“Quando perdeste
o sonho
e a
certeza tornaste-te
desordem e
fizeste-te nuvem”
Simónides de Kéos, Epitáfio nas Termónilas
Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno almoço onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons-dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. Sinto-me mal, nunca me senti assim, murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu
e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me
para a minha mulher:
“Como é que tu te chamas?”
Pausa.
“Eu? Edite.” Nova pausa. “E tu?”
“Parece que é Cardoso Pires”, respondi então.
“E agora, José? [...] você marcha, José! José, para onde?”
Carlos Drummond de Andrade
Ainda hoje estou a ouvir aquele “é”. Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto.
Nesta introdução à perda de identidade que um transtorno do cérebro tinha acabado de desencadear, o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisam com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio. Como se acabasse de dar início a um processo de despersonalização, eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa (Ele, ou o meu nome, é) que ainda por cima se tornava mais alheio e mais abstracto pela imprecisão parece que. Além disso, a circunstância de ter respondido à Edite com o apelido e não com o meu primeiro nome, o mais cúmplice entre marido e mulher e o único que nos era natural, é outro indício do distanciamento provocado pelo golpe de azar que me destituirá de memória e de passado.
Ele, o Outro. O outro de mim. Em menos de nada, já a Edite falava ao
telefone com os médicos sobre esse alguém
impessoal que eu estava a começar
a ser. Ouvia-a do meio do hall em grande serenidade. Sabia, tenho essa ideia, que alguma coisa se estava a passar comigo,
uma coisa oculta, activa, mas nessa altura já
principiava a ouvir e a sentir só de passagem, sem registar. (Mesmo assim tinha algum conhecimento da ansiedade que me rodeava: Isto não vai ser nada, creio ter dito à Sylvie quando a descobri
no corredor, atenta aos telefonemas da Edite.)
Lembro-me de que essa manha foi invadida por um aguaceiro
desalmado, ouvia-se uma chuva grossa
e pesada lá fora mas deve ter sido
passageira porque quando acabou a Edite ainda
estava ao telefone. A partir de então tudo o que sei é que me pus ao
espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visam que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença) exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto.
Dias depois, quando?
Sem memória esvai-se
o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior.
E a interior, bem entendido, porque
sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam
significantes, também isso. Verdade, também
isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido. Assim, ao ver o
meu Outro eu a pentear-se com uma escova de dentes num quarto de hospital
(conforme me contaram depois) pergunto-me quantas vezes lhe aconteceu aquilo e logo de instante vejo uma
enfermeira a aparecer-lhe por trás e a trocar-lhe a escova pelo pente,
sem um comentário, sem uma palavra sequer, pura e simplesmente na prática de
quem executa uma rotina. E ele a obedecer-lhe sem a menor resistência, ele como
que a cumprir a parte que lhe compete nessa rotina. Sempre este jogo?, pergunto.
Talvez. É possível
que a aceitação apática do erro se devesse à sua
incapacidade mnemónica de relacionar e portanto de questionar. Possível. Para ele, agora ou ontem tudo
era outrora, mundo alheio ou como tal. E desinteresse. O constante e
desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e de lugares,
de tempo e de sentimentos.
Apatia, nesse caso? Nesta fase do processo admito que não se tratasse propriamente de apatia, os médicos é que poderão dizer. Que eu saiba, ele ao principio sabia-se doente. Ou teria uma percepção limiar da impossibilidade de se conjugar com os outros, uma impossibilidade com a qual convivia numa aceitação natural. Recordo-me até de que ao observar uma coisa que lhe chamasse a atenção a punha instintivamente de parte porque tinha como certo que um segundo depois a iria esquecer.
Ouvir e perceber enquanto ouvia mas apagar prontamente, era
o traçado em que ele se movia. Ouvir
e apagar logo-logo. Apagar. E ver, ver
também contava. Ver pessoas (figuras)
através dum vidro
mudo e perdê-las acto contínuo. Tudo sem angústia, como quem
preenchesse o tempo numa serenidade terminal. Como quem, na desertificação que
o invadia, fosse avançando para a morte cerebral num cenário de contornos indiferentes.
Nas Poesias de Drummond de Andrade que tenho acolá na estante, José marchava. Mas para onde, José?
“Já não sou eu, mas outro que mal acaba de começar” Samuel Beckett
Brancura hospitalar, murmurada e sonâmbula,
está aqui.
Uma atmosfera de quietude sulcada por palavras sem rasto. O
universo para onde desertou esse Outro que eu acompanhei com as esvaídas
recordações que trouxe dele ou com os relatos da minha mulher e dos amigos
que me visitaram era assim.
Da mesa onde agora estou a escrever, sigo-me nesse
discurso. Ou, antes, sigo-o a Ele desde que entrou,
lado a lado com a Edite, na recepção
do
Hospital onde o esperava um médico das nossas relações. Suponho que o reconheceu. Reconheceu-o com certeza mas
provavelmente só de figura, isolado de qualquer
contexto. Ou não? “Sabe quem eu sou?”, perguntou-
lhe o médico. “Sei”, foi a resposta, “não me lembro
é do nome.”
Dito isto, nem mais uma palavra. Subida ao Calvário num elevador carregado de macas com doentes de olhos fechados (foi a imagem que eu fixei) e lá muito no alto, muito no fim, uma voz de óculos cintilantes numa primeira observação: “O mais provável é ter de ficar internado.”
E logo Ele muito rápido: “Internado, não.” (Ai já se deixa
ver que era ainda um último resto de
mim que protestava.)
Desse momento em diante vi-o, de corredor em corredor, a
ser conduzido aos puzzles da tecnologia clínica, chapa a chapa, registo a registo, análises, eletrocardiografias, exames da
fala e da escrita, um TAC, uma inspecção às carótidas, mas o que é que
eu estou a fazer aqui, perguntava ele quando
o deixavam sozinho
com a mulher.
Se nessa altura ainda falava com clareza
ou se já tinha começado
a desmantelar as palavras com o silabar
consonântico que toda a gente fingia ignorar, não sei, não posso dizer. Mas por intuição ou pelo quer que fosse ele devia ter alguma
percepção dessa afasia
porque muitas vezes
cortava a frase ou parava de se exprimir, fazendo um gesto de desistência com um sorriso de
resignação. Deixem, não vale a pena, era o que aquilo significava. Dava a ideia
de que por enquanto sabia o que pretendia comunicar mas que já não comandava
as palavras.
Continuo a segui-lo. A principio houve uma ou outra
situação em que nos confundimos e fomos um só. Situações raríssimas, devo acrescentar, breves clarões de consciência. Mas em
menos de nada já ele se tinha perdido de mim e ia, hospital
fora, a arrastar uma névoa.
O relatório neurológico foi terminante: acidente vascular cerebral de gravidade muito acentuada, um coágulo de sangue que tinha subido (do coração?) até à zona nobre do cérebro, bloqueando duramente a artéria. Não era um problema hemorrágico, antes fosse, e por isso não havia o recurso à cirurgia com largas perspectivas de solução, explicou à Edite um especialista do Serviço de Neurologia. Assim, acrescentou ele, a situação apresentava-se bastante difícil, um caso de isquemia com recuperação lenta e frequentemente incompleta. Do ponto de vista motor nada que justificasse preocupações, o doente bastava-se a si próprio. Mas o centro da fala e da escrita estava profundamente afectado e podia conduzir a uma sobrevivência em incomunicabilidade total.
Incomunicabilidade, pois. Incomunicabilidade total. Nem voz nem
escrita e nem leitura tampouco. Morte
cerebral, foi com esta expressão que a Agência Lusa passou a notícia à Imprensa para o
outro lado dos muros do Hospital
de Santa Maria.
Morte branca, aponto
eu ao alto desta página em que estou a reconstituir passo
a passo esse Outro que, de mão na mão com
a Edite, se encaminha para o quarto
onde vai ser internado.
Vai sem ver, percebe-se. Vai, foi. Seguiu. E quando lá chegou não sei se já estava entregue por inteiro à sem vontade que o alheava do que acontecia nele e à volta dele, não sei, não faço ideia. Mas, estivesse ou não estivesse, no quarto que lhe tinham destinado havia dois vultos a espiá-lo em duas camas. Viam-no também sob lençóis mas de rosto ao alto e a sorrir. A sorrir? Seria um traço pálido na palidez geral que se supôs dirigido à enfermeira que o estava a ligar ao soro, embora não a olhasse sequer. Ou um sorriso para com ele e mais ninguém, outra hipótese. De qualquer maneira estava imóvel e a sorrir, imagine-se. Assim o viam os dois doentes com quem ele ia ficar e assim o estou eu a descrever, passados dois anos sobre essa hora: branco, branco, em luz gelada e com a mulher à cabeceira a segurar-lhe a mão. Preso a ela mas todo voltado para a distância.
Assim, também, o foi encontrar uma jovem médica que o veio observar com as primeiras perguntas no tom de quem vem de recado pensado.
Perguntas a aviar, é bom que se diga, pelo menos foi o que
lhe pareceu a ele uma abordagem daquelas, e como tal, com respostas prontas é que a devia despachar.
Estropiadas ou não, respostas prontas e o rosto eternamente apontado para uma
vastidão qualquer. Seria realmente uma vastidão, um espaço ermo, para onde ele
olhava? Pouco importa. Horizonte, interrogação ou nada, era nessa direcção que
ele estava a responder ao exame e
infelizmente com o descaso e a irresponsabilidade
que eram de prever, parecia anotar a médica pela maneira de o escutar, pelo insólito
dos desacertos com que ele correspondia ao diagnóstico que lhe tinha sido atribuído, confirmava a
médica com o silêncio do olhar, claro, tudo certo, tudo conforme, “agora”,
despediu-se ela, “o que é preciso é pôr-se
bom depressa para voltar a escrever. De acordo?”
Escrever?
O que restaria de mim no homem que ficou para ali estendido
à espera de coisa nenhuma?
Deve ser uma abstracção nebulosa estar-se assim, numa ilha de náufragos, preso ao soro que nos chega por um fio ligado a uma hipótese de vida. Três náufragos ao todo: não esquecer que naquele quarto há ainda dois vultos tão nulos que os toma como ausentes. Insisto nisto porque aos olhos dele essas criaturas devem ser duas sombras, pouco mais. Duas sombras espalmadas em dois leitos de hospital, a observá-lo para o decifrarem, saber de quem se trata, qual o seu porquê e o seu rumo. Uma dessas sombras durante a noite ronca estrepitosamente, mas o Outro que eu sou ali dará por isso? Se der, esquece.
Deixaram-no atrás duma janela sem paisagem, em tempo
velado, oco. Quando menos espero descubro que alguém se aproxima dele com uma ficha
de doente na mão. Outra médica. Fala-lhe
com simpatia atenta, perguntas sobre perguntas.
Aponta-lhe a chávena que está em cima da mesa de cabeceira: Que é isto? Pára.
Espera, a olhá-lo. A seguir uma esferográfica: E isto? E isto?, pergunta ainda,
com uma chave ou outra coisa na mão.
Ele percebe que o estão a investigar, por mais anulado que
se encontre não se considera tão à margem como isso. Percebe, não tenho dúvida (recordo
essa minha reacção
no primeiro interrogatório) mas o que ele
ignora é que já não identifica os objectos que lhe apresentam: um lenço, um
anel, a moeda tirada ao acaso do bolso da bata, na prática objectos mais que simples da circulação comum, e
principalmente relógios, relógios de pulso, os ponteiros e a leitura das
horas. Pois, relógios. O Outro de mim
naturalmente que os conhece como peças, instrumentos, sem interior, sem
razão, mas eu diria que só de vista porque os isolara de referências.
Exactamente como lhe acontecia com as pessoas que outrora lhe tinham sido mais
próximas.
Tempo depois, quando a família e os amigos me descreveram a passear de alma ausente pelo anoitecer da memória, é que eu soube como era desvairada a nomenclatura que ele atribuía aos objectos questionados ou àqueles que, de longe em longe, pretendia enunciar. “Simosos” (?), por exemplo, funcionava a vários significados. Tanto podia ser “gilete” como “óculos” ou “arrastadeira”, dependia de qualquer indecisão de momento, quer-me parecer. “Cachimbo”, uma peça que nunca na vida teve alguma coisa a ver comigo, tomou-a ele como sinónimo de “chinelas, chinelas de quarto”. E, como estas, várias outras designações de sentido aleatório ou incapazes de ser traduzidas por que inclusivamente as pronunciava com distorções.
Se não o entendiam quando
perguntava esquecia e passava adiante (remetia-se ao seu horizonte
descambado). Mas quando era perguntado (nos exames iniciais da memória, é daí
que me vem essa lembrança) entendia ou intuía que o estavam a experimentar em perspicácias ingénuas
e com o seu quê de ridículo.
Eram um estendal
de desperdícios mais que
vistos e sabidos, aqueles testes.
Um jogo em faz-de-conta frustrado
logo à partida, pensaria
ele naquela altura
e quem sabe se não sorriria tristemente por dentro. No fundo, essa
atitude não era mais que a costumada desconfiança do doente em terreno de risco e de valores
desconhecidos, a sempre
prevenção contra a subestima ou a humilhação ao julgar-se avaliado por um teste
primaríssimo em que colaborava, que remédio, com uma complacência resignada e até com uma sombra de ironia. Ironia, seria nisso
que ele tentava compensar-se?
Determinadamente, não. Assumir a observação que pressupõe a ironia com a captação de sinais que ela requer não me parece fácil nas condições em que o meu Outro divagava. No entanto, muito para com ele e para comigo, houve pelo menos uma vez em que essa intenção teve lugar. Com alguma clareza ou quase e de tal modo que ainda hoje tenho como certo que mesmo num farrapo de indivíduo a despojar-se de memória (e portanto de imaginação) podem despontar por vezes fragmentos de ironia como instintos culturais, se assim lhes é possível chamar, que são resíduos do passado que ele apagou. Será uma ironia coitada, não digo que não, mas de qualquer modo uma ironia. Um esforço de resposta muito para ele, muito para se compensar da situação de desvantagem em que se pressente. Um esbracejar do seu lado crítico, direi agora, um esbracejar. Um iludir o caos da irreflexão.
A prova dum impulso de afirmação deste tipo está na minha
resposta ao exercício que um dia me propôs a neurologista que dirigia o meu
tratamento (“Onze menos nove quantos são?”) apresentando-lhe a primeira solução
engenhosa, pretendia eu que me veio à cabeça: “Nada, senhora doutora. Qualquer
coisa noves fora é nada.”
(O segredar da infância a assaltar-me numa brincadeira de tabuada,
apetece-me anotar neste ponto da minha narração.
Eu há anos, há séculos, na Escola Primária do Largo do
Leão, em Lisboa, a declamar o “nove, noves fora, nada”.)
Acrescento ao comentário que foi no decorrer desse
interrogatório que fixei como uma marca
pessoalíssima daquela médica a correia bordada a cores no relógio que
ela usava.
Demoro-me um pouco sobre as fotocópias da caligrafia desse homem nos testes da fala e da escrita que tenho à minha frente. São um desfiar de caracteres cuneiformes traçados a desdém que ele nem se deve ter dado ao trabalho de olhar. Dessa caligrafia enlouquecida só nas últimas provas é que a assinatura tem alguma aproximação com a que me era verdadeira; nas outras mostra-se cerrada, apenas o J se mantém reconhecível. O "J" de José. A letra menos espontânea da minha identificação.
Sem nome e sem assinatura este que eu sou entre paredes dum
hospital encontra-se numa paisagem anónima com gente anónima (o pessoal, os
visitantes). Sem nome, vejam só. E contudo, “os nomes penetram-nos até aos
ossos”, afirmava Hemingway, esse viajante das mortes, em The Garden of Eden. Simplesmente, no meu homem sem memória tanto o
nome que lhe pertencera como o das personagens que lhe cobriram a existência
tinham enquistado e desfizeram-se em pó. Apesar disso, uma vez por outra
ainda dava mostras
de procurar recuperá-los:
“Eu tenho filhos, não tenho?” pergunta ele à
Edite. (Eu. Uma vez mais o sujeito
solitário, repare-se.) “Como é que eles se chamam?”
“Temos duas filhas.
A Ana e a Rita”, responde ela. “Rua?”
“Não. Rita”, diz a Edite.
E ele: “Pois, Rua.” (Pensava ter dito Rita, é evidente.) “Então
e o António Nuno?”
Edite: “O António
Nuno era teu irmão, morreu
há muito tempo.
Nós, além das filhas, temos dois netos.”
Ele: “Pois, dois
netos. Como é que eles se chamam?” Edite: “Joana e Rui.”
Ele: “Rui. Que nome tão feio.”
Os nomes. A preocupação de se reconhecer vivo, identificando-se pela identificação dos outros. Durante a travessia das trevas brancas os diálogos com a Edite foram em grande parte uma busca de referências, um inquérito em total inconsciência na tentativa de se recapitular para voltar a ser indivíduo com passado. A família e os visitantes que lhe apareciam quem eram? Donde vinham e que ligações tinham com ele? O pior é que rarissimamente se preocupava em os situar na sua vida (tinha aceitado que não era capaz, foi a impressão com que eu fiquei até hoje) e, quando muito, punha-se a olhá-los sem os ver.
Ali o tenho, anulado e discreto. Ali me tenho, com a Edite
à cabeceira. No quarto onde o arrumaram há os tais dois vultos a comunicarem de
cama para cama, duas sombras falantes, se bem que as sombras mesmo que falem
nunca têm voz. De modo que permanece deserto
e sem sobressaltas, a dias vagos e sonos limpos.
Está à mercê dum coágulo que lhe trava
a circulação do cérebro e anuncia um fim assustador mas ele desconhece isso, não
pressente sequer. Está distante, está longe. Que longe, meu Deus, pensará a
Edite.
De resto, a desmemória não só o isolou da realidade objectiva como o destituiu, pode dizer-se, de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque, sem a consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante. As suas virtudes ou os seus males só podem ser reconhecidos como significantes sentimentais em contraponto com a consciência da nossa identidade, isto é, com a tradição da comunicação que praticamos com a sociedade e com a nossa memória cultural. A ele tal coisa estava-lhe vedada, memória onde tu já ias. Dá a total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse, não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.
Atentem, atentem nele: chegam amigos a visitá-lo mas ficam-lhe no limiar da recordação. Pelo desfocar da vista, por certas expressões evasivas ou por certas insensibilidades, percebe-se que não é capaz de os localizar com clareza. A um deles, sei eu que lhe viu os olhos toldados de lágrimas e que teve um impensável vislumbre de estranheza, o que era aquilo, parecia perguntar mas frio, terrivelmente frio.
“Na véspera de não partir nunca...”
Álvaro de Campos
Há pouco, ao transcrever aquela frase do Hemingway,
lembrei-me de mim a tropeçar no meu nome quando, depois
de ter sido desligado do soro,
me passeava no corredor como numa galeria
sem história. Evadido do quarto e dos dois vultos de
gaiola que saltitavam palavras mudas um para
o outro como se fossem
sopros de fumo,
deslizava por entre
portas e paredes duma brancura
macia.
Andava por ali, transposto para qualquer Alguém de mim num
território satélite sem vida. Ainda que árida, a atmosfera era leve e luminosa
e eu transitava pelas pessoas com um longo olhar sem rumo. Um animal
a planar dentro duma redoma de vidro, é como me imagino naquela altura.
Nesse período, já o disse, as palavras que me chegavam vinham cegas. Sombras não havia nem podia haver numa claridade tão absorvente (só hoje enquanto escrevo é que me dou conta disso) não havia sombras não podia haver a não ser a do Outro que andava por lá Outro que afinal não era mais que uma sombra saída de algures de mim e a desfocar-se por si só não se sabe em que direcção nem com que objectivo uma sombra branca corrida no branco como foi que desse apagamento consegui reter alguma luzinha a brilhar até agora é coisa que ainda estou para entender mas retive retive mesmo? Retive melhor assim.
Verdade, melhor assim.
Paredes mansas, as tais paredes
em alvura pérola; por entre elas, os
sons, as figuras e o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade. Eu, em
pessoa de coisíssima nenhuma, cumpria as tardes de hospital num vaguear
inocente. Mesmo assim, aconteceu saltar-me ao caminho o meu nome. Saltou-me poucas vezes é certo, três ou quatro se tanto
mas era um nome que andava a monte
repetido e desfigurado nos ficheiros da terapia
da fala um nome a acenar-me a acenar-me José José José numa espécie
de provocação à distancia
José que nome tão feio considerava eu.
“Feio”. No vocabulário das
trevas brancas o meu qualificativo chave era esse e provavelmente só utilizado na refutação dos nomes das pessoas.
Estava longe de adivinhar que ao
voltar um dia à comunidade dos vivos, iria ouvir
o mesmo comentário da boca dum herói de Wim Wenders no filme Lisbon Story.
O mesmo, sem tirar nem pôr. Com o mesmo sujeito e com a mesma
frase, até. Viajante
exótico no exótico
duma cidade de que
desconhecia em absoluto a língua, o passado e o presente (como me acontecera a mim no enquadramento para onde a doença me tinha atirado) o personagem de Wenders
pretendia descobrir uma cidade de gente através de sons e só de sons,
desabonados de quaisquer referências culturais
(sons ausentes de memória, diria eu).
Uma sofisticação ociosa, essa de se querer reduzir a comunicação entre humanos a uma essencialidade tão artificiosamente concebida. Seria, mas Wenders tentou. Deve ter ficado tão encantado com a ideia que não perdeu tempo em enviar um viajante de microfone em punho à cidade de Ulissipo (nome romano da capital portuguesa, Lisboa), para a descobrir em metáfora num amontoado de palavras sem alma.
Mas aconteceu que ao longo das suas gravações o homem de
Wenders deparou com alguém a pronunciar a palavra José. E achou insólito: José?
Compreendeu que se tratava dum nome próprio, mas não conseguia mais do que classificá-lo como um articular de sílabas pobres. “Que nome tão feio”, comentou de
frente para a câmara. Textualmente como eu me tinha comentado a mim próprio
no Hospital de Santa Maria.
Adiante. Corredor para a frente, corredor para trás, o
Outro que se desdobrou de mim comporta-se naquele planeta como um figurante
gratuito que o destino acrescentou à paisagem.
Continuo a recordá-lo não tem hora nem lugar
é a impressão que dá uma
afabilidade incolor no trato com os médicos e com as enfermeiras que o acompanham e calmo sempre
calmo praticamente sem palavras mas de
quando em quando com a luz discreta dum meio sorriso para manifestar presença
ou como uma deferência para com as pessoas com quem se cruza.
Atenção aqui, atenção, porque alguém o viu pegar num jornal e ficar com ele dependurado sem o abrir. Dizem que ficou a observar durante alguns segundos uma fotografia de Cavaco Silva na primeira página e que passou passou-se está impossibilitado de ler impossibilitado mas não se perturba segue por cima.
Por vezes vamos encontrá-lo diante dum televisor onde as imagens lhe aparecem sem conotações umas com as outras num discurso conflituoso. Sei desse desenrolar confuso ou julgo que sei. E também sei que ele recebia as vozes como ecos desligados das pessoas, a menos que essa, como outras rememorações, não passe duma “visam auditiva” que eu tivesse construído no limbo da pós libertação da morte branca.
Jogo dos ecos, nesse caso. Falsa visam. Seria?
Pausa agora no inverno, sol ameno. Por cima do arvoredo do
hospital há um palácio de cristais dourados
um palácio não exagero vê-se da
janela do quarto e eu fixo-o com interesse ele também mas passado um segundo
já o perdeu apesar de continuar a olhá-lo. Esta figuração cintilante repete-se
a qualquer momento em que se aproxime da janela mas assim que se afastar é como se tivesse abandonado uma vidraça deserta.
Andar andar sempre a andar. Internamento de Neurologia,
cama janela lavabos corredor corredor para a frente corredor para trás de cada
lado só vê quartos de porta aberta com camas a meio sono em determinado recanto
estão sentados três ou quatro doentes num banco. Em roupão (sempre os mesmos?) e de frente
para a entrada dum elevador que nunca chega. Na postura
impassível de personagens que se ignoram entre
si parecem estar a aguardar
a partida para uma viagem
confidencial.
Passos. Os passos dele: perdidos. Para a frente e para trás, perdidos. O Costume. Se voltar ao televisor, os doentes que irá encontrar diante do écran estarão todos sem rosto ou é como se estivessem porque os esquecerá assim que os tocar com o olhar se é que os toca.
O mesmo lhe acontece com os dois companheiros de quarto entregues aos seus diálogos de vultos.
Prossigo o inventário. Por cima duma porta não sei
onde havia um letreiro que me obrigava a um soletrar
intrigado:
BANHOS
Aquilo parecia-me uma grafia cirílica.
Alfabeto eslavo?
Cada vez que passava por lá com a Edite
apontava-o sem mais nada
e ela, já sem levantar
os olhos, respondia
BANHOS
Então sim, eu conseguia ler
e reconhecia
a palavra.
BANHOS
Era isso devia ser isso mas imediatamente
revertia à forma inicial BANHOS BANHOS BANHOS
de tanto
o estudar a sós e de o saber impossível o letreiro fez com que me
interrogasse sem exactidão de
consciência é certo sem sobressalto mas a interrogar-me se não estaria
a caminhar para a loucura.
Inacreditável. Eu, o Outro de mim, em viagem de passas perdidos e a interrogar-me se não estaria a caminhar para a loucura. E o caso é que, desconcertante ou não, a pergunta aconteceu. E para maior surpresa, não a esqueci. Loucura, caminho para a loucura, a questão chegou-me com uma insistência passadeira mas no estado em que me encontrava o que seria para mim a loucura? Como é que eu, impessoal e tão a esmo, me tinha lembrado de tal coisa a propósito dum letreiro? Pensando-a a esta distância, admito que essa perturbação se possa dever a um eco da minha identidade do passado: ao enfrentar aquele letreiro como uma provocação da leitura e da escrita era o ex-autor de livros que estremecia na cegueira em que tinha mergulhado e que tirava do fundo da sua razão perdida o esboço duma interrogação à loucura. Seria?
“A notícia da minha morte foi um exagero.”
Mark Twain em
telegrama à Associated Press
Até que certa manhã acordo em claridade aberta com gargalhadas a creditarem à minha volta. Dum momento para o outro, o sentido de presença. E tudo concreto, tudo vivo. O quarto: para lá da janela, o palácio de cristais dourados (que era o Hotel Penta, quem diria) e à minha frente dois vultos que me faziam companhia a desafiarem-se à gargalhada de cama para cama, um deles com um braço paralisado ao longo do corpo, o outro um velho de auscultadores ao pescoço, com um walkman debaixo do lençol. Cada qual a rir, a rir, e a acenar com um lagarto de plástico que soltava uma língua em tremular de labaredas.
Acredite-se ou não, naquele quarto estavam dois candidatos à morte no maior dos carnavais. Dois passardes arruinados, pelo menos quanto ao aspecto. E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte e sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. Existência palpável, o mundo deixara de ser anónimo. Agora o roupão e os meus óculos apresentavam-se como evidências familiares e até o lugar onde eu me encontrava parecia circunstancial. Um tanto ao acaso, avancei para o lavatório e ao aproximar- me reconheci-me no espelho: Eu. Eu, saído da névoa, a ir ao encontro de mim na superfície dum vidro emoldurado e com a sensação ou com a certeza (ah sim, com a certeza, a mais que certeza) de que encontrara a memória. Incrível, a memória tinha reaparecido, o coágulo de sangue, esse selo que me estrangulara o cérebro, diluíra-se no segredo do corpo e eis- me livre, renascido, diante de dois estranhos que não paravam de improvisar malícias entre si.
Dois passarões arruinados. Quanto mais os ouço mais os vejo nessa
figura. Em regime rigoroso aguardavam que lhes fosse marcada a hora de serem operados ao cérebro (“tirar a
tampa” ou “arejar a mioleira”, como eles diziam) um assunto em que o do braço caído se mostrava confiante e quase com vaidade. Estava destinado ao Professor A
(“destinado”, a expressão dele era essa) e na
realidade o prestigio científico daquele neuro- cirurgião representava
um privilégio e uma garantia que o doente não se cansava de proclamar diante
do seu companheiro dos auscultadores.
O que o inquietava era que o professor não lhe aparecia, andava por congressos ou por aulas magnas e quem sabe se àquela hora não estaria, rodeado de toda a sua equipa, a operar uma alma desentendida ao som de marchas militares. Marchas militares, porque não? E quem dizia marchas militares, dizia sonatas ou grandes sinfonias, um cirurgião de toda a autoridade tinha direito aos seus caprichos, esclarecia o meu vizinho do braço esquecido. Ramires de seu nome e construtor civil apessoado, dispunha de relações nos hospitais e na classe médica e afirmava-se ao corrente de tudo e mais alguma coisa que respeitasse ao Professor. Contava-o e sublinhava-o numa toada a anuviar para o lendário, e eu, de retorno ao mundo dos vivos, ouvia-o com prazer.
Mas mais do que eu ouvia-o o doente da outra cama que
ignorava quais as mãozinhas que lhe iriam trabalhar o cérebro. Caso para saber
se o entregariam a um remendão
de palpites azarentos, ninguém estava livre disso, ou a um cirurgião acabado de
sair das fraldas, uma vez que sem sacrificados não há principiante que chegue a
bem sucedido. E uma doutora? Também era capaz
de haver gente dessa, doutoras de esquartejar. Nos tempos que corriam as
mulheres não tinham regra nem bandeira, embora estivesse mais que provado que doutoras a cortar e a coser só na costura de alinhavos, ou
não seria assim? Não se preocupe, amigo Martinho, sossegava-o o outro a
transbordar de generosidade, isto da mioleira
é só renda aos labirintos e para de lá sair o melhor
doutor não faz mais
que fechar os olhos e seja o que Deus quiser. E o Martinho:
Estou a ver, estou a ver. Um bom sacaninha é que você me saiu, amigo Ramires.
E
riam a bandeiras despregadas, cada qual nos seus lençóis do medo. Pelo que vim a saber, este Martinho
era comerciante na Nazaré.
Velho e sem família que se lhe conhecesse, explorava uma casa de bar e snooker que tinha bem à vista, contou ele, o aviso de...
"PROIBIDA A ENTRADA A MENORES OU A ADULTOS AO COLO"
em coisa da memória te mudei”
Ana Akhmatova
Abrindo caminho por entre ditos
e gargalhadas, chega
a Edite com as
nossas filhas. Vêm iluminadas, felizes,
e depois delas
a neurologista do relógio da correia bordada que traz um
sorriso a condizer com a sua sobriedade natural.
Quando ela sai do quarto passamos ao corredor. Alguém me dá
os parabéns como se tivesse sido eu o autor deste triunfo e um psiquiatra meu
amigo expõe o fundamental da recuperação surpreendente, surpreendente, repetiu
ele, que me tinha acontecido. Ouvindo-o, penso no cérebro como o atlas vivo das grandes
marchas do homem. Uma massa luminosa capaz de abranger os infinitos da mais impossível grandeza, do maior sempre
maior ao mais ínfimo dos mais ínfimos,
mas que se revolve ou se
retém a um minúsculo sopro de pó; que se descodifica e resta neutro, terminado; que se recompõe
e nos torna de novo vivos a um traço calculado da ciência.
Sinto-me tomado de gratidão. Isto de alguém se recomeçar
assim depois de nulo é algo que deslumbra e ultrapassa.
Nessa noite foi acordar com um desfilar de vozes femininas
na escuridão
do corredor. Enfermeiras? Cantavam Forever (uma
canção que eu conhecera há muitos anos) como se viessem no rescaldo duma festa para entrarem no turno de serviço, pensei
eu. Era uma procissão nocturna murmurada em inglês, um quase ritual que me
fazia duvidar da minha recuperação. Delírio? A
tal marcha para a loucura que me viera à cabeça no corredor dos passas
perdidos? De ouvidos no escuro fiquei à espera que tudo acabasse. Acabou. O coro amorteceu como se fosse
a afastar-se e por
fim veio o silêncio. Na janela uma cortina de inverno em chuva miudinha.
Mas há o roncar dum avião a rasgar a noite, um resfolegar poderoso a caminho do Aeroporto. E como se obedecesse a uma ordem,
na cama à minha esquerda o empreiteiro Ramires
começa a ressonar
em crescendo, acompanhando a marcha do aparelho. Estremece em
vibrações, aumenta o som à medida
que o sente aproximar-se, aumenta
mais e mais, e quando
o tem mesmo por cima do hospital lança-lhe um trovejar de rugidos que
abala o quarto de alto a baixo; inversamente, começa depois a baixar o tom, gradual,
gradualmente, até o avião desaparecer do mapa da noite. Só então
se dá por satisfeito e recolhe ao respirar compassado do sono.
No escuro, junto a dois homens adormecidos, tento ver para trás do meridiano da morte que acabei de dobrar esta manha mas só encontro névoa luminosa. Dentro de uma ou duas horas, com as recordações da Edite e dos amigos em visita, vou continuar o reconhecimento da geografia sonâmbula por onde naveguei e que não era mais do que uma transfiguração do universo do meu quarto e de uns tantos passas à margem dele. Serão, rapaz, os teus últimos passeias do exílio, dai em diante saúde e baile é que é preciso.
Mas o corredor das portas abertas e das camas a meio sono
deixou de ser a estrada sem limites que eu percorria nos cegos tempos. A sua
brancura já não é de vazio e solidão nem de extensões de luz fria. Pelo
contrário, é quase intima, hospitalar, e, ponto importante, exibe doentes a desfilarem
em parada de toilettes. Três ou quatro, não mais, e todos os dias os
mesmos.
Olho-os. Passam por mim roupões
acabados de estrear,
chinelas de aconchegar
sossegos; à saída duma porta, um infeliz de perna arrastada compõe o seu burguês
casaco de quarto
com alamares; mais adiante outro internado avança em rode com
monograma e lenço de seda ao pescoço mas por
razoes que só a ele dizem respeito calça luvas de lã grosseiríssima; outro ainda,
um tipo enorme
de cabelo grisalho,
mostra-se de peito aberto
num quimono de judoca e calções colados
à coxa, exibindo umas pernas ilustradas por
adesivos que cobrem enxertos de artérias ou algo assim. Brilhos de presença
e uniforme: desejo de sobreposição ao anonimato ou à marginalizarão para que nos empurra a doença?
Numa porta volto a dar com o letreiro
BANHOS
que me perseguiu até à
obsessão sob a máscara bizantina
de
BANHOS
e que
é uma das raras imagens que me ficaram do tempo cego.
Do tempo nulo. Ou passivo. Como se queira.
De quando em quando vou até ao quarto e lá está o amigo Martinho
de auscultadores nos ouvidos a receber a música que lhe vem debaixo dos lençóis e a magicar lucubrações. Na
cama em frente o companheiro Ramires permanece de olhos fechados, agarrado ao
braço inerte. Ou dorme ou são as dores de cabeça que o obrigam a estar naquela
postura; mas
se dorme, é garantido que logo que um boeing ou
um airbus apareça no firmamento
não deixará de dar o alarme, desatando a ressonar em crescendo. “O ressonar do
avião”, chama Martinho a esse estrondoso toque de peito que, por razoes
imponderáveis, é menos desvairado nos sonos de dia do que de noite.
Mas também pode acontecer que, quando modo e de pálpebra
tombada, o nosso Ramires esteja apenas fechado em pensamentos e se assim for,
entre ele e o da outra cama não tardará a recomeçar o costumado baile das malícias:
“Ou muito me engano ou é amanha
que o Professor me vai marcar a operação.” (Ramires abrindo os olhos,
com o ar de quem saiu duma meditação devidamente meditada.)
Sorriso de Martinho: “Operação com música ou sem música?”
Nenhuma resposta do lado de lá; e o Martinho
outra vez: “Pois
eu, amigo Ramires, a noite passada
sonhei que o doutor me estava a tirar a tampa do intrínseco.”
“Doutor? Qual doutor?”
(Ramires.)
“Um qualquer, não interessa. Sonhei
que ele me estava a decifrar de tampa
aberta e que do meio dos miolos me saiu uma data de borboletas.”
“De vespas, quer
você
dizer.” (Ramires, rindo
baixinho.)
E Martinho: “Ou isso. Realmente,
antes vespas que borboletas porque as borboletas são muito atreitas às
flores de cemitério. (Riso). Na primavera, bem
entendido.” (Primavera dos cemitérios:
mariposas, mariposas, pétalas a adejar por cima de campas ao sol. Ao redigir este
diálogo, lembrei-me da “mariposa-caveira” (Acherontea antropos, L.) que os
mexicanos adaptaram como figurante das
procissões de Carnaval)
Ramires: “Eu cá não sonho. Tenho a consciência tranquila, compreende?”
Martinho: “Sonhar não é fácil.”
Ramires: “Ah, pois não.” Faz-se
desinteressado; e de repente: “Diga-me uma coisa”, agarra
o braço paralítico, puxa-o mais para si, “uma coisa,
amigo Martinho: o amigo lá no sonho sabia quem era o doutor que lhe estava a tirar a tampa? Sim, o operador, o cirurgião. Sabia?
Claro que não sabia, o azar é esse. E quem não sabe, é garantido: acorda
com uma coroa de flores e uma data de borboletas ao de cima.”
“Com vespas, amigo Ramires. Peço desculpa mas eram vespas.”
“Vespas ou borboletas vem tudo a dar no mesmo. Eu, ao menos,
se alguma vez sonhasse
que me estavam a tirar a tampa havia mas era de me
sair um anjinho de asas brancas a tocar cometa
pela pauta.”
Gargalhada pronta do Martinho: “Pois
é. E atrás do anjinho
ia você a caminho
do Pai do Céu sem o Professor
lhe dizer adeus.”
Comerciante de muito traquejo no ramo de bar e bilhares, Martinho lançou a carambola e deu o assunto por arrumado, tornando
a emparedar- se entre os auscultadores para ouvir uma música muito sua.
Nisto entrou uma enfermeira que se pôs às voltas pelo
quarto, o termómetro, onde estava o termómetro, perguntava ela, nenhum dos
senhores ali presentes tinha visto o termómetro? Martinho levantou um dos
auscultadores: “O termómetro? Deve andar por aí.” E o construtor Ramires, de olhos fechados:
“Se calhar derreteu-se com a febre.”
A enfermeira não só já se tinha habituado aos entremezes
daquele par de corvos como fazia por lhes copiar o tom nos dias de boas marés.
“Machista”, chamara ela ainda há pouco ao desgraçado do Martinho
que na ocasião parecia uma caveira deposta sobre a almofada porque tinha tirado
a dentadura.
“Machista é que o senhor é, fique sabendo.” E com esta deixara-o de boca às moscas porque machista devia ser uma palavra que não lhe constava lá muito bem.
“Sai depressa, depressa. Já quase morram esta noite
os ecos.”
Herberto Helder
Mais dois, três dias, e iria levantar
ferro da ilha dos náufragos para reviver a casa e o mundo e voltar à escrita e aos livros
nas últimas linhas em que os abandonara.
Num golpe repentino tinha perdido a inteireza da fala, no
mesmo golpe tinha perdido os valores da grafia e ficara analfabeto de mim e da
vida. Subitamente também, retomara tudo isso mas foi preciso algum tempo para começar a ter consciência de tamanha felicidade.
A princípio, por prudência instintiva ou por quase superstição, evitava comprovar a realidade que me tinha sido restituída e experimentar- me em coisas que me eram essenciais. Para reabrir os livros receava que ainda não fosse a hora, havia que não perturbar a recuperação. Escrever, nem uma linha depois da prova salvadora com que os médicos arrumaram de vez o meu dossier. Ler, lia os jornais e sem a curiosidade que seria de esperar talvez porque o fosso que separava a fortaleza do hospital da humanidade exterior ainda não estivesse instintivamente vencido.
Não, leitura poucas. Pelo menos por enquanto. E no que
tivesse a ver com escrever, nem pensar. Até sair do hospital jamais
me quis abordar (inquietar, para ser mais preciso) como sujeito de livros e de escrita,
uma identificação pessoal que eu só muito depois viria a relacionar com
o letreiro fantasma ...
BANHOS BANHOS BANHOS
... que me perseguira ao longo da minha erosão da memória e que foi a única recordação que sobreviveu integralmente a todo esse aniquilamento. (A única não. A hipótese de loucura, por exemplo, foi outro episódio de que guardo uma lembrança objectiva)
Quanto ao mais, o desfazer das trevas brancas repunha-me
numa normalidade que me impressionava por ser tão nítida e tão espontânea, tão decorrente.
O minuto interrompido e, ao fim de todo este tempo, continuado como se nada
tivesse acontecido; o livro aberto, à espera, as anotações à vista; a frase abandonada a meio e prosseguida naturalmente tudo assim, nada mais
simples.
Entretanto, até ao final do internamento ia sabendo notícias do Outro que eu fora pelas descrições de quem o tinha visto na névoa antiga, e então nomes, pessoas e casos voltavam a povoar-me a memória. Sobretudo ao almoço com a Edite e nos passeias pelo corredor recapitulava-me e recapitulava o pesadelo quase amável donde eu me tinha libertado, embora não tivesse trazido de lá mais do que vislumbres fugazes, instantes ou insinuações.
Ao percorrer agora o território do hospital que
correspondia a esse cenário, encontrava muito de raro em raro pormenores que me
sugeriam alguns sinais da aridez da morte branca, atmosferas ou como que
atmosferas, reflexos de luzes. Mais: de passagem, um ou dois apontamentos
casuais levaram-me a reconstruir momentos concretos da minha marcha
de sonâmbulo iluminado. Os passageiros sem viagem, por exemplo. Afinal, em frente
do elevador o banco onde antes se dizia que eu
tinha visto pessoas-em-estátua (a expressão não seria minha certamente mas foi
assim que a traduziram) pois bem, esse banco estava lá, existia. Existia mas
vazio, embora me tivessem ouvido falar de ocupantes “esquisitos” (doentes sem
rosto?).
Praticamente sem ninguém,
pode dizer-se, estava
igualmente a sala do televisor que era mais uma
passagem do que outra coisa e que me parecia um espaço ao abandono com imagens
a sucederem-se na penumbra. Mais adiante
ficava um gabinete
de enfermagem de que nunca me tinha dado conta, depois o
corredor, o corredor que fora dos passos perdidos, depois as toilettes, depois novamente o quarto, e ponto final,
ali acabava o mundo.
Acabava, não. Agora que eu tinha despertado o mundo recomeçava a partir dos dois companheiros de hospital que iria deixar
em breve e que
até lá eram os meus personagens de cada dia. Vivia-os com atenção. Com afecto, até, e de certo modo com admiração. Contava-os à Edite
para não lhes perder
o fraseado nem o adejar
em torno da vida e da morte.
Cruzado de risos e de dores, Ramires, de olhos fechados, sonhava com o médico da sua redenção e esbravejava em roncos infernais para expulsar os aviões que lhe vinham invadir o sono. Por seu lado, Martinho, o velho, passava uma parte do tempo entre parênteses, ou seja, fechado muito com ele nos auscultadores que lhe davam música para esquecer o só Deus sabe que lhe estaria reservado. Volta não volta, os dois, para desentorpecer, metiam-se em tropelias de conversa com gargalhadas à mistura e em momentos especialíssimos Martinho punha-se a dissertar em voz pensada sobre as artes do bilhar.
Suponho que assentara naquele tema por explorar um bar de
snookers na Nazaré e o snooker não lhe merecer
particular consideração.
Segundo ele, o snooker era bilhar de cavalgada americana (vinte e uma bolas à procura dum buraco) e se o escolhera
para ramo de negócio a culpa cabia ao triste gosto do público da Nazaré, essa
praia de calçados. Para ele, bilhar,
o que se diz bilhar,
só o francês e mais nenhum. Aí é que sim. Aí, com
três bolas em sujeito, predicado e complemento, o artista de mão de seda
traçava uma oratória
geométrica em cima do pano verde que era um pasmo de se ver.
Só tive conhecimento deste discurso no dia da minha despedida, mas pelo ar enfastiado com que o empreiteiro Ramires o ouviu depreendi que não tinha sido novidade para ele. Para mim foi, e de certo modo tomei-o como um adeus que o velho me endereçava. Eu partia, sorte minha, ele ficava. Mas pelo sim e pelo não, queria que eu levasse comigo uma imagem apropriada da sua pessoa. A dissertar numa cama de hospital em carambolas à meia volta, efeitos na conta certa, massés e tabelas de preciosidade, o velho era como se pairasse longe dali e da morte, presidindo a uma constelação de estrelas loucas a rolarem em céu aberto.
Últimos preparativos para a
partida. Papéis da secretaria para assinar; eu, de gravata e gabardina, à espera da Edite.
Mas era cedo, continuava a ser cedo. Ia ao corredor,
espreitava à janela o arvoredo
do hospital, lia a linhas soltas um semanário desportivo diante dos meus companheiros
que se manteriam, não tinha dúvida, de olhos
bem abertos até à minha
despedida. Martinho desligara o walkman, Ramires não dizia palavra.
Eu verificava a mala, olhava
o relógio. Lá fora
estava uma manha luminosa.
No quarto um silêncio em suspenso.
Pronto. Cá vou eu, Lisboa ao sol, cá vou eu, e agora,
passados meses, já sentado
diante destas folhas de papel,
redijo-me em capitulo
de liberdade a atravessar a capital com a Edite ao volante. Escrevo: é
um meio-dia de inverno.
Só que enquanto
escrevo tenho chuva na janela à minha esquerda e isso obriga-me a acrescentar que o
meio-dia que estou a rememorar era (foi) um rasgão
de céu e de luz numa estação
sombria. Regressava a casa
em saudação de primavera em pleno mês de Janeiro. Para trás ficava a pesada babilónia do Hospital de Santa Maria onde àquela
hora estaria um cirurgião rodeado de toda a sua equipa a reconstruir o cérebro de alguém
suspenso entre a terra e o céu. Ponho-lhe música de fundo, uma música burlesca,
se possível, como o “Quarteto das Dissonâncias” de Mozart. Música, porque não?
No renascer de cada vida a música é um privilégio abençoado, já lá dizia o
empreiteiro Ramires por outras palavras. E por Ramires, lembro-me da tarde em
que o companheiro dele, recostado na cama, se saiu com esta para o informar devidamente:
“Amigo Ramires, amigo Ramires, o amigo anda para aí todo seguro do
seu Professor mas sabe o que é que alguns hospitais fazem
agora?”
(Suspensão. Ramires de olhos no tecto, à espera.)
“Fazem”, recomeçou Martinho, “uma manigância que nem você nem o mais astuto é capaz de desmaranhar. Levam-no para a sala das operações, está a compreender, mostram-lhe um cirurgião de primeiríssima, põem-lhe música se for caso disso, música para eles é um abelhar para entontecer, depois atiram-lhe com um anestesista para cima, picadela, coisa e tal, e assim que o amigo fica a ressonar em ponto morto, em vez do propriamente cirurgião entregam-no a um velhadas de prateleira ou a um doutorzeco qualquer que ande por aí aos caídos. Topou?”
Eu pela minha parte apreciei o aviso, aprecio, quero eu
dizer, e parece que ainda estou a ver o nojo impassível com que Ramires ouviu
aquele cantar de velhaco, salvo seja. Ouviu, deixou pousar, e como resposta ao maldizente, convidou-me em voz alta e bem sonante para uma
festa de lagosta, ostras bravas
e champanhe francês
que andava a estudar
com todos os pormenores para o dia em que se
visse livre daquele estaleiro de entrevados, disse ele.
Dois anos. Já dois anos sobre isto e só hoje é que dou por encerrada para sempre a minha viagem à
desmemória, arquivando-a nestes apontamentos escritos à deriva por indícios
trazidos na corrente. Vou interrogando e retendo,
apurando a caligrafia da recomposição, e quando
chego ao convite do meu companheiro de hospital para uma celebração de lagosta com champanhe, não hesito em fechar e pôr assinatura no texto.
Disse e vivi, Acta est fábula.
Como despedida, a festa anunciada parece-me uma vinheta condigna mas, se me é permitido, acrescento-lhe um fio de música.
Janeiro de 1997
Entrelinhas de uma memória
Memória, Memória Descritiva e, dai, Memória
duma Desmemória poderia chamar-se
a este relato se o rigor científico me tolerasse um título
de metáfora tão esguia e o gosto da escrita o não rejeitasse por exibicionismo
fácil.
Todavia, culpa minha, foi na memória ou na tragédia da
memória que, com maior ou menor erro,
concentrei o acidente vascular cerebral que acabo de redigir. Se esse
enforcamento é aceitável do ponto de vista neurológico não sei, mas foi a
experiência sofrida que mo ditou na interpretação forçosamente diletante em que a tentei descrever.
“Uma das minhas filhas diz que o pai opera memórias”,
referiu o Prof. João Lobo Antunes numa entrevista. Uma expressão feliz, é assim
que eu sinto muito no Intimo esta definição do neurocirurgião. Estou mesmo em
crer que dificilmente encontrarei outra melhor nem uma síntese mais expressiva do fenómeno que designei por morte branca.
Bem sei, a morte branca não existe, eu estive lá. Tudo o
que me aconteceu nessas paragens
cabia aos outros,
não me tocava.
Era um glaciar, a morte branca. A memória congelada.
Se o sonho é já por si uma memória, sem memória poderá o
indivíduo sonhar?
II)
Nas entrelinhas desta Memória ou como se lhe queira chamar
há acontecimentos pessoais que, embora ocultos, me parecem bastante próximos do acidente cerebral
que acabei de descrever, em particular um desastre de automóvel ocorrido
três meses antes.
Relembro-o:
Tudo aconteceu pela mão do Diabo, tudo fulminante, brutal.
Uma viagem solitária de dez horas ao volante desde Burgos até Lisboa, um jantar tardio com António Tabucchi e Marcello
Mastrolanni no restaurante Comida d'Urso e, horas depois,
um monte de destroços, com o meu carro
enfiado noutro carro à saída do Parque Eduardo VII.
Insensibilidade cerrada a seguir à colisão. Comportamento
automático e memória “automática”, digamos assim, nas respostas às situações
mas tudo num aturdimento em casulo opaco: factos, pessoas e lugares fechados
ali para sempre.
Entrada nos cuidados intensivos do Hospital de Santa Maria com três costelas cravadas na pleura. Dessas longas horas de meia inconsciência, apenas uma recordação: o flash nocturno dum enorme salão de pedra com dois ou três médicos a discursarem em espanhol diante da maca onde eu me encontrava. Imagens de árvores a escorrerem chuva lá fora as árvores da cerca do Hospital, possivelmente. Apesar de o meu traumatismo cerebral não ter sido uma sequela deste acidente, a alienação da memória que ele determinou constituiu para mim uma referência perturbadora. A memória como exponencial comum a dois desastres.
III)
No que escrevi procurei não ceder a especulações de
circunstancia pela prudência que obriga a cingir ao factual e ao mais estrito para não cair em
domínios que não me caberiam.
Intencionalmente, também, não recorri no meu trabalho à
colaboração de quaisquer especialistas. Não pretendi nem poderia pretender
transmitir uma experiência tão complexa com a segurança, aproximada sequer,
daquela com que a literatura médica já a tem certamente mais que descrita.
Em vez disso, interessava-me apresentar o testemunho dum homem de formação
corrente na sua abordagem à perda
de identidade que lhe ocorreu
em resultado dum acidente cerebral.
Assim sendo, os erros, imprecisões, preconceitos ou ideias feitas que tenham sido verificados ao longo da narrativa devem permanecer como indispensáveis à espontaneidade elementar e declaradamente pessoal que lhe pode conceder algum direito para vir a público. Os erros ou as imprecisões são dados que ilustram a atitude cultural face à doença do dito homem corrente e, juntamente com o seu “modo de contar”, podem revelar a sintaxe dum comportamento de crise e porventura alguns complexos da sua interioridade.
IV)
Uma prevenção atenta contra as seduções que a ficção tende
a extrair da natureza dum tema carregado de efeitos e de dramatismo.
Sobretudo no Diálogo a Duas Máscaras, interpretado pelos
meus companheiros de quarto,
esse risco de apropriação pressente-se à primeira leitura
como não podia deixar de ser, uma vez que se está diante duma recriação de
personagens reais e só como recriação elas poderiam ser transmitidas.
Hoje Ramires e Martinho estão
vivos e integralmente recuperados. Ouvindo-os, conheci uma imagem terrena e quase
mítica do médico, ao mesmo tempo dignificante e plena de humor sacrificado no discurso sobre a
morte. Eles não interrogavam os mistérios da doença, interrogavam a verdade de quem a poderia derrotar.
Os dois, em contraponto, situando
o médico como referência final,
transformavam-no em dramatis personna da
sua “commédia
della paura”.
Uma última palavra:
penso que nenhum
escritor que ama realmente
a
vida se justifica com a posteridade no seu esforço de perfeição e nos seus fracassos e que nenhum
trabalha a sua obra como se tecesse
um Requiem de si próprio. Este relato é, pois, uma comunicação de circunstância. Um apontamento pessoal. Mas é também um
desabafo de gratidão pela competência e pela solidariedade que me foi prestada
no meu internamento hospitalar.
Aí verifiquei uma vez mais que assim como a Literatura não é uma academia de frases também a Ciência não é um sacrário de tecnologias.
Isso tem a ver directamente com a Ciência
como humanismo superior
no enquadramento universal que ainda há pouco foi sublinhado entre nós por Um Modo de Ser, de João Lobo Antunes. Uma tal concepção afirma-se no verso
de Álvaro de Campos “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo” e prolonga-se num dos maiores
génios da física
do nosso tempo, Leo Szilard, quando defende que “o cientista
criador tem muito em comum com o artista e o poeta”.
É nessa sensibilização que manifesto aqui o meu reconhecimento ao Prof. Rui de Lima
e aos Drs. João Cravino e Luís Beija, da Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de
Santa Maria e do mesmo modo ao Prof. Castro Caldas e Dra. Teresa Pinho e Melo,
dos Serviços de Neurologia daquele estabelecimento hospitalar.
Cenário Psíquico "Livro De Profundis, Valsa Lenta" - Por José Cardoso Pires
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