O homem que sabe servir-se da pena, que pode publicar o que escreve e que não diz a seus compatriotas o que entende ser a verdade, deixa de cumprir um dever, comete o crime de covardia, é mau cidadão. Por Júlio Ribeiro.

Cenário Psíquico "Livro De Profundis, Valsa Lenta" - Por José Cardoso Pires

 


“Quando perdeste o sonho e a certeza tornaste-te

desordem e fizeste-te nuvem”

Simónides de Kéos, Epitáfio nas Termónilas

Janeiro de 1995, quinta-feira.  Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do  pequeno almoço onde estava a minha mulher com a Sylvie e o António que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons-dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. Sinto-me mal, nunca me senti assim, murmurei numa fria tranquilidade.

Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: Como é que tu te chamas?” 


Pausa. Eu? Edite.” Nova pausa. “E tu?

“Parece que é Cardoso Pires”, respondi então. 

"E agora, José?

[...] você marcha, José! José, para onde?”

Carlos Drummond de Andrade


        Ainda hoje estou a ouvir aquele é”. Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto.

Nesta introdução à perda de identidade que um transtorno do cérebro tinha acabado de desencadear, o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisam com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio. Como se acabasse de dar início a um processo de despersonalização, eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa (Ele, ou o meu nome, é) que ainda por cima se tornava mais alheio e mais abstracto pela imprecisão parece que. Além disso, a circunstância de ter respondido à Edite com o apelido e não com o meu primeiro nome, o mais cúmplice entre marido e mulher e o único que nos era natural, é outro indício do distanciamento provocado pelo golpe de azar que me destituirá de memória e de passado.

Sonhos - (Um conto espiritualista) – Por Amélia Corrêa Coelho

Pedro, sonhava todas as noites, com os seus pais. havia os perdido num acidentes de carro, e aqueles sonhos lhe dava esperança de que os veria novamente.

Passou a viver com seus tios, e logo, percebeu que a convivência com eles, não seria nada fácil, eram alcoólatras e também viviam um drama, pois haviam perdido seu único filho de meningite, e não se conformavam com isso.

O seu tio não era alcoólatra, mas devido a sua esposa o culpar pela morte de seu filho, se sentia, culpado e passou a beber, ele era irmão de seu pai, assumiu a responsabilidade em ficar com ele, por ser a sua única família.

Pedro estava cursando o primeiro, quando aconteceu o acidente; ficando sem os seus pais, parou de estudar, e seus tios, não estavam dando muita atenção, para esse fato, só pensavam na bebida e Pedro ia vivendo como se fosse uma folha.

Até que passou a sonhar com sua mãe, que aparecia para ele e falava: Pedro peça a seu tio que o matricule na escola! Você precisa terminar os estudos! E, quando acordava, sentia uma vontade de chorar, mas logo se reanimava e dizia para si mesmo; eu vou voltar a estudar.