigações, é comedido em palavras e gestos, resiste a todas as tentações físicas, luta pela regeneração e aperfeiçoamento material e espiritual dos outros, dando exemplos vivos daquilo que explana, não por palavras, mas por obras; que desde o lar à vida pública é um livro aberto digno de ser desfolhado por todos, não cora perante o tribunal público, diz a verdade em todo e qualquer terreno e nada teme porque se conhece e sabe a razão de ser e permanecer neste degredo – a Terra”.

A moral não deve ser um manto pra cobrir patifarias.

Não tem moral quem se confunde com os reprodutores irracionais. E não pode deixar de ser considerado e confundido entre os dessa espécie, o homem que coabita sexualmente com mais de uma mulher!

A mulher, como espírito, não veio ao mundo organizar um corpo para servir de mictório público! Não e não! Ela veio para fins nobilíssimos, mas nem ela tem querido compreender e estudar a sua razão de ser, nem a besta masculina tão pouco a tem sabido estimar e respeitar. É tal o atraso humano neste particular e em tudo que a moral possa ser chamada, que ainda neste século a mulher é tida como escrava, pois, nalguns povos, sai à rua com rosto coberto, de mascara ou véu fechado, porque a lei do seu senhor – o homem – proíbe-a de se apresentar a descoberto. A Áustria, até algum tempo, era o país que mais infelizes mandava para a feira indigna. “Escravas brancas”, sabemos nós existirem por todo o chamado mundo civilizado para satisfação bestial do animal-rei – o homem.

Maldição!

Combateremos sempre a feira das escravas brancas e seus algozes!

Maldito e nojento pai que vende uma filha para prostituição!

Malditos e repelentes homens que exercem este comércio!

Malditos e desprezíveis todos aqueles que concorrem para enterrar a mulher em tão infecto lodaçal!

Não queremos a mulher feito boneca, nem em conventos! Queremo-la irmã e companheira do homem a compartilhar das suas alegrias e sofrimentos, trabalhando no lar ou fora dele em profissões nobres, adequadas ao seu sexo, mas nunca a fazer concorrência ao homem na vida pública: a mulher pode ser professora, médica, parteira, industrial ou comerciante, porém em ramos de negócios cujos produtos ou artigos digam respeito ao sexo feminino. Somos contrários à mistura, à promiscuidade nas fabricas e comércio. Essa mistura só serve para corromper o caráter e atirar de caídas para sarjeta pública.

Não admitimos outra fidalguia que não seja a de fundo cristão: pratica de boas obras e ações e educação esmerada.

Abaixo os fidalgos cuja origem vem da pirataria!

Elevemos todos aqueles que trabalham, economizam, respeitam o direito alheio, vivem para o lar, cuidam do bem geral, não alinham idéias de superioridade mal cabida, não são egoístas nem prepotentes, e cuja autoridade moral impõe-se pelo seu proceder, nasceu de obras e fatos, não veio de tradições e bordados impostos pelos feudais do mando e salteadores da fortuna pública.

Queremos a mulher em nível moral igual ao do homem. Se dela exigimos fidelidade, porque não pagarmos com igual proceder?

Superiorizemos a criatura humana, quer mulher, quer homem, mas dentro das leis naturais e da evolução. Não retrogrademos buscando comparações ou costumes antiquados, selvagens, de raças orientais e outros.

 Quer nos parecer, pelo que nos foi exposto naquele trabalho que o autor há lido tratados sociais do Japão, onde o casamento é presidido por dois protetores, de cada um dos que desejam unir-se, e praticam-se outros tantos atos e hábitos que a nossa educação repele.

Também discordamos das comédias religiosas representadas nos atos da união conjugal.

Discordamos de tudo que vá além do ato civil. Este é livre de cerimônias e exorcismos religiosos. Desejamos que se dê respeitosa imponência ao ato, visto tratar-se de uma união que deve ser eterna. Contudo, essa imponência é de ordem cívica: presidida pelo juiz ou pretor, escrivão, pais de ambas as partes (se puderem estar presentes), quatro testemunhas escolhidas dentre as pessoas das relações da família de cada uma das partes contratantes, e nada mais. O costume de préstito há acompanhar o carro dos nubentes, etc., veio até nós dos selvagens, aperfeiçoado depois pelas várias civilizações e cada vez mais realçado hoje pelas religiões-negócio.

Todo o viver humano deve ser simples. Portanto, essa simplicidade deve vir desde o nascimento à fundação do lar. É por causa das exibições aparatosas, preconceitos sociais, mentira-oficializada, ser uma coisa e aparentar outra, etc., que a vida é cheia de complicações e há desequilíbrios na família e na sociedade, no comércio e nas finanças.

Que as famílias dos recém-casados se reúnam em casa da jovem desposada ou vice-versa, convidando algumas pessoas das relações intimas de ambos, e, na maior fraternidade, façam uma refeição e após sejam entretidas palestras amenas admite-se, mas que se faça do ato do casamento, festa-bacanal há semelhança dos Neros, isso nunca! Porque nesse particular o próprio gentio tem mais alma, mais noção da união de corpos; entre eles há ternura e respeito ao ato.

Pugnar, pois, pela simplificação da vida, em geral, é o dever do Racionalismo Cristão, ou melhor, dos racionalistas cristãos. Mas, essa simplificação nunca poderá prejudicar o que de bom haja sido feito socialmente. A simplificação que o Racionalismo Cristão quer, consiste em que a todos os atos da vida humana presida a Verdade e só a Verdade.

A proposta de “Viverem unidos durante um ano dois seres de sexo diferente para depois tratar da legalização do casamento”, pode ficar muito bem aos gozadores, muçulmanos, russos, chineses, japoneses, selvagens, mas não pode nem deve prevalecer entre seres portadores de bom senso e guiados pela razão esclarecida.

Não andemos para trás! Caminhemos de pé e sempre firmes no horizonte da vida! A união ilícita, ou o “amor livre”, depõem contra os princípios salutares da família.

Amor livre, sim, mas nascido entre dois jovens para se escolherem como marido e mulher, sexos diferentes atraídos pela Lei Natural, que se serve da simpatia física para chegar depois ao amor verdadeiro, que só nasce com o convívio conjugal em união de vistas de elevação moral e com o nascimento dos filhos.

Concordamos que existam seres que, não sendo casados, vivam na maior harmonia, mas só podemos admitir essa união se ambas as partes forem livres, ou haja motivos que a justifiquem. Somos pela união legalizada perante a Lei civil, para bem da sociedade e dos filhos.

Hora, combatendo o autor aqueles que com suas amantes afrontam a sociedade, dando filhos espúrios e propugnando para que estes sejam admitidos como iguais aos provindos do patrimônio, da legítima mulher, e que não há melhor legitimação do que a natureza, igualando-os por serem oriundos da mesma semente, deixa ele a porta aberta a todos os devassos, para que em vez de prostituirem incognitamente o façam abertamente, podendo viver com 3 mulheres!

- Mas, a que ridículo atira o autor a mulher! Nivela-a a qualquer fêmea irracional!

- Se o homem pode dar-se ao luxo de manter três mulheres, porque não poderá a mulher ter três homens?

Sempre a besta masculina a querer exercer predomínio entre os da sua espécie; entretanto, analisada por esse ato, ela é mais abjecta do que o cavalo, que para cobrir as fêmeas consanguíneas, é mister afastá-lo por algum tempo.

Perante esta dura verdade, nós homens, devemos ter vergonha ao depararmos com estes quadrúpedes, pois não ignoramos que há animais da nossa espécie que descem tanto e se tornam tão sensuais e libidinosos que nem as filhas, nem as irmãs respeitam! E já tem havido casos em que nem as próprias mães foram respeitadas!

Estes fatos nos são transmitidos pela “História dos Papas” e noticiário dos jornais. De um padre que tinha filhos com as próprias filhas e netas, houve conhecimento nesta capital. Seus vizinhos sabiam ser ele um monstro!!!

Dignifique-se a mulher, retirando-a do terreno das facilidades, preparando-a para ser o apanágio do amor espiritual dos que estiveram sob sua direção material.

Saiba-se ver na mulher algo superior à sua plástica! Esta, no decorrer doa anos, envelhece, alquebra; entretanto, o que nela há de superior, que é a alma, está sempre resplandecente; jovem e amorosa para aconselhar, guiar, prognosticar àqueles que emplumaram sob a sua juventude física. O que a faz temida e até respeitada, são as suas virtudes!

E como pode a mulher ser respeitada pelos filhos, se para apresentar-lhes o pai, ou os pais, precisa convidá-lo primeiro a deixar a outra prole, dando uma escapou até quem vive em mancebia?

Sejamos claros e francos: os homens ou as mulheres que se casem uma dúzia de vezes, ficando viúvos. Mas, a união que não seja com uma só mulher, é baixeza, é indignidade, venha ela com o rótulo que vier.

Para os cônjuges descontentes ou prostituídos, só admitimos o divórcio. Este mesmo, porém, queremo-lo sob bases sólidas e não a servir de porta aberta aos sensuais, que pelo menor motivo, não trepidariam em abandonar a esposa honesta ao fim de um ano de atos lúbricos.

É preciso freio para conter a besta humana!

Toda liberdade tem limites!

É, porém, certo que a humanidade uma vez esclarecida, aprenderá a conter-se. E para que isso se dê, devemos pugnar por escolas aperfeiçoadas, onde se eduque e se instrua, devemos combater os administradores gozadores, zurzi-los com a verdade, apontando-lhes o caminho que devem seguir.


O ser humano precisa ser educado com superioridade, afastando-o sempre das educações materializadas, em semelhança aos animais, e que hoje contam inúmeros admiradores, tidos como sábios naturistas, rotulados de grandes apreciadores da vida natural, ao ar livre, aconselhando que se deve seguir em tudo a natureza, e esta não deve ser contrariada, etc.

Bela teoria para Nero e seus cortesãos romanos! Já naquela época, porém, Petrônio e Marcus Vinicius chegaram a enojar-se...

Acompanhemos, sim, as Leis naturais da reprodução da espécie e evolução espiritual, mas nunca consintamos que se deturpe a instituição da família.

Criar leis que reprimam abusos e evitem uniões que redundem na degenerescência da espécie, é admissível e aconselhável.

Creia que quando a humanidade for conhecedora da sua composição astral e física, não cometerá abusos, não haverá mais “escravas brancas”, nem doenças venéreas e muito menos hospitais de leprosos ou ergástulos públicos (hospícios). Haverá equilíbrio mental, refreiamento nos vícios, pois são estes, é a imoralidade, a causa de todas as doenças mentais e até físicas.

Cultivemos com ardor e amor fraternal e a igualdade de todos perante a Lei, elevando sempre a mulher, respeitando-a como avó, mãe, esposa, filha e irmã.

Mulher-amante é sempre mulher infeliz, porque perante as de honra e vergonha, será tida como mau exemplo – é uma prostituta.

Queremos a mulher-esposa-e-amante, mas para o seu homem e só para o seu homem-esposo, companheiro de todas as vicissitudes, solidário com ela nas dores torturantes duma gravidez e parto, nos sofrimentos oriundos da educação da prole e labutar doméstico.

Educar o homem para dominar seus ímpetos animalizados, vendo na mulher uma criatura superior e nunca uma fêmea qualquer, é dever de nós outros já esclarecidos e senhores dos porques da vida e da morte.

Vejamos, pois, a mulher sempre como sendo o principal elemento do lar, dando-lhe a nossa irradiação racional, e nunca como instrumento lúbrico do homem.

Não façamos de moralistas, comodistas e epicurianos. Preguemos moral racional e pratiquemo-la para que com o tempo o hábito se transforme em Lei e vejamos consumada a reforma de usos e costumes, olhando-se todos, homens e mulheres, como verdadeiros irmãos:- presidiários que aqui se encontram para se penitenciarem e em auxílio mútuo prosseguirem na jornada, cumprindo a sentença até o fim.

Eduquemos a prole racionalmente, mas não despertemos nela aquilo que só deve ser despertado pela natureza no seu devido tempo. É erro e grande, dizer-se que o homem precisa, logo que chegue a certa idade, satisfazer os desejos sexuais. Mente quem tal afirma! Tudo que é desejo é vício. Se não fosse a maldade aplicada às funções sexuais, o homem e a mulher poderiam viver juntos uma existência que não abusariam da sua liberdade.

O exagero com que o sensualismo vem sendo cultivado é que tem concorrido para o depauperamento da raça, tornando a copila, que é uma necessidade fisiológica, num abuso sem limites.

- Por que há meninas que chegam a moças puras e ingênuas e outras que aos 10 anos sabem o que muita senhora casada ignora?

A educação é tudo. Eduquemos, portanto, as almas que venham ao nosso meio e deixemos que a união conjugal se faça só, e somente, pela simpatia e havendo entendimento, mas legalizando a família civilmente.

Não destruamos aquilo que os seres bons do passado foram aperfeiçoando até aos nossos dias.

Abaixo o casamento por interesse, mas elevemos sempre a vida do lar, fazendo deste uma fortaleza intransponível ao vício e a tudo que venha corromper o caráter.

A mulher precisa ser vista como companheira e não como escrava ou criada do homem.

Ela deve ter opinião própria e em todos os atos da vida conjugal ser ouvida pelo seu esposo. E se ambos tiveram pais que lhes souberam ministrar educação baseada em princípios racionais e científicos, estamos certos de que esta sociedade nunca será desfeita: resolvem, deliberam e agem sempre de comum acordo.

Quem não olhar o casamento para ser vivido segundo o que si fica, melhor seria ou será não se casar.



6 - MANIFESTAÇÃO DO ESPIRITO DE ANTONIO JOSÉ DE ALMEIDA
EM SESSÃO PÚBLICA NO CENTRO REDENTOR,

DO RIO DE JANEIRO, EM 1º DE NOVEMBRO DE 1929


Trilhe-se pelo caminho da verdade e, portanto, dentro dos princípios racionais e científicos explanados pelo Racionalismo Cristão. Colabore-se com todo aquele que deseje lutar pelo progresso dentro da ordem e da moral.

Espírito – Já estou aqui há algum tempo, entretanto, não sei bem onde estou...

Presidente – Estás no Centro Redentor

Espírito – Desconheço-o, mas que vim eu aqui fazer?

Presidente – Vieste dar luz à tua alma e assim conhecer a estrada luminosa que te há de conduzir ao teu mundo, a fim de poderes julgar os teus atos.

Espírito – Os meus atos... eu já os julguei... tenho certeza absoluta de que sempre procurei cumprir o meu dever, não tendo tido ódio, nem desejo de vingança; sei que morri e que, portanto os meus sofrimentos cessaram, mas eu que agora sou uma alma, queria ver entre aqueles que meus compatriotas foram, quais os leais á minha Pátria.

Presidente – Desejas vê-los? Então, olha: Não estará aí Arriaga? Observa dentre muitos outros, o teu incondicional amigo, conquanto de política contrária, João Franco.

Espírito – E foram esses e muitos outros que naturalmente me arrancaram de junto aos meus, porque da Terra eu não levo saudades; sinto somente a saudade produzida pela separação dos meus amigos e como sei que entre portugueses traidores houve algumas vezes, é essa a razão porque eu queria reconhecer, após deixar o meu corpo, quais os leais servidores de Portugal.

Presidente – Não podias fugir à ação deletéria da época e à reprodução de todos os tempos, porém, foste de fato uma alma lutadora, uma alma cristã, por excelência; disto destes provas até mesmo quando vias aproximarem-se as horas de deixares o teu corpo, dizendo: “Não deixo inimigos; morro cristão, mas não católico.”

Espírito – Cristão sempre o fui!

Presidente – As tuas obras sempre o demonstraram, e, bem patentes quando a representar o teu povo e as almas do passado, em 1922, por ocasião das comemorações do centenário de nossa Independência e que ninguém melhor do que tu poderias vir relatar fatos históricos, desconhecidos por muitos, e assim fazer desaparecer a intriga, a mentira, que estavam alimentando o terreno da perfídia.

Vieste, pois, entrelaçar mais amizade entre Pai e Filho!

Não foste um simples representante de uma Pátria noutra Pátria, quando nos grandes festejos aqui da Independência. Mas, sim, um instrumento das Forças que tudo regem, tudo vêm e sabem, que te intuíram, para que invés de mandares, viesses e desses expansão à tua alma cristã, alma verdadeiramente lusa, pois sempre te bateste pelo progresso e bem estar do teu povo e não para escravidão a dogmas, ao feudalismo.

Aqui aportaste, pois, representando as verdadeiras almas do passado, dizendo a Verdade, tal qual era preciso ser dita entre almas irmãs; demonstraste no Congresso deste grande país, filho do teu, pequenino em continente, mas grande em almas, que o brasileiro e o português são duas almas inseparáveis, tudo as une, apenas materialmente o oceano separa os territórios.

Falaste com tanta clareza sobre o passado desta Pátria, revelaste tantas Verdades, que até aqueles que alimentavam cizânias, se curvaram ao verbo vibrante da realidade.

Tratando da Independência deste país, disseste que ela foi um bem e que ela não podia deixar de ser feita, porque não era possível um colosso destes continuar a viver debaixo do jugo de politiqueiros despeitados e insinceros.

Representaste Portugal como verdadeiro português luso, dos bons tempos, que só tinha em mira: Cristo, Pátria e Liberdade.

Assim foste tu, pois, deixaste nas páginas da História, o estímulo a todo português para estudar a parte mais linda da sua História: A descoberta do Brasil.

O dever do professor português é intensificar na alma daqueles que começam a desenvolver-se física e intelectualmente, a grandeza do passado, pois, serve de estímulo para a honra, valor e trabalho.

Assim sendo, amigo, estás entre almas luso-brasileiras, estás entre aqueles que te cumprimentaram, te homenagearam não com expressão formalística, mas com a expressão do pensamento, sentida pela alma que sabe amar e respeitar.

Não havendo no teu país ainda uma corrente fluídica organizada pelas almas que a seu encargo tem a evolução do planeta, foste, astralmente, trazido aqui ao Brasil, para te libertares do ambiente perturbador.

Eras alma boa, e boa que eras, apesar de teres claramente visto e conhecido que ias morrer, (desencarnar), prevenindo com antecipação a tua dedicada companheira, virtuosa esposa, não podias deixar de sofrer a natural perturbação, a que todas as almas estão sujeitas ao desprenderem-se da matéria, mormente quando delas ainda não é conhecida a lei das encarnações.

Não tinhas peias sectáricas, sabias que possuías uma alma e que ela, sem dúvida, ao deixar o teu corpo havia de entrar numa outra vida, livre de torturas e sofrimentos físicos e morais, porém, após a separação de teu corpo, sentiu-se enleada a tua bondosa alma pelos pensamentos, irradiações de muito querer, não só da tua esposa, mas de todos os portugueses, e nesse ambiente te quedavas sem te poderes libertar, porque faltava-te o esclarecimento da verdade, porém, estavas velado pelo Astral Superior, pelas almas luminosas que assistem todos aqueles que como tu saibam por o dever a cumprir acima de tudo.

Conhecias as nossas obras, que te serviram de muito, mas lembravas-te dos amigos, das misérias de muitos e tudo isso era empecilho para descortinares a luz que te procurava envolver e atrair, guiando-te para a vida eterna.

Não há dúvida que todos te admiravam pelo talento, sabedoria e democracia. Sempre te sentiste bem no meio da pobreza. Outro tanto, já não se pode dizer do teu companheiro de idéias, de lutas republicanas, grande como tu no talento, não há dúvida, mas ressentindo-se do meio, do ambiente dos Tribunais, sua alma tornou-se menos sensível que a tua à dor e à pobreza, pois tu no meio das enxergas, pelos hospitais, nos lares dos ricos e dos pobres a perscrutar as dores e as desgraças, no grande e belo exercício de tua missão de médico fizeste sempre do teu sacerdócio uso para o bem; teu desejo era ser útil, aliviar ou suavizar a dor física, ou moral, a tua alma compartilhou sempre da dor do teu enfermo e daí a tua bondade, o teu desprendimento pelo mundo, pois, os faustos, as riquezas deste mundo, não te cegavam os olhos da alma.

Ele, pois, tinha por dever de ser teu companheiro incondicional na luta pelo bem da pátria.

Não há dúvida, que a sua obra foi gigantesca, mas, como teve sempre em mira a riqueza material, trocou a obra patriótica pelo interesse da riqueza. Ninguém lhe nega, nunca ninguém lhe negou o talento, talvez, seja uma das grandes autoridades em Direito Internacional, mas, no entanto, tem sido mau patriota; não foi tão democrata como o foste tu, que te tornaste evidente pela grandeza de tua alma, mesmo quando deportado para África, por políticos que não souberam te fazer justiça, no entanto, mesmo entre os africanos exerceste sempre o teu sacerdócio, foste sempre o apóstolo do bem; curando as febres locais, a maleita, a tifóide e outras, também lhe sofreste o efeito, porém, nunca recuaste perante a luta, fosse ela, de armas, do verbo, de ciência ou de epidemias, eras um cristão!

Viveste bastante, foste grande em tudo, e desprendido ao extremo... Se não fora, por vezes, amigos leais tomando conta de tuas limitadas economias, terminarias a existência no lar de algum dedicado amigo ou o Congresso sem favor algum, votando uma pensão para viveres como digno filho daquele país.

Chegaste a deputado, não pelo desejo de conquistares uma posição política, mas porque aqueles a quem tu procuraste dar saúde se julgaram no dever de eleger-te representante do povo.

Depois de deputado chegaste ao mais alto cargo da Nação: Presidente da República; não o disputaste, e sim a ele chegaste pelas tuas obras.

Eis uma alma, portanto, digna de toda a nossa consideração, digna de todos aqueles que sabem irradiar sobre as almas que se batem pelo bem geral do povo, que não tem inveja nem ódio, misérias estas, que só servem para perturbar e indignificar os homens, levando-os a um fim de vida infeliz e desastrado, cheio de sofrimentos.

A tua grandeza d’alma, demonstraste-a quando o furor público apupava José Luciano de Castro, querendo linchá-lo, e tu, ao teres disso conhecimento, partes de carro, embarafustaste pela aglomeração do povo e, de pé, dentro do carro falas ao povo, que ele, reverente, te obedece, evitando assim a morte a esse que também não foi de todo mau patriota, e, no entanto, ele pertencia às hostes monárquicas e tu às republicanas, mas ambos éreis filhos da mesma pátria, tu viste apenas o irmão e não o adversário político.

A tua palavra, quando meiga e doce, abrandava as maiores tempestades de exaltação pública; quando verberante, eletrizava a alma dos ouvintes, criando um só querer que se não fora sempre para o bem, podia levar à desgraça milhares e milhares de criaturas.

Agora, que mais lúcido e calmo estás, vê quem te rodeia astralmente, e, por certo, entre os muitos espíritos de luz, estarão Luciano de Castro e João Franco, que hoje são almas e não políticos.

Espírito: - Sinto-me feliz, e, agora, aliviado dos sofrimentos que passei na Terra.

Muito agradeço a todos os meus amigos, os quais agora vejo junto a mim cheios de Luz.

Desconhecia sim, a faculdade que era reservada ás almas após deixarem o corpo.

Nunca fui adepto de seitas, cumpria unicamente o meu dever.

Fui republicano, mas republicano que queria uma Republica honesta, e não composta de seres que colocam o interesse pessoal acima do da coletividade, deslustrando e desmoralizando assim o ideal republicano.

O meu desejo ardente é ver elevados os desígnios da Pátria pela qual me bati, mas, infelizmente, a sua situação é critica, como critica é a deste país.

Queria ao Brasil como se minha pátria fosse; procurei fortalecer entre portugueses e brasileiros a união e esta há de existir sempre; pois vejo agora que ela é mais superior ainda do que eu a supunha, ela é de almas, e estas ninguém as pode separar, encarnadas aqui ou em Portugal, elas são as mesmas.

- Bela União!

- Como são pequenos os homens, perante a grandeza das almas!

Nada mais tenho, portanto a dizer-vos. Apresento-me conforme desencarnei; sabia que ia desencarnar sim, porque, sendo médico, conhecia perfeitamente meu organismo e desencarnei falando entre amigos, mas, também agora aqui estou, entre almas amigas e que agora vejo todas reunidas e entre todas elas, uma que também foi meu amigo, embora, não tivesse convívio comigo, o vosso fundador, Luiz de Mattos, essa alma grande que soube sempre sentir como sentem todos os portugueses que o sabem ser, e que eu já conheci através das suas obras, pois quando autoridade consular em Santos, já o seu nome não era desconhecido. E agora, cheio da mais viva irradiação, da maior felicidade, quero partir com todos e procurarei então, como possível for, cumprir o meu dever.
Antonio José de Almeida

Presidente – Parte com a nossa irradiação.

Esse grande homem nunca foi católico, mas sempre foi cristão, tendo desencarnado na maior lucidez e consciência de espírito, despedindo-se de todos os entes queridos que o rodeavam.

No entanto, o não menos patriota e valoroso Marechal Gomes da Costa, teve uma desencarnação toda agoniosa, apesar de ser um fiel praticante da religião Católica Apostólica Romana, de haver comungado, etc.

Isto é tão somente para deixar provado, embora ligeiramente, o que antes dissemos em referência às Religiões.

7 - Luiz De Mattos
Antônio do Nascimento Cottas

I

Luiz de Mattos desencarnou no dia 15 de janeiro de 1926, quando completava, exatamente, 66 anos e 12 dias de vida física.

Seu nome todo era Luiz José de Mattos Chaves Lavrador, mas assinava, apenas, simplesmente, despretensiosamente, Luiz de Mattos.

Nascido na Vila de Chaves, Província de Trás-os-Montes, (Portugal), a três de janeiro de 1860, era filho de José Lavrador, natural de Orense, Província da Galiza – Espanha – descendente, em linha reta, dos fidalgos Lavradores, e de D. Casemira Júlia de Mattos Chaves, que descendia, por sua vez, dos grandes lutadores e fidalgos Mattos Chaves – fundadores da linda, hospitaleira e salubérrima Vila de Chaves.

Aos 13 anos, em 1873, veio para o Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro, onde o esperava o seu irmão Victorino de Mattos Lavrador, negociante em Santos, que o internou no Colégio São Luiz, em Botafogo, para seguir os estudos.

O desejo, porém, de Luiz de Mattos era ir para Santos, no Estado de São Paulo, para ficar em companhia de seus tios Victorino e João de Mattos Chaves.

Partiu, assim, autorizado por seus tios, para essa cidade, tempos depois, onde se empregou em importante Casa de Estivas – secos e molhados em grosso – e da qual se passou, mais tarde, para o comércio de café, desenvolvendo aí grande atividade.

Dono de uma inteligência invulgaríssima, tudo assimilou, com incrível facilidade, neste novo ramo de comércio, nada havendo que ele não soubesse fazer, com perfeição, inclusive ensacar, empilhar, separar e qualificar o café.

Seus chefes, que muito o estimavam e admiravam, despacharam-no para o interior de São Paulo e Minas, com a incumbência de comprar e obter consignações de café.

Entregue a essa nova atividade fez ele as mais elevadas relações, com políticos, fazendeiros, negociantes, industriais, literatos, etc., chegando a alcançar as maiores simpatias entre compradores e vendedores de café, sendo em breve, o mais considerado dentre os seus colegas.

Despedindo-se da casa em que trabalhava para se estabelecer, iniciou-se aos 23 anos como comissário de café; seu capital era pequeno, mas as suas excelentes relações que tinha no interior, a sua grande simpatia, concorreram para que, ao saberem-no estabelecido, os fazendeiros lhe mandassem a maior parte das suas colheitas, e assim foi ele fazendo uma casa importante, a ponto de tornar-se a maior casa portuguesa em Santos, naquela época, exportadora de café.

Conhecedor profundo da matéria, prestimoso na prestação de contas aos seus comitentes, alastrou-se a propaganda da sua casa de tal forma, que os fazendeiros, mesmo os que não o conheciam, lhe faziam grandes consignações.

Sempre ativo e trabalhador, Luiz de Mattos chegou aos 26 anos já possuindo valiosa fortuna. Foi ele fundador de diversas empresas nesta capital e em Santos e dentre elas, a Companhia Internacional de Santos, o Banco de Santos, a Companhia Industrial, a Companhia Carris de Ferro, etc.

Convém observar que esta última foi organizada em época de grandes dificuldades financeiras. Só mesmo seu irresistível prestígio poderia conseguir traduzir em realidade uma idéia que demandava de pronto de avultado capital. Além destas e outras empresas, Luiz de Mattos foi igualmente fundador da Sociedade Humanitária dos Empregados do Comércio, do Real Centro da Colônia Portuguesa, etc.

Entre outros serviços humanitários, destacam-se os que desveladamente fez à Sociedade Portuguesa de Beneficência de Santos. Achava-se em completa decadência essa instituição benemérita, quando Luiz de Mattos, ainda materialista, mas impulsionado pela grande generosidade de sua alma, que até então desconhecia como partícula da Inteligência Universal -, pôs ombros à espinhosa e árdua tarefa de levantá-la da prostração em que se achava, e que a aniquilaria por completo, se à sua frente não se pusesse esse homem admirável, cujo semblante de mata-mouros, se contradizia com a brandura da alma de que era dotado.

Foi tanta a sua dedicação, tão desvelado, tão intenso o ardor com que se atirou a esse empenho, que em pouco tempo conseguia ver coroados do melhor êxito os seus nobilíssimos esforços. A Sociedade Beneficente de Santos ficou em ótimas condições, no mesmo pé de igualdade das mais importantes agremiações, suas congêneres, existentes no Brasil.

O que Luiz de Mattos, como presidente dessa associação, despendeu do seu bolso em auxilio a portugueses enfermos e indigentes, eleva-se a avultada cifra. Nessa sociedade teve ele o título de Benemérito.

Eleito diretor da Associação Comercial de Santos, por diversas vezes, a ininterrupta recondução ao cargo era a melhor prova da estima que brasileiros e portugueses lhe tributavam.

Benemérito, por índole, tudo que dava não admitia alarde; os beneficiados, porém, não se podiam conter e de boca em boca passavam o bem que ele fazia.

No Asilo da Infância Desvalida de Santos, desde jovem, foi ele incluído no número de seus grandes Benfeitores.

A todas as instituições humanitárias ele comparecia, com prazer, auxiliando-as tanto quanto lhe era possível.

Grande abolicionista, amigo dedicado de José do Patrocínio, Julio Ribeiro, Chico Glicério, Campos Sales, Bernardino de Campos, Santos Periera, Luiz Gama e outros, bateu-se sempre pela abolição. Quando promulgada a lei de 13 de maio, ele, o Dr. M. Homem de Bitencourt e outros brasileiros e portugueses, realizaram em Santos esplêndidas festas em comemoração do grande acontecimento, que fazia entrar definitivamente o Brasil no convívio das nações civilizadas.

Em 1890, foi incluído seu nome no Boletim Republicano dirigido ao eleitorado paulista, por ocasião do golpe de Estado de Deodoro. Trata-se, sem dúvida, de um belo documento para provar a alta estima em que o povo paulista e políticos tinham Luiz de Mattos, que, embora havendo nascido em Portugal, era para eles tão brasileiro, como os aqui nascidos, visto ter, desde criança, acompanhado, com vivo interesse, o progresso e trabalhado pela felicidade do povo brasileiro, com ele e por ele se batendo ao lado dos nacionais honrados daquele tempo, que acima dos interesses do bolso sabiam colocar os da Pátria.

Esquivou-se, embora descontentando muito os amigos, de aceitar o lugar de representante do povo paulista, como Deputado, por não querer deixar o cargo de Vice-Cônsul de Portugal, que vinha exercendo nobremente, desde 1887, e mesmo por entender que não devia naturalizar-se, pois um ato desses praticado por ele, naquele tempo, reputava indigno. Dizemos naquele tempo, porque, depois que descobriu a Verdade e passou a explanar a Doutrina de Cristo, compreendeu e se convenceu de que Pátria apenas uma existia – O UNIVERSO – e que a seleção de povos e raças era como continua a ser uma consequência da ignorância em que viviam e vivem, ainda, todos os povos do planeta Terra.

Tempo chegará em que as guarnições defensoras das fronteiras de cada nação desaparecerão, visto que, à medida que os povos se forem conhecendo como Força e matéria, irão desaparecendo os egoísmos, as rivalidades e uma só constituição existirá, dentro da qual tudo se regerá, imperando, nessa altura, leis adequadas, de acordo com as leis sábias, naturais e imutáveis que regem o Universo.

Como autoridade consular em Santos, deve-se a Luiz de Mattos o fim das cenas desagradáveis havidas naquela cidade, entre trabalhadores e praças de polícia ali destacadas.

Com o entendimento havido entre ele e o Dr. Bernardino de Campos, então chefe de polícia, em São Paulo, viram-se serenar os ânimos, restabelecer-se a ordem e voltar à calma e ao trabalho a cidade de Santos, sendo Luiz de Mattos, alvo de grande manifestação popular.

Na Capital Federal, tinha ele também casa filial à de Santos para negócios de café, cuja direção estava confiada a um seu irmão.

Em café, por mais de uma vez, perdeu e ganhou fortuna.

Era um empreendedor, um criador, um reformador.

No comércio de café, criou o hoje desenvolvido sistema denominado café “a termo” que, executado dentro dos seus moldes, é um negócio lícito, inteligente, moderno e de grande vantagem para o lavrador, o intermediário e o comprador.

Entre comerciantes e corretores na praça de Santos, nada era resolvido sem que primeiro fosse ouvido o Luiz, como na intimidade comercial de café o tratavam.

Qualquer negócio de vulto em café, não era resolvido sem o seu conselho. Era voz geral: “Vai consultar o Luiz, primeiro”.

Deixou os negócios de café para recolher-se à vida privada, comprando então grandes áreas de terras, em Santos e no Rio. Homem de vistas largas, previdente com relação ao futuro, tinha a certeza do grande valor que iam adquirir os terrenos quer urbanos, quer suburbanos ou rurais.

Mas, estando ainda cheio de vitalidade, sentia-se mal fora da atividade comercial, e daí o ter deixado Santos, para organizar e criar, na Capital, a Empresa do Lixo e o Monopólio das Carnes Verdes, empresas estas as mais importantes daquela época, que produziam rendas colossais. Tinha, porém, esse grande empreendedor o grave defeito de confiar em demasia nos outros, e daí o ser por vezes furtado nos seus haveres e no seu sossego.

Luiz de Mattos era escravo dos seus deveres, quer para com os seus negócios, quer para com a sua família, e mesmo para com os amigos.

Quando fora dos seus negócios, vivia exclusivamente para a família.

Nessas horas de repouso, entregava-se à leitura de obras de autores recomendáveis e pessoa alguma era capaz de o encontrar sem uma ocupação útil.

Sua biblioteca era rica; e já quando rapaz era mais fácil vê-lo agarrado a um livro, a devorar-lhe os ensinamentos, do que vê-lo a palestrar.

Amigo da caça e da pesca, foi, por excelência, um admirador da natureza.

Fugia da sociedade, para entregar-se ao campo.

A educação dos filhos foi esmerada; não consentia que lhes pousasse uma mosca. E não era só aos filhos, mas também aos sobrinhos, que lhe eram entregues para, como homem de princípios, velar pela sua educação e instrução.

Acompanhando o desenvolvimento de todos, ia fazendo um estudo psíquico de cada um. O seu enlevo, a sua preocupação era um filho varão, a quem ele queria preparar para o substituir nas suas grandes empresas.

Somente permitia a frequência à sua casa de pessoas portadores de qualidades e virtudes comprovadas.

Era austero, mais de uma bondade sem limites, metódico e disciplinado. Tinha horas para tudo. Com os filhos brincava, fazia ginástica, ensinava-lhes tudo quanto era preciso saber, quer para estar na sociedade, como para defender-se dela e assim dos perversos, ensinando-lhes a manejar desde arma branca até as armas de fogo.

As filhas vestiam todas por igual. Mandava ensinar-lhes tudo quanto quisessem aprender, e esses ensinos eram ministrados em casa por professores ou professoras, na presença de uma pessoa de respeito, da família. Sós, com professores ou professoras, pessoa alguma era capaz de vê-las.

Tinha a noção exata da moral cristã. Não admitia misturas. Suas filhas ou sobrinhas à rua não saiam sozinhas, nem tão pouco passavam dias em casa de família alguma, por mais íntima que fosse.

Desde o calçado ao penteado, tudo ele observava e quando alguma coisa estava fora dos seus princípios, imediatamente mandava modificar. A uma das filhas cujo casamento estava próximo, mandou modificar o penteado com que certa vez se apresentara por outro mais de acordo com seus princípios austeros, mas artísticos.

À sua mesa de refeições, todos tinham que se sentar com compostura e ordem.

Cada filha servia à mesa uma semana.

Suas filhas sabiam tudo, desde a cozinha à pintura, à música e aos trabalhos de lavor; sabiam manejar instrumentos, não só na cozinha, como na sala de visitas.

Em sua casa, nunca se podia estar sem uma ocupação: lendo, bordando, pintando, costurando, etc.

Não tinha religião alguma. Materialista que foi até aos cinquenta anos, analisou as diversas religiões, através da história, e concluiu que as que não eram filhas da Mitologia, eram animalizadas.

Dentre as oito mil que uma estatística de Barcelona relatava, destacava ele a católica, tendo como seu chefe o Papa, residente no pomposo Vaticano, dizendo-se representante de Cristo e apresentando-o como um poltrão, que, havendo apanhado uma bofetada numa face, ofereceu a outra ao ofensor para provar a sua humildade. Ora, ele, Mattos, sendo um homem de ação, um lutador incondicional, não podia aceitar tamanha monstruosidade, e daí o quedar-se livre-pensador, materialista honrado, criando para si a religião da família, para a qual vivia.

Acometido de um colapso cardíaco, esteve às portas da sepultura alguns dias e noites, não vendo na sua frente mais que sete palmos de terra gélida, onde iria terminar o corpo.

Teve nojo da vida e do viver, raciocinou e analisou que não era possível, na sepultura, extinguir-se a vida do homem; algo mais importante devia existir, que era a alma; o que ela fosse, porém, não sabia.

Melhorou ele, mas adoeceram seus filhos; o médico assistente, seu velho amigo Dr. Oliveira Botelho, aconselha-o a não lhes dar remédios e sim uma alimentação escolhida, pois era caso perdido, estavam tuberculosos e, seu houvesse cuidado na alimentação, ainda poderiam prolongar a existência, mas por pouco tempo.

Entristecendo-se com o que seu velho camarada lhe disse, retrucou-lhe Oliveira Botelho:

- Luiz, a Medicina nada sabe, vive ainda de apalpadelas e suposições; eu, se não fosse diabético e ignorasse que estou para morrer dentro de meses, ia estudar o Espiritismo, pois lá algo de científico existe.

Luiz de Mattos, que abominava o espiritismo ao ponto de fazer suas filhas copiar obras contra o mesmo, censurou o médico, e disse-lhe que parecia ter perdido o juízo, pretendendo ser espírita. Botelho confirmou o que dissera e aconselhou Luiz a estudar o Espiritismo. Este, que já não suportava setaristas e muito menos ainda espíritas, pois nessa gente só observava bêbados, amostrengados, doidos varridos, julgou um absurdo o conselho de Botelho.

Andam os tempos. Luiz de Mattos estuda medicina para curar os seus e chega à conclusão de que o Botelho lhe dissera a verdade com respeito á medicina, pois, analisando o corpo humano pelo estudo anatômico, concluiu não passar este de uma série de engrenagens, tão artisticamente ligadas, que a mais pequena molécula afetada, todo o organismo tinha de ressentir-se, e, assim sendo, o ser humano era anormal em maior ou menor grau.

O dentista Fonseca, de quem a família de Luiz de Mattos era cliente, frequentava assiduamente o Espiritismo Racional e Científico, e aconselhou-a a que tirasse lá receitas e que havia de colher resultado satisfatório, pois curas extraordinárias já se tinham constatado.

Acedendo aos seus conselhos, foram as receitas tiradas, sem que disso soubesse Luiz de Mattos; à medida que os enfermos iam usando os remédios, melhoras sensíveis obtinham.

Certo dia, o seu amigo M., negociante laborioso, proprietário de uma torrefação de café, o estava esperando, para pedir-lhe que fosse com ele ao Espiritismo praticado por certa gente honesta, adiantando que curas importantes estavam sendo feitas. Disse mais que tendo gasto uma fortuna com o tratamento de sua esposa, sem obter melhoras, estava esperançado de lá encontrar o remédio para curar o mal que avassalava sua companheira.

Ouvindo-o atentamente, Luiz de Mattos diz-lhe:

- Mas então tu, M., queres perder toda tua fortuna? Não sabes que os praticantes do Espiritismo são uma corja de patifes? Toma juízo, M., e deixa-te disso; eu não te posso acompanhar a tais antros, onde só se encontram bugigangas, bêbedos, exploradores e patifes da pior espécie. Não te metas com semelhante gente que acabas mal.

O amigo ficou muito entristecido, mas não perdeu a esperança em conseguir a sua companhia.

Todos os dias Luiz de Mattos por ali passava e sempre entrava para cumprimentar o amigo M. e assim é que no outro dia volta este a pedir-lhe, com insistência que fosse com ele, não acedendo ainda desta vez Luiz de Mattos, que sustentou o que anteriormente dissera. Ao terceiro dia, com ode costume, entre Luiz de Mattos no estabelecimento do amigo M.; sentado a ler o jornal encontrava-se Luiz Alvez Thomas, que a esse tempo não mantinha relações íntimas com Luiz de Mattos, mas, assistindo à reiteração insistente do pedido que M. fazia a Luiz de Mattos, diz-lhe aquele:

- Se o Sr. Comendador Mattos for com M. , eu vou também. Mattos, à vista do exposto e da insistência, disse:
 - Pois bem, eu vou. Às tantas horas passem lá por casa, para seguirmos.

Felizes pela resposta despediram-se, e à hora marcada partiram para casa de Luiz de Mattos; este já preparado, não se tendo esquecido o seu artístico punhal e do seu verdadeiro “Smith and Wesson”, saíram a caminho do espiritismo, ainda desconhecido por eles, movidos mais por curiosidade do que pela vontade de praticá-lo.

Ao chegar à porta dum “casebrezinho”, já o estava esperando um homem que lhe diz: - Sr. Comendador, o nosso Presidente Astral, Padre Antonio Vieira, ordenou-nos que, quando o senhor chegasse, lhe déssemos a presidência dos Trabalhos.

- Estás maluco, homem, eu não entendo disso, eu fico mesmo aqui da porta a presenciar.

Mas, diante da insistência, quer do homem que o esperava à porta, quer dos seus dois amigos, lá foi ele para a cabeceira da mesa.

Aberta a sessão, feitas as preces (irradiações), atua o guia médico no médium sentado à direita, e lidos diversos nomes, a cada um eram prescritas instruções. Curioso e investigador, Luiz de Mattos, que, atentamente, presenciara tudo, pede após a terminação dos Trabalhos, os originais das receitas, levando-os para sua casa em cujo escritório se fecha e dirigindo-se à sua mesa de trabalho, senta-se e procura concentrar-se, fechando os olhos para fazer o mesmo que havia visto; mal sabia ele que estava correndo um grande risco, podendo até desencarnar nesse momento, avassalado pelo Astral Inferior. Examinando o que havia escrito, verificou que o que o Médium havia deixado no papel estava escrito em ordem, os tt traçados, os ii ponteados. Procurou fazer o mesmo e não o conseguiu.

Principiou aí o início do seu raciocínio sobre a Força fora da Matéria. Ele conhecia Medicina, era inteligente e nada pudera fazer, ao passo que o médium, quase analfabeto, tinha produzido trabalho admirável.

No dia seguinte, já não eram os amigos M. e Luiz Thomaz que precisavam pedir o seu comparecimento; era ele que desejoso de estudar, os avisava para, às horas certas não faltarem. Chegada a hora, de novo partiram para o Espiritismo e, como anteriormente, havia ordem, no centro, dada pelo presidente Astral, para que assumisse a presidência Luiz de Mattos, logo que chegasse. Assumida por ele a presidência, na hora dos Trabalhos, após o receituário e algumas instruções, o presidente Astral pede que se concentrem e é dada, por escrito, uma comunicação em Frances, legível, livre de erros, causando sério espanto a Luiz de Mattos, e tanto que este chegou a perguntar, após a sessão, se o médium tinha ilustração, e mandando-o escrever, após os trabalhos, a fim de se certificar se era verdade, ou não. Não fosse estar sendo vítima de alguma mistificação...

Informado das condições morais, materiais e intelectuais do médium, certo ficou de que fenômeno importante se passava.

Conversando com Luiz Thomaz e outro amigo, disse-lhes que o que vinha observando causava-lhe grande espanto forçando-o a meditar sobre a causa dos efeitos que observava. Novamente, no dia seguinte, para lá foram.

Iniciados os trabalhos, pede ele receita para os seus, e, após receitar, o guia médico, Dr. Custódio Duarte, diz-lhe: “Já são meus enfermos, estão melhorando e hão de ficar bons”. Admirou-se e só nesse dia ficou sabendo que, de fato, já os seus se estavam tratando lá. Dada também uma comunicação em inglês, ele analisou e verificou estar claramente legível.

No fim da quarta sessão que Luiz de Mattos, sem interrupção vinha presidindo, atua um espírito num dos médiuns ao lado dele e insulta-o barbaramente. Desconhecendo este fenômeno e supondo fosse o médium o insultador, leva a mão ao bolso para sacar o revolver, quando rapidamente fica atuado o outro médium e fala-lhe Padre Antonio Vieira:

- “Acalma-te! Quando para cá vieres deixa lá isso em casa; pois, então, não vês que o médium é um simples porta-voz dos espíritos? – Como querias agir por essa forma, se no espírito não podias atirar, nem matar”?

“Tem paciência, estuda, eu te ajudarei; porém, é a ti que compete doutrinar, não só esse, como tantos milhares de outros que te irão aparecer, e assim precisas ajudar-me a limpar a atmosfera da Terra dos jesuítas que nela se tem quedado para prática, ainda mais desenvolvida, de crimes que também já praticavam quando encarnados. Acordaste tarde; era para aos 26 anos teres iniciado comigo estes trabalhos, mas já que despertaste agora e foi preciso que te sacudisse o ataque cardíaco, para te lembrares que a vida não desce à sepultura e sim ascende ao Espaço, a ligar-se a outras vidas, não podes mais perder tempo. Ajuda-me, pois, meu filho, estuda, e outros a ti se juntarão para levar por diante a bela doutrina de Cristo”.

“Esse espírito que acabou de manifestar-se é Ignácio de Loyola, teu e meu companheiro em diversas encarnações. Há 400 anos que ele se queda na atmosfera da terra, como terrível obsessor e chefe de grandes falanges. Cabe a ti doutriná-lo e mostrar o erro em que vive”.

Acalmado tudo e encerrada a sessão, não mais faltou Luiz de Mattos aos trabalhos, nesse centro, pobre materialmente falando, mas riquíssimo de luz, de inteligência, de saber, enfim.

Nas sessões seguintes novamente se manifesta Loyola e, prevenido que estava Luiz de Mattos pelo Guia Padre Antonio Vieira, deixou Loyola falar à vontade. De súbito, Luiz de Mattos entra numa longa dissertação da natureza, referindo-se a Deus, não à semelhança do homem, mas como Inteligência Universal a irradiar por toda parte onde existe vida.

Loyola espanta-se do que ouve do seu ex-companheiro jesuíta, quando Frei Bernardo, ou São Bernardo, e pergunta-lhe:

- Mas tu que, como eu, não acreditavas, em Deus, tu que até há pouco eras ateu, eras materialista, como e onde foste aprender coisas tão belas como as que me explicaste?

- Amigo, o grande Padre Antonio Vieira, de nós muito conhecido, disse-me ser preciso acordar, que no Universo apenas existe Força e Matéria e que na Terra os encarnados são instrumentos simplesmente do bem ou do mal.

Portanto, se o que eu te disse te espantou, eu nada mais fui que porta voz das Forças Superiores, que a seu encargo tem a remodelação do planeta e tu a elas precisas pertencer.

Grande foi o diálogo havido, porém, o resumimos e damos apenas uma idéia de com ose iniciou o chefe do Racionalismo nesta bela Doutrina:

Enquanto Luiz de Mattos dissertava, com sua voz de trovão, de orador, de impulsionador, Loyola, cada vez mais iluminava a sua alma e, rompendo do véu de negrura em que estava envolvido, ia vendo, luminoso, radiante, o espírito de Luiz de Mattos, assistido por Antonio Vieira, Camões, São Pedro, Custódio Duarte e tantas outras almas suas conhecidas. Reconhecendo-se vencido pelas verdades que havia proferido Luiz de Mattos, pede-lhe que irradie sobre sua alma, reconhecendo que foi o maior dos desgraçados, que se sentia sem coragem para olhar para o quadro das suas obras, já agora tão nitidamente gravadas na sua aura e que ao rememorar o passado, não vê outra coisa senão barbaridades; que o ajudasse, com sua irradiação de valor, pois queria, desejava, precisava, entrar em lutas para o bem geral, onde mais depressa pudesse descontar as suas faltas.

Retirando-se Loyola, esclarecido, havia dado Luiz de Mattos o primeiro passo para explanação da Verdade, tão desejada por Cristo. Os companheiros e amigos de Luiz de Mattos, presentes àquela sessão disseram-lhe que estavam apavorados com o que dele ouviram, ao que ele respondeu não mais se recordar do que dissera e que tudo aquilo lhe viera de momento, não sabendo mesmo explicar com ose prestara a definir a Inteligência Universal, quando nem em Cristo ele porém acreditava, visto-lho terem apresentado como um poltrão. Agora, porém, analisando a sua obra, concluíra que ele fora um homem lutador, valoroso a apto a reagir a todos os insultos no terreno da luta.

Além destes fenômenos, muitos outros foram precisos para que a alma investigadora de Luiz de Mattos não vacilasse. E assim levou ele ano e meio em consecutivos estudos, até que um dia o Guia, Pinheiro Chagas, lhe disse: “Meu filho, é necessário que te disponhas a iniciar a obra, pois estás demorando muito”. Nessa altura já o Centro não era mais no casebre, mas sim numa boa casa, de propriedade de Luiz Thomaz.

Luiz de Mattos, entretanto, ressentia-se ainda da prevenção que tinha com o baixo espiritismo e como via todos que nele se metiam acabar na miséria, pensava na família, pensava no que era preciso dispender com a criação de um centro à altura de tão bela Doutrina, e receava não poder arcar com tamanha responsabilidade. O Astral Superior, vendo-lhe na aura a preocupação, insiste por intermédio do Guia Custódio Duarte, em que era preciso caminhar; assim assediado, responde Luiz de Mattos:

- Sim... Estou pronto para a luta, contanto que aos meus nada venha a faltar.

- Satisfaz-nos a tua resposta, disse Custódio Duarte, e certos podes estar que nada te faltara a ti e nem aos teus, tudo há de aumentar e àqueles que junto de ti viverem nada faltará.

A ti, a parte espiritual, a Luiz Thomaz a parte material. Sois os dois responsáveis por esta Doutrina. Caminhai unidos e por vós velaremos, uma vez que em pensamentos procureis religar-vos a nós.

Assim foi iniciada a Doutrina da Verdade em 1910, na cidade de Santos, construindo-se um edifício para sua explanação a Avenida Ana Costa nº 67, em 1912, outro no Rio, à Rua Jorge Rudge nº 121, para onde, por ordem Superior, passou a Chefia da Doutrina, visto ser a Capital do país.

Compreendida a Doutrina por Luiz de Mattos, a ela se entregou de corpo e alma como lutador incansável, sem a menor dúvida ou vacilação.

Iniciou em Santos uma larga campanha de difusão dos Princípios, escrevendo uma série de artigos na “Tribuna” em que explicava que a loucura, assim como outras enfermidades julgadas incuráveis pela classe médica, tinha cura, com o tratamento Racional e Científico. Os médicos de Santos ficaram perplexos e com ele se foram entender a fim de não escrever mais contra a classe médica. Eles reconheciam que o que dizia Luiz de Mattos era verdade, mas não o podiam acompanhar por faltar-lhes coragem para vencer os preconceitos; todavia, estavam prontos a assinar toda receita fornecida pelo centro presidido por ele, e mais: um dos médicos imediatamente foi a seu farmacêutico dizer-lhe que aviasse todas as receitas enviadas por Mattos, que ele assumia inteira responsabilidade.
Inaugurado, no Rio, o Centro Espírita Redentor, iniciou a explanação da Doutrina, no jornal “Tribuna Espírita” e algumas vezes pela imprensa em geral. Quatro anos depois, por ordem e um dos Guias, Padre Fonseca, fundado foi o jornal “A Razão” a 19 de dezembro de 1916. Nesse jornal, o mais liberal que já houve, independente e orientador, eram doutrinados governos, ciência, clero, setaristas, classes armadas e civis, desde o industrial, ao operário, desde o lavrador ao vendedor, consumidor, etc. Nesse órgão oficial do Racionalismo Cristão, gastou ele a sua energia, a sua vida. Sustentou as campanhas mais sérias de que até hoje temos noticia. Sendo que, a havida com o clero, da qual resultou a criação da obra: “Cartas ao cardeal Arcoverde”, causou espanto ao mundo. As verdades eram duras, o cardeal de tão revoltado, ficou maluco, ordenando o Papa providencias para a vinda da baia de D. Sebastião Leme para coadjutor, visto o cardeal estar inutilizado do espírito.

Por mais de uma vez tramaram o assassinato de Luiz de Mattos e não o conseguindo nas emboscadas traiçoeiras que lhe armavam, ao passar o seu carro, incumbiram dessa criminosa tarefa um bandido que se dizia seu companheiro na doutrina. Esse hipócrita e infeliz, todos os dias à noite lhe beijava a face e dele se despedia, com ose tocado pelo sentimento de verdadeiro amigo ou de um ilho que o sabe ser. Mas, no entanto, a ruminar-lhe a alma trazia o crime e o premeditou com uma covardia vilíssima.

Certo dia, alegando precisar falar-lhe com toda urgência, às cinco e meia horas da manhã, desce Luiz de Mattos dos seus aposentos, em pijama, na sua simplicidade de homem puro, às pressas para atender ao suposto amigo, que lhe dava beijos com a boca, mas fel com a alma, e, supondo que alguma enfermidade, ou coisa grave houvesse em sua casa, pronto para ouvi-lo, ao descer a escada, vê-se inopinadamente alvejado à queima-roupa por 4 balas de revólver, tendo a ultima ainda chamuscado-lhe a roupa do pijama. Vendo-se frustrado em sua tentativa de eliminar o benfeitor, fugiu, covardemente, supondo que Luiz de Mattos o processaria ou lhe mandaria fazer o mesmo. Enganou-se, porém, isto Luiz de Mattos ser homem para homem, ser sempre temido e respeitado pelas suas nobres ações.

Aos bandidos ele respondia no terreno e na oportunidade da ofensa. Passando daí, vê-los, era o mesmo que ver caniços, e mais: se lhe mandassem pedir alguma coisa, não era capaz de negar. O quanto tinha de enérgico, guerreiro ou lutador, na defesa da família, dos amigos e da pátria, tinha também de bondoso, superior e altruísta.
Na sua alma não se aninhava rancor. Para ele a palavra “não” devia desaparecer. O que mais lhe custava era negar, era deixar de servir a quem o procurava.

A sua bondade era excessiva e por vezes até prejudicial. Era um homem que saia com dinheiro na algibeira e se alguém o não acompanhasse para impedir a aproximação de certa gente que vivia de expediente, de exploração, ele dava tudo que levava, a ponto de algumas vezes regressar a casa sem um real.

Eram palavras dele: “Tomem conta de mim, não deixem aproximar-se certa gente; já sabem que não posso ouvir lamurias; guardem-me o dinheiro”.

Lutador igual ainda não houve.

Sua indômita coragem, seu grande valor se tornaram evidentes quando à frente da “A Razão”, em seu artigo “Nota”, diariamente, doutrinava, esclarecia, orientava governos, ciência, clero e povo. Foi com sua pena manejada à vontade do Astral Superior, o Brasil entrou na guerra, e se os seus governantes tivessem sabido seguir o que ele ensinava, hoje o país estaria cheio de ouro, como ficou a América do Norte. Foi com a sua Nota que Ministros seguiram na contingência de se demitir, tendo, todavia, mandado oferecer-lhe grandes somas para não prosseguir em seus escritos.

Foi através de sua Nota que Ruy Barbosa ficou ciente e convencido de que nunca seria Presidente da república, por ter sido ingrato filho. Tendo levantado a sua candidatura civilista para combater e derrotar a militar, de Hermes da Fonseca, abalou-se para os Estados em propaganda política, recusando-se a representar o país na Liga das Nações.

Durante a existência da “A Razão”, coisas assombrosas se passaram, mas nem assim quiseram despertar.

Os galfarros foram muitos, aves de rapina sem asas, voavam no patrimônio da “A Razão” e daí alguns terem se enchido à custa do jornal, porém é ditado velho: o alheio chora o seu dono. E destas aves rapineiras, as que ainda andam por este mundo, sofrem, vivem como corvos, a alma talvez mais enegrecida do que as penas do próprio corvo.

Foi, pois, Luiz de Mattos, um lutador incansável.

Sua desencarnação deu-se antes do tempo. Concorreram para antecipar: a falência de médiuns, a quem ele estimava como filhos, a quem ele esclarecia carinhosamente, e amparava espiritualmente, sempre desejoso de vê-los progredir. Vivia para a doutrina, e consigo, queria ver caminhando os que se diziam ser seus amigos. Na “A Razão” quantas noites de tremendas lutas ele passou!

A luta foi grande, porém, a maior que se viu forçado a travar foi para varrer do seu espírito as dores produzidas pelas ingratidões, pela perversidade dos que se diziam seus amigos e se tornavam traidores, vilões.

Desencarnou esta nobre alma para entre nós continuar a lutar, e hoje mais ainda do que quando possuindo corpo físico. Agora ela é livre e está onde é preciso para intuir os que demonstrem querer lutar por causas justas.
A sua obra ainda vagamente é definida, mesmo pelos que se julgam esclarecidos e conhecedores da Doutrina.


Com o tempo, porém, os homens a compreenderão, e terão então, a medida exata do trabalho de autêntico gigante que Luiz de Mattos realizou à custa de todos os sacrifícios para confraternizar e espiritualizar a humanidade.

8 - Luiz de Mattos
Othon Ewaldo
Transcrito d’“A Razão” de 15 de janeiro de 1949

II

A vida agitada e paradoxal de Luiz de Mattos está a exigir um biógrafo.

Paradoxal porque, se até aos 50 anos de idade viveu ele envolvido em negócios e cifras, ganhando e perdendo nas especulações de terrenos de café ou na direção de importantes Empresas, de 1910 em diante passou a dedicar-se ao estudo do então Espiritismo Racional e Cientifico Cristão, que mais tarde codificaria em Racionalismo Cristão, para explaná-lo amplamente.

Passou, assim, do materialismo dos interesses comerciais para o espiritualismo singelo e puro, mas exigente e severo.

Agora, seu trabalho, a ação que nos envolvia, sua atividade constante, visavam o bem estar do próximo, o progresso espiritual do seu semelhante, a regeneração dos transviados e a orientação das novas gerações...

A sua ânsia incontida de esclarecer, de combater hábitos e costumes impregnados de misticismos e dogmas arcaicos, de abrir os olhos da multidão para a simplicidade dos postulados racionalistas, já não bastavam seus artigos e livros, suas doutrinações nem as conferencias públicas que realizava, e a 19 de dezembro de 1916 escrevia Luiz de Mattos no primeiro número desse jornal, que acabara de fundar, essas palavras candentes como ferro em brasa e que estigmatizavam uma época: “Mais que econômica e financeira, é moral a crise nacional”.

E vieram as campanhas político-religiosas, as polemicas e outros livros...

Há 30 anos atrás, dizer-se alguém espiritualista era isolar-se ou fechar-se num círculo de ferro voluntariamente, e Luiz de Mattos disse-o abertamente.

Não havia nos jornais de então, nem as modestas sessões nas quais alguns deles publicam hoje resumidas notas das atividades de várias religiões e “A Razão” diariamente publicava a sua temida Nota...

Os livros sobre assuntos doutrinários eram considerados clandestinos, como ainda hoje suas leituras são proibidas por certas seitas, e os anarquistas faziam explodir bombas de dinamite nos 1° de maio, que os prudentes passavam em casa, observando da janela as ruas fortemente patrulhadas... E Luiz de Mattos publicava suas cartas combatendo idéias retrógradas e escrevia a favor dos operários, pugnando pela melhoria de suas condições de vida e preconizando a organização de Institutos de previdência social que, fundado 30 anos depois, andam agora por aí a financiar e construir arranha céus ao invés de casas projetadas!...

Espírito superior, que pairava muito acima das paixões humanas, Luiz de Mattos sofria pelo seu semelhante. E então, sua alma desprendida e altaneira e tantas vezes incompreendida, sensível as desgraças desta vida de misérias e lutas, mas também corajosa bastante para combatê-las e procurar suavizá-las, continuava a grande luta.

- Trabalhou, doutrinou e escreveu pelo bem doutrem.

Sua pena causticante e destemida quando pugnava pela confraternização das criaturas, sabia sonhar em páginas admiráveis de literatura, esparsas pelos seus livros como chorava ante os infortúnios e ingratidões dos seres, que procurava minorar os esclarecimentos da doutrina que professava.

- Filósofo? Louco? Visionário?

- Humano, apenas. E desse levantamento em prol da melhoria duns e doutros, aos quais nada pedia e tudo dava, de suas observações sobre a vida fora da matéria organizada e suas relações com este mundo, do estudo sobre o poder do pensamento e sua aplicação ao invisível, da análise da lei de atração no campo psíquico e de tantas outras minudentes pesquisas e esforços de todos os instantes, surgiu vitoriosa sua obra máxima – O Racionalismo Cristão!

Há precisamente 22 anos em 15 de Janeiro de 1926 desencarnava Luiz de Mattos. Cercavam-no reduzido número de amigos e discípulos fiéis à sua amizade e à sua obra luminosa. Aquela, perdura inquebrantável na saudade que o tempo decorrido mais aviva: esta, se propaga e amplia, desenvolve e cresce e desabrocha em mercês e dádivas, beneficiando indistintamente a qualquer um.

Assim a queria Luiz de Mattos!


9 - LUIZ DE MATTOS
Joaquim Costa

III

No dia de hoje, há 26 anos, depois de uma vida enriquecida pelo trabalho constante e árduo, orientada por uma larga visão idealística e pela honrada consciência dos seus deveres para com a humanidade fecharam-se, para as coisas deste mundo, os olhos físicos do inesquecível fundador de A RAZÃO, - olhos de enternecida bondade, onde se refletiam as culminâncias de sua alma de eleição, e por onde se adivinhavam as inesgotáveis reservas do seu amor para com o próximo, que fizeram de Luiz de Mattos o lidador fervoroso, o pelejador incansável das mais árduas batalhas, visando a proscrição das paixões e dos vícios humanos, pela instrução, reeducação moral e abandono dos falsos e obsoletos princípios e dogmas com que o caráter se deforma e anula a personalidade.

Não é difícil, pois, avaliar o doloroso pesar com que foi recebida nesta capital, nos Estados e até no estrangeiro, onde sua obra se havia já também projetado, a notícia do passamento desse eminente cidadão, que representava, indiscutivelmente, a alma e a força de um movimento contra as imposturices do mundo, contra as velhacarias, contra os sistemas anacrônicos de vida, contra todas as formas de escravização e submissão do ser humano.

Foram o sadio idealismo e o acendrado espírito humanista de Luiz de Mattos, que o tornaram o intemerato jornalista e doutrinador de mil campanhas que sacudiram e fizeram estremecer posições, redutos e cidadelas até então quase que intocáveis.

Fundando o Racionalismo Cristão, para o estudo e pesquisa das coisas transcendentais da vida, deu início a uma pregação ideal, cheia de calor e de entusiasmo, tendente a desfazer e anular a propaganda hipócrita e reacionária do jesuitismo, combatendo, desassombrada e apaixonadamente, todas as idéias que conduzem ao fanatismo e às superstições, visando substituir a adoração das imagens, mitos e dogmas religiosos, pelo culto luminoso do lar, da família e da humanidade.

Em lugar da opressão e da tirania dos sectarismos, a liberdade bem compreendida, - tendo a pátria por símbolo e o trabalho por devoção; por princípio o exercício legítimo dos direitos, o honrado cumprimento dos deveres, por fim.

Não era, como vemos, a rebelião que ele pregava, não fazia o panegirico da violência, mas da união sincera e fraternal dos homens de todas de todas as raças, convencendo-os da sua origem espiritual comum e de que somos, em essência todos irmãos.

*
*   *


Produto do próprio esforço ascendeu Luiz de Mattos à liderança nos negócios de café no mercado de Santos, aos vinte e poucos anos. Como autoridade consular portuguesa, naquela importante praça, quando ainda não tinha atingido os trinta anos, - ao contrário do que sucede com a maioria, cujo prestigio advêm somente dos cargos, era a função que recebia o prestigio da influência e do valor pessoal do inolvidável fundador de A RAZÃO.

E tanto isso é verdade, que os mais importantes jornais de Santos e São Paulo exaltavam a personalidade e a obra de Luiz de Mattos, em artigos de louvor, assinados por figuras de projeção na imprensa brasileira, inclusive pelo maior dos jornalistas da época – Eduardo Salamonde.

O caráter sem jaça, a honestidade sem exibições, a resolução e firmeza de atitudes, a segurança com que se havia em tudo, os dotes primaciais do espírito, os atos repletos de sabedoria a contrastarem com a pouca idade que tinha, criaram em torno da personalidade de Luiz de Mattos uma auréola de admiração e simpatia que jamais se desfez.

Luiz de Mattos era geralmente querido e estimado por todos, desde os mais abastados aos mais pobres, os mais humildes, desde o chefe ao subordinado de menor hierarquia, todos nutriam por este lustre varão o mais vivo sentimento de admiração e respeito.

Em um surto grevista na cidade de Santos, que poderia, por suas extensões, acarretar grandes prejuízos para a vida da cidade, bastou que ele manifestasse aos grevistas a intenção de exonerar-se das funções consulares, se persistissem na greve, para que os elementos desavindos se pacificassem e voltassem ao trabalho.

A atividade multiforme e jamais interrompida do fundador de A RAZÃO foi toda uma gloriosa jornada, uma brilhante epopéia de trabalho, de lutas, na preparação do terreno sáfaro, ingrato, para a marcha da evolução humana, e no combate audaz, desassombrado, ao poder imenso, à força gigantesca que procuravam arrastar-nos para trás.


10 - LUIZ DE MATTOS
Luiz de Souza

IV

Dentre aqueles que, na Terra, deixaram o traço luminoso de sua passagem, poderemos destacar a figura ímpar de estadista, de Luiz de Mattos.

Todos somos responsáveis por uma missão que escolhemos, ou que nos é confiada, e da qual nos deveremos desempenhar a contento, seja ela qual for. Para uns a missão é singela, de conformidade com a simplicidade dos recursos, mas para alguns raros a missão transpõe o limite das fronteiras do pátrio lar e se estende pelo orbe. Luiz de Mattos trouxe para executar, quando entre nós, uma missão grandiosa, destinada a transpor todas as fronteiras, porquanto era e é de magnitude ilimitada.

Viveu ele o tempo necessário para que o seu idealismo, sem jaça, fosse implantado na Terra, com segurança e permanência, como estaria escrito no livro da suas disposições irrevogáveis.

As qualidades humanas que devem ser cultivadas pelos seres conscientes, ele as possuía afloradas e espontâneas, cativantes e sublimadas.

As suas palavras serviam para dar conforto e coragem aos aflitos e as suas ações decididas e oportunas revigoravam os fortes. Foi um exemplo de bondade e de firmeza; de honradez e de bravura cristã, atributos estes que só os abnegados, os que sabem renunciar, possuem.

Como chefe, soube encantar com a superioridade das suas maneiras pessoais, distintas e nobres, de tolerância e de estímulo. Todos os bons, os compreensivos, os que não cultivaram a inveja e a mentira, o quiseram imensamente bem.

Foi um grande entre os grandes e um gigante entre os pequenos. Não conheceu na sua existência terrena e nos traços de sua personalidade varonil, os deslizes depreciadores que se encontram em caracteres vulneráveis e que, embora conspícuos, se desmerecem nas suas posições.

Homem de atitudes, de ação e de princípios, soube engrandecer com o seu nome e o seu valor a pátria que lhe serviu de túmulo e à qual tudo deu de melhor, numa vida de lutas e de glórias, de esperanças e realizações, de gestos e de altruísmos.

A vibração amena do seu espírito afetivo perdura sobre todos quantos o conheceram e o amaram, como um bálsamo tonificador, e a sua imagem augusta se reflete, como um símbolo, na retina mental dos seus discípulos.

Mestre de mestres, impôs-se pelo poder da sua oração, eloquente e concisa, pela sabedoria dos seus conceitos, vazados em conhecimentos originais, de alta transparência. As suas opiniões apresentavam-se de tal modo inspiradas, que serviam de roteiro a supremos dirigentes da Nação.

Distinguiu-se sempre, em todas as suas atividades, pela ponderação, pelo critério, pelo acerto de suas proposições firmadas em segura base e ditadas pelo equilíbrio da sua orientação racional.

As suas obras, os seus escritos, as suas Notas, são fontes de inspiração para novas produções, são normas de viver que todos devem seguir, são advertências enérgicas e úteis para os que desejam acertar nas experiências diárias, pelo torvelinho da vida.

Grande espírito é o de Luiz de Mattos! Pode-se concebê-lo, na sua forma Astral, como uma estrela reluzente, radiante, a estender o poder dos seus raios luminosos, pelas sombras da ignorância espiritual, com aquele objetivo elevado de transformar o mal em bem, a pobreza dalma em riqueza, a obscuridade em esclarecimento.

Ao rememorarmos a sua partida deste mundo físico, registramos, ainda que em traços apagados, o perfil da sua grandeza magistral, imponente e imperecível e cada vez mais exaltada na consciência de seus dedicados amigos e numerosos discípulos e admiradores.


11 - LUIZ JOSÉ DE MATTOS
Antonio do Nascimento Cottas
Transcrito da “A Razão” de 16 de janeiro de 1940.

V

               Para tomar esta tribuna e falar do Mestre, falecido em 15 de janeiro de 1926, dever-se-ia buscar outro mestre e não um dos muitos discípulos que ele esclareceu e preparou para árdua luta moral e material que se tem de viver neste mundo onde tudo é dor, desilusão, convenção e interesse.

Habitantes que somos de um planeta, deserto ainda de espiritualidade, onde as amizades sãs, puras, são diminutas, os homens confundem a família com a vida de negócios, as religiões são materialistas, cuidando-se muito do corpo, mas pouco do espírito, não seria fácil encontrar um êmolo do vulto espiritualista que foi Luiz de Mattos, contudo, nesta redação há penas bem retemperadas pelo fogo da ciência e que melhor corresponderiam ao anseio do leitor amigo.

Mas, desde que fomos chamados a tomar esta tribuna, que durante anos foi honrada pelo Mestre, e donde recebiam os discípulos torrenciais ensinamentos, nosso dever é dizer que sabemos desse vulto cristão, o maior e melhor discípulo que Jesus, o Cristo, viu na Terra propagando os princípios sãos da sua belíssima e incomparável Doutrina.

Nascido em Portugal, foi Luiz de Mattos brasileiro como todos aqueles que se orgulham de haver nascido no Brasil.

Já no primeiro número do ressurgimento d’”A Razão”, o nosso redator-chefe, Dr. Emir Nunes de Oliveira, escreveu: “Embora nascido em Traz-os-Montes, porque veio para o Brasil criança, aqui lutou e viveu sem interrupção até a morte. Luiz de Mattos amou extremecidamente nossa terra e, nacionalizado brasileiro, foi extremado nacionalista, no melhor sentido da expressão”.

E quanto ao seu programa de vida, no mesmo artigo escreveu aquele ilustre articulista que consistia ele em: “Trabalhar e lutar por tudo que fosse nobre e altruístico, objetivando a melhoria material e a elevação espiritual dos seres”.

Chegando a esta capital, rapazito de 13 anos, poucos meses depois era chamado por seu irmão Manoel Lavrador, para Santos, ali cresceu e fazendo-se homem, tornou-se negociante ainda muito moço.

Iniciado cedo nas vicissitudes da vida, precocemente enrijou seu caráter, esclareceu espírito e adquiriu sólida estrutura moral, que, cimentada no dever, na bondade, na justiça, foi, para os que o conheceram, a mais perfeita lição de perseverança no trabalho, de dignidade, de retilíneo proceder.


Oriundo da província de Traz-os-Montes, foi ele bem o tipo montanhez peninsular, mas do que isso, o símbolo dessa vigorosa alma pastoral das cordilheiras centrais da Lusitânia refletida e possante, toda aberta às emoções da lealdade e da ternura.

Conhecida como raça voluntariosa, independente e altiva, nada a pode tanto enxovalhar como a inércia contemplativa, o hábito da sujeição, o afrouxamento do orgulho.

Luiz de Mattos era dessa varonil enfibradura e individualidade. Gênio taciturno, meditativo, mas distintivo do transmontano.

Aos 22 anos, era negociante importante em Santos, tinha já assimilado toda a engrenagem do comércio, conhecia os segredos ou meandros do negócio, estava um lutador feito, sagaz, forte pelo arrojo, inabalavelmente resolvido a empolgar pelas suas frágeis antenas, quase etéreas, a voejante e enganadora fortuna.

Audácia da qual derivam as vicissitudes da vida, as alternativas, as rajadas violentas da chamada sorte, porem, o espírito de Luiz de Mattos jamais desmereceu a heróica raça de que provinha. Nunca desanimou na luta, confiado na sua moral, caminhou sempre forte e altivo, de fronte erguida.

Em pouco tempo ganhou tal fama pelo seu sistema de trabalhar, de operar nos negócios de café, que se tornou para muitos vaticinador o seu conselho e exemplar a sua ação.

Numa das grandes especulações de café daquela época, adquiriu ele avultada fortuna. Não lhe falharam as previsões; retirou-se do alto mercado na véspera da baixa esmagadora em que tantos capitais submergiram.

Salvo dessa hecatombe comercial, mas dada a largueza de crédito que a outros dava, não poude ele escapara a grandes prejuízos, vendo a sua fortuna bastante abalada. Se tinha o espírito do comerciante sagaz para os negócios, não o tinha, entretanto, endurecido para judaicamente ver somente o negócio, o lucro, sem querer saber de amigos, e por essa razão, confundindo amizades com negócios, é que ele foi atingido pela debacle.

Abalada sua fortuna, nessa época do “salve-se quem puder” das bancarrotas finais, ele não soube filiar-se aos rancorosos, aos que pelos tribunais faziam a reconquista da fortuna dissipada, tripudiando sobre a riqueza alheia. Não perseguiu nem detratou. Soube ser como os homens tradicionais de sua terra, leal no momento da derrota, como fora herói no momento do triunfo.

A alguém estendeu ele a mão afetuosa e tutelar, tornando assim mais odioso o triunfo da pilhagem que no outro lado era feito, numa grasnadeira de artigos de código, dilacerando para sempre inteligências e caracteres.

Eleito diretor da Praça do Comércio, confirmou toda sua sagacidade e critério nas altas relações comerciais; como diretor da Companhia Carris de Ferro, tornou-se um esteio da empresa, a sua faísca vital, o seu mais enérgico propulsor.
Foi um espírito sempre dedicado ao progresso e sua generosidade jamais conheceu pavilhões nem fronteiras. Todas as desgraças ou misérias encontravam em Luiz de Mattos um consolador ou salvador.

Ele e Santos Pereira fizeram de Santos o asilo dos escravos, fizeram ali a cidadela inexpugnável dos foragidos.

À frente de instituições beneficentes e literárias, não mediu sacrifícios nem poupou haveres para socorrer os que sofriam e enaltecer os homens de saber e de valor patriótico.

E como homenagem à memória de dois grandes nomes, vamos transcrever a dedicatória que Julio Ribeiro, o grande latinista e gramaticista, pos na sua obra “A Carne”, oferecida a Luiz de Mattos:

“Luiz,

No sertão bravio do oeste paulista muita vez caminha o caçador léguas e léguas sem encontrar água por entre matas seculares; rompendo cipoadas e taquarais e sobe ele aos cumes da morraria, desce aos algares e, com a garganta em brasa, com a língua a pegar-se, o paladar abatido, quase a morrer, procura a fonte em que se desaltere... e nada! Sempre a exaustação do solo, sempre a aridez do terreno, sempre a tortura da sede! De súbito, ao voltar o talude de uma barroca, surpreende-o uma sensação de voluptuosa frescura, ouve o murmúrio grato de água que gorbulha...

Desce açodado, chega ao fundo, afasta as folhas largas lustrosas do Coa-etê, debruça-se e bebe a fartar...

A vida é assim – um deserto sem água: De raro, o lutador sequioso de afetos, se depara um sentimento bom, uma amizade sincera, verdadeira, uma amizade como a tua Luiz, fonte de vida e areais quase de todo esterilizados pelo egoísmo e pela descrença...

Achei-a, deixa que beba!

Em muita página deste livro eu escrevi sem rebuço o que pensei e da forma que o senti: aceita, é a parte mais nobre, é o espírito de Julio Ribeiro”.

Como ledes, caro leitor, a alma de Luiz de Mattos foi sempre ancoradouro seguro para toda nave acossada pela tempestade. Navegante que ali aportasse, salvava-se sempre!

Julio Ribeiro faleceu na casa de Luiz de Mattos, no seu leito, cercado de todo conforto, daquele afeto próprio do homem que já vos pintamos. Foi naquele ancoradouro de pura e elevada amizade que Julio Ribeiro foi ancorar para, sem outras saudades que não fossem as de Luiz, ver-se partir para fora deste mundo.

Eram duas almas que se entendiam, uma confidente da outra.

A casa de Luiz de Mattos esteve sempre aberta aos seus amigos, embora alguns fossem bem pouco dignos dessa palavra “amigo”.

Muitos foram os ingratos a explorar sua amizade, mas, apesar de tudo, o que seus lábios pronunciavam com maior dificuldade era a palavra não. Ao seu maior inimigo, já por ele reconhecido, não sabia dizer não.

Desprendido ao extremo das coisas deste mundo, muitos apodavam-no de perdulário e visionário, entretanto, não havia quem o visse fora dos seus negócios senão em casa com a sua família. Vivia para esta e para o trabalho, e mais tarde, em 1910, passou a viver para a humanidade, fundando com outro homem de inigualável valor, o Racionalismo Cristão, codificado nos princípios doutrinários que tornaram imortal a Jesus, o Cristo: “ Amor ao próximo e à Verdade”. “O que fizerdes serás. Como pensares assim receberás”.

Ensinando o homem a conhecer-se a si mesmo como Força e Matéria, que é a composição do Universo, e que nada mais há além desses dois elementos, explicou-lhe como conceber o Criador de tudo dentro desse elemento Força, razão pela qual todas as leis espirituais são naturais e imutáveis e não podem ser revogadas, de nada valendo os rogos ou apelos seja de quem for, porque nem ele próprio as pode revogar ou alterar, e se pudesse conceber um Deus com tal poder, seria enganar a humanidade.

Criando as leis da vida, o Criador de tudo deixa antever àqueles que pensam e raciocinam que tudo se move por uma força imperceptível, e que a tempestade como a bonança são o cumprimento da lei da evolução.

À marcha progressiva do planeta e do espírito humano não há esse que possa por embargos. Luiz de Mattos, seguindo as pegadas do Nazareno, semeou a verdade por toda a parte.

Nesta tribuna, sua pena esteve sempre ao serviço das boas causas. Dos maldosos e intrigantes não poude ele fugir, tal qual se deu com Cristo, entretanto, não haverá quem seja capaz de dizer que sua pena algum dia se colocasse ao serviço mercenário de governos e políticos.

Defendeu sempre os humildes e esclarecia com altivez a todos que julgasse estarem elaborando em erro, fossem eles Chefes da Nação, Ministros, Congressistas, Juízes, Clérigos, Militares ou Civis.

Fidalgo no trato era por vezes causticante no escrever, mas sua alma não aninhava a menor parcela de ódio para com seus contendores.

Era dos jornalistas que quando tinha que verberar alguém, dava-lhe colunas francas no seu jornal “A Razão” para se defender.

E vale a pena citar a belíssima polêmica doutrinária havida entre ele e o Dr. Álvaro Reis, o Chefe do Protestantismo no Brasil. Cada um defendendo as suas teorias doutrinárias, Luiz de Mattos aceitava argumentos bíblicos de Álvaro Reis, dando-lhes publicidade graciosa na “A Razão” e sem lhes alterar uma só vírgula. Discutiam como dois duelistas fidalgos no campo de ataque, mas dali saídos, onde se encontravam, abraçavam-se como dois bons amigos, o que foi por nós presenciado mais de uma vez.

Luiz de Mattos tinha o porte de guerreiro, mas possuía alma de criança.

Amigo incondicional de Patrocínio e dos maiores republicanos paulistas, viveu sempre acatado e respeitado por Prudente de Morais, Campos Sales, F. Glicério, Rodrigues Alves, Jorge Tibiriçá, Paulo Queiroz e Bernardino de Campos.

Na sua casa em Santos, refugiaram-se alguns dos cabeças da revolução de 1893. Ele chegou a ser desafeto de Floriano, por haver este mandado prender seu irmão, Dr. Manoel Lavrador Mattos Chaves. Este, como Luiz de Mattos estava em Saldanha da Gama.

Mas o que havia a admirar em Luiz de Mattos era a simplicidade e a bondade; tanto dispensava atenção aos grandes, como aos humildes; sua mão nunca foi recusada aos seus criados ou ao mais humilde cidadão. Foi um homem fora do comum, e para bem julgá-lo era preciso conhecê-lo de perto.

Para se lhe conhecer das suas entesouradas virtudes, era preciso chegar a conquistar-lhe a intimidade, mas isso conseguido ficava-se tendo por ele uma estima veneradora, um afeto que tem de ser admirativo e eterno para bem envolver e louvar um espírito, como foi o dele, semeador de tanto Bem, e o maior cultivador da Verdade!


12 - NOSSO FUNDADOR
Emir Nunes de Oliveira

VI

Luiz de Mattos, fino observador e psicólogo, quis examinar o advogado incipiente que lhe apresentavam e durante mais de uma hora, fez em meio de uma conversa aparentemente despreocupada, mas, sobretudo amável, um verdadeiro exame de testes. Nesse tempo ainda não se falava no Brasil nessa espécie de aferição de conhecimentos, porém tantos e variados foram os assuntos por ele abordados, hábil e extensamente, que não tenho dúvida em afirmá-lo, o Comendador examinou-me como senhor dos mais modernos métodos pedagógicos, porém também deixou-se examinar...e que belo espírito então se me revelou!

Possuidor de uma cultura notável sobre os mais diversos ramos de conhecimentos, versado em medicina e história, verdadeiro iniciado em religião e filosofia; sabedor de estudos modernos sobre quantas curiosidades científicas capazes de prender o espírito humano, entrevi então o verdadeiro Comendador Luiz José de Mattos e pude verificar a razão porque homem tão discutido e caluniado, podia atrair tantos discípulos dedicados e fiéis... Mas não foi só.

O homem de métodos demagógicos, combativo, intemerato e impulsivo, descobriu-se aos meus olhos, e vi o homem sociável, o espírito fino, o “causeur” admirável, o “gentleman”, enfim o aristocrático e bondoso Luiz de Mattos, que apenas os íntimos conheciam! Compreendi também porque o homem que fazia discípulos, os convertia em amigos e prosélitos!

Guardo de todos os encontros e palestras com Luiz José de Mattos as mais gratas impressões. Vejo-o através de reminiscências da juventude, dedicado a uma causa, como advogado habilíssimo, usar dos processos convinháveis ao momento. Em meio ao marasmo de então, quando ainda esse sensacionalismo condenável de imprensa não estava em moda, ei-lo, fazendo imprensa excepcional e inteligente, sacudindo a sociedade de então, obrigando até seus opositores a comprarem-lhe o jornal...

Não lhes queria Luiz de Mattos o níquel, mas atacando ídolos e personalidades, apontando defeitos, corrigindo erros, obrigava seus adversários a lerem seus escritos e esse era seu desejo, porque, repetia sempre, queria que os homens raciocinassem, mesmo contra a própria vontade.

O método original que empregou, teve seus resultados e nunca mais o nome do Comendador Mattos, que passou pela imprensa como um furacão, foi esquecido. Nem ele, nem suas doutrinas e idéias!


13 - LUIZ DE MATTOS
Transcrito da “A Razão” de 15 de janeiro de 1940.

VII

Hoje comemora-se mais um aniversario da desencarnação de Luiz de Mattos.

Não vamos aqui fazer um esboço de sua síntese biográfica porque seria repisar um assunto que é sobejamente conhecido, especialmente por aqueles que militam nas fileiras do Racionalismo Cristão ou mesmo que dele sejam simples adeptos. Os primeiros têm por obrigação conhecer a fundo a obra grandiosa e de extraordinário alcance moral que Luiz de Mattos realizou; os segundos, só a desconhecerão se forem literalmente indolentes ou pouco desejosos de adquirir conhecimentos cada vez mais amplos, pois as obras por ele escritas aí estão ao alcance até das inteligências menos desenvolvidas, em cujas páginas ficou estereotipado o perfil moral desse vulto insigne de doutrinador e moralista, com dados biográficos que para esclarecimento dos interessados foram apensos a guisa de introdução em muitas delas.

 Luiz de Mattos impôs-se a toda uma época, e sua obra foi de tal envergadura e jaez que perdurará através dos séculos, a despeito de todos os esforços que se façam para empanar-lhe o brilho, ou deturpar-lhe o sentido.

E essa circunstância, especialmente, é que vem dar um índice insofismável de que ele foi um instrumento preciso para levar a efeito uma incumbência que trazia lá dos paramos da espiritualidade, do mundo de luz donde viera.

Há quem diga que Luiz de Mattos fundará uma religião; nada mais falso nem capcioso. No Espaço Superior não há lugar para religiosidades, portanto, não há motivo para se criar aqui o que lá não se admite. Não existe um espírito capaz de arquitetar edifício de tão gigantescas proporções, a não ser que traga do Além, todos os planos delineados nessas Escolas Superiores do Infinito, onde a Ciência é uma afirmativa categórica e uma verdade concreta isenta de injunções vaidosas.

E partindo desse enunciado, qualquer pessoa de bom senso reconhecerá que a obra de Luiz de Mattos levou a cabo é a condensação das Verdades Superiores, Leis Eternas, portanto, de cuja execussão foi ele o encarregado.

Se essas Leis já existiam, como de fato existiam desde todo o sempre, tendo ele sido apenas o explanador delas e seu coordenador, partir-se daí para a conclusão cavilosa de que ele fundara uma seita ou uma religião, torna-se um atestado vivo de ignorância ou de insânia.

Fosse o Racionalismo Cristão a obra e concepção de um homem, e teria Luiz de Mattos sucumbido dentro de poucos anos ao peso das lutas sem tréguas que teve que enfrentar.

Não sucumbiu porque não era uma concepção humana; era uma verdade eterna, e como tudo que é eterno nunca tem fim, também o Racionalismo Cristão perdurará vitoriosamente irradiando cada vez mais a sua ação regeneradora da humanidade.


Dentro destas observações admitir-se que Luiz de Mattos tenha fundado uma religião, é tão infantil que nem merece comentários.

O que se torna necessário compreender é a natureza do trabalho que ele teve de fazer, para chegar ao fim de suas atribuições.

Tendo chegado ao Espiritismo quando menos esperava, aprofundou-se nele com aquela capacidade de observação meticulosa que lhe era tão peculiar.

Os postulados kardecianos revelaram-lhe logo falhas e incoerências.

Essa constatação, que hoje quase já é do domínio público, foi para Luiz de Mattos o ponto de partida da tarefa a que se entregou.

Luiz de Mattos nada aproveitou do Espiritismo Evangélico e abriu horizontes novos àqueles que querem caminhar de cabeça erguida, cientes de onde vem e para onde vão, sem injunções religiosas de espécie alguma, nem necessidade de bater no peito ou rezar pelas esquinas para atingir a etapa final que é a perfeição absoluta, conseguido á custa de muita aprendizagem, muito esforço próprio e muito mérito adquirido no trabalho constante.

Luiz de Mattos, firmando no planeta sua obra de gigante, construiu para a humanidade o arcabouço de uma estrutura espiritualista, que não se baseia em cousa alguma do que já existiu, e que há de produzir no mundo um movimento renovador de tão extraordinária projeção, que todos os hábitos e costumes dos seres humanos hão de traduzir a essência dos elevados conhecimentos da Verdade.


14 - LUIZ DE MATTOS
Othon Ewaldo
Transcrito d’A Razão de 15 de janeiro de 1953

VIII

Há precisamente vinte e sete anos, em 15 de janeiro de 1926, desaparecia dentre os vivos o nosso inolvidável fundador – Luiz de Mattos.

Homem idealista, sua vida foi uma sequência de trabalhos e lutas, principalmente, quando, aos 50 anos de idade, lançou-se à explanação dos princípios racionalistas por ele codificados.

Espírito empreendedor e entusiasta, em breve já não o satisfaziam os livros que escrevia, as conferencias que realizava, as doutrinações públicas feitas, três vezes na semana, na instituição que presidia e, rodeado por um pequeno grupo de fieis discípulos, fundava “A Razão” cujas colunas franqueava aos contraditores de suas idéias espiritualistas porque, visceralmente democrata e liberal, não as pretendia impor a ninguém, antes debatê-las em público, certo como estava de ser esta a melhor maneira de disseminá-las entre todos.

Enquanto, ainda hoje poucos são os jornais que acolhem em suas seções religiosas, noticias relativas às diversas seitas professadas no país, Luiz de Mattos, há mais de 30 anos atrás, as analisava desassombradamente em suas “Notas”, que escrevia diariamente, criticando dogmas e preceitos, exorcismos e superstições, à luz da ciência e da razão.

As idéias de independência e de liberdade de pensamento sobrepunham-se a quaisquer outras na orientação que imprimiu, desde o primeiro número, a este jornal, e daí o ter sido A RAZÃO, naquela ocasião, um dos diários mais prestigiosos e lidos do país.

De fato, ninguém combateu mais os vícios, ninguém pugnou mais pela ordem e moralidade públicas, ninguém carregou mais a fundo contra os maus administradores, ninguém bateu-se mais – já naquela época – pela implantação de uma assistência social adiantada entre nós, do que a pena fulgurante do grande defensor dos humildes, das desigualdades e dos desajustamentos sociais.

Naquele tempo, em que os anarquistas, como eram chamados pela ignorância popular os inimigos da ordem, faziam explodir suas bombas de dinamite em 1° de maio e noutras grandes datas nacionais, Luiz de Mattos, com o seu verbo enérgico, mas persuasivo, mostrava ao operariado nacional que só a compreensão mútua constrói, e que a obtenção de maiores proventos para o sustento da família pode ser facilitada pelo desenvolvimento de aptidões, pela melhor habilitação ao ofício, pelo aperfeiçoamento de métodos de serviço, pela dedicação e assiduidade ao trabalho que, tornando o operário hábil, eficiente e orgulhoso de sua profissão, o habilitem à conquista de melhor remuneração.

Era, assim, a sua aspiração máxima, o seu grande desejo, aquele que sempre o animou em toda a existência de lutas e canseiras, o esclarecimento e a orientação de seu semelhante para uma vida melhor.

Apesar do acolhimento caloroso tributado até hoje às idéias pregadas por Luiz de Mattos, houve, também, naquela época quem se sentisse ferido em suas intenções, quem o não quisesse compreender bem ou quem os interesses inconfessáveis obrigassem a uma falsa interpretação das atitudes de Luiz de Mattos, mas a obra deixada pelo grande lutador mostra e comprova aos estudiosos de hoje a robustez de seu talento, o desassombro de suas campanhas e a sinceridade de suas convicções espiritualistas.

Por tudo isso, não admira que aquele pequeno grupo que o rodeava a principio, tivesse aumentado e se transformado hoje em uma legião.

Legião de discípulos de suas idéias, de seguidores de seus exemplos, de estudiosos de seus princípios, dispostos a renúncias e sacrifícios pelo engrandecimento e divulgação desses postulados de elevada moral, amor ao trabalho e veneração a Justiça.

Neste momento, ergue-se a Rua Jorge Rudge, em Vila Isabel, a sede definitiva do Racionalismo Cristão, nesta Capital, numa demonstração de desprendimento e admiração dos discípulos de Luiz de Mattos à sua obra imperecível.

Em breve, o monumental edifício abrigará as multidões ávidas de conhecimentos, sequiosas de orientação, carecedoras de estímulos e encorajamento para a continuação da dramática jornada terrena.

E naqueles momentos de concentração espontânea, de criatura de boa vontade, quando os desentendimentos e divergências são olvidados, e os espíritos se elevam acima das misérias e paixões deste mundo, pairará sobre as multidões sofredoras o refrigério sublime que consola e anima da obra deixada por Luiz de Mattos.


15 - LUIZ DE MATTOS
Transcrito de “A Razão” de 15 de fevereiro de 1939

IX

Se pudéssemos admitir, mesmo como tese empírica em consubsistente, o princípio da redenção dos seres, tal como concebem e preconizam credos e seitas religiosas, poderíamos também que Luiz José de Mattos fora um redentor.

Se não foi imolado numa cruz, como nos diz uma lenda – com verdade ou sem ela – que aconteceu a Jesus, para redimir com seu sacrifício a humanidade (absurdo inadmissível), concorreu também Luiz de Mattos para coisa mais elevada e transcendente: explanou e desenvolveu, provando, a tese da auto-redenção da criatura, pelo próprio trabalho e esforço, aperfeiçoando-se cada vez mais.

E é inegável que esta verdade é bem mais nobre, dignificante e racional do que a hipótese incoerente da salvação à custa alheia.

Luiz de Mattos, consubstanciado em demonstrações teóricas e práticas e intercambio dos planos terreno e espiritual, evidenciou que os mortos comunicando-se com os vivos, para usar a linguagem trivial, parece rebentarem as pedras frias dos seus túmulos para virem afirmar para aos que ainda cá estão que para o além da campa existe uma vida mais intensa e vibrante do que estes míseros dias aqui passados, e durante os quais as criaturas de tanto orgulho e ambição se deixam possuir nas futilidades da vida cotidiana.

Estabelece-se desta forma uma comunicação perfeita entre os encarnados e desencarnados e é com este ensino e esclarecimentos que uma grande multidão de criaturas vai diariamente abrindo os olhos para a luz, talvez a medo, a princípio devido a preconceitos ainda não postos à margem, mais com altivez e desassombro depois, dada a convicção firme adquirida no livre-raciocínio e reflexão; e assim orientados os seres, dentro do racionalismo, com clareza, com absoluta certeza do terreno que pisam, ouvem a voz do além, por ela se guiando em relação a existência presente neste planeta.

Desta forma desaparece a solução de continuidade aparente, porque os dois planos da vida se completam, vindo os de lá trazer-nos a todos, esclarecimentos, lições profundas cuja análise e estudo nos fazem caminhar mais resolutos nesta estrada que, embora pedregosa e longa, há de levar-nos ao objetivo colimado, pelo próprio aperfeiçoamento na escala contínua da dor que é o cadinho da depuração das almas.

Daí resulta que os já emancipados e livres das algemas da superstição não podem, não devem ouvir falar de Luiz de Mattos sem se sentirem felizes e gratos pela obra de que ele foi o instrumento para uma realização integral: - a explanação da verdade confortadora e elucidante.

E isto é o que há de mais lógico e natural.

Por todos esses motivos a sessão cívica que todos os anos se realiza, comemorando o aniversário de desencarnação do grande codificador do racionalismo, é uma razão para que milhares de criaturas compareçam para ouvir palavras repassadas de convicção e certeza, externando sentimentos de reconhecimentos àquele que a despeito dos rugidos mais ameaçadores teve a coragem de acender o facho luminoso da Verdade.

Perpetua-se assim a vida e a obra de Luiz de Mattos, relembrando-a sempre dentro dos rigores de uma exatidão absoluta; doutra forma com o decorrer dos tempos não lhe faltariam talvez enxertos espúrios ou deturpações sensíveis reduzindo a personalidade dele mais tarde às proporções de uma entidade mitológica ou lendária.

É certo que o trabalho realizado por Luiz de Mattos se encontra condensado em livros e escritos vários que correm mundo, mais também é uma dolorosa verdade que mesmo no seio dos que já abraçaram o racionalismo existe uma considerável percentagem de criaturas que não se dedicam a leitura e estudo das obras doutrinárias fundamentais.


16 - UM HOMEM QUE É UM SÍMBOLO
Gervásio Viana Junior

X

Quando nos perdemos na bruma dos tempos, e assistimos ao combate, à luta titânica e ingente contra o materialismo obsedante e contra o obscurantismo intolerante das falsas religiões, organizadas em sistemas perigosos de exploração, e que, no torvelinho de loucas paixões sectárias, tem dividido a humanidade em católicos romanos, protestantes, evangelistas, maometanos, bíblicos e budistas, etc., tal qual a malfadada política cria socialistas, bolchevistas ou anarquistas... e fascistas, mais e mais se firma o valor intrínseco e a envergadura moral dos indivíduos, que através das vicissitudes da vida, e desprendidos de si, pugnaram sempre pela Verdade, proclamando-a bem alto, a despeito da intriguinha vil, dos insultos, da perseguição acintosa, e ameaças odiosas da “turba multa”, que ergue na noite da ignorância seus castelos mais maquiavélicos, alicerçados sobre uma longa esteira de monstruosidade sem par.

Cristo, combatendo o erro e o vício, erguendo Templos à Virtude, à sabedoria, lecionando à humanidade os “Racionais Princípios” da vida, condensados na Verdade, na Justiça, no Amor, e na simplicidade, e amparados pela razão equitativa da própria consciência individual, é apupado e apedrejado pela massa anônima e irresponsável do povo, a mesma que meses antes, o ovacionava, ao escutar-lhe as sábias lições, repletas de uma democracia fina, as quais não permitiam diferenciações humilhantes de classes, de raças, ou de categorias, porque no evolucionar lógico desses mesmos Princípios, todos éramos iguais perante as leis da Natureza; ricos ou pobres, escravos ou senhores, sábios e ignorantes, pretos, amarelos, brancos ou vermelhos sem distinções de espécie alguma, tínhamos – como temos, - a mesma fonte de origem e as mesmas responsabilidades na vida! – “Ama o próximo como a ti mesmo... Não deseja a outrem, aquilo que não desejarias para ti... Desculpa teu inimigo”...

Sublimes ensinamentos, que a ferocidade humana pregou com a morte mais ignominiosa e infame!

O ouro dos magnatas e a astúcia dos sacerdotes farisaicos, que viam os seus interesses abalados e reduzidos a nulidade, sem a máscara hipócrita do convencionalismo dogmático e das falsas frases, rebuscadas nos alfarrábios bolorentos das velhas escrituras, condenaram-no à morte entre dois bandidos, como o mais ínfimo dos homens.

Sócrates, firmado também em “Princípios” racionais da vida, esclarecendo os ignorantes sobre o destino da humanidade, é condenado sob a acusação torpe de perverter a mocidade e de atentar contra a moral constituída, e entre a turba vil do povo iguáro é obrigado a envenenar-se, tomando cicuta, sem, contudo abdicar de suas convicções espiritualistas. Lição edificante de valor, que se firmará pela vida fora, como um exemplo digno de ser seguido!

O homem que tomba no campo da luta em prol de um ideal elevado, é merecedor de admiração e respeito; consagra-o a própria abnegação, que o eleva naturalmente ao maior pedestal de glória, sem a conspurcação muitas vezes de longos e fastidiosos discursos, mastigados por meia dúzia de hipócritas... É que a luta, di-lo um dos grandes filósofos italianos, eleva o homem, ainda que a batalha não seja coroada pela vitória, e só é desprezível quem foge ao combate, dando-se por vencido antes de se bater.

Muitos foram os Apóstolos que tombaram em prol da Verdade, sendo que alguns, não obstante a perseguição feroz dos sectários da treva, dos que tripudiaram sempre à sombra da ignorância do povo, - até viram seus corpos aniquilados, e lambidos pela voracidade das chamas, de uma fogueira acesa pelos supostos representantes de Cristo na Terra, o meigo Nazareno das criancinhas, que recomendava nunca desejarmos aos outros, o que não desejaríamos para nós, e que queria toda a humanidade congregada numa só Família, tendo por única Pátria o Universo!

Mas, a Verdade flutua sempre; nunca a treva poude sobrepor-se à luz; e é partindo desse ponto de vista consolador, que embora isoladamente vemos por vezes surgir no tablado da vida outros gigantes, com novos programas de combate, assombrando o Mundo inteiro.

Luiz José de Mattos, erguendo-se em meio de desencontradas correntes filosóficas, é um desses gigantes, que restabelece a ordem.

Eleva-se pelas suas virtudes cívicas e morais, à culminância de um valor justo e merecido, pela Obra imorredoura que cria. Em pleno século XX, o chamado século das luzes, invectiva o mundo cientifico; escalpela com o bisturi da Verdade, todas as teorias balofas que se esfarelam. Reputa o mundo pensante, e convida aos cientistas, aos filósofos, aos representantes das religiões espalhadas pelo Orbe que com ele discutam porque, - afirma e prova, - andam todos fora da verdadeira ciência!

A sua Doutrina consubstanciam-se nas naturais leis do Universo; ele define a “Força e Matéria”, de uma forma tão simples e intuitiva, como nenhum sábio conseguia fazer; Luiz de Mattos, o homem universal, que simboliza o Valor e a Honra, projeta com o “Racionalismo Cientifico” poderosíssimos fachos de luz, que iluminam as almas encarnadas, até então subjugadas pelo dogma e pelas mentiras convencionais das falsas religiões.

Extraordinário homem, que se fixa no Tempo e no Espaço, através de gerações e gerações...

A influência de Luiz de Mattos sente-a a gente ao manusear-lhe sua Obra, na qual a par de lições verdadeiramente científicas, sobre o Universo e suas leis, encontramos salutares ensinamentos de moral, que num futuro muito próximo, quando a humanidade estiver toda integrada nos Racionais Princípios da sua Doutrina, trarão uma grande revolução de costumes na vida dos indivíduos.

Em “Cientistas sem Ciência”, a obra que reputo de maior importância para os estudiosos e investigadores da Verdade, depois de “A Vida Fora da Matéria”, essas lições estendem-se, abraçam todo o campo intelectual, numa profusão de conhecimentos literário-científicos que empolgam, sentindo-se em suas páginas o gênio luminoso do grande fundador do “Racionalismo Cristão”, em fortes reverberações.

À medida que os anos no seu longo e ininterrupto caminhar forem tombando no abismo incomensurável das coisas passadas, melhor será compreendida a Obra desse gigante intelectual, que constituirá através das gerações de todos os tempos o padrão milenário do maior patrimônio da humanidade.

Em meu espírito, a admiração pelo Mestre é profunda; e essa admiração que cresce, se avoluma e agiganta de dia para dia, contribui para que eu, obscuro discípulo, formule deste longínquo recanto de África, os votos mais sinceros, para que a “Doutrina” e a “Obra” do Mestre prossigam sem desfalecimentos.


17 - LUIZ DE MATTOS
Othon Ewaldo

XI

Viver não é apenas a luta pelo pão de cada dia. O espírito é um diamante que precisa ser lapidado. Felizes são aqueles que conseguem, numa geração, faze-lo brilhar em cintilações de inteligência, que se concretizam em obras ou feitos imorredouros.

- E o que esta centelha imortal produz, às vezes, dentro da transitoriedade duma vida terrena?

As melodias dum Carlos Gomes, as telas dum Antonio Parreiras, as páginas dum Euclides da Cunha, de puro deleite espiritual, ou as realizações dum Santos Dumont, ou ainda a obra profundamente humana dum Osvaldo Cruz ou dum Rio Branco, imperecíveis pelos exemplos ou benefícios que prodigalizam às gerações vindouras.

E é essa marcha ascensional, nesse espargir de mercês e renuncias que ele se encaminha para a perfeição. O rastro de estrelas que deixa á sua passagem, servirá de roteiro luminoso aos outros, aos que precisam de estímulo e amparo para o despertar da consciência do que são e para onde vão.

Luiz de Mattos, na Terra, foi o garimpeiro desses diamantes. Trabalhador infatigável recolhia-os a todos, desde os carbonatos em bruto à pedrinha modesta, já irisada de figurações fugidias. Iludido sim, algumas vezes pelo falso brilho de alguns que sua batedeira arrebatava. E mesmo assim não os abandonava à torrente da vida que continuava passando...

Mas que alegria sentia ao vislumbrar, por um momento, a cintilação verdadeira na alma adulta, num anseio espiritual de ser diamente um dia! Por esse instante de ventura sentia-se recompensado dos trabalhos e canseiras de sua vida de lutas!

E acolhia-a com carinho, libertava-a dos seixos, polia suas arestas, lapidava-a com amor...

Garimpeiro de espíritos, incansável no labor de cada sol, ao fim duma existência terrena, a ultima, legava-nos Luiz de Mattos esta jóia inestimável que é o Racionalismo Cristão, que ele não burilou para ser admirada apenas, mas sentida nas suas fulgurações à luz da Ciência dos que trilham rotas sombrias e sem esperanças dum provir melhor.


18 - PREITO DE GRATIDÃO E SAUDADE

Homenageada a memória do nosso fundador –
Inauguradas as placas da Rua Luiz de Mattos – Os discursos proferidos

Transcrito d’”A Razão” de 15 de janeiro de 1952.

XII

A 24 de setembro de 1950, realizou-se a cerimônia da inauguração das novas placas da Rua Luiz de Mattos, em Niterói, a ela comparecendo grande número de pessoas gradas.

O ato, que teve caráter festivo, foi iniciado com o discurso do morador local, Sr. Nelson Ebrene, que agradeceu a presença do Prefeito de Niterói, representado pelo Vereador, Sr, Álvaro Caetano de Oliveira e interpretou o júbilo dos moradores do bairro pela honra de verem inscrito numa de suas ruas o nome do grande lutador pelas causa populares que foi Luiz de Mattos.

Refere-se às campanhas empreendidas por esse jornalista n’A Razão, em prol dos humildes e sempre visando o bem da Pátria, mas acrescenta que sua personalidade invulgar apresenta ainda as características do verdadeiro filantropo, fundando o Centro Redentor para a explanação do Racionalismo Cristão, que tanto tem concorrido para o esclarecimento da humanidade.

Demora-se analisando o atrazo em que permanecemos sob o guante dos preconceitos religiosos, explorada a classe iletrada pela superstição, que a leva a procurar nas cartomantes, adivinhos e guias de toda a espécie, o amparo, a proteção, o auxílio, o arrimo, para os males que sua ignorância não permite contornar quanto mais evitar.

Por tudo isso, reputa mui justo o ato do governo municipal dando o nome de Luiz de Mattos àquela rua, congratulando-se com os moradores locais pelo auspicioso evento.

Cessados os aplausos a esse discurso, usou da palavra o ilustre engenheiro Luiz de Souza que proferiu o seguinte discurso.

“Nesta solenidade em que se inaugura uma placa municipal com o nome de “Luiz de Mattos”, neste logradouro público de Niterói, coube-me a agradável incumbência de representar a família ilustre de Antonio do Nascimento Cottas, a que estou ligado por laços de grande amizade.

Representando-a nesta oportunidade, por se encontrar ela, presentemente, em viagem pela Europa. São componentes dessa respeitável família, o seu ilustre genro, cujo nome venerável proferi, e sua digníssima esposa, a virtuosa escritora D. Maria Cottas, filha desse eminente vulto da nossa história, cujo nome reluz nesta placa, as netas deste e seus bisnetos. Todo um grupo descendente de um passado nobre, que constrói um presente devotado ao bem comum, e que prepara um futuro em harmonia com os supremos ideais humanos de liberdade e independência.

Luiz de Mattos Chaves Lavrador, ou apenas Luiz de Mattos como era por todos conhecido, legou a seus familiares, sobre quem influía, os exemplos mais alevantados de amor ao trabalho, de retidão moral, de dignidade pessoal e de liberdade.

Subtraiu de seu nome a classificação de “Chaves” e “Lavrador”, designativos que lembravam a sua origem de nobreza, de Casas Fidalgas portuguesas e espanholas, para ser apenas Luiz de Mattos, em consonância com a sua alma simples e humana, inteiramente devotada aos interesses dos humildes.

Luiz de Mattos foi um gigante aos olhos do povo. Sempre ao lado das causas justas, não poupava esforços, nem sacrifícios, para alcançar os objetivos que minorassem o sofrimento alheio. Desinteressado de postos, posições ou cargos de evidência, não quis ingressar nas alas do Poder Legislativo do país, resistindo a instâncias de seus amigos, que o queriam fazer Deputado, para dedicar-se ao viver comum de homem do povo, despretensiosamente, à custa de sua pena de jornalista, que soube vibrar como poucos, graças aos seus excepcionais recursos de inteligência, discernimento e equilíbrio.

Foi ele um dos mais ardorosos abolicionistas da época, e ao lado de seus amigos imperecíveis José do Patrocínio, Julio Ribeiro, Francisco Glicério, Campos Sales, Bernardino de Campos, Luiz Gama e outros, participou gloriosamente, dessa imortal campanha cívica, das mais memoráveis, dentre as que se feriram, no passado, em nosso solo pátrio. Por ocasião da proclamação da República teve papel destacado, no cenário dos acontecimentos, ao lado dos correligionários de Deodoro, e, não se prevaleceu de coisa alguma, para se beneficiar das valorosas atitudes assumidas. O seu ideal resumia-se em ver vitoriosa uma causa que lhe pareceu a melhor para o bem do Brasil, não lhe passando, nunca, pela mente, o propósito de colher para si, vantagens de qualquer espécie, em troca dos gestos decisivos de sua ação patriótica.

Benemérito por índole, de quanto dava, não queria que se fizesse alarde, mas os beneficiados não se podiam conter, e assim, numerosos feitos humanitários vieram à tona e se tornaram públicos. Homem de recursos foi sócio benfeitor de várias associações de caráter altruístico. Grandes porções de seus haveres ele as distribui com os necessitados. Não resistia à dor de assistir o sofrimento alheio, sem que, não se movesse, prontamente, com o fim de aliviar o aflito; tudo quanto tivesse em mãos, ia em socorro imediato; não poucas vezes voltava ao lar, sem um real nas algibeiras, mas com a alma transbordante de alegria, por haver propiciado benefícios. Na sua alma não se aninhava rancor. Teve desilusões, e grandes; foi muitas vezes traído e ludibriado, mas soube desculpar e esquecer.

Cavalheiro, educado, estudioso, letrado, revelou-se um hábil e esclarecido conselheiro em tosos os transes difíceis por que atravessara o país, nos seus dias, tormentosos, Oliveira Botelho, Hermes da Fonseca, Ruy Barbosa e Epitácio Pessoa conheceram-lhe o valor dos sábios conselhos ou das acertadas previsões.

Luiz de Mattos contribuiu, com vigorosa parcela, para enriquecer as páginas de ouro da nossa história. A sua memória é evocada, pelos que conhecem a sua passagem luminosa pela Terra, com admiração profunda e não menor respeito. A sua vida foi um repositório farto de exemplos edificantes. A sua conduta, sempre firme e corajosa, valia como barreiras contra qualquer opressão. Aqueles que viviam do suor do rosto, em esforço braçal, encontravam, nesse defensor, a segurança de um apoio que não faltava. Era, por isso, quase venerado nos meios populares dos homens de trabalho rude. A sua lembrança não se apagará jamais. E ainda neste instante estamos dando corpo a essa afirmativa.

Em nome dos descendentes de Luiz de Mattos, congregados em torno de Nascimento Cottas, eu apresento as mais sinceras saudações e expressões de agradecimento, a todos aqueles que colaboraram, e mui especialmente ao ilustre Vereador Sr. Álvaro Caetano de Oliveira, para que hoje, neste recanto de Niterói, pudéssemos, elevando os olhos, ver eternizada, numa placa de metal, o nome augusto de um homem simples, cidadão emérito, símbolo da bondade e da grandeza de um povo.

Finalmente, discursou o Vereador Sr. Álvaro Caetano de Oliveira que assinalou a feliz coincidência de ter como Presidente da Câmara Municipal, homologado a deliberação daquela Assembléia, em homenagear a memória de Luiz de Mattos, e de estar, neste momento, representando o Chefe do Executivo Municipal.

Enaltece a obra deixada por Luiz de Mattos como jornalista e amigo da sociedade, por cuja melhoria cultural sempre se bateu.

Fala da necessidade, cada vez maior, nesta época de egoísmos e isolamentos, de chamar-se à atenção da nova geração para aqueles que dedicaram suas vidas à solidariedade e compreensões mútuas, apontando-os como exemplos a serem seguidos, e perora sentindo-se satisfeito pela participação que o destino lhe reservou, da injustiça em que incorria o poder público em reconhecer e proclamar os méritos de tão preclaro cidadão.

Findos os aplausos e cumprimentos trocados entre os presentes foi encerrada a cerimônia, que teve grande repercussão no pitoresco bairro da vizinha cidade.

19 - LUIZ ALVES THOMAZ
Antonio do Nascimento Cottas

I

Contamos hoje cinco anos que a inolvidável Alma de Luiz Alves Thomaz deixou o convívio entre os mortais, para ascender ao seu mundo de luz e amor e viver entre os imortais.

Entre os imortais!...

Ali tudo deve ser diferente do que se vê neste mundo, onde o espírito desce contrafeito, porque vem sofrer e sabe que precisa sofrer para o seu próprio bem e do dos outros. Espíritos há que vem à Terra para, neste presídio e algemados à matéria que constitui o seu corpo físico, lapidarem a negrura que ainda lhes ofusca o brilho, repararem enfim as faltas cometidas noutras existências; mas há também alguns que não tendo propriamente faltas a resgatar, têm grandes encargos sobre o desenvolvimento moral, espiritual e até material e intelectual das massas, do povo, da humanidade em geral. É sobre estes espíritos que pesa a boa ou má condução duma raça ou de um povo, e por isso sofrem eles muito, mas muito mais do que os outros, que apenas encarnam para evoluir ou depurar-se.

Luiz Thomaz é daqueles que não vieram para responder por determinado povo ou raça, mas, sim, por todos os povos e raças, por todos os encarnados e desencarnados quedados neste mundo; portanto, tornou-se imortal entre os que pensam e vivem neste planeta, como imortal já o era entre aqueles que hoje o circundam com a luz resplandecente do seu mundo.

Essa grande alma, meus amigos, fez vários estágios neste mundo, e, desde remotas eras, exerceu posições de destaque entre os homens. Por certo, antes e depois de Jesus, e com Jesus, esteve sempre ao serviço de causas justas, mas nem de todas as passagens pela Terra poude sair-se bem dos seus encargos, já pela perversão dos homens, meio ambiente em que era forçado a encarnar, já pela falta de preceptores esclarecidos.

Mas, a 4 de agosto de 1871, poude reaparecer neste mundo, saindo fisicamente das entranhas duma mãe humilde mas honesta e valorosa. Serviram-lhe de pais nesta última encarnação a Sra. D. Maria Diniz Alves Thomaz e o Sr. Luiz Alves Thomaz, duas criaturas rústicas, mas possuidoras de caráter impoluto. Nesse lar humilde, mas puro de sentimentos, viu-se crescer, e chegando a menino com o seu caráter caldeado na forja da moral de seus queridos pais, começou a despertar em si o amor pelo trabalho, o desejo de progredir pelo esforço próprio e achando acanhado demais o meio em que vivia, concebeu a idéia de transportar-se para um campo de maior ação, e este seria fora do seu Portugal, mas entre gente ligada pela tradição, raça e espiritualidade a Portugal.

O que a inteligência do menino Luiz ainda desconhecia, sabia-o e sentia-o de sobra o seu espírito, e pedindo aos seus pais para vir para o Brasil e estes anuindo, começava ele a dar desempenho aos encargos morais e materiais para que veio a este planeta.

Aos 14 anos estava Luiz Thomaz no Brasil, em Santos, e aqui se fez homem e se tornou negociante respeitável, fundando a firma Thomaz, Irmão & Cia., uma das mais importantes daquele tempo e da qual ainda hoje há reminiscências.

De negociante chegou a capitalista, proprietário e fazendeiro, crescendo sempre a sua fortuna, à custa do seu labor honrado, e jamais com um real que a outrem pertencesse: o trabalho, a economia, o método, a disciplina, o respeito ao alheio e o bem querer a seu próximo constituíam a sua imaculada divisa de homem honrado.

Aos 40 anos, possuindo fortuna material, podendo viver no fausto, não alterou os seus hábitos de homem bom e simples.

Sentindo-se adoentado e os médicos consultados não acertando com a causa do mal que o entristecia, dominado por certa nostalgia espiritual, começou a pensar em si, na fortuna e na humanidade!

Pode-se dizer: Luiz Thomaz não tinha religião. Por convenção social, assistia às chamadas missas de corpo presente ou por alma de A ou B, mas por convicção religiosa não frequentava igrejas nem festas religiosas, respeitava a crença dos outros qualquer que ela fosse, e cuidava unicamente dos seus deveres morais e materiais. Era bom filho, dedicado irmão, foi bom tio, protegendo sempre seus sobrinhos, era dedicadíssimo amigo, e foi exemplar marido, enaltecendo sempre a sua querida esposa, cujo nome pronunciava sempre com respeito e carinho, embora não fosse homem de pieguices, e sim austero, grave, severo.

Desiludido, pois, dos tratamentos médicos que vinha fazendo, chegou com Luiz de Mattos e outros ao Espiritismo, tratou-se e curou-se, mas ainda não estava satisfeito, a nostalgia permanecia embora o físico tivesse melhorado. 

Com a frequência às sessões foi vindo a luz ao seu espírito e como que despertando de um sonho, começa a compreender a vida por um outro prisma, o foro íntimo acusa-o de que ainda não havia feito nada do que precisava fazer e para o que veio encarnar; as sessões passam a ser feitas em prédio seu mudando-se, portanto, o Centro; estuda conjuntamente com Luiz de Mattos a Doutrina Espírita, vem e sentem que ela é a Verdade prometida por Cristo, tornando-se ambos dois grandes amigos, recebem ordens de Jesus, vindas por mensageiros seus, e que desde há muito esperavam por esse feliz encontro, e eis Luiz Thomaz, não o fanático, mas o convicto, o crente na verdade, na vida fora da matéria, a sentir-se confortado, animado, encorajado para novos empreendimentos, para os quais veio encarnar e soube viver e morrer fisicamente, pois, espiritualmente ele viverá eternamente encarnado na sua majestosa obra, passando à posteridade, de geração em geração, com todo o brilho de sua luminosa alma, refletido para todo sempre no Centro Redentor.

Nele só, não! Nele, por ser a Casa Mater do Racionalismo Cristão, fundada por Luiz Thomaz, mas a grandeza dessa alma raiará por toda parte desde a maior a mais humilde Casa Racionalista!

Ele e Luiz de Mattos fundiram-se num só querer para o Bem! Eles são as duas possantes colunas que sustêm o magnificente monumento da Verdade! Se um é a coluna mestra dos Princípios, o outro é a coluna mestra do Patrimônio!

Luiz Thomaz!

Tu que vieste encarnar num lar humilde, para poderes um dia chegar aonde era preciso, serás sempre e sempre o símbolo da honra e do trabalho, com que havemos de procurar saber apresentar-te àqueles que se transviam da honra e do dever!

E não só esses, mas às crianças e jovens que nos forem ouvindo e compreendendo! Aos pais destes caberá também ajudar-nos na pintura do teu quadro moral, para que, sabendo apresentar-te aos seus entes queridos, primem estes pelo amor à verdade, cultivem somente a virtude.

Entre ti e Luiz de Mattos não havia chefe nem subordinado, ambos éreis iguais na construção desta Obra – O Racionalismo Cristão, entretanto, tomava Luiz de Mattos por chefe e sabias, nas coisas que dizem respeito à Doutrina, obedecer como se fosses um humilde servo.

Tome-te a humanidade, e nós que dela fazemos parte, também como modelo de quem soube obedecer à razão, ao bom senso, à verdade, enfim.

Nas Casas Racionalistas, nenhum dos seus servidores seja insubordinado. É regra geral, hoje, entre os homens falhos de princípios construtivos, olhar aquele que é chefe como um inimigo, e toda a disciplina como uma injusta abdicação, toda ordem como um atentado à liberdade, e o menor conselho como uma ofensa. Aqui, porém, não pode haver insubordinados: nesta casa todos sabem obedecer, porque todos sabem ser livres e antes de a ela chegarem a dar o seu esforço pessoal, reformaram e continuam reformando os vícios da educação. Todos se movem pela idéia firme de bem fazer, imitando, tanto quanto possível, Luiz Thomaz no espírito de obediência. E homem livre é aquele que obedece por bom senso e reflexão, que compreendeu que assim deve ser. Não é nem adulador nem insubordinado.

Luiz Thomaz era dos que julgava que é mais difícil governar bem do que obedecer bem.

Obedeçamos, pois, à vontade e o querer de Luiz Thomaz! Cumpramos fielmente as suas ordens, o seu querer, e este o vemos gravado numa existência de sacrifícios, de abnegações, de amor à Verdade, á Doutrina do meigo Nazareno, Jesus, o Cristo! Bem sabemos que para seguir as regras do bem viver, é preciso primeiro modificar o instinto, nossos desejos mal cabidos, convertendo o Eu da lei inferior, brutal, má, desumana, à Lei Superior, doce, cordial, humana, enfim.

Nossa violência natural, os instintos malévolos e ferozes, precisa receber como contrapeso a fibra fraterna e justa, que cada um possui e que é necessário tocar, vibrar.

O ódio e a malignidade não são a verdadeira natureza do homem: são um desvio e uma corrupção de nosso caráter profundo. Vede o ódio agir num homem. Não o torna feio? Horrendo? É acaso esse o seu aspecto? Não lhe imprime ele em seu rosto um traço de dor? Odiar é sofrer, consumir-se, doer-se. O ódio é o inimigo figadal daquele que odeia: ele o destrói.

É, pois, o amor que a todos nos faz viver. Amar é despertar para a verdadeira vida, é seguir a natureza superior, cumprir sua função.

Pelo ódio e pelos sentimentos baixos, egoístas, de vil e desprezível gozo pessoal, o homem se degrada. Sua verdadeira natureza se altera e se perde. Ele desce ao posto de escravo.

Pelo amor, bondade, beneficência, sentimentos fraternais, pacíficos, generosos, o homem se purifica, se enobrece, se liberta!

O ódio e todas as baixas paixões de brutalidade e cupidez, a ambição malsã e o interesse mesquinho, são para a alma humana uma espécie de prisão em que ela se enlanguesce, enferma, se vivia, e contrai por fim o desprezo e o desgosto da vida.

- Mas, como livrarmos da prisão, como sair da estreita masmorra em que nos retém as tendências inferiores de nossa natureza?

Como chegar à vida de que a força central e o elemento é o amor?

Procurando à semelhança desse que, nesta hora, retemos espiritualmente entre nós, cumprir o nosso dever. E o dever cumpre-se-o onde se é chamado a estar: Na família, na sociedade, nas corporações militares ou civis, em todas as classes e profissões, e todas elas nobilitam as criaturas, por mais humildes que possam ser, desde que estejamos capacitados de que no desempenho do nosso trabalho estamos colaborando na obra do Todo, portanto, cumprindo nosso dever.

Luiz Thomaz! Teremos nós cumprido o nosso dever para contigo?

É de crer que se estivesses de posse do teu corpo nos dissesses: Não!

Que nos dissesses verdades duras, causticantes, e com razão, como tantas vezes te as ouvimos proferir!

Cinco anos decorridos da tua ascendência espiritual e, na verdade, a tua Doutrina está no mesmo marasmo: curar corpos, desobsedar almas! Isso é insignificante para a finalidade da tua obra!

Trabalhaste como um mouro, arruinaste o teu físico, na criação e defesa dum patrimônio que desse para levar a todos os recantos do planeta a sublimidade dos ensinamentos cristãos! Mas a maldade humana, a ignorância de alguns e a perversidade de muitos, trabalhou sempre para que os grandes feitos não vingassem. Contigo não puderam. Mas desde que partiste tudo se movimentou para por entraves a tua obra. Felizmente, escapou a tua querida esposa e não se deixou confundir o nosso grande amigo, Dr. Emir Nunes de Oliveira, e só depois que partiste pudeste ver claro a pureza dos sentimentos deste homem, que nunca foi um ganhador na Ciência do Direito, mas um defensor incondicional daqueles que tem direito.

Cinco anos de lutas para tua esposa! Cinco anos de gastos e sacrifícios, que olhando para o teu passado de labor e economia, tem-me torturado a alma!

Continuo peiado, oh! Grande Luiz Thomaz, para fazer o que é preciso e que seria a tua vontade já estivesse feito! Mas quando nos vires triste, desce até nós, esparge seus fluidos benéficos sobre as almas daqueles que te respeitam e amam a verdade, a tua Doutrina!

Encoraja-os! Eles hão de, antes de partir para os seus mundos ou para junto de ti, deixar as coisas nos seus devidos lugares, de modo que os vindouros possam ser mais felizes do que nós!

De pé, meus senhores, para irradiar a essa Alma, desde que nesta atitude é que se pode demonstrar respeito a alguém.


20 - LUIZ ALVES THOMAZ
Othon Ewaldo

II

A vida de Luiz Thomaz foi árdua e simples, como a de muitos que aportam ao Brasil, em busca de um campo para suas atividades.

Filho de modestos lavradores portugueses, de cujo lar humilde partira aos quinze anos de idade, em maio de 1887 chegava a Santos, ingressando no comércio, a lutar pela vida.

Exemplo vivo do trabalho em plena mocidade passara a acatado comerciante sócio da firma Thomaz, Irmão & Cia. e, empreendedor perseverante, de negociante a fazendeiro, foi um ápice.

De caráter franco, inteligente e econômico, grangeará vasto círculo de relações nos meios comerciais no mais importante porto do país de exportação de café, negócio que não tinha mais segredos para seu entendimento atilado e que o tornou milionário aos quarenta anos!

A riqueza material, que então possuía, em nada alterara os hábitos de modéstia da vida de lutas que levava, entre as alternativas de compra e venda no escritório, em Santos, e as viagens às longínquas fazendas de café, onde seu espírito se comprazia, em contacto com a natureza exuberante e acolhedora e o convívio da gente pura e simples do interior, que possuía como riqueza a única credencial que satisfazia a Luiz Thomaz: honestidade e amor ao trabalho!

Mas, a benemerência dessa vida afanosa, iniciou-se em 1910 quando, unido a Luiz de Mattos, dedicou-se Luiz Thomas ao estudo do Espiritismo Racional e Cientifico Cristão, hoje Racionalismo Cristão.

Daí em diante, sua vida, entrelaçada à de Luiz de Mattos, é a própria história do Racionalismo Cristão.

Os postulados racionalistas – simples, mas severos – pugnando pelo cumprimento do dever e pela evolução espiritual, calaram fundo em seu espírito sequioso de progresso e, em junho de 1912, era inaugurada a sede própria daquela Doutrina em Santos, que ele mandara construir, no desejo incontido de que todos, sorvendo aqueles ensinamentos regeneradores, pudessem progredir material e espiritualmente.

Aumentavam-se-lhe, assim, os encargos, distribuídos, agora, pelas atribuições da vida de negócios e os impostos pelo próprio desenvolvimento que a Doutrina ia tomando e que o obrigava a construir a sede própria do Racionalismo Cristão no Rio de Janeiro, inaugurada em 1912, e que se tornaria mais tarde o foco irradiativo da Doutrina para o mundo!

Data dessa época a extraordinária disseminação dos princípios racionalistas, nas campanhas memoráveis das conferencias e polemicas de Luiz de Mattos, que culminaram com o lançamento, já em 1916 d’A Razão que até junho de 1921, vigência de sua primeira fase de diário do povo para o povo, pugnou sempre pelos mesmos ideais que nortearam a existência profícua de Luiz Thomaz.

A dezessete anos, precisamente a 8 de dezembro de 1931, desencarnava em Santos o grande batalhador.

Mas as páginas de seu testamento, como expressão de continuidade de sua vida, estavam impregnadas do mesmo amor ao próximo que tinha sido a razão de sua própria existência: legava às casas de beneficência da cidade onde vivera e enriquecera, e, principalmente ao Centro Redentor, grande parte de seus haveres.

Revelava-se ainda o grande filantropo que sempre fora.

Se ao Racionalismo Cristão devia os esclarecimentos que o orientara na vida, deixava-lhe os recursos para continuar a explaná-los à humanidade, talvez na utópica ilusão de que viria a sentir-se feliz um dia...

Em 8 de dezembro de 1931, era cedo demais para saber-se quem fora e o que fizera Luiz Thomaz, como talvez ainda o seja hoje, porque se já conhecemos a trajetória de sua vida trabalhosa e útil, ainda é cedo para avaliarmos a obra a que dedicou todos os instantes e que ainda não está terminada.

Porque mais do que um plano o programa a ser cumprido – é uma Doutrina!


21 - LUIZ ALVES THOMAZ
Othon Ewaldo

III

Há, precisamente, vinte anos, a 8 de dezembro de 1931, desaparecia dentre os vivos Luiz Alves Thomaz.

Para muitos, fora, apenas, o passamento dum negociante respeitado pela sua maneira correta de proceder e pelos recursos que acumulara em sua longa vida de negócios.

Para seus amigos íntimos, era uma perda irreparável.

Porque com ele desaparecia o conselheiro e orientador, o homem de atitudes simples, mas de personalidade inconfundível, de quem irradiava um misterioso poder de mando, sem arrogâncias, de domínio, sem subalternos, de senhor, sem vassalos, de ascendência, sem hierarquias, que marcam as vidas de escol.

Na verdade, mesmo na aparência, Luiz Alves Thomaz era um simples.

Ao vê-lo, ninguém diria achar-se na presença dum milionário, possuidor de tantas terras e cafezais de perder de vista, mas para quem o dinheiro pouco valia e que só reconhecia o valor dum capital na Terra – o trabalho!

Luiz Alves Thomaz foi um grande lutador. A sua vida de trabalhos e canseiras, consumiu-a entre seu escritório em Santos e suas fazendas de café no interior do Estado de São Paulo.

Percorrendo-as, sentia-se feliz por estar em contacto com os modestos colonos, participando de suas vidas sem sobressaltos nem preocupações, gozando o bucolismo do nosso interior, onde as existências são tranquilas como os sertões que lhes servem de cenário.


*
*    *


Quando abriu-se o testamento de Luiz Alves Thomaz, simples como fora toda a existência do grande batalhador, desvendou-se aos que não o conheciam na intimidade toda a grandeza do seu amor ao próximo.

Grande parte de seus haveres, destinava-os a instituições de beneficências de Santos, São Paulo e Rio.

Repartia entre as casas que cuidavam dos necessitados, dos desamparados, dos sem família, sem teto e sem pão, o que em sua vida, sem luxos nem ostentações, tinha amealhado, evitando vícios, desprezando o supérfluo, fugindo às vaidades.

Vinte anos depois do seu desaparecimento, os órfãos e deserdados que se alfabetizam nas escolas custeadas com o dinheiro deixado por Luiz Alves Thomaz, veneram sua memória, cultuada, nesta capital, no Centro Redentor, do qual o saudoso filantropo foi um dos fundadores e onde deixou exemplo marcante de que só com o trabalho, perseverança e honestidade se consegue vencer neste mundo de misérias.



22 - SACADURA CABRAL

APÓS A SUA MORTE DESASTRADA

Manifestação do seu espírito no Centro Redentor, à Rua
Jorge Rudge, 121, Vila Isabel, Rio de Janeiro, na noite de 21
de novembro de 1924, sessão pública, presidida por Luiz de
Mattos e assistida por mais de mil pessoas, como em geral
são todas as sessões públicas do “Redentor”.

Eram oito e meia horas da noite, quando, após várias manifestações de espíritos obsessores, atuou no médium Maria Tomazia, um espírito perturbado, que disse:

- Que vôo tão demorado, que não termina mais, falta-me o ar, não me sinto bem... nunca senti disto.

Presidente – Por que te falta o ar?  (O Presidente ainda não sabia de quem se tratava).

O espírito em vez de responder, perguntou:

- Onde estou, que não conheço este lugar?

Presidente – Estás no Brasil, no Rio de Janeiro; e o corpo em que estás atuando é o de uma mulher; olha bem para ele, e verás.

Espírito – Bela capital do mundo, onde tive a maior glória! Brasil! Estou aqui num corpo que não é meu... Lindo dia! Dia belo aquele em que aqui cheguei, para minha alma, que só agora sei ser uma realidade... Mas, como estou aqui?

Presidente – Estás aqui porque teu corpo morreu; e os teus amigos, que constituem o Astral Superior dirigente desta casa para divulgar o Racionalismo Cristão, que tem por base a Verdade, tornando-se assim verdadeira ciência, porque esta é somente a descoberta da Verdade, foram-te arrancar das garras dos maus elementos, das forças inferiores, de que eras um escravo.

Espírito – Dizes que o meu corpo morreu, mas eu sinto que sou o mesmo.

Presidente – Assim acontece, como castigo, a todos os que, obstinadamente, ignoram a vida real.

Espírito – Vida? E que é a vida real a que te referes?

Presidente – Não é por certo a vida como tu e a maioria da humanidade compreendem, e que consiste em dançar, cantar, contar lérias, maldizer de tudo e de todos, comer, jantares opíparos, fumar charutos de Havana, e dizer-se “superior” e até “herói”, sem justificar o que afirma.

Espírito – Tu, no Brasil, no Rio de Janeiro, tens a audácia de dizer isso, de assim descreveres sarcasticamente a vida, à maior glória do mundo, a Sacadura Cabral? Desfazer a minha glória, empanar a minha glória? (Só então o presidente teve certeza absoluta de que este espírito era o de Sacadura Cabral); e então, respondeu-lhe.

Presidente – Vamos! Já me cansa tanta glória. De tanto nela falares, estás me parecendo quase um Deus, que por fim naufraga desastradamente, como qualquer simples grumete, fraco, pusilânime. Glória fanada que dá à praia como qualquer calhambeque dirigido por braços fracos. Vieste aqui trazido pelas verdadeiras glórias portuguesas, para veres e sentires a que se reduz a tua glória, até onde a vaidade leva os homens.

Espírito – Glória de levar grandes empreendimentos a uma nação pequena, mas grande pelos feitos dos seus homens!

Presidente – Mas não pelos feitos de Sacadura Cabral, que terminou no maior dos desastres, pela ignorância que o dominou, desconhecendo as coisas sérias da vida, e a vida real de todos os seres.

Espírito – Queres apagar o brilho do meu feito? Não fui eu companheiro de Gago Coutinho?

Presidente – Foste, sim, companheiro. Mas a glória da aviação pertence, ouve agora, a Bartolomeu de Gusmão, a Santos Dumont (encarnação atual de Gusmão de outrora) que descobriu a direção, e tão sensato que, depois desta descoberta se quedou a observar as loucuras de toda sorte; a glória pertence a Gago Coutinho, que descobriu o instrumento das rotas aéreas, Gago Coutinho ( encarnação atual do grande luso Pedro Nunes). A ti, não! Mais que tu, por terem atravessado zonas terríveis, fizeram Brito Paes e Sarmento Beires, e esse feito desses dois lusos também não pode ser levado à altura que lhe dão, porque nada de real, nada de prático, nada de bom, portanto, trouxe à sua pátria, nem à Humanidade. Tu não chegarias a mais bela capital do mundo, se não fosse o saber e a assistência astral de Gago Coutinho, que, modesto, democrata, estudioso, e assim, verdadeiramente luso, atraiu para si forças ocultas superiores que o auxiliaram, não só na sua importante descoberta, como na travessia até aqui. Vencendo a tua imprevidência no escolher uma nave onde não cabia o combustível preciso para montar de Cabo Verde às águas calmas e terras do Brasil; e vencendo a tua assistência astral inferior, que logo procurou afundar-te nos rochedos São Pedro e São Paulo, e assim, aniquilar essa maior glória do Portugal moderno.

- Que fizeste tu nesta travessia? Nada mais que um mecânico do moderno aparelho dotado dos recursos que lhe proporcionou o verdadeiramente glorioso Gago Coutinho. Apenas emprestaste a tua coragem de luso para que outro luso glorioso experimentasse o seu invento e o apresentasse ao mundo, como mais notável da época, complemento do invento do glorioso Santos Dumont. Nada mais fizeste! E isso, compreendes bem, fa-lo-ia qualquer alma da raça lusa, quer encarnada na Europa, quer encarnada na América portuguesa, quer encarnada na África, Ásia ou na Oceania, campo de ação de valorosos portugueses. Disseste-te afilhado da incomparável donzela de Orleans, essa linda alma protetora da França, que, de simples pastora em Domremy, se tornou o maior general do seu país, a ponto de colocar um rei francês no trono da sua França, e de vencer as desordens internas e externas promovidas pela Inglaterra. Entretanto, mentiste a ti próprio, porque se ela fosse tua protetora, serias por ela e por seus companheiros, que compõem o Astral Superior, amparado, como o foi Gago Coutinho, como o foram Paes e Beires nas suas travessias, e como foi o exército da França na batalha do Marne, por ela ganha.

Espírito – E acreditava eu, por ventura, nessa entidade? Não! Nela só falava por galanteria para parecer que de fato não era, nem sentia.

Presidente – É por isso, por causa da tua personalidade de puro homem físico que sofreste o desastre, como aviso aos outros, que, como tu, desprezarem a vida e forem racionais apenas na forma.

Espírito – Visto isso, o meu nome vai-se apagar da História? Desaparece para sempre Sacadura Cabral da memória dos homens?

Presidente – É a sorte que espera a todos os que arquitetam a sua grandeza nas coisas puramente físicas, e que acima do bem geral da humanidade colocam as suas pessoas, os seus maus hábitos, as suas vaidades. Amanhã a história só mencionará o teu nome com ode um companheiro do grande Gago Coutinho, que deu à sua pátria e ao mundo a mais bela descoberta, depois das havidas no século português de Pedro Nunes. Ficarão em mais evidência do que tu, Brito Paes e Sarmento Beires.

Mas, se estes não tiverem cuidado de se conhecerem como força inteligente e como matéria, e se se não tornarem verdadeiramente instrumentos da Pátria e da humanidade, para grandeza desta, ai deles! Como tu, terão o pago de se olvidarem dos seus deveres, para só cuidarem das suas pessoas físicas, que nada valerão, quando as almas suas se desligarem do que Beires chama planos superiores e nós denominamos forças purificadas, ao serviço do bem geral da humanidade.

Espírito – Que horror! Sempre Paes e Beires pela minha frente, na minha carreira, cortando-me os vôos da minha ambição de glória de ser o único, de ir mais além de todos.

Presidente – Terrível e triste manifestação esta tua, repleta de inveja, ciúme, egoísmo, os sentimentos mais inferiores que podem manifestar uma alma, especialmente uma alma lusa! Se quisesses a glória verdadeira, se dela tivesses a noção exata, imitarias Gago Coutinho, na sua incomparável modéstia, no seu desprendimento de alma verdadeiramente lusa. Se glória verdadeiramente lusa conhecesses e almejasses, devias recorrer à história dessa grande pátria, a mãe da verdadeira civilização mundial; e nessa história, além dos altos feitos, desde antes de cristo, verificarias o grande Viriato, que, batendo o cônsul Galba, levou terror até às portas de Roma, então senhora do mundo inteiro; em nome da liberdade absoluta, que foi sempre a divisa da lusa raça. Verias, depois, nessa bela história outros gloriosos vultos, também verdadeiramente lusos: Afonso Henriques, o rei sublime, que conquistou à mourama a maior parte das terras que hoje compõem Portugal, e que, depois da memorável batalha de Campo de Ourique se internou pelos sertões do Garbe, hoje província do Algarve, e, neles batendo-se na proporção de um luso contra dez mouros, como em Ourique, tornou-se senhor absoluto dessa bela parte da cabeça da Europa, ai sendo proclamado rei para todos os efeitos. Verias ainda a seu lado, além de muitos heróis, o incomparável Egas Muniz, símbolo da honra e do dever da raça lusa. Verias, depois, D. Diniz, Rei, poeta, lavrador e sábio, enchendo a costa de fortalezas para proteção aos pescadores e navegantes, e indo, ainda, a Leiria semear pinheirais para construção de naves, que tinham de ser aproveitadas por D. Afonso IV, o Bravo, para em 1342 ser descoberto o Brasil, por Sancho Brandão, e depois, em 1500, tornado oficial e mundialmente conhecido pela rival Espanha, que, para si o tomaria, por intermédio do papa, que era espanhol, se D. João II, astuto patriota, não mandasse a Tordesilhas um sábio navegante pugnar por uma linha divisória das descobertas de Portugal e Espanha, que o confirmasse na posse das terras do Brasil. Verias, depois, bem claramente, o resultado da incomparável sabedoria de D. Diniz, obtendo do papa, que havia determinado a extinção da Ordem dos Templários – cuja maior riqueza se achava em Portugal – a sua transformação na Ordem de Cristo, para que os valentes soldados da Cruz não só combatessem os inimigos da Pátria, mouros e não mouros, como por seu intermédio, tendo essa Ordem como chefe, o Infante D. Henrique, fundasse no Promontório de Sagres a incomparável Escola de Navegação, que deu ao mundo novos mundos. E, então, verificarias depois que após esse notável Rei sábio, apareceu o mestre d’Aviz que, eleito pelo povo Rei de Portugal (D. João I) se atirou com os seus companheiros verdadeiramente lusos, em número de seis mil, contra trinta e tantos mil castelhanos, na batalha de Aljubarrota, que tornou Portugal independente, até o triste feito de D. Sebastião. Aí, nesse reinado, verias tu bem saliente a maior glória da raça lusa, que se chamou Nuno Álvares Pereira, Condestável do reino aos vinte e poucos anos, e que levou o terror por toda Castela como prova a Batalha de Valverde, onde ele, cercado pela frente e pela retaguarda, teve de vencer vinte mil heróis da Castela com, apenas, quatro mil lusos; portanto, um contra cinco.

Verificarias, então, nesse mesmo período, que, sendo esse herói depois denominado pelo povo – Santo Condestável – o mais rico de toda a Europa, possuindo quase metade de Portugal, desde Trás-os-Montes ao Alentejo, entregou toda sua fortuna aos seus vassalos, aos seus amigos e companheiros de armas, depois de haver construído o convento do Carmo, em Lisboa, onde se encerrou como frade, a esmolar para os pobres que recorriam a essa casa, verdadeira amiga deles. Verificarias, que esse feito foi o único no mundo, até nossos dias, e que é a maior honra, é a maior glória, não só de Portugal, como da raça lusa, se acha espalhada pelo mundo inteiro.

Verificarias, ainda, nesse reinado os desprendidos heroicos navegadores, dirigidos pelo Infante, como João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, descobrindo Porto Santo e a madeira, e mais, Bartolomeu Perestrelo, sogro de Cristóvão Colombo, donatário da ilha de Porto Santo; Gonçalo velho, cavaleiro de Cristo, descobridor de Santa Maria e São Miguel, nos Açores, de cujas ilhas foi donatário; Gil Eannes, que audazmente dobrou o cabo Bojador, e que era escudeiro do Infante; Afonso Gonçalves Baldaia, que foi 50 léguas abaixo do Cabo Bojador, navegando num barinel e que foi o maior nauta dos que o Infante comandava; Nuno Tristão, cavaleiro de Cristo, que navegou até a Costa do Sahara; Antão Gonçalves, o primeiro navegador que trouxe ao reino ouro e outros produtos de mercancia daquelas paragens; Lancerote, almoxarife de Lagos, que capitaneou uma caravela que foi até Tidor, donde trouxe mouros cativos; Pedro de Alenquer, maior glória da navegação, piloto de Bartolomeu Dias, o primeiro que dobrou o Cabo das Tormentas, e piloto também de Vasco da Gama, e muitos outros, inclusive João Vaz Corte Real que, em 1464 descobriu a América pelo norte e, portanto, vinte e oito anos antes de Colombo chegar à ilha de São Salvador, uma das Lucaias  América, que pelo oeste (Brasil) já havia sido descoberta por Sancho Brandão em 1343 e assim os Comandantes da expedição de Cabral, Afonso Lopes, André Gonçalves, Duarte Pacheco Pereira, Nicolau Coelho, Pedro de Ataíde, Simão de Miranda, Nuno Leitão, Bartolomeu Dias, o primeiro que arrostou as ilhas do Cabo Tormentório, Pedro Dias, irmão deste, Simão de Pina, Aires Gomes da Silva, Vasco de Ataíde, Gaspar de Lemos e Luiz Peres; Depois ainda Martin Afonso de Souza e Aleixo Garcia, seguindo de Cananéa (povoação marítima da atual costa paulista) por terra até o peru, e lá chegando antes de Pizarro demonstrando assim a sua incomparável resistência de bandeirante da lusa raça.

Depois, ainda, Fernão de Magalhães, que entrando pelo Estreito do seu nome, chegou ao mar Pacífico, dando, portanto, à volta ao mundo, e aí se findando por traidor à Pátria, por ambicioso vulgar, por não aliar a sua coragem e saber de homem físico, os sentimentos morais, que fazem da raça lusa a primeira do mundo, e muitos outros que como estes, deram ao mundo novos mundos.

Glórias verdadeiramente lusas, além desses que acabo de te mencionar, são Gusmão, Dumont e Gago Coutinho, esses dois da nossa época e que poderiam figurar entre as individualidades gigantes do grande século português, aquele período áureo que decorre entre Aljubarrota, Valverde e Alcacer Kibir, dentre cujas individualidades gigantes de verdade, avulta, com singular relevo, a do autor do Tratado da Esfera, dos Crepúsculos, da Arte de Navegar, e que descobriu a Barquilha, o Anel Graduado e o Nonio. Glória das glórias foi esse incomparável Pedro Nunes (encarnado hoje em Gago Coutinho) filósofo, matemático, astrônomo, astrólogo e, assim, o primeiro cosmógrafo até então conhecido, professor das glórias lusas; D. João, que depois foi rei; o Infante D. Luiz, o Infante D. Henrique, depois cardeal e Rei, os Infantes D. Duarte e D. Antonio, Prior do Crato; El-Rei D. Sebastião, e sucessivas gerações de ouvintes anônimos e de infinitos navegantes e pilotos, que foram guiados na liquida estrada pelas luzes da sua Arte de Marear. D. João de Castro, o herói da Índia, o autor dos roteiros e o próprio Camões, foram seus discípulos.

Dentre os príncipes, o discípulo dileto foi o Infante D. Luiz, 4º filho de D. Manuel, a quem o mestre dedicou o Tratado da Esfera. Esse príncipe deixou da sua memória um rastro luminoso. Poeta generoso, Mecenas, fogoso guerreiro, arguto estadista, faustoso anfitrião, homem de ciência e amoroso cavaleiro. “Quando a gente começa a ler a cerca da sua vida, deixa-se insensivelmente ficar a maldizer da sorte que o pôs em 4º lugar na série dos filhos d’El-Rei D. Manuel”, afirma o saudoso Sabugosa.

Espírito – Sim, tudo isso é verdade, mas eu pensava lutar pela pátria. Estava errado...

Presidente – Devias ter lido uma carta enviada ao nosso querido Gago Coutinho, quando o mandaste aqui angariar donativos para tua viagem à volta do mundo. Nessa carta se lhe dizia: - “Que agora, dada essa soberba prova de épica coragem lusa, se deviam quedar na sua linda e heróica pátria a tratar do progresso das naves aéreas, até poderem ter a certeza absoluta da sua estabilidade e segurança, como já tem, graças a V. Exa. Certeza das suas derrotas. O mesmo é que dizer: Melhor teria sido não voltar aqui para tal fim, e antes se deveriam quedar em Lisboa, dando exemplos de valor e sabedoria à mocidade lusa, para aliviar o sofrimento da pátria, filhos da ignorância dos grandes espíritos encarnados nela, mas que fazem hoje mais questão de um charuto de havana, de satisfazerem os seus desejos intemperados de reles politicalha, do que arrancar a pátria da ignorância em que se acha e das garras do estrangeiro, nas quais caiu pelo nenhum tino financeiro, pela falta de conhecimentos de arte de bem governar e da vida real de todos os povos, especialmente pela falta de conhecimentos da Psicologia da raça lusa”.

Espírito – mas, quem era o autor desta epístola, a que te referes?

Presidente – Não quiseste conhecê-lo pessoalmente, quando, por delegação da Colônia Portuguesa de Santos, te foi receber, e a Gago Coutinho, no grande e belo salão do Real Centro Português, da legendária cidade de Santos, a cuja recepção não foste por haveres dançado demais e demais vivido para matéria organizada, do que para a alma, que hoje sente todas estas faltas; mas podes conhecê-lo agora. Olha para ele e observa o direito que lhe assistia e assisti de dizer estas cousas, para veres como ele quer que voltes à vida real, ao mundo que te pertence, calmo e senhor dos teus deveres. Olha!

Espírito – Eras tu, então, que apareces agora, cercado dos maiores de nossa Pátria e do Brasil? Eu te vejo aureolado de uma luz tão bela, tornando-te assim tão grande, não pelo teu nome Luis de Mattos, mas por esse aura que brilha e cintila, e eu, Sacadura Cabral, que queria ser um herói dos portugueses, fui, como disseste, na vida terrena, o mais infeliz dos grumetes.

Presidente – Entretanto, aquele que julgas grande e que neste momento te encaminha para verdadeira glória, reputa-se o maior dos desgraçados.

Espírito – Por quê?! Se te vejo tão feliz, tão rodeado de luz, e desses nossos queridos compatriotas que me foram arrancar da miséria?

Presidente – reputo-me o maior dos desgraçados porque, conhecendo-o porquê de todas as cousas, e assim, a psicologia de todos os seres em geral, sofro horrivelmente por te não ver repleto de luz ao lado desses grandes vultos da raça lusa, que constituem o Astral Superior, e por observar a triste ignorância e o triste estado dalma em que se acha a humanidade, que não procura raciocinar e conhecer a vida real, para se convencer de que a vida terrena é um minuto de sofrimentos terríveis na vida real de todos os seres.

Espírito – Mas – que cousa linda! – também estou vendo perto de ti, junto aos grandes da nossa pátria, o Gago Coutinho! O que é isto? Explica-me.

Presidente – Sim! Deve ser o querido Gago Coutinho, que a esta hora (devem ser onze horas da noite em Lisboa) pode o seu corpo estar em repouso, e, dormindo ou pensando em ti, o seu espírito religou-se ao teu e acompanhou-te, por isso o vês, ai, em corpo astral, duplo etéreo dos cientistas, e, aqui se acha para te ver partir para a verdadeira glória. Este fenômeno é um dos mais vulgares da vida fora da matéria, que se torna mais intensamente vivida do que movimentando o corpo carnal. Cada um de nós, cada um dos encarnados, dormindo ou em concentração, vai para onde lhe apraz, especialmente para junto daqueles que mais bem merecem, se não está inteiramente obsedado, e fica, portanto, escravizado pelo astral inferior, que faz dele um joguete. Agora, que estás fartamente esclarecido e certo que de fato existe aquela Protetora da França, que tu, chasqueando chamavas tua madrinha (protetora) e dizias ser irmã de Nuno Álvares, concentra-te bem, pensando nela.

Espírito – Irmã de Nuno Álvares! Se ela fosse, de fato, minha madrinha (protetora) se os meus sentimentos a atraíssem, não me teria acontecido o terrível desastre que aconteceu para minha alma. Falava nela como um ignorante da vida real, da vida fora da matéria. E, agora, vejo-a repleta de luz diante de mim, grandiosa e bela, essa Joana d’Arc querida!

Nesse momento é atuado por um espírito superior o médium Diva de Oliveira, que, depois de bem irradiado, se dirigiu ao espírito de Sacadura Cabral e lhe disse o que se segue:

“Fui protetora de Gago Coutinho e não tua, porque a tua vontade mal educada, sempre dúbia, sempre vacilante, não consentia a aproximação do Astral Superior, e não o podias ter junto a ti. Tu deves saber agora, como precisam saber todos, que é na vontade do indivíduo que reside todo o bem e todo o mal que lhe sucede, porque é com essa vontade que ele atrai ou repele as forças superiores ou inferiores, a cuja influencia se entrega, e que o dirigem e o dominam. Vaidade descomedida, desejo único de sobressair, não com o fito de servir a uma causa justa, não com a ânsia de constituir um dever e cumpri-lo, mas para fazer vulto e tornar-se memorável, e, daí, o grande desastre material que te sucedeu, não tão grande quanto o espiritual.”

“Bem vês neste despertar de agora quanto perdeste, quanto devias fazer e não fizeste, porque acima de tudo colocaste o teu EU, a tua pessoinha, sem tratares do bem do conjunto, do bem geral pelo esclarecimento, pelo desenvolvimento da inteligência, racionalmente feito”.

“Por isso, afundaste. Devias querer os fatos que racionalmente se explicam e não os que assombram sem nada dizer, sem nada trazer de melhor ou de bom aos que procuram raciocinar”.

“Precisas agora de uma energia mais vigorosa para te livrares dessa perturbação e poderes raciocinar, esclarecendo-te; para compreenderes a vida que se manifesta por toda parte, e que só não é vista pelos cegos propositais. Cegos incuráveis estes! Pois que só a dor, só a tortura de vaidades despedaçadas, do orgulho reduzido à expressão de uma alma perturbada, é que os conseguirá curar, para que então comecem a ver alguma cousa do tanto que existe para despertar a inteligência, para lhes provar que a alma, a vida, deve ser compreendida de outra forma e de outra forma vivida.”

“Estás, agora, em perfeito repouso, livre de toda influência que te cercava; e agora rodeado de amigos, desses que são amigos da humanidade inteira, desses que sabem que, acima de tudo, há o dever a cumprir e o cumprem sem sentir os sacrifícios que fazem; antes sentindo somente a grande dor de se verem repelidos por aqueles que preferem quedar-se na miséria da ignorância, a libertar-se pelo esclarecimento e pelo raciocínio.”

“Despertaste, enfim, e perdeste somente algum tempo que tiveste como encarnado. Vem conosco para então saberes o que te resta!” Joana d’Arc.

Presidente – Parte com ela, essa alma protetora da França que se bem houvesses estudado a sua história, verias a razão porque ela foi e continua a ser a verdadeira irmã de Nuno Álvares. Então, saberias que ela, com oeste, obedecia a “Ses Voix”, que hoje se chamam Astral Superior, espíritos superiores. Era simples, sem vaidade e sem o menor sentimento inferior, pois que de pobre pastora em Domremy, tornou-se o maior general da sua França, comandando os exércitos de seu país, colocando no trono da França, um rei francês, cumprindo assim o seu dever, ele foi ordenado por “Ses Voix”, os espíritos superiores, que ela via e ouvia, como médium vidente e auditivo que era. Parte, pois, com ela, visto que já perdeste muito tempo na Terra.

*
*   *

É assim que o “Redentor” encaminha as almas perturbadas e más para fora da atmosfera da Terra, para os mundos que lhes pertencem, e assim, libertando da sua influência sempre maléfica, todos os encarnados que as atraem com seus sentimentos afins.

Um espírito esclarecido como é hoje, o de Sacadura Cabral livre da atmosfera da Terra, portanto, do fluido grosseiro, envolto no qual ele foi arrebatado para o “Redentor”, só se pode manifestar, de acordo com as leis naturais, das quais se destaca a de atração, em correntes (sessões) constituídas por mentalidades escolhidas pelas forças superiores, como as que nesta sessão foram vistas pelos médiuns videntes. Fora disso só há intrujices, erros propositais ou de inteligência, em que anda envolvida a humanidade em geral.

O espírito ao desencarnar apresenta-se no estado em que desencarnou, sem a noção do seu estado como alma; e é por isso que o espírito de Sacadura Cabral, tendo desencarnado desastradamente, ao fazer a sua travessia da Holanda para Portugal, acreditava ainda estar voando na sua máquina.

É por isso que, arrebatado pelas forças superiores, ele se manifesta como se ainda estivesse voando e achando comprido o vôo.

Se, pois, não houvesse sido arrebatado pelas forças superiores, e trazido à corrente do “Redentor”, para se esclarecer, ficaria ainda na atmosfera da Terra por muito tempo, terminando por se tornar um obsessor de todos aqueles que tentassem ir mais além do que ele foi. Assim acontece com todos os espíritos não convencidos da existência da alma, e, que em virtude dessa ignorância, se sentem bem na vida inferior, vivida na atmosfera da Terra, na qual vida tudo fazem como se encarnados estivessem, embora mais levemente, sem o peso e dificuldades de locomoção que produz ao espírito o corpo carnal.

Não sabia onde estava, porque, além da perturbação proveniente do desastre, e por isso mesmo ele foi arrebatado para a corrente do “Redentor”, achava-se envolto num aura negro, filho dessa perturbação, que o não deixava sentir a atmosfera, e assim o ambiente brasileiro e do “Redentor”.

Após a irradiação e doutrinação do presidente, obrigando-o a reagir para sentir o corpo do médium em que estava atuando, ele teve então a noção de se achar naquele momento, no Rio de Janeiro, onde foi recebido estrondosamente, quando da travessia do Atlântico; e por isso é que exclamou: “Bela capital do mundo, onde tive a maior glória! Brasil! Brasil! Estou aqui num corpo que não é meu... Lindo dia! Dia belo aquele em que aqui cheguei, para minha alma, e que só agora sei que é uma realidade. Mas como estou aqui?”

Conheceu, portanto, sua estada no “Redentor”; mas não sabia como se achava ali; não sabia, como confessou, porque era ignorante da vida fora da matéria, e assim da vida real de todos os seres, da existência eterna, da alma.

23 - A INFALIBILIDADE DO PAPA
Discurso pronunciado no celebre Concílio de 1870 pelo Bispo Straussmayer.

Veneráveis padres e irmãos:

Não sem temor, porém com uma consciência livre e tranquila, ante Deus que nos julga, tomo a palavra nesta augusta assembléia.

Prestei toda a minha atenção aos discursos que se pronunciaram nesta sala, e anseio por um raio de luz que, descendo de cima, ilumine a minha inteligência e me permita votar os cânones deste Concílio Ecumênico com perfeito conhecimento de causa.

Compenetrado da minha responsabilidade, pela qual Deus me pedirá contas, estudei com a mais escrupulosa atenção os escritos do Antigo e do Novo Testamento, e interroguei estes veneráveis monumentos da Verdade: Se o pontífice que preside aqui é verdadeiramente o sucessor de São Pedro, vigário do Cristo e infalível doutor da Igreja.

Transportei-me aos tempos em que ainda não existiam o ultramontanismo e o galicanismo, em que a Igreja tinha por doutores: São Paulo, São Pedro, São Thiago e São João, aos quais não se pode negar a autoridade divina, sem por em duvida o que a Santa Bíblia nos ensina, Santa Bíblia que o Concilio de Trento proclamou como a Regra da Fé e da Moral. Abri essas sagradas páginas e sou obrigado a dizer-vos: nada encontrei que sancione, próxima ou remotamente, a opinião dos ultramontanos! E maior é a minha surpresa quando, naqueles tempos apostólicos nada há que fale de – Papa sucessor de São Pedro e Vigário de Jesus Cristo.

Vos, Monsenhor Manning, direis que blasfemo; vós, Monsenhor Pio direis que estou demente! Não, Monsenhores! Não blasfemo, nem perdi o juízo! Tendo lido todo o novo testamento, declaro, ante Deus e com a mão sobre o crucifixo, que nenhum vestígio encontrei do papado.

Não me recuseis a vossa atenção, meus veneráveis irmãos! Com os vossos murmúrios e interrupções justificais os que dizem como padre Jacinto, que este Concílio não é livre; se assim for, tende em vista que esta augusta assembléia, que prende a atenção de todo mundo, cairá no mais terrível descrédito.

Agradeço a S. Exa, o Monsenhor Dupanloup, o sinal de aprovação que me faz com a cabeça; isso me alenta e anima a prosseguir.

Lendo, pois, os Santos Livros, não encontrei neles um só capitulo, um só versículo que dê a São Pedro a chefia sobre os apóstolos.

Não só o Cristo nada disse sobre esse ponto, como ao contrário, prometeu tronos a todos os apóstolos (Matheus, Cap. XIX, v. 28) sem dizer que o de Pedro seria mais elevado que os dos outros!

Que diremos do seu silencio?

A lógica nos ensina a concluir que o Cristo nunca pensou em elevar Pedro à chefia do Colégio Apostólico.

Quando o Cristo enviou os seus discípulos a conquistar o mundo, a todos – igualmente – deu o poder de ligar e desligar, a todos – igualmente – fez a promessa do Espírito Santo.

Dizem as Santas Escrituras que até proibiu a Pedro e a seus colegas de reinarem ou exercerem senhorio (Lucas XXII, 25 a 26).

Se Pedro fosse eleito Papa, Jesus não diria isso, porque, segundo a nossa tradição, o papado tem uma espada em cada mão, simbolizando os poderes espiritual e temporal.

Ainda mais: se Pedro fosse Papa ou chefe dos apóstolos, permitiria que esses seus subordinados o enviassem, com João, à Samaria, para anunciar o Evangelho do Filho de Deus? (Atos, cap. VIII, v. 14).

Que direis vós, veneráveis irmãos, se nos permitíssemos, agora mesmo, mandar sua Santidade Pio IX, que aqui preside, e sua Eminência, Monsenhor Plantier, ao Patriarca de Constantinopla, para convencê-lo de que deve acabar com o cisma do oriente?

O símile é perfeito, haveis de concordar.

Mas temos coisa ainda melhor:

Reuniu-se em Jerusalém um Concílio Ecumênico para decidir questões que dividiam os fiéis.

Quem devia convocá-lo? Sem dúvida Pedro, se fosse Papa. Quem devia presidi-lo? Por certo que Pedro. Quem devia formular e promulgar os cânones? Ainda Pedro, não é verdade? Pois bem: Nada disso sucedeu! Pedro assistiu ao Concílio com os demais apóstolos sob a direção de São Thiago! (Atos, cap. IV).

Assim, parece-me que o filho de Jonas não era o primeiro como sustentais.

Encarando agora por outro lado, temos: Enquanto ensinamos que a Igreja está edificada sobre Pedro, São Paulo (cuja autoridade devemos todos acatar) diz-nos que ela está edificada sobre fundamento de fé dos apóstolos e profetas, sendo a principal pedra do ângulo, Jesus Cristo (Epístola aos Efesos, cap II, v. 20).

Esse mesmo Paulo, ao enumerar os ofícios da igreja, menciona apóstolos, profetas, evangelistas e pastores; e será crível que o grande apóstolo dos gentios se esquecesse do papado, se o papado existisse? Esse olvido me parece tão impossível como o de um historiador deste concílio que não fizesse menção de Sua Santidade Pio IX.

(Apartes: silêncio, herege! Silêncio!)

Acalmai-vos, veneráveis irmãos, porque ainda não conclui. Impedindo-me de prosseguir, provareis ao mundo que sabeis ser injustos, tapando a boca do mais pequeno membro desta assembléia. Continuarei:

O apóstolo Paulo não faz menção, em nenhuma das suas epístolas às diferentes Igrejas, da primazia de Pedro; se essa existisse e se ele fosse infalível como quereis, poderia Paulo deixar de mencioná-la em longa epístola sobre tão importante ponto?

Concordai comigo: a Igreja nunca foi mais bela, mais pura e mais Santa que naqueles tempos em que não tinha Papa. (apartes: Não é exato; não é exato!).

Por que negais? Monsenhor de Laval? Se algum de vós outros, meus veneráveis irmãos, se atreve a pensar que a Igreja, que hoje tem um papa (que vai ficar infalível), é mais firme na fé e mais pura na moralidade que a Igreja Apostólica, diga-o abertamente ante o Universo, visto com oeste recinto é um centro do qual as nossas palavras voam de pólo a pólo!

- Calai-vos! Então continuarei:

Também nos escritos de São Paulo, de São João, ou de São Thiago, não descubro de traço algum do poder papal! São Lucas, o historiador dos trabalhos missionários dos apóstolos, guarda silêncio sobre tal assunto!

Isso deve preocupar-vos muito.

Não me julgueis um cismático!

Entrei pela mesma porta que vós outros; o meu título de Bispo deu-me direito a comparecer aqui, e a minha consciência, inspirada no verdadeiro cristianismo, me obriga a dizer-vos o que julga ser verdade.

Pensei, que, se Pedro fosse vigário de Jesus Cristo, ele não o sabia, pois que nunca procedeu como papa: Nem no dia pentecostes, quando pregou seu primeiro sermão, nem no Concílio de Jerusalém, presidido por São Thiago, nem na Antioquia e, nas epístolas que dirigiu às Igrejas. Será possível que ele fosse papa sem o saber?

Parece-me escutar de todos os lados: pois São Pedro não esteve em Roma? Não foi crucificado de cabeça para baixo? Não existem os lugares onde ensinou e os altares onde disse missa nessa cidade?

E eu responderei: Só a tradição, veneráveis irmãos, é que nos diz ter São Pedro estado em Roma; e como a tradição é tão somente a tradição da sua estada em Roma, é com ela que me provareis o seu episcopado e a sua supremacia?

Scaligero, um dos mais eruditos historiadores, não vacila em dizer que o episcopado de São Pedro e a sua residência em Roma se deve classificar no mundo das lendas mais ridículas! (Repetidos gritos e apartes: tapai-lhe a boca, fazei-o descer dessa cadeira!).

Meus veneráveis irmãos, não faço questão de calar-me, como quereis, mas não será melhor provar todas as coisas como manda o Apóstolo,e crer só no que for bom? Lembrai-vos que temos um ditador ante o qual todos nós, mesmo Sua Santidade Pio IX, devemos curvar a cabeça; esse ditador, vós bem o sabeis, é a História!

Permiti que repita: Folheando os sagrados escritos não encontrei o mais leve vestígio do papado nos tempos apostólicos.

E, percorrendo os anaes da Igreja, nos quatro primeiros séculos, o mesmo me sucedeu!

Confessar-vos-ei que o que encontrei foi o seguinte:

Que o grande Santo Agostinho, bispo de Hiponia, honra e glória do Cristianismo e secretário no Concílio de Melive, nega a supremacia ao bispo de Roma.

Que os bispos da África, no sexto concílio de Cartago, sob a presidência de Aurélio, bispo dessa cidade, admoestavam a Celestino, bispo de Roma, por supor-se superior aos demais bispos, enviando-lhes comissionados e introduzindo o orgulho na igreja.

Que, portanto, o papado não é instituição divina.

Deveis saber, meus veneráveis irmãos, que os padres do Concílio de Calcedônia colocaram os bispos da antiga e nova Roma na mesma categoria dos demais bispos.

Que aquele sexto Concílio de Cartago proibiu o título de “Príncipe dos Bispos”, por não haver soberania entre eles.

E que São Gregório I escreveu estas palavras, que muito aproveitam à tese: - quando um patriarca se intitula “bispo universal”, o título de patriota sofre incontestavelmente descrédito. Quantas desgraças não devemos nós esperar, se entre os sacerdotes se suscitarem tais ambições?

Esse “bispo” será o rei dos orgulhosos! – (Pelagio II, Cett, 13).

Com tais autoridades e muitas outras que poderia citar-vos, julgo ter provado que os primeiros bispos de Roma não foram reconhecidos como bispos universais ou papas, nos primeiros séculos do Cristianismo.

E, para mais reforçar os meus argumentos, lembrarei aos meus veneráveis irmãos que foi Osio, bispo de Córdoba, quem presidiu o primeiro Concílio de Nicéa, redigindo os seus cânones; e que foi ainda esse bispo que, presidindo o Concílio de Sardiaca, exclui o enviado de Julio, bispo de Roma!

Mas, da direita me citam estas palavras do Cristo – Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

Sois, portanto, chamados para este terreno.

Julgais, veneráveis irmãos, que a rocha ou pedra sobre que a Santa Igreja está edificada, é Pedro; mas permiti que eu discorde desse vosso modo de pensar.

Diz São Cirilo no seu quarto livro sobre a Trindade: “A rocha ou pedra de que nos fala Matheus, é a fé imutável dos Apóstolos”

São Olegário, bispo de Poitiers, em seu segundo livro sobre a Trindade, repete: que aquela pedra é a rocha da fé confessada pela boca de São Pedro. E no seu sexto livro, mais luz nos fornece, dizendo: é sobre essa rocha da confissão da fé que a Igreja está edificada.

São Jerônimo, no sexto livro sobre São Mateus, é de opinião que Deus fundou a sua Igreja sobre a rocha ou pedra que deu o seu nome a Pedro.

Nas mesmas águas navega São Crisostomo quando, em sua homilia 56 a respeito de Mateus, escreve: - sobre esta rocha edificarei minha Igreja: e esta rocha é a confissão de Pedro.

E eu vos perguntarei, veneráveis irmãos, qual foi a confissão de Pedro?

Já que não me respondem, eu vo-la darei: “Tu és o Cristo, o filho de Deus”.

Ambrósio, o Santo Arcebispo de Milão, São Basílio de Salência, e os padres do Concílio de Calcedônia ensinam precisamente a mesma coisa.

Entre os doutores da antiguidade cristã, Santo Agostinho ocupa um dos primeiros lugares, pela sua sabedoria e pela sua santidade. Escutai como ele se expressa sobre a primeira epístola de São João: edificarei a minha Igreja sobre esta rocha, significa claramente que é sobre a fé de Pedro.

- No seu tratado 124, sobre o mesmo São João, encontra-se esta significativa frase: sobre esta rocha, que acabais de confessar, edificarei a minha Igreja; e a rocha era o próprio Cristo, filho de Deus.

Tanto esse grande e santo bispo não acreditava que a Igreja fosse edificada sobre Pedro, que disse em seu sermão nº 13: - Tu és Pedro, e sobre essa rocha ou pedra que me confessaste, que reconheceste, dizendo: tu és o Cristo, o filho de Deus vivo, edificarei a minha Igreja, sobre mim mesmo; pois sou filho de Deus vivo. Edificarei sobre mim mesmo, e não sobre ti.

Haverá coisa mais clara e positiva?

Deveis saber que essa compreensão de Santo Agostinho, sobre tão importante ponto do Evangelho, era a opinião corrente do mundo cristão naqueles tempos. Estou certo que não me contestareis.

Assim é que, resumindo, vos direi:

1º - Que Jesus deu aos outros apóstolos o mesmo poder que deu a Pedro.

2º - Que os apóstolos nunca reconheceram em São Pedro a qualidade de vigário do Cristo e infalível doutor da Igreja.

3º - Que o mesmo Pedro nunca pensou ser papa, nem fez coisa alguma como papa.

4º - Que os concílios dos quatro primeiros séculos nunca deram, nem reconheceram o poder e a jurisdição que os bispos de Roma queriam ter.

5º - Que os santos padres na famosa passagem: - Tu és Pedro, e sobre essa pedra (a confissão de Pedro) edificarei a minha igreja, - nunca entenderam que a Igreja estava edificada sobre Pedro (super petrum), e sim sobre a rocha (super petram), isto é: sobre a confissão da fé do apóstolo!

Concluo, pois, com a história, a razão, a lógica, o bom senso e a consciência do verdadeiro cristão, que Jesus não deu supremacia alguma a Pedro, e que os bispos de Roma só se constituíram soberanos da Igreja confiscando, um por um, todos os direitos de episcopado! (vozes de todos os lados: silêncio, insolente, silêncio! Silêncio!)

Não sou insolente! Não, mil vezes não!

Contestai a História, se ousais fazê-lo, mas ficai certos de que não a destruireis!

Se avancei alguma inverdade, ensinai-me isso com a história, à qual vos prometo fazer a mais honrosa apologia. Mas compreendei que não disse ainda tudo quanto quero e posso dizer. Ainda que a fogueira me aguardasse lá fora, eu não me calaria!

Sêde pacientes, como manda Jesus. Não junteis a cólera ao orgulho que vos domina!

Disse Monsenhor Dupanloup, nas suas célebres – observações – sobre este concílio do Vaticano, e com razão, que, se declaramos infalível a Pio IX, necessariamente precisamos sustentar que infalíveis, também eram todos os seus antecessores. Porém, veneráveis irmãos, com a História na mão, vos provarei que alguns papas faliram.

Passo a provar-vos, meus veneráveis irmãos, com os próprios livros existentes na biblioteca deste Vaticano, como é que faliram alguns dos papas que nos tem governado:

O Papa Marcelino entrou no templo de Vesta e ofereceu incenso à deusa do Paganismo.

Foi, portanto, idólatra; ou, pior ainda: foi apóstata!

Libório consentiu na condenação de Atanásio: depois passou-se para o Arianismo.

Honório aderiu ao Monoteísmo.

Gregório I chamava-se anti-Cristo ao que se impunha como – bispo universal – e, entretanto, Bonifacio III conseguiu do parricida imperador Focas obter este título em 607.

Paschoal II e Eugênio III autorizavam os duelos, condenados pelo Cristo; enquanto que Julio II e Pio IV os proibiram. Adriano II, em 872, declarou válido o casamento civil; entretanto, Pio VII, em 1823, condenou-o.

Xisto V publicou uma edição da Bíblia e, como uma bula, recomendou a sua leitura; e aquele Pio VII excomungou a edição.

Clemente XIV aboliu a Companhia de Jesus, permitida por Paulo III; e o mesmo Pio VII a restabeleceu.

Porém, para que mais provas? Pois o nosso Santo Padre Pio IX não acaba de fazer a mesma coisa quando, na sua bula para os trabalhos deste concílio, dá como revogado tudo quanto se tenha feito em contrário ao que aqui for determinado, ainda mesmo tratando-se de decisões dos seus antecessores?

- Até isso negareis?

Nunca eu acabaria, meus veneráveis irmãos, se me propusesse a apresentar-vos todas as contradições dos papas, em seus ensinamentos.

Como então se poderá dar-lhes a infalibilidade? Não sabeis que, fazendo infalível Sua Santidade, que presente se acha e me ouve, tereis que negar a sua falibilidade e a dos seus antecessores?

E vos atrevereis a sustentar que o Espírito Santo vos revelou que a infalibilidade dos Papas data apenas deste ano de 1870?

Não vos enganeis a vós mesmos: se decretais o dogma da infalibilidade papal, vereis os protestantes, nossos rancorosos adversários, penetrarem por longa brecha com a bravura que lhes dá a História.

E que tereis vós a opor-lhes? O silêncio, se não quiserdes desmoralizar-vos. (Gritos: É demais; basta! Basta!).

Não griteis, Monsenhores! Temer a história é confessar-vos derrotados! Ainda que pudésseis fazer correr toda a água do Tibre sobre ela, não apagarieis nenhuma só das suas páginas! Deixai-me falar e serei breve.

Virgílio comprou o papado a Belisário, tenente do Imperador Justiniano. Por isso, foi condenado no II Concílio de Calcedônia, que estabeleceu este cânone: - O Bispo que se eleve por dinheiro será degradado.

Sempre respeito àquele cânone, Eugênio III, seis séculos depois, fez o mesmo que Virgílio, e foi repreendido por São Bernardo, que era estrela brilhante no seu tempo.

Deveis conhecer a história do Papa Formoso: Estevão XI fez exumar o seu corpo, com as vestes pontificiais; mandou cortar-lhe os dedos e o arrojou no Tibre. Estevão foi envenenado; e tanto Romano como João, seus sucessores, reabilitaram a memória de Formoso.
Lêde Plotino, lêde Baronio, Baronio, o Cardeal! É dele que me sirvo.

Baronio chega a dizer que as poderosas cortesãs vendiam, trocavam e até se apoderavam dos bispados; e, horrível é dizê-lo, faziam papas aos seus amantes!

Genebrado sustenta que, durante 150 anos, os papas, em vez de apóstolos, foram apóstatas.

Deveis saber que o papa João XII foi eleito com a idade de 18 anos tão somente; e que o seu antecessor era filho do papa Sérgio com Marozzia.

Que Alexandre VI era... Nem me atrevo a dizer o que ele era de Lucrécia; e que João XXII negou a imortalidade da alma, sendo deposto pelo Concílio de Constança.

Já nem falo dos cismas que tanto tem desonrado a Igreja. Volto, porém, a dizer-vos que, se decretais a infalibilidade do atual bispo de Roma, devereis decretar também a de todos os seus antecessores; mas, vos atrevereis a tanto? Sereis capazes de igualar a Deus todos os incestuosos, ávaros, homicidas e simoníacos bispos de Roma? (gritos: Descei da cadeira, descei já! Tapemos a boca desse herege!)

Não griteis, meus veneráveis irmãos. Com gritos nunca me convencereis. A História protestará eternamente sobre o monstruoso dogma da infalibilidade papal; e, quando mesmo todos vós o aproveis, faltará um voto, e esse voto é o meu!

Mas, voltemos à doutrina dos apóstolos;

Fora dela só há erros, trevas e falsas tradições. Tomemos a eles e aos profetas pelos nossos únicos mestres, sob a chefia de Jesus.

Firmes e imóveis com ao rocha, constantes e incorruptíveis nas inspiradas Escrituras, digamos ao mundo: Assim como os sábios da Grécia foram vencidos por Paulo, assim a Igreja Romana será também vencida pelo seu 98! (Gritos clamorosos: Abaixo o protestante! Abaixo o calvinista! Abaixo o calvinista! Abaixo o traidor da Igreja!).

Os vossos gritos, monsenhores, não me atemorizam, e só vos comprometem. As minhas palavras têm calor, mas a minha cabeça está serena. Não sou de Lutero, nem de Calvino, nem de Paulo, e sim e tão somente de Cristo. (Novos gritos: Anátema! Anátema! Vos lançamos! ).

Anátema! Anátema! Para os que contrariam a doutrina de Jesus! Ficai certos de os apóstolos se aqui comparecessem, vos diriam a mesma coisa que acabo de declarar-vos.

Que lhe direis vós, se eles que predicaram e confirmaram com o seu sangue, lembrando-vos o que escreveram, vos mostrassem o quanto tendes deturpado o Evangelho do amado Filho de Deus? Acaso lhes diríeis: Preferimos a doutrina dos Loyola à do Divino Mestre?

Não! Mil vezes, não! a não ser que tenhais tapado os ouvidos, fechado os olhos e embotado a vossa inteligência, o que não creio.

Oh! Se Deus quer castigar-nos, fazendo cair pesadamente a sua mão sobre nós, como fez ao faraó, não precisa permitir que os soldados de Garibaldi nos expulsem daqui; basta deixar que façais de Pio IX um Deus, como já fizestes uma deusa da Virgem Maria!

Evitai, assim, evitai, meus veneráveis irmãos, o terrível precipício a cuja borda estas colocados. Salvai a Igreja do naufrágio, que ameaça, e busquemos todos, nas Sagradas Escrituras, a regra da fé que devemos crer e professar. Digne-se Deus assistir-me. Tenho concluído!

Todos os padres se levantaram, muitos saíram da sala; porém alguns prelados italianos, americanos, alemães, franceses e ingleses rodearam o inspirado orador e, com fraternais apertos de mão, demonstraram concordar com o seu modo de pensar.

Coisa singular: Desde a tal infalibilidade dos papas, vê-se a Igreja como que atirar-se em um despenhadeiro, de cabeça para baixo!

Que inspirado estava esse bispo Strossmayer...


24 - A BENÇÃO DO PAPA

É um mal, porque é contrária às leis Naturais, que são
 imutáveis – A  excomunhão do papa ou de seu representante
é um bem, porque “praga de urubu só a urubu de batina
pode atingir”.
Transcrito de “A Razão” de 26 de agosto de 1919.

Parece que os escravos do vaticano, dessa Roma papal, carnaval denominado catolicismo romano, esses infelizes filhos de Deus, pobres diabos denominados “urubus de batina”, pelo grande erudito, o maior dos filólogos e polemistas brasileiros, o saudosíssimo Julio Ribeiro, quando travou séria polêmica com o notável orador e erudito português, o padre Senna Freitas, parece que esse infeliz pessoal se assanhou no Brasil, após a terminação da guerra e da subida ao poder do Senhor Epitácio Pessoa, e está pondo as mangas de fora. Assim sendo, preciso se torna ir-lhes aparando as unhas, para que não continuem a ferir fundo a liberdade de pensamento, a honradez, a moral dos que não comungam com o Vaticano, dos que se não dispõem a engolir divindades em hóstia, em pastilhas de farinha de trigo. Para que, pois, o senhor Epitácio Pessoa e sua digna consorte não se chamem à ignorância, e não continuem a praticar o crime de auxiliar esta maldita seita negocista, escravocrata, odienta e má, publicamos abaixo a lista dos abençoados e arruinados por tais bênçãos, desse tal Santo Padre, e dos seus escravos, que são todos os Cardeais, Bispos, Cônegos até ao último padre e sectário.

Esta lista é a seguinte:

O Papa abençoou o exército francês em 1870; logo depois o exercito foi completamente derrotado.

O Papa abençoou Carlota de Bourbon, quando voltou a Roma; antes dela sair do Vaticano enlouqueceu.

O Papa enviou sua benção a Maximiliano, ao partir para o México; em Queretaro, foi ele fuzilado.

Abençoou a Imperatriz do Brasil; logo depois quebrou ela uma perna.

Abençoou o Príncipe Napoleão IV, antes de partir para a Zululândia; de lá só voltou seu cadáver.

Abençoou o Príncipe Rodolfo da Áustria; pouco depois suicidou-se.

Abençoou o Imperador da Áustria; não houve na Europa soberano mais infeliz.

Abençoou D. Afonso XII, que pouco tempo depois morreu em idade prematura.

Abençoou o Arcebispo do Peru; 43 dias depois foi envenenado com uma bebida.

Abençoou Isabel II, que pouco tempo depois foi deposta.

Abençoou Francisco José, Imperador da Áustria, que poucos dias depois sofreu a derrota de Sadowa.

Abençoou Napoleão III, (e à sua consorte presenteou com a rosa de ouro); poucos dias depois caiu ele prisioneiro do Rei da Prússia, em Sedan e foi destronado.

Abençoou o vapor inglês “Santa Maria”, porque a bordo vinham duas irmãs de caridade; o agraciado vapor, em sua primeira viagem, perdeu-se diante de Montevidéu.

Abençoou o vapor “América”, que fazia a carreira entre Buenos Aires e Montevidéu; o vapor incendiou-se a 24 de dezembro de 1871, tendo a bordo mais de 100 passageiros.

Foi depois da benção do papa Pio IX, “Urbi et Orbi”, que ele mesmo foi derrotado, e Roma tomada, a 20 de setembro de 1870, por Victor Manoel, tornou-se a capital da Itália.

O Papa abençoou as armas espanholas na última guerra entre a Espanha e os Estados Unidos; e realizou-se logo depois o desastre de Cavite. A esquadra de Cervera sai de Cádiz com a benção do papa e pouco depois foi completamente destruída pela esquadra americana em Santiago de Cuba.

O Banco Católico de Lyon – “L’Union Générale”, foi solenemente abençoado pelo papa, e pouco tempo depois quebrou.

No ano de 1889, o Núncio do Papa foi a resistência, no Chaco, para abençoar a Igreja e, ao voltar, a Igreja desmoronou completamente, devido a um violento furacão.

A festa de Caridade (“Les Dames de Charités”) em Paris, no mês de maio de 1897, foi abençoada pelo Papa e pouco depois onde a casa que se deveria realizar a festa, foi em poucos momentos destruída por um terrível incêndio, no qual pereceram a Duquesa de Alençon e muitas outras pessoas da aristocracia francesa.

Há anos, o Brasil recebeu a benção papal, e o câmbio desceu, o café barateou e a peste bubônica apareceu.

Por ocasião das festas do quarto centenário, o Papa abençoou o Brasil e logo depois os bancos principais do Rio de Janeiro faliram, e seguiu-se intensa crise de trabalho, que causou a miséria e inúmeras famílias, chegando a haver vários suicídios por esse motivo.

Em dezembro de 1905, o papa, a pedido do cardeal brasileiro, abençoou de novo o Brasil, a América e o Colégio Pio Americano, e logo essas bênçãos se converteram em maldições.

Ao Brasil, sucedeu logo a catástrofe do “Aquidaban”, onde pereceram distintos oficiais da marinha; veio a praga de gafanhotos em São Paulo, seca no sul, inundações e ressacas horrorosas, como nunca houve na terra de Santa Cruz!

Na América (depois da benção especial supra) sucederam-se violentos terremotos, que destruíram as importantes cidades de São Francisco da Califórnia, Valparaíso e adjacentes. Seguiram-se violentos temporais em vários lugares; e um terrível furacão em outubro de 1906, percorreu Cuba, Guatemala, Honduras, Antilhas e São Salvador, causando estragos inumeráveis; e um abalo de terra na mesma ocasião submergiu a ilha Elliotshey com todos os seus habitantes.

No Colégio Pio Americano, meses depois, um lente enlouqueceu e o seu diretor, Monsenhor L.C.C., zangou-se com o cardeal a atirou de vez a batina às urtigas.

Em agosto de 1906, saem abençoados do Vaticano os bispos do Pará e de São Paulo, e embarcando no vapor “Syrio” para o Brasil, pereceram nas ondas e bem assim o Superior dos Capuchinhos de Londres, oito frades e muitos passageiros.

O Papa também abençoou o ex-presidente Dr. Campos Salles até a terceira geração, e logo seu irmão foi assassinado em sua fazenda, e ele vaiado e perseguido ao deixar a presidência da Nação.

O Papa abençoou o ex-presidente Dr. Rodrigues Alves e o seu secretário Dr. J.J. Seabra, os quais por ocasião da lei da vacina quase perderam a vida, sendo o último derrotado em vários pleitos eleitorais.

Eis, pois, a demonstração da felicidade dos indivíduos e das nações crédulas em um homem mortal e pecador, que se diz santíssimo e infalível e que é adorado quase como Deus na Terra!

Oh! Povos do Oriente, do Ocidente e do Setentrião, como pudestes ser ricos e poderosos sem a benção do Deus-Homem-Romano e pretenso Vigário de Cristo? Explicai como vos tornastes opulentos e respeitados, dispensando a graça da dita misteriosa entidade?

Ponderai, filhos de Adão! As nações que marcham na vanguarda do progresso não são as crentes no papa, mas as que confiam exclusivamente na providência Divina, e adoram ao Deus Uno na criação, os que executam a caridade e a justiça, os que repelem a idolatria – a maior afronta ao Deus do Universo!

- De que serve à humanidade esse papa grande que se diz pobre, e, no entanto sustenta um luxo pomposo sobre “as muitas águas” entre as “sete colinas” da cidade de Roma?

- Que aproveita à bela nação italiana ter em seu seio o “santíssimo”, quando ela sofre constantes horrores pela erupção dos vulcões; que faz, então, ali o “Representante de Deus”, na Terra?

- Como se concedeu, como se incutiu na mente dos povos, que esse pseudo Rei católico, eleito para tal cargo à maneira de qualquer presidente profano, possa ser o Vigário de Jesus, o Cristo? Blasfêmia!

Oh! Povos! Proclamai a religião livre, sujeita ao único Chefe - Jesus Cristo – e abandonai a seita de trapos, ossos e farinha e os roupetas dirigentes, representantes do mistério, da treva, “VIÚVAS” – desrespeitadores das leis e das consciências.

Povos iludidos! Somos chegados ao século XX! É tempo de sacudirmos o jugo desse poder fradesco, é tempo de cortarmos relações com essa potência de mentira, e imitarmos as nações poderosas, voltando-nos para deus, criador do céu, da terra, do mar e de nós mesmos, e adotarmos a religião da verdade, pregada por Jesus, o Cristo, única aceitável. Os infalíveis ensinamentos desse Grão-Mestre “Et Caterva” não tem conseguido regenerar os povos.

Os crimes, o desrespeito às leis e às autoridades, crescem de dia para dia! Sim, porque tais ensinos nos emanam dos verdadeiros cristãos, do verdadeiro cristianismo. E se quereis marchar na senda da paz, no caminho da virtude, na estrada do progresso e ter a felicidade na vida d’além túmulo, deveis observar os salutares ensinamentos do verdadeiro cristianismo, que tem por base a verdade, e que determina que não queiramos para os outros o que para nós não queremos. O que não seja isto, é mentira, é intrujice e é por isso que a benção do papa é um mal e a sua excomunhão é um bem, porque é sempre um bem ser odiado pelos intrujões, pelos maus, pelos vaidosos.

Abaixo a Dama do Apocalipse e o Profeta 666! “Adornados de púrpura, de escarlate, de carmesim, de prata e de pedras preciosas”, os quais só podem dar o que possuem em abundância: orgulho, vaidade, dissolução, corrupção, hipocrisia!


25 - O PENSAMENTO É TUDO
Luiz de Mattos

O nosso principal cuidado, como esclarecedores de espíritos, é fazer sentir àqueles que nos procuram, a necessidade de bem conduzirem os seus pensamentos.

Afirmamos que o pensamento é tudo, que é ele o segredo de todo o êxito, e tendo certeza absoluta de que assim é, fazemos questão de que aqueles que nos procuram, aprendam a dar valor ao pensamento.

O pensamento guia a criatura, o pensamento a leva, não só para o caminho do bem, como também a conduz para o caminho do mal, pensamento traz felicidade, como traz infelicidade, porque é pelo pensamento que se estabelece a lei de atração, e essa lei tanto pode ser aplicada para o bem, como para o mal.

Pensar é atrair, quem pensa bem, atrai somente o bem, quem se irrita, quem se revolta, quem pensa mal, está sempre mal assistido, será sempre mal intuído, será, portanto, um desorientado.

Saber pensar, pois, é o dever de toda a criatura e, é por isso, que teimamos fazer compreender a todos a necessidade de saberem pensar.

Se a humanidade fosse esclarecida, estaria apta a viver bem, teria paz e tranquilidade nos seus lares, seria compreensível, saberia como se defender, sem precisar da ajuda de ninguém, da proteção de ninguém, porque teria convicção, teria confiança em si própria, saberia como agir, como se defender e como vencer na vida.

Enquanto a humanidade não for esclarecida, estará sempre sujeita a avassalamentos, a enfermidades, a contrariedades, a fraquezas espirituais.

A vida na Terra, bem sabemos, não é feita de rosas, nem se navega num mar bonançoso. Há tempestades, há vendavais, há sérias contrariedades, há muitos motivos para a criatura perder o controle. Mas, quando o espírito é esclarecido e forte, quando ele está preparado para a vida, não há vendavais, não há tempestades que possam abater esse espírito, ele tudo vencerá, jamais cairá, caminhará sempre de pé, de fronte erguida, procurando vencer e conseguindo a vitória.

Saibam, portanto, viver, esclareçam os seus espíritos, procurem dar mais valor às coisas sérias da vida, que são as coisas espirituais, pois é preciso que dêem ao espírito aquilo de que ele carece para bem irradiar sobre o seu corpo, para poder locomovê-lo, para poder fazer com que ele o auxilie a passar por este mundo, algo fazendo em bem da sua própria espiritualidade.

Aprendam, pois, a viver, aprendam, sobretudo, a pensar, se quiserem ser felizes.



26 - FORMAÇÃO DO CARÁTER
Antônio do Nascimento Cottas

A formação moral começa desde o berço e termina com a morte do corpo. Há em toda a vida corrigendas a fazer, mas se a criança não for racionalmente cuidada até os sete anos, será muito difícil modificar-se suas tendências más, daí em diante, a não ser retirando-a do meio ambiente em que nasceu e cresceu. Alguém disse: “Dai-me a criança para educar e instruir e eu vos restituirei o homem”.

A criança ressentir-se-á em toda a vida do modo e forma por que for cuidada até os sete anos. Em seu espírito influirão os bons ou os maus exemplos de todos que com ela conviverem. Uma frase, uma repreensão incabida, um castigo injusto, principalmente dos pais, poderão influir de tal modo no espírito da criança a ponto de torná-lo tímido, revoltado, mau e até criminoso, por que à medida de seu desenvolvimento físico e intelectual crescerá também o seu recalque espiritual.

Estamos atravessando, agora, uma das épocas mais criticas, por estarem periclitando os bons princípios. Poucos são aqueles que pugnam pela boa formação moral de seus filhos. O lar não pode deixar de ser escola de moral. É nele que o caráter das crianças tem que ser modelado, caldeado para toda a vida.

Mas se a criança assiste o pai e a mãe a se insultarem, proferindo impropérios um ao outro e até a se agredirem; se a criança fica entregue aos criados, se lhe faltam o carinho materno e paterno, se não há assistência espiritual, o que se poderá esperar da família e da sociedade assim formadas?

- Cada vez maior degradação. As esposas assassinam os maridos, e vice-versa. Os filhos, vendo o pai ou a mãe separados, mas a trazerem para o lar outros personagens, que nem podem ser padrastos ou madrastas, porque não existe o divórcio, crescem despudorados do espírito e do corpo e tudo nos mostra que caminhamos para um sem vergonhismo assustador. Sodoma e Gomorra estão à mostra, caso os homens equilibrados não se disponham a tomar atitudes de brecar a imoralidade.

Fale-se a linguagem simples, orientem-se as massas, não se propague a desordem familiar, cuide-se da criança, forme-se-lhe o caráter, porque uma vez bem formado haverá fibra, envergadura moral. Teremos uma sociedade constituída por seres portadores de personalidade espiritual.

Sem educação, sem frei moral ou espiritual, o ser humano desmanda-se, quer comodismo, não aceita a vida de sacrifícios e, no entanto, estudada a vida em todos os reinos da Natureza, sabe-se que ela está sujeita à leis que são naturais e imutáveis, das quais o homem, por abuso do seu livre arbítrio, tenta desviar-se, mas é logo punido.

Carrel, em sua obra “O Homem Perante a Vida” diz: - “Como criança perdida na floresta, o homem moderno divaga, ao acaso, no mundo por ele criado. Segue a direção para onde o seu capricho o empurra. Tem a liberdade de desobedecer a todas as leis naturais, mas com risco de ser aniquilado, ele ou a sua descendência, pelos mecanismos inexoráveis, automaticamente desencadeados por toda a transgressão às leis essenciais das coisas.

Em parte nenhuma existe postes indicadores para nos assinalarem as zonas proibidas. Pode cada qual, sem dar por isso, transpor a fronteira que a própria estrutura da vida prescreve às nossas atividades fisiológicas e mentais, aos nossos pensamentos e às nossas ações.

Para nos protegermos contra esse perigo, é indispensável uma disciplina rigorosa. Não há outro processo de evitar os lamaçais, as areias movediças e os precipícios. Precisamos de um código de estrada, duma tecnologia da existência, dum guia para a perigosa viagem que é a nossa vida”.

Bela lição nos dá Carrel!... Portanto, todos temos que aprender como guiar-nos com segurança pelo caminho da vida terrena.


E aqueles que não mais queiram andar às apalpadelas, aqueles que desejarem libertar-se das vendas mentais que lhes toldam o raciocínio e os impedem de penetrar na análise das coisas transcendentes da vida, que leiam a obra “Racionalismo Cristão” e se convencerão de que não há efeito sem causa.